Explorar dados em tempo real

Evolução do mercado: Vidro estirado (CN 7004) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) com países terceiros para o código aduaneiro 7004 — Vidro estirado ou soprado, em folhas, mesmo com camada absorvente, refletora ou não, mas não trabalhado de outro modo — no período compreendido entre 2015 e 2025 (definição do produto e dados gerais).

Trata-se de um setor que abrange tanto o vidro comum estirado/soprado (subposição 700490) como o vidro colorido na massa, opacificado ou com camada absorvente/refletora (subposição 700420). Ao longo da década analisada, o comércio externo da UE neste produto registou uma contração acentuada em volume, compensada parcialmente por uma valorização significativa dos preços, numa dinâmica que reflete tanto alterações estruturais da procura internacional como reconfigurações geopolíticas das cadeias de abastecimento.

A UE manteve-se exportador líquido ao longo de todo o período, mas a sua dependência líquida de importações (negativa por ser exportador líquido) atenuou-se de −89,9% em 2015 para −19,9% em 2025, sinalizando uma convergência entre exportações e importações em termos de valor (indicador de dependência de importações).


1. Contração acentuada dos volumes transacionados com valorização dos preços unitários

1.1. As exportações perderam quase metade do volume, mas cresceram em valor por tonelada

Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de vidro estirado (CN 7004) passaram de 4.269 toneladas para 2.226 toneladas, uma queda de 47,8%. Em euros, o valor desceu de €35,6 milhões para €28,1 milhões (−21,1%). Contudo, o preço médio por tonelada subiu de €8.333 para €12.605 (+51,3%), refletindo uma clara valorização do produto exportado (dados de comércio geral).

Indicador 2015 2025 Variação
Exportações — volume (t) 4.269 2.226 −47,8%
Exportações — valor (€ M) 35,6 28,1 −21,1%
Exportações — preço (€/t) 8.333 12.605 +51,3%
Exportações — superfície (mil m²) 1.433 1.888 +31,8%
Exportações — preço (€/m²) 24,83 14,87 −40,1%

Um dado particularmente relevante é a divergência entre a evolução do volume em toneladas (em queda) e a evolução da superfície em metros quadrados (em crescimento de 31,8%). Isto sugere que a composição do produto exportado se deslocou para vidros mais finos e/ou de maior área por unidade de massa — coerente com a crescente procura de vidro arquitetónico leve e de vidro para painéis solares.

1.2. As importações sofreram uma contração simétrica, também acompanhada de subida de preços

As importações da UE apresentaram uma trajetória semelhante: o volume caiu de 7.423 toneladas para 3.729 toneladas (−49,8%), e o valor desceu de €13,4 milhões para €9,5 milhões (−28,8%). O preço médio de importação subiu de €1.805 para €2.555 por tonelada (+41,5%), embora se mantenha muito inferior ao preço médio de exportação (dados de comércio geral).

Indicador 2015 2025 Variação
Importações — volume (t) 7.423 3.729 −49,8%
Importações — valor (€ M) 13,4 9,5 −28,8%
Importações — preço (€/t) 1.805 2.555 +41,5%
Importações — superfície (mil m²) 1.874 974 −48,0%
Importações — preço (€/m²) 7,15 9,74 +36,2%

A diferença estrutural de preços entre exportações (€12.605/t) e importações (€2.555/t) em 2025 evidencia que a UE exporta predominantemente vidro de maior valor acrescentado — nomeadamente vidro com tratamentos especiais (subposição 700420) — enquanto importa sobretudo vidro comum (subposição 700490).

1.3. A balança comercial manteve-se positiva mas estreitou-se

A balança comercial da UE neste produto manteve-se sempre positiva (superavitária), passando de €22,2 milhões em 2015 para €18,5 milhões em 2025 (−16,4%). O ponto mínimo registou-se em 2020 (€15,8 milhões), coincidindo com os efeitos da pandemia de COVID-19, e o ponto máximo em 2021 (€50,6 milhões), refletindo a forte recuperação pós-pandémica e o aumento dos preços (dados de comércio geral).


2. Reconfiguração profunda das parcerias comerciais

2.1. A Suíça desapareceu como fonte de importações e a Rússia emergiu

A transformação mais visível no lado das importações foi o colapso das importações provenientes da Suíça: de €7,2 milhões em 2015 para apenas €25.641 em 2025 (−99,6%). Em paralelo, as importações da Rússia cresceram de €41 mil para €910 mil (+2.121%), embora de um nível muito baixo (principais parceiros de importação).

