Evolução do mercado: Vidro flotado (CN 7005) — 2015–2025
Introdução
Este relatório analisa a evolução do comércio da União Europeia (UE) com países terceiros para o produto CN 7005 – Vidro flotado e vidro desbastado ou polido numa ou em ambas as faces, em chapas ou em folhas, no período entre janeiro de 2015 e dezembro de 2025. A análise baseia-se exclusivamente nos dados estatísticos fornecidos, abrangendo fluxos de importação e exportação, parceiros comerciais, estrutura de mercado, volatilidade e indicadores de autonomia. O objetivo é descrever as principais tendências, identificar fatores estruturais e episódios pontuais que moldaram o comércio externo do bloco neste setor específico.
1. Dinâmica do comércio global: crescimento de valor, contração de volume e aumento da dependência das importações
O comércio externo da UE em vidro flotado apresentou uma evolução divergente entre o valor e o volume físico. Enquanto o valor total das exportações cresceu significativamente, o volume (em toneladas) registrou uma ligeira redução, refletindo um aumento substancial nos preços unitários. Paralelamente, as importações mostraram um crescimento robusto tanto em valor como em volume, alterando a posição líquida da UE.
1.1. Exportações: crescimento sustentado em valor impulsionado pela subida de preços
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE para o mundo (excluindo intra-UE) cresceu 32,0%, passando de 418,5 milhões de euros para 552,3 milhões de euros. No entanto, o volume exportado em toneladas diminuiu 13,1%, de 841.789 t para 731.788 t. Esta dinâmica é explicada por um aumento de 51,8% no preço médio de exportação (FOB), que subiu de 497,1 €/t para 754,8 €/t.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor (M€) | 418,5 | 552,3 | +32,0% |
| Quantidade (kt) | 841,8 | 731,8 | -13,1% |
| Preço médio (€/t) | 497,1 | 754,8 | +51,8% |
1.2. Importações: crescimento acelerado em volume e valor, ampliando a dependência externa
O valor das importações da UE cresceu 59,2% no período, atingindo 252,7 milhões de euros em 2025. O volume importado em toneladas aumentou de forma ainda mais expressiva (46,4%), passando de 365.228 t para 534.846 t. O preço médio de importação (CIF) subiu de 434,5 €/t para 472,4 €/t (um aumento de 8,7%), indicando que o crescimento das importações foi puxado mais pelo volume do que pela inflação de preços.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor (M€) | 158,7 | 252,7 | +59,2% |
| Quantidade (kt) | 365,2 | 534,8 | +46,4% |
| Preço médio (€/t) | 434,5 | 472,4 | +8,7% |
1.3. A balança comercial permanece excedentária, mas a vulnerabilidade externa aumenta
Apesar do crescimento mais rápido das importações, a UE manteve uma balança comercial positiva em 2025, com um excedente de 299,7 milhões de euros. Contudo, o indicador de dependência líquida das importações revela uma tendência preocupante: passou de -3,7% em 2015 para -12,2% em 2025, sinalizando que a UE está a tornar-se mais dependente de fornecedores externos para cobrir a sua procura interna.
2. Reconfiguração das parcerias comerciais: ascensão da China e da Turquía, queda da Bielorrússia
A estrutura geográfica do comércio da UE em vidro flotado sofreu alterações significativas. Os principais parceiros de importação ganharam peso, enquanto as exportações se diversificaram para mercados da Europa Oriental e Norte de África.
2.1. Importações: concentração crescente em fornecedores asiáticos e turcos
O índice HHI de concentração das importações por valor subiu de 1044 para 1612, indicando uma maior concentração do fornecimento. Os principais motores desta concentração foram:
- China: Tornou-se o maior fornecedor, com um crescimento de 320,9% no valor das importações (de 16,4 M€ para 69,1 M€).
- Turquía: Segundo maior fornecedor, com um aumento de 186,0% (de 16,6 M€ para 47,4 M€).
- Bielorrússia: Apresentou a queda mais dramática (-99,8%), de 14,2 M€ para apenas 24.930 € em 2025, refletindo provavelmente sanções ou restrições comerciais.
- Reino Unido: Manteve-se como um parceiro relevante, com crescimento de 81,6% (de 26,7 M€ para 48,5 M€).
| Parceiro (Importações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 16,4 | 69,1 | +320,9% |
| Turquía | 16,6 | 47,4 | +186,0% |
| Reino Unido | 26,7 | 48,5 | +81,6% |
| Bielorrússia | 14,2 | 0,02 | -99,8% |
2.2. Exportações: consolidação nos mercados vizinhos e crescimento excecional para a Ucrânia
O índice HHI das exportações apresentou uma ligeira descida (de 728 para 673), sugerindo uma ligeira diversificação. Os principais destinos mantiveram-se, com destaque para:
- Ucrânia: Apresentou um crescimento excecional de 2033,0% (de 3,6 M€ para 76,1 M€), tornando-se o quarto maior destino das exportações da UE.
