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Evolução do mercado: Calçado e suas partes (CN 64) — 2015–2025

Introdução

O setor europeu do calçado (Nomenclatura Combinada 64 — Calçado, polainas e artigos semelhantes; suas partes) constitui um dos ramos mais relevantes da indústria transformadora da UE, envolvendo desde calçado de couro de luxo até têxteis desportivos e componentes. O período 2015–2025 foi marcado por profundas transformações: a pandemia de COVID-19 (2020–2021), o Brexit (2021), a reconfiguração das cadeias de abastecimento asiáticas e uma acentuada inflação nos custos de produção. Este relatório analisa a evolução do comércio externo da UE-27 com países terceiros neste setor, com base em dados anuais de 2015 a 2025, procurando identificar as principais dinâmicas estruturais e conjunturais que moldaram o mercado.

Visão geral do setor no Trade Dashboard


1. O aprofundamento do défice comercial e a diversificação das origens de importação

1.1. O défice estrutural da UE no setor do calçado agravou-se significativamente

A UE manteve-se ao longo de todo o período como importador líquido de calçado. O valor das importações de países terceiros passou de 18,3 mil milhões de EUR em 2015 para 23,6 mil milhões de EUR em 2025, uma subida de 29,1%. As exportações cresceram de 11,1 mil milhões de EUR para 15,1 mil milhões de EUR (+35,5%), mas tal não foi suficiente para travar o alargamento do défice comercial, que passou de −7,1 mil milhões de EUR para −8,5 mil milhões de EUR (−19,2%). O ponto de maior défice registou-se em 2022, com −10,9 mil milhões de EUR, impulsionado por um pico de importações no contexto de reposição de stocks pós-pandemia.

Indicador 2015 2020 2022 2025 Variação 2015–2025
Importações (mil M EUR) 18,3 17,8 27,0 23,6 +29,1%
Exportações (mil M EUR) 11,1 11,8 16,3 15,1 +35,5%
Saldo (mil M EUR) −7,1 −6,0 −10,9 −8,5 −19,2%

Importações e exportações no Trade Dashboard

1.2. A dependência líquida de importações quase quintuplicou

Um dos indicadores mais reveladores é a dependência líquida de importações, que passou de 6,3% em 2015 para 28,4% em 2025 — um crescimento de 352,1%. Este indicador atingiu o máximo de 38,7% em 2022, evidenciando a vulnerabilidade temporária do setor europeu face a choques de abastecimento. A paralelamente, a intensidade comercial subiu de 57,3% para 97,1%, e a propensão para exportar disparou de 38,2% para 93,3%, refletindo uma crescente internacionalização do setor.

1.3. A ascensão do Vietname e o declínio das importações do Reino Unido

A estrutura geográfica das importações sofreu uma reconfiguração profunda. A China permaneceu como principal fornecedor (8,5 mil milhões de EUR em 2025, +12,8% face a 2015), mas o Vietname consolidou-se como a grande alternativa, duplicando o seu valor de exportações para a UE — de 3,1 mil milhões de EUR para 6,7 mil milhões de EUR (+112,4%). Camboja (+125,5%) e Bangladesh (+56,0%) registaram crescimentos igualmente notáveis, refletindo a estratégia de diversificação para o Sudoeste Asiático.

Parceiro Importações 2015 (mil M EUR) Importações 2025 (mil M EUR) Variação
China 7,6 8,5 +12,8%
Vietname 3,1 6,7 +112,4%
Indonésia 1,4 1,7 +20,6%
Reino Unido 1,4 0,4 −72,7%
Índia 1,0 1,1 +4,1%
Camboja 0,3 0,7 +125,5%
Bangladesh 0,3 0,5 +56,0%

Top parceiros por valor de importação

O caso do Reino Unido é particularmente expressivo: as importações da UE provenientes do UK desceram de 1,4 mil milhões de EUR em 2015 para apenas 392 milhões de EUR em 2025 (−72,7%). Esta quebra reflete o impacto direto do Brexit — com a introdução de formalidades aduaneiras, regras de origem e barreiras não-tarifárias que reconfiguraram profundamente as relações comerciais bilaterais. A volatilidade das importações do UK (coeficiente de variação de 1,02) é a mais elevada entre todos os parceiros, sinal de uma transição abrupta e descontínua.


