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Evolução do mercado: Malhas e acessórios (CN 61) — 2015–2025

Introdução

O setor do vestuário e acessórios de malha (posição CN 61) é um dos mais relevantes do comércio externo da União Europeia, abrangendo desde t-shirts e suéteres até fatos femininos, meias-calças e vestuário desportivo. Ao longo da década 2015–2025, o mercado europeu de malhas assistiu a transformações profundas: um acentuado aumento da dependência de importações extra-UE, uma reconfiguração geográfica dos fornecedores — com a consolidação da Ásia Meridional e o impacto do Brexit — e uma erosão significativa da produção interna, acompanhada de uma crescente divergência de preços entre o que a UE importa e o que exporta. Este relatório analisa estas três grandes dinâmicas com base nos dados disponíveis.

1. Importações crescentes, exportações estagnadas e um défice comercial em alargamento

1.1 As importações extra-UE crescem em volume e em valor

Entre 2015 e 2025, o valor das importações da UE de vestuário de malha proveniente de países terceiros subiu de 34 984 milhões de euros para 48 282 milhões de euros, um crescimento acumulado de 38,0%. Em termos de volume, o crescimento foi ainda mais expressivo: as importações passaram de 2 089 mil toneladas para 3 065 mil toneladas (+46,7%), atingindo o máximo histórico em 2025 (ver evolução do comércio).

O preço médio de importação, contudo, registou uma ligeira descida: de 16 747 €/t em 2015 para 15 755 €/t em 2025 (-5,9%), após ter atingido um máximo de 19 273 €/t em 2022 — ano em que a subida dos custos energéticos e a disrupção das cadeias de abastecimento provisoriamente inflacionaram os preços.

1.2 As exportações ganham valor mas perdem volume

As exportações da UE para países terceiros cresceram em valor de 10 372 milhões de euros para 14 771 milhões de euros (+42,4%). No entanto, o volume exportado caiu de 258 639 toneladas para 251 202 toneladas (-2,9%), tendo atingido um máximo intercalar de 357 241 toneladas antes de recuar significativamente.

O preço médio de exportação subiu de forma consistente, de 40 102 €/t para 58 799 €/t (+46,6%), com um pico de 63 526 €/t. Esta evolução sugere uma clara aposta da indústria europeia em segmentos de maior valor acrescentado, exportando menos volume mas a preços significativamente mais elevados.

1.3 O défice comercial atinge máximos históricos

O resultado líquido é um défice comercial que se agravou de -24 611 milhões de euros em 2015 para -33 511 milhões de euros em 2025 (-36,2%). O pico negativo foi atingido em 2022, com -36 340 milhões de euros, refletindo o choque pós-pandemia nas importações. O ponto menos negativo registou-se em 2020 (-20 265 milhões de euros), ano em que a pandemia reduziu fortemente as importações (valor mínimo de 33 492 milhões de euros).

Indicador 2015 2022 (pico) 2025 Variação 2015–2025
Importações (mil M €) 35,0 52,5 48,3 +38,0%
Importações (mil t) 2 089 3 065 +46,7%
Exportações (mil M €) 10,4 16,2 14,8 +42,4%
Exportações (mil t) 259 251 -2,9%
Saldo (mil M €) -24,6 -36,3 -33,5 -36,2%
Preço importação (€/t) 16 747 19 273 15 755 -5,9%
Preço exportação (€/t) 40 102 58 799 +46,6%

2. Mudanças tectónicas na geografia do abastecimento

2.1 A ascensão da Ásia Meridional e do Sudeste Asiático

O mapa dos fornecedores da UE em vestuário de malha foi profundamente redesenhado ao longo da década. A consolidação de Bangladesh como segundo maior fornecedor é o destaque: as importações deste país cresceram de 6 927 milhões de euros para 11 744 milhões de euros (+69,5%), passando de uma quota de 19,8% para 24,3% do total.

O Paquistão registou o crescimento mais espetacular: de 665 milhões de euros para 1 910 milhões de euros (+187,2%), refletindo a expansão da capacidade têxtil paquistanesa e a sua integração nas cadeias de valor europeias. O Camboja também cresceu fortemente (+65,7%, de 1 621 para 2 685 milhões de euros), consolidando-se como um hub de produção para marcas europeias.

