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Evolução do mercado: Luvas de malha (CN 6116) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento de luvas, mitenes e semelhantes de malha (CN 6116) ao longo do período 2015–2025. Este cabeçalho do Sistema Harmonizado integra o capítulo 61 (vestuário e acessórios de malha) e abrange cinco subcategorias: luvas impregnadas ou revestidas de plástico/borracha (611610), de fibras sintéticas (611693), de algodão (611692), de outras matérias têxteis (611699) e de lã ou pelos finos (611691).

Ao longo da década analisada, o mercado europeu de luvas de malha experimentou uma profunda transformação estrutural. A produção interna da UE sofreu um declínio acentuado, a dependência de importações disparou e as correntes comerciais foram reconfiguradas, com a consolidação do domínio asiático no abastecimento e uma crescente diversificação geográfica das exportações. Este relatório organiza-se em três eixos principais: a erosão da capacidade produtiva e a dependência importadora; o redesenho geográfico dos parceiros comerciais; e as dinâmicas de preço, segmentação de produto e exposição a choques de abastecimento.


1. A erosão da capacidade produtiva e a dependência importadora

1.1. Um défice comercial estrutural em expansão

A UE manteve-se ao longo de todo o período como importadora líquida de luvas de malha, com um défice comercial que se agravou significativamente:

Indicador 2015 2025 Variação
Importações (valor) 798,1 M EUR 1 032,9 M EUR +29,4%
Exportações (valor) 96,2 M EUR 125,8 M EUR +30,8%
Saldo comercial −701,9 M EUR −907,1 M EUR −29,2%
Importações (massa) 72 079 t 82 020 t +13,8%
Exportações (massa) 3 826 t 3 864 t +1,0%
Importações (pares) 1 281,6 M 1 553,0 M +21,2%
Exportações (pares) 52,2 M 59,8 M +14,4%

As importações superaram as exportações por um fator de aproximadamente 8× em valor ao longo de todo o período. O défice atingiu o seu valor mais negativo (≈−1 216 M EUR) em 2022, refletindo uma combinação de procura pós-pandemia, pressões inflacionárias e acumulação de stocks. Em 2025, o défice situava-se nos −907 M EUR, ainda significativamente acima do nível de 2015.

1.2. Colapso da produção interna europeia

O agravamento do défice comercial reflete, em grande medida, o colapso da produção industrial da UE neste segmento:

Indicador 2015 2025 Variação Mínimo Máximo
Produção (pares) 72,1 M 40,0 M −44,5% 26,9 M 97,9 M
Produção (valor) 118,8 M EUR 75,1 M EUR −36,8% 50,0 M EUR 128,8 M EUR

A produção europeia de luvas de malha perdeu quase metade do seu volume entre 2015 e 2025, com um mínimo de apenas 26,9 milhões de pares — provavelmente registado durante a perturbação pandémica de 2020. O máximo de 97,9 M pares, atingido antes do período de crise, ilustra a amplitude da contração. A redução do valor (−36,8%) foi inferior à redução do volume (−44,5%), sugerindo uma concentração da produção remanescente em segmentos de maior valor acrescentado.

1.3. Dependência importadora em aceleração

O enfraquecimento da base produtiva traduziu-se num aumento dramático da dependência líquida de importações e da intensidade comercial:

Indicador de vulnerabilidade 2015 2025 Variação
Dependência líquida de importações 30,1% 92,7% +207,8%
Intensidade comercial 40,3% 104,1% +158,5%
Propensão exportadora 9,1% 163,5% +1 693,0%

A dependência líquida de importações passou de 30,1% em 2015 para 92,7% em 2025, tendo atingido um máximo de 95,2% — o que significa que praticamente a totalidade do consumo interno depende de fornecedores externos. A propensão exportadora atingiu 163,5% em 2025, indicando que as exportações da UE excedem a sua produção doméstica, um indício de atividade significativa de reexportação e de comércio de intermediários no seio do mercado único.


