Evolução do mercado: Meias (CN 6115) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 6115 abrange uma gama alargada de meias-calças, meias acima do joelho, meias até ao joelho e artigos semelhantes, incluindo peças de compressão degressiva (como as meias para varizes), de malha. Este setor insere-se no capítulo 61 — Vestuário e seus acessórios, de malha — e constitui um segmento relevante da indústria têxtil europeia.
Entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE neste produto registou transformações profundas. O valor total das importações cresceu de 1 666 milhões de euros para 2 564 milhões de euros (+53,9%), enquanto as exportações passaram de 642 milhões para 751 milhões (+17,0%). O saldo comercial deteriorou-se significativamente, passando de −1 025 milhões de euros para −1 813 milhões (−77,0%), e a dependência líquida de importações disparou de 5,3% para 41,8% ao longo do período analisado.
O presente relatório analisa estas dinâmicas em três eixos principais: a crescente dependência das importações, a reestruturação geográfica dos parceiros comerciais e a transformação estrutural da produção e dos preços europeus.
1. Uma dependência importadora em aceleração
1.1 Crescimento assimétrico entre importações e exportações
Entre 2015 e 2025, as importações da UE de meias (CN 6115) de países terceiros cresceram em volume de 159 627 toneladas para 264 006 toneladas, representando um aumento de 65,4%. Em termos de valor, o crescimento foi de 53,9%, atingindo os 2 564 milhões de euros em 2025. Em contraste, as exportações registaram uma evolução muito mais modesta e, em volume, até declinaram: de 25 751 toneladas para 20 588 toneladas (−20,0%), ainda que o seu valor tenha crescido 17,0% até 751 milhões de euros.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações — valor (milhões €) | 1 666 | 2 564 | +53,9% |
| Importações — volume (t) | 159 627 | 264 006 | +65,4% |
| Importações — preço médio (€/t) | 10 439 | 9 711 | −7,0% |
| Exportações — valor (milhões €) | 642 | 751 | +17,0% |
| Exportações — volume (t) | 25 751 | 20 588 | −20,0% |
| Exportações — preço médio (€/t) | 24 914 | 36 456 | +46,3% |
Fonte: Dados gerais de comércio
1.2 Deterioração acentuada do saldo comercial
O défice comercial da UE em meias (CN 6115) alargou-se consideravelmente ao longo da década, passando de −1 025 milhões de euros em 2015 para −1 813 milhões em 2025, o que traduz uma deterioração de 77,0%. O ponto mais negativo registou-se em algum momento entre 2022 e 2025, quando o défice atingiu os −1 975 milhões de euros (mínimo do período). Esta evolução reflete um aumento sustancial do consumo interno abastecido por fornecedores externos, aliado a uma produção doméstica em declínio.
1.3 Dependência líquida de importações: de marginal a estrutural
O indicador de dependência líquida de importações revela a magnitude da transformação ocorrida: de um valor residual de 5,3% em 2015, a dependência atingiu 41,8% em 2025 — um aumento de 681,6%. Simultaneamente, a intensidade comercial duplicou, passando de 30,2% para 65,6%, e a propensão exportadora cresceu de 15,4% para 30,4%.
Estes indicadores apontam para uma abertura comercial crescente do setor, mas sobretudo para uma transferência estrutural da produção europeia para terceiros países, resultante de deslocalizações e da pressão competitiva de países com custos de mão de obra significativamente inferiores.
2. Reestruturação geográfica: a ascensão da Ásia e o impacto do Brexit
2.1 A consolidação da China e da Turquia como fornecedores principais
A estrutura dos parceiros de importação sofreu alterações significativas entre 2015 e 2025. A China consolidou-se como principal fornecedor, com importações a crescerem de 621 milhões de euros para 1 095 milhões (+76,4%), representando cerca de 43% do total das importações da UE em 2025. A Turquia, segundo maior fornecedor, cresceu de 480 milhões para 655 milhões (+36,6%), embora com uma quota relativa ligeiramente menor.
| Parceiro de importação | 2015 (milhões €) | 2025 (milhões €) | Variação (%) | Coef. variação |
|---|---|---|---|---|
| China | 621 | 1 095 | +76,4% | 0,18 |
| Turquia | 480 | 655 | +36,6% | 0,10 |
| Paquistão | 89 | 218 | +144,5% | 0,38 |
| Sérvia | 106 | 119 | +13,1% | 0,20 |
| Indonésia | 81 | 54 | −33,1% | 0,34 |
| Vietname | 4 | 48 | +1 002,5% | 0,66 |
| Reino Unido | 82 | 25 | −69,2% | 1,34 |
Fonte: Parceiros de importação
2.2 O avanço dos fornecedores emergentes asiáticos
Além dos dois grandes fornecedores tradicionais, destaca-se o crescimento exponencial do Vietname (+1 002,5%, de 4 para 48 milhões de euros) e do Paquistão (+144,5%, de 89 para 218 milhões de euros). O Vietname é, de longe, o parceiro que registou maior volatilidade relativa (coeficiente de variação de 0,66), sugerindo uma integração progressiva e ainda incipiente nas cadeias de abastecimento europeias. O Paquistão, com um crescimento robusto, assume-se como terceiro maior fornecedor, refletindo a competitividade crescente do setor têxtil paquistanês.