2. Exportações europeias em crescimento sustentado, impulsionadas por valorização em preço e novos mercados

2.1. As exportações cresceram em valor apesar da queda em volume

Uma das dinâmicas mais marcantes do período foi o desacoplamento entre valor e volume nas exportações da UE. Enquanto o valor das exportações subiu 35,5% (de 11,1 mil milhões de EUR para 15,1 mil milhões de EUR), a quantidade exportada em toneladas caiu 19,1% (de 293 432 t para 237 400 t). Isto traduziu-se numa subida de 67,4% do preço médio de exportação — de 37 947 EUR/t para 63 535 EUR/t. Este padrão sugere uma clara aposta europeia em segmentos de maior valor acrescentado, designadamente calçado de couro e de marca, em detrimento de produtos de gama baixa.

Indicador 2015 2025 Variação
Valor exportações (mil M EUR) 11,1 15,1 +35,5%
Quantidade exportações (mil t) 293 237 −19,1%
Preço médio exportação (EUR/t) 37 947 63 535 +67,4%

Visão geral das exportações

2.2. O calçado de couro europeu reforçou a sua liderança na balança comercial por segmento

A análise por segmento de produto revela uma especialização crescente da UE em calçado de couro natural (CN 6403). Em 2025, as exportações de 6403 atingiram 8,96 mil milhões de EUR — 59,4% do total — com um preço médio por par de exportação de 71,1 EUR/pa. Em contraste, as importações do mesmo segmento apresentavam um preço médio de apenas 19,4 EUR/pa, evidenciando a aposta europeia no segmento premium.

O segmento de calçado têxtil (CN 6404) foi o que mais cresceu em importações: de 4,8 mil milhões de EUR em 2015 para 7,7 mil milhões de EUR em 2025, ultrapassando o couro (CN 6403) como maior categoria importada por valor. No entanto, as exportações de 6404 também cresceram significativamente (de 1,4 mil milhões de EUR para 3,2 mil milhões de EUR), refletindo a importância crescente do calçado desportivo e casual têxtil.

Segmento Exportações 2025 (mil M EUR) Importações 2025 (mil M EUR) Saldo
6403 — Couro natural 8,96 7,32 +1,64
6404 — Têxtil 3,21 7,66 −4,44
6402 — Borracha/plástico 1,99 5,91 −3,92
6406 — Partes 0,53 1,67 −1,14
6405 — Outros 0,26 0,36 −0,10
6401 — Impermeável 0,13 0,21 −0,07

O único segmento onde a UE apresenta saldo positivo é precisamente o calçado de couro natural (CN 6403), com +1,6 mil milhões de EUR em 2025, consolidando a posição europeia como exportador líquido de calçado de gama alta.

2.3. Os Estados Unidos e a Suíça substituíram o Reino Unido como principais destinos de exportação

A reconfiguração dos mercados de destino das exportações europeias foi igualmente marcante. Os Estados Unidos tornaram-se o principal mercado de exportação da UE em 2025, com 3,0 mil milhões de EUR (+81,0% face a 2015), ultrapassando o Reino Unido, que desceu de 2,9 mil milhões de EUR para 2,0 mil milhões de EUR (−32,1%). A Suíça cresceu 56,4% (de 1,3 mil milhões de EUR para 2,1 mil milhões de EUR), e a Turquia foi o destino de mais rápido crescimento (+123,3%, de 351 milhões de EUR para 784 milhões de EUR).

Destino Exportações 2015 (mil M EUR) Exportações 2025 (mil M EUR) Variação
Reino Unido 2,9 2,0 −32,1%
Estados Unidos 1,7 3,0 +81,0%
Suíça 1,3 2,1 +56,4%
Turquia 0,4 0,8 +123,3%
Rússia 0,7 0,4 −37,1%

Top parceiros por valor de exportação

O declínio das exportações para a Rússia (−37,1%) é consistente com o impacto das sanções económicas impostas após 2022. A concentração das exportações por valor (HHI) diminuiu de 1 174 para 953, confirmando uma maior diversificação dos destinos de exportação europeus.