- Sérvia e Bósnia e Herzegovina: Registaram crescimentos de 151,7% e 130,4%, respetivamente.
- Reino Unido e Suíça: Continuaram como mercados de destino principais, mas com crescimentos mais modestos (-35,4% e +4,3% respetivamente).
- Marrocos: Cresceu 90,3% (de 12,4 M€ para 23,5 M€).
| Parceiro (Exportações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 62,1 | 40,2 | -35,4% |
| Suíça | 51,1 | 53,3 | +4,3% |
| Turquía | 56,7 | 42,0 | -25,9% |
| Ucrânia | 3,6 | 76,1 | +2033,0% |
| Sérvia | 10,3 | 25,9 | +151,7% |
2.3. Desempenho interno: Alemanha e Polónia lideram as exportações, enquanto Itália e Espanha perdem terreno
No que diz respeito aos principais estados-membros exportadores:
- Alemanha reforçou a sua posição como maior exportador (de 97,8 M€ para 144,2 M€, +47,4%).
- Polónia teve o crescimento mais expressivo (+234,2%), passando de 17,2 M€ para 57,7 M€.
- Itália e Espanha viram as suas exportações reduzirem-se em -68,3% e -26,4%, respetivamente. Do lado das importações, a Espanha registou o maior aumento (de 8,8 M€ para 58,2 M€), seguida por Roménia (+436,3%).
3. Volatilidade, choques de preços e transformações estruturais na produção
O período em análise foi marcado por grande volatilidade nos preços, com um choque particularmente acentuado em 2022. Simultaneamente, observam-se tendências de médio prazo na especialização produtiva dos estados-membros e uma redução do volume total de produção da UE.
3.1. Ano de 2022: o epicentro de choques de preço generalizados
O ano de 2022 destaca-se nos eventos de choque identificados como um período de disrupção severa:
- Para a Turquía (parceiro): As exportações da UE para a Turquía sofreram um choque de preço (aumento de 69,5% em 2022), com uma anormalidade de 32,5 desvios-padrão. As importações da Turquía também sofreram um choque (aumento de 64,6%).
- Para o Reino Unido (parceiro): As exportações da UE para o Reino Unido registaram um aumento de preço de 52,0% em 2022. Estes choques foram impulsionados por uma combinação de fatores, como custos de energia elevados, disrupções nas cadeias de abastecimento e uma eventual procura elevada, todos refletidos num índice de volatilidade anual particularmente alto para estes parceiros nesse ano.
3.2. A produção da UE em metros quadrados diminui, mas o valor estabiliza
Os dados PRODCOM disponíveis revelam uma contração estrutural da produção física da UE em vidro flotado. O volume produzido (em metros quadrados) caiu 33,8%, de 834,5 milhões de m² em 2015 para 552,3 milhões de m² em 2025. Apesar desta queda, o valor total da produção aumentou ligeiramente (9,9%, de 2.932 M€ para 3.222 M€), sugerindo uma transição para produtos de maior valor acrescentado ou uma resposta à subida dos custos de produção.
3.3. Padrões de especialização e concentração: existem claros líderes e seguidores
A análise de especialização para 2025 mostra que a produção de vidro flotado está altamente concentrada em alguns poucos estados-membros:
- Os mais especializados (RSCA elevado): Luxemburgo (RSCA = 0,86), Bulgária (0,70), Letónia (0,44) e Polónia (0,36). Polónia, apesar de uma especialização moderada, é responsável por 14,1% do total da produção da UE.
- Os menos especializados (RSCA muito baixo): Irlanda, Finlândia e Suécia têm uma produção praticamente inexistente, indicando que dependem totalmente das importações ou da produção interna para o mercado doméstico.
Conclusão
O mercado europeu do vidro flotado (CN 7005) entre 2015 e 2025 foi caracterizado por uma divergência entre o valor e o volume do comércio externo. A UE manteve a sua posição como exportador líquido, mas viu a sua vulnerabilidade externa aumentar significativamente, devido a um crescimento mais rápido das importações em volume. As parcerias comerciais foram reconfiguradas, com uma ascensão marcante da China e da Turquía como fornecedores, e um crescimento excecional das exportações para a Ucrânia. O ano de 2022 foi um ponto de inflexão, marcado por choques de preço severos que refletiram as pressões inflacionárias e as disrupções globais. Internamente, a produção da UE está a contrair-se em volume, mas a manter o seu valor, apontando para uma possível especialização em segmentos de maior valor acrescentado. A análise sublinha a importância de monitorizar a dependência de fornecedores específicos e a volatilidade dos preços num setor-chave para a construção e a indústria transformadora.