2.3 O declínio do Reino Unido como parceiro comercial
O Reino Unido apresenta uma das evoluções mais marcantes do período. Enquanto fornecedor de importações para a UE, as suas vendas caíram de 82 milhões de euros para apenas 25 milhões (−69,2%), com uma volatilidade extrema (CV de 1,34). Enquanto destino de exportações da UE, o Reino Unido passou de 226 milhões para 156 milhões (−31,0%), embora permaneça como principal mercado de exportação. Este declínio bilateral é consistente com as consequências comerciais do Brexit, que introduziu barreiras alfandegárias e regulamentares entre a UE e o seu antigo parceiro.
2.4 Reconfiguração das exportações: novos mercados na Europa de Leste e na Suíça
Do lado das exportações, a geografia dos destinos revela também transformações notáveis:
| Destino de exportação | 2015 (milhões €) | 2025 (milhões €) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 226 | 156 | −31,0% |
| Suíça | 77 | 130 | +68,4% |
| Bósnia e Herzegovina | 3 | 93 | +3 029,6% |
| Noruega | 38 | 47 | +21,9% |
| EUA | 51 | 53 | +4,0% |
| Rússia | 61 | 52 | −14,6% |
| Sérvia | 31 | 27 | −14,7% |
O crescimento explosivo das exportações para a Bósnia e Herzegovina (+3 029,6%) e o forte aumento para a Suíça (+68,4%) destacam-se como dinâmicas compensatórias parciais do declínio para o Reino Unido. A queda das exportações para a Rússia (−14,6%) reflete, em parte, o impacto das sanções e das tensões geopolíticas a partir de 2022, altura em que se detetou um choque de preços elevado (anomalia de 53,8 e uma variação de +62,9% nos preços de exportação para a Rússia em 2022).
2.5 Crescimento da concentração das importações e diversificação das exportações
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor aumentou de 2 344 para 2 846 (+21,5%), indicando uma concentração crescente em poucos fornecedores — sobretudo a China e a Turquia. Em sentido inverso, o HHI das exportações diminuiu de 1 629 para 1 073 (−34,1%), refletindo uma maior diversificação dos mercados de destino. Esta combinação — importações mais concentradas e exportações mais dispersas — representa uma vulnerabilidade potencial do setor face a disrupções numa cadeia de abastecimento cada vez mais dependente de poucos fornecedores asiáticos.
3. Transformação estrutural: queda da produção europeia e valorização das exportações
3.1 O colapso da produção europeia de meias
Os dados de produção europeia revelam uma contração dramática. A produção em unidades caiu de 4 697 milhões de peças para 1 261 milhões (−73,1%), e o valor da produção diminuiu de 3 489 milhões de euros para 2 443 milhões (−30,0%). A queda de 73% na quantidade produzida, apesar de uma redução "apenas" de 30% no valor, sugere que a produção remanescente se concentrou em segmentos de maior valor acrescentado — provavelmente meias de compressão degradante, meias de luxo e produtos técnicos — enquanto a produção em volume, incluindo meias básicas de algodão e fibras sintéticas, migrou massivamente para países asiáticos.
3.2 Segmentação do mercado: domínio do algodão e crescimento das fibras sintéticas
A segmentação por produto revela que o algodão (CN 611595) permanece como o segmento dominante nas importações, representando cerca de 66% do volume total tanto em 2015 como em 2025. As importações de meias de algodão cresceram de 105 305 toneladas para 173 924 toneladas (+65,4%), consolidando a posição da China e da Turquia como fornecedores deste segmento.
| Segmento (importações) | 2015 (t) | 2025 (t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| De algodão (611595) | 105 305 | 173 924 | +65,3% |
| De fibras sintéticas (611596) | 25 190 | 56 598 | +124,7% |
| Sintéticas < 67 dtex (611521) | 8 034 | 6 564 | −18,3% |
| Sintéticas ≥ 67 dtex (611522) | 3 978 | 7 516 | +88,9% |
| Outras matérias têxteis (611529) | 7 397 | 5 362 | −27,5% |
| Outras matérias têxteis (611599) | 3 728 | 5 918 | +58,7% |
| Meias femininas < 67 dtex (611530) | 2 831 | 1 874 | −33,8% |
As fibras sintéticas genéricas (CN 611596) registaram o maior crescimento relativo (+124,7%), passando de um papel secundário a representar mais de 21% das importações em volume. O declínio dos segmentos 611521 (fibras sintéticas finas, < 67 dtex) e 611530 (meias femininas de título fino) sugere uma erosão da produção europeia especializada em meias de maior finura e qualidade, segmentos onde os fabricantes europeus — particularmente italianos e portugueses — tinham vantagens comparativas.
