Evolução do mercado: Vidro vazado (CN 7003) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento do vidro vazado ou laminado (CN 7003) — que inclui chapas, folhas e perfis de vidro fundido ou laminado, mesmo com camada absorvente ou refletora, mas não trabalhado de outro modo — no período compreendido entre 2015 e 2025.
A análise cobre os fluxos de importação e exportação da UE com países terceiros, abrangendo quatro subprodutos: vidro não armado comum (700319), vidro colorido, opacificado ou com camada (700312), chapas e folhas armadas (700320) e perfis (700330). O período em análise é particularmente relevante por incluir múltiplos choques estruturais — a pandemia de COVID-19, a saída do Reino Unido do mercado único, a guerra na Ucrânia e a escalada dos custos energéticos europeus — cujos efeitos se refletem de forma marcada nos padrões comerciais observados.
Os dados revelam três dinâmicas centrais: uma contração acentuada dos volumes transacionados, uma reconfiguração geográfica profunda das parcerias comerciais, e uma transformação interna da estrutura produtiva e da especialização dos Estados-Membros.
1. Menos toneladas, mais euros: a valorização do perfil comercial da UE
1.1 A queda estrutural dos volumes exportados
O traço mais marcante do período é a erosão persistente do volume exportado. Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de vidro vazado passaram de 61 469 toneladas para 43 144 toneladas, uma queda acumulada de 29,8%. O mínimo do período foi atingido precisamente em 2025, sugerindo que a contração não se limitou a um choque pontual, mas reflete uma tendência de fundo.
| Indicador | 2015 | Mínimo | Máximo | 2025 | Variação 2015→2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Exportações — valor (M EUR) | 152,8 | 111,4 | 246,1 | 136,4 | −10,7 % |
| Exportações — volume (mil t) | 61,5 | 43,1 | 65,4 | 43,1 | −29,8 % |
| Exportações — preço (EUR/t) | 2 484 | 2 176 | 5 544 | 3 161 | +27,3 % |
Fonte: Visão geral do comércio
O segmento dominante — chapas e folhas não armadas (700319), que representa cerca de 83 % do valor exportado em 2025 — acompanhou esta trajetória descendente, caindo de 48 760 para 33 556 toneladas. As chapas armadas (700320) e o vidro colorido ou revestido (700312) registaram quedas ainda mais acentuadas em termos proporcionais, enquanto os perfis (700330) mantiveram volumes relativamente estáveis.
1.2 A subida dos preços unitários como fator compensatório
A contração volumétrica foi parcialmente compensada por uma valorização significativa dos preços. O preço médio de exportação subiu de 2 484 EUR/t em 2015 para 3 161 EUR/t em 2025 (+27,3 %), com um pico excepcional de 5 544 EUR/t atingido em 2023 — ano em que as exportações atingiram o máximo do período em valor (246,1 M EUR).
Esta dinâmica de preços reflete provavelmente a combinação de três fatores:
- A escalada dos custos energéticos na Europa a partir de 2021, que afetou particularmente a indústria do vidro, intensiva em energia;
- Um deslocamento do mix produtivo para gamas de maior valor acrescentado (vidro com camadas especiais, produtos para a indústria fotovoltaica);
- Pressões inflacionárias generalizadas no período pós-pandémico.
O pico de 2023 nos preços de exportação do segmento 700319 (5 844 EUR/t, face a 2 737 EUR/t em 2015) é particularmente notável, coincidindo com o auge da crise energética europeia.