Origem das importações 2015 (€ mil) 2025 (€ mil) Variação
Suíça 7.159 26 −99,6%
Reino Unido 2.216 1.738 −21,6%
China 1.905 1.704 −10,5%
Rússia 41 910 +2.121,3%
Turquia 875 343 −60,9%
Bielorrússia 51 4 −93,0%
Estados Unidos 498 679 +36,3%

O desaparecimento da Suíça como fornecedor principal — que em 2015 representava mais de metade do valor total das importações — redistribuiu a base de abastecimento, tornando-a significativamente menos concentrada. O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor desceu de 3.391 para 1.523 (−55,1%), passando de uma estrutura moderadamente concentrada para uma estrutura mais diversificada (concentração do comércio).

2.2. As exportações reorientaram-se da Ásia Oriental para o Sudeste Asiático e o Reino Unido

Do lado das exportações, as mudanças foram igualmente significativas. O Japão, principal destino em 2015 com €8,8 milhões, caiu para €3,3 milhões (−62,5%). Os Estados Unidos, segundo maior destino, desceram de €5,4 milhões para €3,0 milhões (−45,0%). Em contrapartida, a Malásia cresceu de €3,6 milhões para €5,7 milhões (+57,8%), a China de €5,2 milhões para €8,4 milhões (+61,0%), e o Reino Unido disparou de €670 mil para €2,2 milhões (+228,6%) (principais parceiros de exportação).

Destino das exportações 2015 (€ mil) 2025 (€ mil) Variação
China 5.229 8.417 +61,0%
Malásia 3.626 5.724 +57,8%
Japão 8.774 3.293 −62,5%
Estados Unidos 5.421 2.979 −45,0%
Reino Unido 670 2.203 +228,6%
Sérvia 55 61 +10,3%
Macedónia do Norte 143 32 −77,8%

O crescimento das exportações para o Sudeste Asiático (Malásia) e para a China reflete provavelmente a procura industrial e para painéis fotovoltaicos, enquanto o aumento excecional para o Reino Unido (+228,6%) pode estar associado a reajustamentos pós-Brexit nas cadeias de abastecimento intra-europeias que se converteram em fluxos extra-UE. O HHI das exportações subiu ligeiramente de 1.333 para 1.692 (+26,9%), indicando uma ligeira reconcentração em poucos mercados de destino (concentração do comércio).

2.3. A Alemanha consolida a sua posição como epicentro produtivo e exportador da UE

Entre os Estados-Membros, a Alemanha é de longe o maior exportador intra-UE para terceiros países, com €24,4 milhões em 2025 (embora em queda face aos €30,9 milhões de 2015). A Alemanha representou assim mais de 85% do valor total das exportações da UE em 2025. A França, em segundo lugar, exportou apenas €854 mil. Do lado das importações, os maiores importadores em 2025 foram a Alemanha (€3,4 milhões), a França (€1,8 milhões) e a Polónia (€358 mil) (principais Estados-Membros por valor).

Estado-Membro Exportações 2015 (€ mil) Exportações 2025 (€ mil) Variação
Alemanha 30.942 24.378 −21,2%
França 684 854 +24,8%
Países Baixos 1.467 620 −57,7%
Chequia 399 666 +66,8%
Itália 151 228 +50,6%
Polónia 572 43 −92,5%
Bulgária 187 136 −27,6%

Destaca-se também a evolução extrema da Hungria como importador: de €7,2 milhões em 2015 para apenas €142 mil em 2025 (−98,0%), o que pode refletir a internalização da produção ou a reconfiguração das rotas de abastecimento na Europa Central.


3. Produção interna em declínio acentuado com valorização excecional do segmento de vidro tratado

3.1. A produção europeia de superfície em m² caiu 87,8%, mas o valor subiu 51,4%

Os dados de produção PRODCOM (código 23.11.11.50) revelam uma transformação profunda na base produtiva europeia. A quantidade produzida em metros quadrados desceu de 24,7 milhões de m² para apenas 3,0 milhões de m² (−87,8%), enquanto o valor da produção subiu de €63,4 milhões para €96,0 milhões (+51,4%) (dados de produção).

Indicador de produção 2015 2025 Variação
Quantidade (milhões m²) 24,7 3,0 −87,8%
Valor (€ M) 63,4 96,0 +51,4%

Esta aparente contradição — menos superfície mas mais valor — só se explica por uma mudança radical na composição do produto: a indústria europeia abandonou largamente a produção de vidro comum em grandes volumes, concentrando-se em vidros de especialidade (tratados, revestidos, de alto valor acrescentado). A intensidade comercial da UE neste produto desceu de 70,4% para 37,0% (−47,5%), e a propensão exportadora caiu de 65,2% para 29,1% (−55,4%), sugerindo que uma parte crescente da produção se destina ao mercado interno da UE (indicadores de autonomia e vulnerabilidade).

