Evolução do mercado: Vidros de segurança (CN 7007) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no setor dos vidros de segurança — temperados e laminados (CN 7007) ao longo da década 2015–2025. Esta posição tarifária abrange dois grandes tipos de produto: os vidros temperados (toughened), designados pelos códigos 700711 (automóvel) e 700719 (outros), e os vidros laminados (formados por folhas contracolados), codificados como 700721 (automóvel) e 700729 (outros). Os dados incluem tanto o comércio intra-UE (entre Estados-Membros) como o comércio com países terceiros.
O período em análise foi marcado por uma profunda reestruturação do balanço comercial europeu: a UE passou de uma posição de superávit líquido em 2015 para um déficit significativo em 2025. Esta transformação resultou de um crescimento acentuado das importações — impulsionado sobretudo por fornecedores asiáticos — acompanhado por uma contração moderada das exportações. Paralelamente, observou-se uma crescente concentração geográfica das importações, uma intensificação da intensidade comercial e um aumento dos preços de exportação que reflete, em parte, uma mudança para produtos de maior valor acrescentado.
O relatório estrutura-se em três eixos principais: a reversão do saldo comercial europeu, a reconfiguração do mapa de parceiros comerciais e, por fim, as dinâmicas internas de produção, especialização e volatilidade no seio da UE.
1. A inversão do balanço comercial europeu: de exportador líquido a importador líquido
O superávit comercial de 2015 transformou-se num déficit de 264 milhões de euros em 2025
Ao longo da década, o balanço comercial da UE com países terceiros sofreu uma viragem estrutural. Em 2015, a UE apresentava um superávit de 309 milhões de euros; em 2025, o saldo era já negativo, atingindo -264 milhões de euros (Evolução do comércio). A taxa de dependência líquida das importações (net import reliance) passou de -5,0 % em 2015 para +2,8 % em 2025 (Dependência líquida de importações), sinalizando que a UE deixou de ser autoabastecida neste setor.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações (mil M€) | 1 131 | 1 035 | -8,5 |
| Importações (mil M€) | 822 | 1 299 | +58,1 |
| Saldo comercial (mil M€) | +309 | -264 | -185,3 |
| Dependência líquida de importações (%) | -5,0 | +2,8 | — |
As importações cresceram em volume a um ritmo muito superior ao das exportações
O volume de importações aumentou de 421 755 toneladas em 2015 para 671 831 toneladas em 2025, uma subida de 59,3 % (Dados gerais). Em contraste, o volume de exportações caiu 25,2 %, passando de 323 259 para 241 836 toneladas. Este divergência reflecte tanto o crescimento da procura interna (nomeadamente no setor da construção e da renovação energética) como a perda de competitividade dos produtores europeus face a concorrentes de custos mais baixos.
Os preços de exportação subiram, mas não compensaram a perda de volume
O preço médio de exportação subiu de 3 499 €/t para 4 279 €/t (+22,3 %), atingindo o máximo da série em 2025. Em contrapartida, o preço médio de importação manteve-se praticamente estável (1 948 €/t em 2015 vs. 1 933 €/t em 2025). O diferencial de preços — exportações a preços mais do dobro das importações — sugere que a UE se especializou progressivamente em segmentos de valor acrescentado mais elevado (vidros técnicos, de grandes dimensões, para a indústria automóvel de gama alta), mas essa estratégia não impediu a erosão do saldo comercial.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações — volume (mil t) | 323 259 | 241 836 | -25,2 |
| Importações — volume (mil t) | 421 755 | 671 831 | +59,3 |
| Exportações — preço médio (€/t) | 3 499 | 4 279 | +22,3 |
| Importações — preço médio (€/t) | 1 948 | 1 933 | -0,8 |
2. A ascensão da China e a reconfiguração dos parceiros comerciais
A China tornou-se o fornecedor dominante, respondendo por 58 % das importações em 2025
A transformação mais marcante no mapa de parceiros comerciais foi o crescimento exponencial das importações provenientes da China. De 330 milhões de euros em 2015, as importações chinesas dispararam para 758 milhões de euros em 2025, uma subida de 129,7 % (Parceiros — importações). Em 2025, a China representava já cerca de 58 % do valor total das importações da UE neste produto. A Turquia, segundo maior fornecedor, também cresceu significativamente (de 104 para 232 milhões de euros, +124 %), consolidando a sua posição como fornecedor regional competitivo.