1.3 Importações estáveis em valor, mas crescentes em volume
Em contraste com as exportações, as importações da UE mantiveram-se virtualmente estáveis em valor (25,5 M EUR em 2015 e em 2025, variação de +0,3 %), mas cresceram significativamente em volume — de 23 730 para 29 225 toneladas (+23,2 %). Consequentemente, o preço médio de importação desceu de 1 072 EUR/t para 872 EUR/t (−18,7 %), refletindo a entrada de fornecedores com custos mais competitivos.
| Indicador | 2015 | Mínimo | Máximo | 2025 | Variação 2015→2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Importações — valor (M EUR) | 25,5 | 15,9 | 26,4 | 25,5 | +0,3 % |
| Importações — volume (mil t) | 23,7 | 17,9 | 29,2 | 29,2 | +23,2 % |
| Importações — preço (EUR/t) | 1 072 | 709 | 1 414 | 872 | −18,7 % |
| Saldo comercial (M EUR) | 127,3 | 95,5 | 221,0 | 110,9 | −12,9 % |
Fonte: Visão geral do comércio
O saldo comercial permaneceu fortemente positivo ao longo de todo o período (a UE é exportadora líquida), mas a sua deterioração — de 127,3 M EUR para 110,9 M EUR (−12,9 %) — sinaliza uma perda gradual de competitividade relativa, agravada pela queda da produção interna (ver secção 3).
2. A ascensão da China e a reconfiguração geográfica das rotas comerciais
2.1 A China: de parceiro secundário a polo dominante do comércio bilateral
A transformação mais dramática do período prende-se com o papel da China. Do lado das importações, as compras de vidro vazado à China dispararam de 3,2 M EUR em 2015 para 13,6 M EUR em 2025 — um aumento de 323 % que fez da China, de longe, o principal fornecedor externo da UE. Do lado das exportações, a evolução foi igualmente impressionante: as vendas para o mercado chinês cresceram de 8,5 M EUR para 25,9 M EUR (+206 %), tornando a China o terceiro destino mais importante para o vidro vazado europeu.
| Fluxo | Parceiro | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|---|
| Importações | China | 3,2 | 13,6 | +323 % |
| Turquia | 3,4 | 1,9 | −43 % | |
| Egipto | 0,4 | 1,5 | +294 % | |
| Reino Unido | 1,2 | 1,6 | +32 % | |
| Estados Unidos | 5,6 | 2,5 | −55 % | |
| Exportações | Estados Unidos | 82,5 | 68,6 | −17 % |
| China | 8,5 | 25,9 | +206 % | |
| Tailândia | 15,7 | 7,1 | −55 % | |
| Reino Unido | 6,2 | 6,1 | −1 % | |
| Marrocos | 0,9 | 2,6 | +182 % |
Fonte: Principais parceiros por valor
A China assume assim uma posição paradoxal no mercado: é simultaneamente o maior fornecedor externo e um destino crescente para as exportações europeias. Esta interdependência acentuada é coerente com a integração profunda da China nas cadeias de valor globais do vidro, mas também introduz uma vulnerabilidade potencial no que diz respeito ao abastecimento, como discutido na secção sobre concentração.
2.2 O colapso das trocas com a Ucrânia e a erosão de parceiros tradicionais
Se a China ascendeu, outros parceiros sofreram quedas dramáticas. O caso mais extremo é o da Ucrânia: as importações da UE provenientes deste país desceram de 591 mil EUR em 2015 para menos de mil EUR em 2025 (−99,9 %), refletindo a destruição da capacidade industrial ucraniana no contexto do conflito armado iniciado em 2022.
A Turquia, outrora o segundo maior fornecedor, registou uma queda de 43 % (de 3,4 M EUR para 1,9 M EUR), e os Estados Unidos — que em 2015 eram o principal fornecedor com 5,6 M EUR — viram as suas exportações para a UE reduzirem-se para metade (2,5 M EUR, −55 %).
Do lado das exportações, a Tailândia, que em 2015 era o segundo maior destino (15,7 M EUR), sofreu uma queda de 55 % para 7,1 M EUR, enquanto a Suíça registou um recuo de 23 %.
2.3 O crescimento das relações com o Norte de África e o Médio Oriente
Paralelamente à consolidação do eixo China, observa-se um crescimento significativo das trocas com países do Norte de África e do Médio Oriente. As exportações para Marrocos cresceram 182 % (de 0,9 M EUR para 2,6 M EUR), as exportações para a Argélia aumentaram 48 %, e as importações do Egipto quase quadruplicaram (+294 %, de 0,4 M EUR para 1,5 M EUR). A Argélia surge também como fornecedor emergente, com um crescimento de 1 163 % em valor nominal (embora de base muito reduzida).