A China permanece como o maior fornecedor individual (15 072 milhões de euros em 2025), mas a sua quota de mercado caiu ligeiramente de 33,3% para 31,2%, refletindo uma diversificação das cadeias de abastecimento europeias para além do fornecedor dominante.

Fornecedor 2015 (M €) 2025 (M €) Variação Quota 2015 Quota 2025
China 11 666 15 072 +29,2% 33,3% 31,2%
Bangladesh 6 927 11 744 +69,5% 19,8% 24,3%
Turquia 4 620 4 908 +6,2% 13,2% 10,2%
Camboja 1 621 2 685 +65,7% 4,6% 5,6%
Índia 1 952 2 332 +19,5% 5,6% 4,8%
Paquistão 665 1 910 +187,2% 1,9% 4,0%
Reino Unido 1 861 659 -64,6% 5,3% 1,4%

2.2 O colapso do comércio com o Reino Unido pós-Brexit

O caso mais marcante de reconfiguração geográfica é o Reino Unido. As importações provenientes do Reino Unido desceram de 1 861 milhões de euros para 659 milhões de euros (-64,6%), com um mínimo de 616 milhões, enquanto as exportações da UE para o Reino Unido caíram de 3 068 milhões de euros para 2 120 milhões de euros (-30,9%).

Este retrocesso é consistente com a introdução de barreiras alfandegárias, regras de origem e formalidades aduaneiras após o Brexit (janeiro de 2021). O Reino Unido deixou de ser o principal destino das exportações europeias de malhas, tendo sido ultrapassado pela Suíça (2 510 milhões de euros, +90,3%). A volatilidade do comércio com o Reino Unido é a mais elevada de todos os parceiros (coeficiente de variação de 0,91 nas importações e 0,37 nas exportações), sinal de uma relação comercial instável e em reajustamento.

2.3 A diversificação das exportações europeias

Do lado das exportações, observa-se uma diversificação notável. O índice de concentração HHI das exportações caiu de 1 244 para 795 (-36,1%), refletindo uma distribuição muito mais equilibrada dos destinos. Para além do crescimento da Suíça, destacam-se os Estados Unidos (+96,1%, de 752 para 1 474 milhões de euros), a Turquia (+191,3%, de 280 para 817 milhões de euros) e a Sérvia (+116,0%, de 112 para 241 milhões de euros).

Nos Estados-Membros, a Polónia destaca-se como caso de sucesso: as suas exportações cresceram 445,8% (de 158 para 865 milhões de euros), enquanto as suas importações cresceram 315,5% — sinal de uma rápida industrialização do setor no Leste Europeu. A Itália continua a ser o maior exportador europeu (4 530 milhões de euros em 2025), seguida da Alemanha (2 620 milhões) e da França (2 112 milhões).

3. Erosão da produção interna, choques de preços e crescente segmentação do mercado

3.1 Uma produção europeia em declínio acentuado

A produção interna da UE de vestuário de malha sofreu uma contração dramática. Em termos de quantidade, a produção passou de 7 705 milhões de unidades para 2 343 milhões de unidades (-69,6%). Em valor, a quebra foi de 20 123 milhões de euros para 12 693 milhões de euros (-36,9%).

O facto de a queda em valor (-37%) ser muito inferior à queda em volume (-70%) indica que a produção europeia remanescente se concentrou em artigos de maior valor unitário. O valor médio por unidade produzida mais do que duplicou, de 2,61 €/unidade para 5,42 €/unidade — evidência de uma deslocação da produção europeia para segmentos premium e de moda rápida de alta qualidade. A concentração da produção em países como Portugal (RSCA de 0,387), a Croácia (0,438) e a Dinamarca (0,382) confirma esta aposta em nichos de maior valor.

3.2 Choques de preço em 2022 e volatilidade por parceiro

O ano de 2022 foi marcado por choques de preço significativos nas importações. A Índia registou uma subida anómala de preços de 18,9% (grau de anomalia de 95,0), enquanto Bangladesh sofreu um aumento de 27,0% (grau de anomalia de 60,5), ambos coincidentes com a crise energética pós-pandemia e a invasão da Ucrânia.