3. Reestruturação produtiva interna e concentração geográfica da especialização

3.1. A produção europeia manteve o valor mas perdeu volume

A produção europeia de calçado em pares caiu 19,8% entre 2015 e 2025, de 882 milhões de pares para 707 milhões de pares. No entanto, o valor da produção permaneceu praticamente estável (de 16,7 mil milhões de EUR para 16,5 mil milhões de EUR, −1,1%), evidenciando um aumento significativo do valor médio por par produzido. Este padrão reforça a narrativa de upgrading do setor europeu: produzir menos, mas de maior valor.

Indicador 2015 2025 Variação
Produção (milhões de pares) 882 707 −19,8%
Valor da produção (mil M EUR) 16,7 16,5 −1,1%

3.2. Itália e a Península Ibérica mantêm a liderança na especialização exportadora

De acordo com o índice de especialização RSCA (2025), os Estados-Membros mais especializados em calçado são:

País RSCA RCA
Portugal 0,40 2,31
Luxemburgo 0,31 1,89
Croácia 0,29 1,82
Bélgica 0,29 1,80
Itália 0,26 1,71

Portugal destaca-se como o Estado-Membro com maior vantagem comparativa revelada (RCA de 2,31), refletindo a tradição secular da indústria calçadista portuguesa e a sua forte orientação exportadora — tema particularmente relevante para a análise do mercado lusófono. A Itália, embora com um RSCA ligeiramente inferior, é de longe o maior exportador absoluto da UE (5,7 mil milhões de EUR em 2025), consolidando o seu papel como epicentro europeu do calçado de luxo.

No extremo oposto, a Irlanda (RSCA de −0,96) e a Finlândia (−0,68) apresentam a menor especialização, refletindo padrões de consumo mas não de produção orientados para exportação.

3.3. Os Países Baixos e a Polónia emergem como hubs logísticos e de distribuição

Do lado das importações intra-UE, dois destinos registaram crescimento excecional: os Países Baixos (+124,7%, de 1,9 mil milhões de EUR para 4,2 mil milhões de EUR) e a Polónia (+139,9%, de 364 milhões de EUR para 873 milhões de EUR). Este crescimento é consistente com a consolidação destes países como plataformas logísticas e de distribuição para o mercado único europeu — os Países Baixos através do porto de Roterdão e a Polónia como destino de nearshoring e reshoring de cadeias de produção.

Reporters por valor de importação | Reporters por valor de exportação

Do lado das exportações, a Alemanha surpreendeu com um crescimento de 151,3% (de 1,2 mil milhões de EUR para 2,9 mil milhões de EUR) e a França com +107,9%, sugerindo que ambos os países reforçaram as suas posições enquanto plataformas de reexportação ou consolidaram marcas nacionais com forte procura internacional. A Polónia registou o crescimento mais espetacular nas exportações (+221,3%), passando de 216 milhões de EUR para 694 milhões de EUR, num sinal claro de amadurecimento industrial.


Conclusão

O setor europeu do calçado entre 2015 e 2025 caracterizou-se por uma dualidade estrutural crescente: por um lado, um aprofundamento da dependência externa em volume e em segmentos de gama média e baixa (especialmente calçado têxtil e de borracha/plástico); por outro, uma afirmação cada vez mais pronunciada da vantagem europeia em calçado de couro de elevado valor acrescentado. A queda de 19,1% nas quantidades exportadas, contrastando com a subida de 35,5% em valor, é talvez o indicador mais eloquente desta transformação.

A reconfiguração geográfica do comércio foi igualmente profunda: o Brexit redefiniu fundamentalmente as relações com o Reino Unido (em ambos os fluxos), o Vietname consolidou-se como segunda origem de importações, e os Estados Unidos tornaram-se o principal destino de exportação da UE. A concentração das importações manteve-se estável (HHI ~2 248), mas a das exportações desceu (HHI de 1 174 para 953), refletindo uma diversificação saudável dos mercados de destino.

A manutenção do valor de produção europeia apesar da queda de 20% em volume de pares produzidos confirma que a estratégia europeia se orienta para a diferenciação, a qualidade e a sustentabilidade — fatores que continuarão a ser decisivos num mercado global cada vez mais competitivo. A dependência líquida de importações de 28,4% em 2025 permanece, contudo, um alerta para a fragilidade da base produtiva europeia face a potenciais disrupções nas cadeias de abastecimento globais.

Gerado em 2026-08-07. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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