3.2. A subposição 700420 (vidro tratado) tornou-se o motor de valor, com preços importados a disparar

A análise por subposição revela dinâmicas divergentes. A subposição 700490 (vidro comum) manteve-se dominante em volume — tanto em importações como em exportações — mas a subposição 700420 (vidro colorido, opacificado ou com camadas) registou uma evolução de preços verdadeiramente excecional (segmentação por produto).

Importações — evolução dos preços por tonelada:

Subposição 2015 (€/t) 2021 (€/t) 2024 (€/t) 2025 (€/t)
700490 (vidro comum) 1.839 685 890 1.604
700420 (vidro tratado) 1.598 4.331 27.268 7.671

O preço de importação do vidro tratado (700420) atingiu um pico de €27.268 por tonelada em 2024, quase 17 vezes o preço de 2015. Embora os volumes sejam reduzidos (232 toneladas em 2024 e 546 em 2025), estes preços refletem a escassez e o elevado valor acrescentado deste segmento no contexto europeu. A subposição 700420 representou em 2025 cerca de 44% do valor total das importações, mas apenas 15% do volume.

Exportações — evolução dos preços por tonelada:

Subposição 2015 (€/t) 2022 (€/t) 2025 (€/t)
700490 (vidro comum) 8.442 20.744 13.305
700420 (vidro tratado) 7.895 11.018 9.570

Do lado das exportações, o pico de preço da subposição 700490 em 2022 (€20.744/t) coincide com os choques de preço detetados nos mercados dos EUA e da Coreia do Sul (eventos de choque de preços).

3.3. Choques de preço pontuais em mercados estratégicos revelam fragilidades de abastecimento

A análise de volatilidade identificou três eventos de choque de preço (supply shocks) relevantes no período:

Evento Fluxo Ano Variação de preço Anomalia
Coreia do Sul Exportação 2021 +230,4% 26,7
Estados Unidos Exportação 2022 +370,5% 19,1
Sérvia Exportação 2022 +159,5% 13,3

O choque mais intenso ocorreu nos Estados Unidos em 2022, com uma variação de preço de +370,5%, o que sugere uma perturbação significativa do abastecimento ou da procura num mercado que absorvia 18% do valor das exportações da UE nesse ano. A Coreia do Sul, em 2021, registou igualmente um pico de +230,4%, com 15,9% do valor exportado. Estes episódios são consistentes com as disrupções das cadeias de abastecimento globais e com os picos de preços de energia verificados em 2021–2022 (eventos de choque).

Os parceiros com maior volatilidade nas importações foram a Bielorrússia (CV=1,71) e a Suíça (CV=1,31), refletindo a instabilidade dos fluxos — no caso da Suíça, pela sua quase eliminação como fornecedor, e no caso da Bielorrússia, por volumes residuais sujeitos a flutuações percentuais amplificadas (indicadores de volatilidade).


Conclusão

O período 2015–2025 foi marcado por uma dupla transformação no mercado europeu do vidro estirado (CN 7004). Por um lado, os volumes transacionados — tanto em exportações como em importações — sofreram uma contração próxima dos 50%, refletindo uma retração real do comércio físico. Por outro lado, os preços unitários registaram aumentos substanciais (+51% nas exportações e +42% nas importações), o que aponta para uma clara ascensão na cadeia de valor e para uma reorientação da produção europeia para segmentos de maior valor acrescentado.

A produção interna da UE deslocou-se massivamente de vidro comum em grandes superfície para vidros de especialidade, como evidenciado pela queda de 87,8% na superfície produzida versus o aumento de 51,4% no valor. As parcerias comerciais reconfiguraram-se profundamente: a Suíça deixou de ser o principal fornecedor, o Reino Unido emergiu como destino exportador de relevo pós-Brexit, e o Sudeste Asiático (Malásia) consolidou-se como mercado de absorção do excedente europeu.

A manutenção de uma balança comercial positiva ao longo de todo o período confirma que a UE conserva uma vantagem competitiva no setor, mas a redução da intensidade comercial (de 70% para 37%) e da propensão exportadora sugere uma crescente orientação para o mercado interno europeu. Os episódios de choque de preço em 2021–2022, em mercados como os EUA e a Coreia do Sul, evidenciam tanto a vulnerabilidade dos compradores externos como a capacidade de precificação dos produtores europeus em momentos de escassez.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

Se precisar de aconselhamento sobre a política comercial europeia, ou de representação dos seus interesses em Bruxelas, contacte-me através do endereço support@tradedashboard.eu. Encontrará o meu CV neste endereço.