2. Redesenho geográfico: domínio asiático nas importações e reconfiguração das exportações

2.1. A consolidação da Ásia como principal fornecedor

O mapa de importações da UE em luvas de malha é dominado por fornecedores asiáticos, com dinâmicas divergentes entre parceiros:

País 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação Máximo (M EUR)
China 446,5 616,3 +38,0% 834,2
Sri Lanka 105,2 124,4 +18,3% 158,2
Paquistão 83,1 93,9 +12,9% 123,3
Vietname 17,9 73,3 +309,5% 75,2
Índia 11,5 21,7 +88,8% 26,6
Malásia 26,7 24,1 −9,7% 30,1
Coreia do Sul 53,9 17,2 −68,1% 58,8

A China permanece como fornecedor dominante, com importações de 616,3 M EUR em 2025 (≈60% do total), mas o seu peso atingiu um pico de 834,2 M EUR em 2022 antes de recuar parcialmente. O crescimento mais expressivo da década registou-se no Vietname (+309,5%), que passou de 17,9 M para 73,3 M EUR, refletindo a estratégia global de diversificação de cadeias de abastecimento para além da China — dinâmica acelerada pela pandemia e pelas tensões geopolíticas recentes. A Índia (+88,8%) também registou um crescimento robusto, consolidando a sua posição como fornecedor emergente.

Em contraste, a Coreia do Sul sofreu um declínio acentuado (−68,1%), caindo de 53,9 M para 17,2 M EUR, refletindo a deslocalização da produção coreana para outros países asiáticos de menores custos. A Malásia apresentou uma ligeira contração (−9,7%). O Paquistão e o Sri Lanka mantiveram-se como fornecedores estáveis de média dimensão.

2.2. Diversificação das exportações europeias

As exportações da UE para países terceiros apresentaram uma reconfiguração significativa dos destinos:

País destino 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação
Reino Unido 34,9 21,2 −39,2%
Suíça 9,9 22,3 +125,6%
Turquia 11,2 11,1 −0,9%
Noruega 4,6 9,5 +107,5%
EUA 5,5 10,3 +88,0%
Rússia 5,9 2,1 −65,2%
Ucrânia 1,1 3,6 +233,3%

O Reino Unido, outrora o maior destino das exportações europeias (34,9 M EUR em 2015), sofreu uma queda de 39,2%, caindo para segundo lugar, provavelmente em resultado do Brexit e da introdução de barreiras alfandegárias e regulatórias. A Suíça tornou-se o principal destino, com um crescimento de 125,6%, refletindo a proximidade geográfica e os acordos de comércio facilitados.

A Rússia registou o maior declínio (−65,2%), caindo de 5,9 M para 2,1 M EUR, em resultado direto das sanções comerciais impostas após 2022. Em contraste, a Ucrânia (+233,3%) e a Noruega (+107,5%) registaram os crescimentos mais expressivos, refletindo dinâmicas de proximidade e acordos comerciais preferenciais. Os EUA (+88,0%) consolidaram-se como mercado de destino crescente para luvas europeias de maior valor acrescentado.

2.3. Evolução da concentração e especialização intra-UE

A concentração dos parceiros comerciais, medida pelo Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI), evoluiu em direções opostas para importações e exportações:

Fluxo HHI 2015 HHI 2025 Variação
Importações (valor) 3 481 3 870 +11,2%
Exportações (valor) 1 682 866 −48,5%

O HHI das importações aumentou, indicando uma concentração adicional no fornecimento — apesar da diversificação para o Vietname, a China consolidou a sua posição. Em contraste, o HHI das exportações caiu quase pela metade, refletindo uma significativa diversificação dos mercados de destino, com a perda de peso do Reino Unido e da Rússia compensada por ganhos dispersos na Suíça, Noruega, EUA e Ucrânia.