| Parceiro — Importações | 2015 (mil €) | 2025 (mil €) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 329 865 | 757 828 | +129,7 |
| Turquia | 103 616 | 232 496 | +124,4 |
| Reino Unido | 113 423 | 44 228 | -61,0 |
| Rússia | 8 787 | 0 | -100,0 |
| Marrocos | 6 754 | 36 715 | +443,6 |
| Estados Unidos | 91 688 | 44 521 | -51,4 |
| Índia | 7 987 | 19 123 | +139,4 |
A concentração das importações quase duplicou, reflectindo a dependência crescente da China
O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações em valor subiu de 2 145 para 3 812 entre 2015 e 2025, uma variação de +77,7 % (Concentração — HHI). Este aumento é consistente com a consolidação da quota de mercado chinesa e sinaliza uma vulnerabilidade crescente da UE a eventuais disrupções no fornecimento proveniente de um único país. Em contraste, o HHI das exportações diminuiu de 1 943 para 1 354 (-30,3 %), indicando uma maior diversificação dos mercados de destino europeus.
| Indicador de concentração | 2015 (HHI) | 2025 (HHI) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 2 145 | 3 812 | +77,7 |
| Exportações (valor) | 1 943 | 1 354 | -30,3 |
| Importações (volume) | 3 708 | 4 180 | +12,7 |
| Exportações (volume) | 1 898 | 1 299 | -31,6 |
O Reino Unido perdeu relevância como parceiro comercial pós-Brexit
O Reino Unido, que em 2015 era o principal destino das exportações europeias (451 milhões de euros, 40 % do total) e o terceiro maior fornecedor de importações (113 milhões de euros), registou quebras significativas em ambos os fluxos. As exportações para o Reino Unido caíram 36,4 % (de 451 para 286 milhões de euros) (Parceiros — exportações), enquanto as importações provenientes do Reino Unido desceram 61,0 %. O choque de preço nas importações do Reino Unido em 2021 (anormalidade de 20,0 %, com uma subida de 45,3 % no preço médio) (Eventos de choque) é consistente com os efeitos da saída do Reino Unido do mercado único, que introduziu barreiras alfandegárias e custos de transação adicionais.
A Marrocos emergiu como parceiro comercial crescente em ambos os sentidos
Marrocos apresentou uma das trajetórias mais dinâmicas do período: as importações da UE provenientes de Marrocos cresceram 443,6 % (de 6,8 para 36,7 milhões de euros), e as exportações europeias para Marrocos aumentaram 209,0 % (de 13,8 para 42,7 milhões de euros). Esta dinâmica é consistente com a integração económica crescente entre a UE e Marrocos, facilitada pela proximidade geográfica, pelos acordos de comércio preferencial e pela deslocalização de capacidade produtiva europeia para o Norte de África.
A Rússia deixou de ser um parceiro relevante
As importações da UE provenientes da Rússia, que atingiram 61 milhões de euros em 2019, caíram para praticamente zero em 2025 (173 euros), uma redução de 100 % (Parceiros — importações). Este colapso está diretamente relacionado com as sanções comerciais impostas no contexto do conflito Rússia-Ucrânia. O coeficiente de variação das importações russas (0,84) confirma a elevada instabilidade deste fluxo (Volatilidade).
3. Dinâmicas internas da UE: produção resiliente, especialização desigual e segmentação de produto
A produção europeia manteve-se estável em volume, mas cresceu fortemente em valor
A produção da UE de vidros de segurança em metros quadrados manteve-se essencialmente estável (-1,3 %, de 558 para 551 milhões de m²), enquanto o seu valor aumentou 37,3 % (de 4 706 para 6 463 milhões de euros). Esta evolução sugere que a produção europeia se deslocou para segmentos de maior valor — vidros técnicos, de grandes dimensões e para aplicações especializadas — em vez de competir no segmento de alto volume e baixo custo, onde os fornecedores asiáticos ganharam terreno.
| Indicador de produção | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Volume (milhões m²) | 558,0 | 550,7 | -1,3 |
| Valor (milhões €) | 4 706 | 6 463 | +37,3 |
A especialização produtiva é desigual entre Estados-Membros
O índice de especialização (RSCA) revela um mapa europeu de especialização marcado por contrastes. Luxemburgo (RSCA 0,78), Estónia (0,62) e Polónia (0,47) são os Estados-Membros mais especializados na exportação de vidros de segurança. A Polónia destaca-se pela sua combinação de elevada especialização com um peso significativo nas exportações totais da UE (6,6 %). Pelo contrário, Chipre (RSCA -1,00), Malta (-0,96), Irlanda (-0,89) e Portugal (-0,81) apresentam os índices mais baixos de especialização, indicando que importam quase a totalidade do seu consumo deste produto.