3.3 Valorização crescente das exportações europeias
Um dos desenvolvimentos mais significativos reside na evolução divergente dos preços de importação e exportação. Enquanto o preço médio de importação diminuiu 7,0% (de 10 439 €/t para 9 711 €/t), o preço médio de exportação disparou 46,3% (de 24 914 €/t para 36 456 €/t). Esta divergência confirma uma especialização progressiva da UE em segmentos de maior valor acrescentado:
| Indicador de preço | 2015 (€/t) | 2025 (€/t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Preço médio de importação | 10 439 | 9 711 | −7,0% |
| Preço médio de exportação | 24 914 | 36 456 | +46,3% |
| Rácio exportação/importação | 2,4× | 3,8× | — |
O rácio entre preços de exportação e importação subiu de 2,4 para 3,8, indicando uma crescente diferenciação de produto: a UE importa sobretudo meias de volume a preços baixos, mas exporta cada vez mais meias de nicho — técnicas, de compressão, de marca e de design — a preços significativamente superiores.
3.4 Padrões de especialização europeia
A análise de especialização confirma este padrão. A Croácia surge como o Estado-Membro mais especializado em exportações de meias (RSCA de 0,88, RCA de 15,7), seguida de Portugal (RSCA de 0,37, RCA de 2,2) e Itália (RSCA de 0,27, RCA de 1,8). Estes três países representam núcleos industriais onde a produção de meias mantém relevância económica, ainda que num contexto de contração global da produção europeia.
Ao contrário, países como a Irlanda (RSCA de −0,96), a Finlândia (RSCA de −0,70) e a Grécia (RSCA de −0,70) registam níveis muito baixos de especialização, refletindo uma orientação económica dominada por outros setores.
3.5 Reconfiguração produtiva dentro da UE
A análise dos Estados-Membros exportadores revela uma redistribuição notável do papel de cada país:
| Estado-Membro | Exportações 2015 (milhões €) | Exportações 2025 (milhões €) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Itália | 227 | 175 | −23,2% |
| Alemanha | 126 | 218 | +72,8% |
| Croácia | 1,9 | 112 | +5 810% |
| Países Baixos | 25 | 28 | +9,3% |
| Portugal | 33 | 25 | −24,7% |
| Polónia | 30 | 31 | +3,8% |
| Bélgica | 30 | 16 | −45,9% |
A emergência da Croácia (de 1,9 para 112 milhões de euros) como terceiro maior exportador europeu e o crescimento da Alemanha (+72,8%) contrastam com o declínio de Itália (−23,2%), Portugal (−24,7%) e Bélgica (−45,9%). A Alemanha provavelmente funciona cada vez mais como plataforma de relabelling e reexportação, enquanto a Croácia beneficiou da sua integração nas cadeias de valor centro-europeias e da proximidade com mercados da Europa de Sudeste.
Os mesmos protagonistas surgem do lado das importações, com os Países Baixos (+76,3%) e a Polónia (+397,3%) a registarem os maiores crescimentos relativos, sugerindo o seu papel crescente como pontos de entrada e distribuição de mercadorias importadas da Ásia para o mercado único europeu.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação estrutural radical do mercado europeu de meias (CN 6115). A UE passou de uma posição de relativa autonomia produtiva (dependência líquida de importações de 5,3%) para uma dependência acentuada (41,8%), alimentada por um crescimento massivo das importações — sobretudo da China e da Turquia — e por um declínio acentuado da produção industrial europeia (−73% em volume).
Neste contexto, observa-se uma dualização crescente: a UE importa meias de volume a preços baixos e estáveis, mas exporta quantidades decrescentes a preços cada vez mais elevados, sinalizando a sua especialização progressiva em segmentos de nicho (compressão degradante, meias técnicas e de marca). A concentração das origens de importação agravou-se (HHI +21,5%), enquanto os destinos de exportação se diversificaram (HHI −34,1%).
Os principais riscos identificados incluem a crescente vulnerabilidade da cadeia de abastecimento face a disrupções em países-chave como a China, e o impacto das tensões geopolíticas — como evidenciado pelo choque de preços nas exportações para a Rússia em 2022. O Brexit reconfigurou significativamente as relações comerciais bilaterais com o Reino Unido, outrora parceiro dominante. A consolidação das fibras sintéticas como segundo segmento importador, e o crescimento exponencial de fornecedores como o Vietname e o Paquistão, apontam para uma continuação da deslocalização produtiva nos próximos anos.