Estas dinâmicas sugerem um redirecionamento do comércio europeu de vidro em direção a mercados em desenvolvimento, possivelmente impulsionado por fatores como a proximidade geográfica, custos logísticos mais baixos e acordos comerciais preferenciais (como o Acordo de Associação UE-Marrocos ou a Parceria Oriental).
É de notar, contudo, que a concentração das importações por parceiro aumentou significativamente ao longo do período. O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações em valor subiu de 1 732 para 3 195 (+84,5 %), atingindo o máximo do período em 2025. Um HHI de 3 195 é classificável como um mercado moderadamente concentrado, e a trajetória ascendente indica uma crescente dependência de um número reduzido de fornecedores — sobretudo da China. Em contraste, o HHI das exportações manteve-se relativamente estável (de 3 212 para 2 978, −7,3 %), sugerindo uma diversificação ligeiramente maior dos mercados de destino.
3. Transformação produtiva e redistribuição das capacidades na União Europeia
3.1 A queda acentuada da produção em volume face à estabilização do valor
A produção europeia de vidro vazado sofreu uma contração volumétrica acentuada ao longo da década. Em metros quadrados, a produção desceu de 97,7 milhões de m² em 2015 para 55,0 milhões de m² em 2025 — uma queda de 43,7 %. Em contrapartida, o valor da produção manteve-se relativamente estável, passando de 291,8 M EUR para 312,0 M EUR (+6,9 %).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Produção — volume (M m²) | 97,7 | 55,0 | −43,7 % |
| Produção — valor (M EUR) | 291,8 | 312,0 | +6,9 % |
| Preço implícito (EUR/m²) | ~3,0 | ~5,7 | ~+90 % |
Fonte: Volumes de produção
Esta desconexão entre volume e valor indica uma migração produtiva para gamas de maior valor acrescentado — nomeadamente vidro com camadas funcionais (absorventes, refletoras) e produtos para aplicações técnicas, em detrimento do vidro comum em chapas. A subida do propensão para exportar, de 34,2 % para 59,8 % (+74,6 %), confirma que a indústria europeia se tornou progressivamente mais orientada para os mercados externos, especializando-se em segmentos onde detém vantagens comparativas.
A intensidade comercial (comércio total / produção) passou de 40,1 % para 62,5 % (+56 %), sublinhando a crescente abertura e exposição do setor ao comércio internacional.
3.2 A hegemonia francesa em erosão e a consolidação da Alemanha
Ao nível dos Estados-Membros, a redistribuição do papel exportador é notável. A França, que em 2015 era de longe o maior exportador da UE de vidro vazado (82,4 M EUR), viu as suas exportações reduzirem-se para 50,1 M EUR em 2025 (−39,2 %). A Alemanha, por seu lado, cresceu de 43,5 M EUR para 58,9 M EUR (+35,4 %), ultrapassando a França como principal exportador europeu no final do período.
| Estado-Membro | Exportações 2015 (M EUR) | Exportações 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| França | 82,4 | 50,1 | −39,2 % |
| Alemanha | 43,5 | 58,9 | +35,4 % |
| Espanha | 7,1 | 3,6 | −49,5 % |
| Polónia | 2,5 | 4,0 | +63,0 % |
| Bélgica | 1,4 | 3,5 | +150,1 % |
| Itália | 4,8 | 2,3 | −51,7 % |
Fonte: Principais reportadores por valor
Do lado das importações, a reconfiguração é igualmente acentuada. A França, que em 2015 importava 9,9 M EUR de vidro vazado de países terceiros — mais do que qualquer outro Estado-Membro —, reduziu as suas importações para apenas 650 mil EUR em 2025 (−93,4 %). Em contraste, a Espanha passou de 640 mil EUR para 6,0 M EUR (+837 %) e a Bélgica de 68 mil EUR para 2,2 M EUR (+3 198 %). A Alemanha consolidou-se como o principal importador (8,7 M EUR, +70 %).