| Estado-Membro (mais especializados) | RSCA | RCA | Quota na produção (%) |
|---|---|---|---|
| Luxemburgo | 0,78 | 7,92 | 2,6 |
| Estónia | 0,62 | 4,22 | 1,4 |
| Polónia | 0,47 | 2,77 | 18,4 |
| Chequia | 0,39 | 2,28 | 11,0 |
| Finlândia | 0,33 | 2,00 | 2,0 |
Alemanha, Itália e Polónia lideram as exportações da UE, mas com trajetórias distintas
Os principais exportadores da UE registaram evoluções divergentes. A Alemanha, o maior exportador, sofreu uma queda de 38,3 % nas suas exportações (de 453 para 279 milhões de euros). A Polónia caiu 30,5 %. Em contraste, a Bélgica (+14,7 %), a França (+12,0 %) e a Chequia (+33,8 %) cresceram, sugerindo uma redistribuição da capacidade exportadora no seio da UE.
| Estado-Membro — Exportações | 2015 (mil €) | 2025 (mil €) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 452 601 | 279 297 | -38,3 |
| Itália | 136 323 | 119 965 | -12,0 |
| Polónia | 124 312 | 86 395 | -30,5 |
| Bélgica | 86 611 | 99 377 | +14,7 |
| França | 87 523 | 98 036 | +12,0 |
| Chequia | 47 775 | 63 902 | +33,8 |
O segmento laminado não-automóvel (700729) foi o que mais cresceu em volume de importações
A análise por sub-produto revela que o crescimento das importações não foi uniforme. O vidro laminado não-automóvel (CN 700729) registou a maior expansão em volume, passando de 46 922 para 149 274 toneladas (+218 %). Os vidros temperados não-automóvel (700719) — o maior segmento — cresceram 45 % em volume (de 225 936 para 327 692 toneladas). Os segmentos automóveis cresceram de forma mais moderada: o vidro laminado automóvel (700721) cresceu 34 % e o vidro temperado automóvel (700711) 27 %.
| Sub-produto — Importações | 2015 (t) | 2025 (t) | Variação (%) | 2025 (mil €) |
|---|---|---|---|---|
| 700719 — Temperado, não-automóvel | 225 936 | 327 692 | +45,1 | 453 280 |
| 700721 — Laminado, automóvel | 78 134 | 105 062 | +34,5 | 442 421 |
| 700729 — Laminado, não-automóvel | 46 922 | 149 274 | +218,1 | 141 648 |
| 700711 — Temperado, automóvel | 70 763 | 89 803 | +26,9 | 261 386 |
A intensidade comercial da UE neste setor aumentou significativamente
A intensidade comercial (soma de exportações e importações como percentagem da produção) subiu de 18,8 % em 2015 para 29,8 % em 2025 (+59,0 %). A propensão exportadora (exportações como percentagem da produção) aumentou de 12,5 % para 16,4 % (+30,8 %). Estes indicadores mostram que a indústria europeia de vidros de segurança se tornou progressivamente mais aberta ao comércio internacional, com tanto a procura externa como a concorrência externa a exercerem uma pressão crescente.
| Indicador de abertura | 2015 (%) | 2025 (%) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Intensidade comercial | 18,8 | 29,8 | +59,0 |
| Propensão exportadora | 12,5 | 16,4 | +30,8 |
Conclusão
A década 2015–2025 representou um ponto de viragem para o setor dos vidros de segurança na União Europeia. O superávit comercial de 309 milhões de euros em 2015 transformou-se num déficit de 264 milhões de euros em 2025, puxado por um crescimento das importações de 58 % em valor e de 59 % em volume, enquanto as exportações perderam 8,5 % em valor e 25 % em volume.
Três dinâmicas estruturais explicam esta evolução:
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A ascensão da China como fornecedor dominante, que sozinha representa agora 58 % das importações da UE, elevando o risco de concentração a níveis historicamente elevados (HHI de 3 812). A UE tornou-se estruturalmente dependente de um único fornecedor externo para uma matéria-prima essencial para a construção e a indústria automóvel.
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A reconfiguração do mapa de parceiros, marcada pelo declínio do Reino Unido pós-Brexit, o colapso das relações comerciais com a Rússia e o surgimento de novos parceiros como Marrocos, Turquia e Índia.
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A adaptação da indústria europeia a um modelo de maior valor acrescentado: a produção manteve-se estável em volume mas cresceu 37 % em valor, os preços de exportação subiram 22 % e a propensão exportadora aumentou. No entanto, esta estratégia de subida na cadeia de valor não foi suficiente para compensar a perda de quota de mercado no segmento de alto volume.
A crescente intensidade comercial (de 18,8 % para 29,8 %) confirma que o setor se encontra numa fase de maior exposição internacional, tanto do lado da procura como da oferta. Os decisores políticos europeus enfrentarão o desafio de equilibrar a eficiência económica decorrente do comércio aberto com a necessidade de reduzir a dependência estratégica de fornecedores concentrados.