No que respeita à especialização intra-UE, em 2025 os Estados-Membros com maior vantagem comparativa revelada (RSCA) na exportação de luvas de malha foram:

País RSCA RCA
Suécia 0,538 3,331
Bélgica 0,406 2,366
Dinamarca 0,323 1,955
Portugal 0,201 1,503
França 0,093 1,204

Os países menos especializados incluem Chipre (RSCA = −0,985), a Irlanda (−0,949) e a Bulgária (−0,851), que praticamente não produzem nem exportam luvas de malha.

Os principais importadores intra-UE em 2025 foram a Alemanha (259,7 M EUR), a França (133,9 M EUR), os Países Baixos (108,1 M EUR), a Bélgica (100,8 M EUR), a Polónia (81,5 M EUR), a Suécia (70,7 M EUR) e a Itália (60,8 M EUR).


3. Estrutura de produto, dinâmica de preços e exposição a choques

3.1. Predominância das luvas revestidas de plástico/borracha

A decomposição por subcategoria de produto revela uma forte concentração nas luvas impregnadas, revestidas, recobertas ou estratificadas de plástico ou de borracha (611610).

Importações por segmento em 2025:

Segmento Quantidade (t) Valor (M EUR) Pares (M) Preço/pa (EUR)
611610 — Plástico/borracha 64 146 751,9 1 201,8 0,63
611693 — Fibras sintéticas 11 355 219,7 201,0 1,09
611692 — Algodão 5 210 30,5 130,2 0,23
611699 — Outras matérias têxteis 1 042 15,0 17,1 0,88
611691 — Lã/pelos finos 268 15,8 2,9 5,41

O segmento 611610 responde por 78% do volume importado em toneladas e 73% do valor em 2025, com 1,20 mil milhões de pares. Este domínio reflete a elevada procura de luvas de proteção industrial e descartáveis (incluindo nitrilo e látex), cuja procura se intensificou durante a pandemia de COVID-19.

Exportações por segmento em 2025:

Segmento Quantidade (t) Valor (M EUR) Pares (M) Preço/pa (EUR)
611610 — Plástico/borracha 2 938 75,9 45,5 1,67
611693 — Fibras sintéticas 610 32,8 9,4 3,48
611692 — Algodão 167 3,7 3,4 1,10
611699 — Outras matérias têxteis 105 3,4 1,0 3,43
611691 — Lã/pelos finos 44 9,9 0,5 21,75

A estrutura exportadora revela um posicionamento de maior valor acrescentado: os preços de exportação por par são consistentemente superiores aos preços de importação em todos os segmentos. As luvas de lã/pelos finos atingem 21,75 EUR/pa na exportação, contra 5,41 EUR/pa na importação — um diferencial que evidencia a especialização europeia em produtos de gama alta.

3.2. Dinâmica de preços: pressão inflacionária e divergência importação-exportação

Os preços médios registaram evoluções distintas entre importações e exportações:

Preço médio 2015 2025 Variação Máximo
Importação (EUR/t) 11 073 12 592 +13,7% 14 781
Exportação (EUR/t) 25 123 32 523 +29,5% 36 707
Importação (EUR/pa) 0,62 0,66 +6,6% 0,70
Exportação (EUR/pa) 1,84 2,11 +14,3% 2,51

Os preços de exportação cresceram mais do que os preços de importação tanto em base tonelada (+29,5% vs +13,7%) como em base par (+14,3% vs +6,6%), sugerindo que a UE tem vindo a reforçar a sua posição em segmentos de maior valor. Os preços de importação atingiram o seu máximo em 2022, em linha com a pressão inflacionária global e os custos de transporte elevados desse ano, antes de recuarem parcialmente.