Estas dinâmicas refletem provavelmente a relocalização de capacidades produtivas dentro da UE, com a França a concentrar-se na produção interna de gamas de maior valor e a reduzir a dependência de importações, enquanto a Península Ibérica e a Europa Central se tornaram mais integradas nas cadeias de abastecimento internacionais.
3.3 A crescente especialização dos Estados-Membros do Leste Europeu
Os dados de vantagem comparativa revelada (RCA) para 2025 mostram que os Estados-Membros mais especializados na produção e exportação de vidro vazado são, em grande medida, países da Europa Central e de Leste:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota na produção UE |
|---|---|---|---|
| Eslováquia | 0,688 | 5,41 | 11,4 % |
| Bulgária | 0,573 | 3,68 | 2,3 % |
| Chequia | 0,386 | 2,26 | 10,8 % |
| Espanha | 0,301 | 1,86 | 10,8 % |
| Alemanha | 0,239 | 1,63 | 34,4 % |
Fonte: Especialização
A Eslováquia e a Bulgária, com coeficientes RSCA de 0,688 e 0,573 respetivamente, apresentam os maiores níveis de especialização relativa — embora em termos absolutos a sua quota na produção europeia seja modesta. No extremo oposto, países como a Finlândia (RSCA −0,994), a Croácia (−0,989) e o Luxemburgo (−0,985) são praticamente ausentes deste setor.
Esta configuração sugere uma divisão geográfica do trabalho dentro da UE, com a Europa de Leste a assumir um papel crescente na produção de vidro básico e a Europa Ocidental (sobretudo a Alemanha e, em menor grau, a França) a concentrar-se em produtos de maior valor acrescentado e em funções mais próximas do mercado final.
Conclusão
O mercado europeu do vidro vazado (CN 7003) experimentou, entre 2015 e 2025, uma transformação estrutural profunda, marcada por três tendências convergentes.
Em primeiro lugar, observou-se uma valorização do comércio face à contração dos volumes. As exportações perderam quase 30 % em toneladas, mas os preços unitários subiram significativamente, refletindo a subida dos custos energéticos europeus e uma aposta em produtos de maior valor. A produção interna seguiu o mesmo padrão: menos 44 % em volume, mas estável em valor. A indústria europeia produz e exporta menos, mas de forma mais especializada e a preços mais elevados.
Em segundo lugar, a geografia do comércio reconfigurou-se de forma marcante. A China consolidou-se simultaneamente como o principal fornecedor externo e como o terceiro maior destino das exportações, introduzindo uma interdependência crescente. Paralelamente, parceiros tradicionais como a Turquia, os Estados Unidos e a Ucrânia perderam relevância, enquanto mercados do Norte de África (Marrocos, Egipto, Argélia) ganharam peso. O aumento do HHI das importações (de 1 732 para 3 195) sinaliza uma concentração crescente do abastecimento, o que constitui um fator de vulnerabilidade potencial.
Em terceiro lugar, a estrutura interna da UE reorganizou-se. A Alemanha ultrapassou a França como principal exportador, países como a Bélgica e a Espanha tornaram-se importadores de relevo, e os Estados-Membros da Europa Central e de Leste (Eslováquia, Bulgária, Chequia) emergiu como os mais especializados no setor. O aumento da propensão para exportar (de 34 % para 60 %) e da intensidade comercial (de 40 % para 62 %) confirma que a indústria europeia do vidro vazado se tornou mais dependente dos mercados externos — tanto como fornecedora como como compradora.
Em síntese, a UE transitou de um modelo de produção em volume para um modelo de especialização em valor, num contexto de crescente integração com mercados asiáticos e africanos, mas também de maior exposição a riscos de abastecimento e a flutuações de preços nos mercados globais.