A volatilidade do comércio varia fortemente entre parceiros. Nas importações, o Reino Unido apresenta o coeficiente de variação mais elevado (CV = 0,91), seguido de Myanmar (0,49) e Paquistão (0,35). Em contraste, os fornecedores tradicionais — China (0,13), Turquia (0,10) e Bangladesh (0,16) — exibem volatilidade mais moderada, sinal de relações comerciais mais consolidadas e previsíveis.

3.3 Diferenciação crescente de preços entre importações e exportações por segmento de produto

A análise por segmento de produto revela padrões distintos. Os dois maiores segmentos — suéteres e artigos semelhantes (CN 6110) e t-shirts (CN 6109) — dominam tanto as importações como as exportações, mas com dinâmicas de preço muito diferentes.

Segmento Importação 2025 (M €) Exportação 2025 (M €) Variação importação vol. (2015→25) Variação importação valor (2015→25)
6110 — Suéteres, pulôveres 12 311 4 522 +54,4% +33,8%
6109 — T-shirts, camisetas 9 431 3 148 +22,0% +18,5%
6104 — Vestuário feminino de malha 6 668 1 832 +55,3% +41,3%
6115 — Meias-calças, meias 2 564 751 +65,4% +53,9%
6108 — Roupa interior feminina 2 330 340 +30,3% +28,2%
6103 — Vestuário masculino de malha 1 927 565 +184,2% +112,4%
6107 — Roupa interior masculina 1 652 +68,9% +51,3%

O segmento que mais cresceu em volume de importação foi o vestuário masculino (CN 6103), com um aumento de 184,2% em toneladas. Em contraste, o preço médio de importação deste segmento desceu 25,3% (de 14 971 €/t para 11 189 €/t), sinal de uma intensa pressão competitiva entre os fornecedores asiáticos.

O hiato de preços entre exportações e importações é particularmente visível nas t-shirts: a UE importa a um preço médio suplementar de 2,08 €/peça e exporta a 10,71 €/peça — uma ratio de 5,1x. Nos suéteres, a ratio passou de 2,6x em 2015 para 4,6x em 2025 (preço de exportação de 30,16 €/peça versus 6,57 €/peça de importação). Estes dados confirmam a especialização da indústria europeia em segmentos de marca e desenjo, enquanto o volume de produção básica se deslocou para a Ásia.

Conclusão

O mercado europeu de vestuário de malha (CN 61) sofreu, entre 2015 e 2025, uma transformação estrutural profunda. A dependência das importações líquidas agravou-se de forma marcante, subindo de 19,8% para 70,3%, enquanto a intensidade comercial passou de 42,8% para 105,7% — indicando que o comércio externo de malhas já ultrapassa o valor da produção interna. A propensão exportadora disparou de 18,2% para 126,6%, refletindo uma indústria que importa matéria-prima e bens de base para reexportar em segmentos de elevado valor acrescentado.

A geografia do abastecimento reconfigurou-se: a Ásia Meridional (Bangladesh, Paquistão, Camboja) consolidou-se como polo de fornecimento de base, enquanto o comércio com o Reino Unido colapsou no rescaldo do Brexit. A diversificação das exportações europeias para mercados como os EUA, a Suíça e a Turquia constitui um fator positivo de mitigação de risco, espelhado na queda do HHI exportador de 1 244 para 795.

Os riscos desta configuração incluem a elevada concentração geográfica do abastecimento (China e Bangladesh representam mais de metade das importações), a volatilidade dos preços dos fornecedores emergentes — como demonstraram os choques de 2022 — e a vulnerabilidade a disrupções logísticas. A produção interna, embora drasticamente reduzida em volume (-70%), sobrevive e adapta-se focando-se em segmentos de valor superior, com preços de exportação a crescerem consistentemente face a preços de importação estáveis ou em queda. A crescente ratio de preços entre exportações e importações configura uma indústria europeia cada vez mais focada no design, na marca e na qualidade — enquanto a produção em massa se consolida definitivamente na Ásia.

Gerado em 2026-08-07. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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