Por segmento, a evolução dos preços de importação por par entre 2015 e 2025 mostra:

Segmento 2015 (EUR/pa) 2025 (EUR/pa) Variação
611610 — Plástico/borracha 0,61 0,63 +2,5%
611693 — Fibras sintéticas 0,99 1,09 +10,3%
611692 — Algodão 0,25 0,23 −7,1%
611699 — Outras matérias têxteis 1,13 0,88 −21,9%
611691 — Lã/pelos finos 3,23 5,41 +67,2%

As luvas de lã/pelos finos registaram a maior subida de preço (+67,2%), enquanto as de algodão e de outras matérias têxteis apresentaram quedas, sugerindo uma pressão concorrencial intensa nesses segmentos de menor valor.

3.3. Volatilidade e choques de abastecimento

A análise de volatilidade dos fluxos comerciais revela padrões heterogéneos entre parceiros. Os principais fornecedores asiáticos apresentam coeficientes de variação (CV) moderados — China (0,11), Paquistão (0,07) e Sri Lanka (0,25) — enquanto parceiros mais periféricos apresentam maior instabilidade: Vietname (0,46), Coreia do Sul (0,45), Indonésia (0,20) e Bangladesh (0,41).

Do lado das exportações, o Reino Unido apresenta a maior volatilidade (CV = 0,60), refletindo a instabilidade introduzida pelo Brexit, enquanto a Suíça (CV = 0,11) se apresenta como destino mais estável. A Ucrânia (CV = 0,56) e o México (CV = 0,45) registam volatilidade elevada do lado exportador.

Foram detetados eventos de choque de abastecimento relevantes:

Evento Tipo Fluxo Ano Desvio (%) Anomalia Quota de valor
Paquistão Preço Importação 2022 +22,1% 65,6 11,6%
Sérvia Preço Exportação 2022 +21,0% 14,6 1,4%
Guiné Preço Exportação 2017 +372,0% 13,9 0,3%

O choque mais significativo foi o aumento de preço das importações do Paquistão em 2022, com uma anomalia de 65,6 pontos e um desvio de +22,1%. Dado que o Paquistão é um dos principais fornecedores da UE (quota de 11,6% do valor), este choque teve impacto macroeconómico relevante, possivelmente associado às inundações devastadoras que afetaram o setor têxtil paquistanês nesse ano.


Conclusão

O mercado europeu de luvas de malha (CN 6116) experimentou, entre 2015 e 2025, uma transformação estrutural profunda. A produção interna da UE contraiu-se em quase metade (−44,5% em volume de pares), elevando a dependência líquida de importações de 30,1% para 92,7% — um dos valores mais altos entre os segmentos têxteis europeus. O défice comercial agravou-se de −702 M EUR para −907 M EUR, com um pico de −1 216 M EUR em 2022.

As importações permaneceram dominadas pela China (≈60% do valor em 2025), mas a emergência do Vietname como fornecedor de rápido crescimento (+309,5%) e o declínio acentuado da Coreia do Sul (−68,1%) sinalizam uma reconfiguração das cadeias de abastecimento asiáticas, em linha com a tendência global de "China+1". Do lado das exportações, a UE diversificou significativamente os seus mercados de destino — o HHI exportador caiu 48,5% — com a Suíça a ultrapassar o Reino Unido como principal cliente e registando crescimentos expressivos na Noruega (+107,5%), EUA (+88,0%) e Ucrânia (+233,3%).

A segmentação de produto revela a predominância absoluta das luvas revestidas de plástico/borracha (611610), que representam 78% do volume importado e 73% do valor. A UE mantém uma vantagem competitiva em segmentos de valor acrescentado — as luvas de lã exportam-se a um preço médio de 21,75 EUR/pa, quase 4× superior ao preço de importação — mas a base produtiva doméstica continua em erosão. A crescente vulnerabilidade a choques de abastecimento, como o registado no Paquistão em 2022, sublinha a importância de monitorizar continuamente as dependências estratégicas num mercado cada vez mais globalizado e concentrado em poucos fornecedores asiáticos.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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