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Evolução do mercado: Vestuário exceto malha (CN 62) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no setor do vestuário e seus acessórios, excluindo os artigos de malha (posição aduaneira CN 62), ao longo do período 2015–2025. Esta posição abrange uma vasta gama de produtos, desde fatos e conjuntos masculinos e femininos até casacos, camisas, vestuário para bebés, acessórios como gravatas e lenços, e vestuário técnico confeccionado com matérias têxteis não tecidas (Âmbito e definições).

A análise baseia-se nos dados de importação e exportação da UE com países terceiros e revela três dinâmicas principais: (i) o crescimento sustentado do valor do comércio, impulsionado sobretudo pela subida de preços; (ii) uma profunda reconfiguração das cadeias de abastecimento, com países do Sudeste Asiático e Sul da Ásia a ganharem peso face à China; e (iii) uma crescente dependência externa e fragilidade estrutural do setor produtivo europeu.


1. Crescimento de valor sustentado por uma lógica de preços, não de volumes

1.1. Aumento de 21,5% no valor das importações e exportações, mas por vias distintas

Entre 2015 e 2025, o valor total das importações da UE em vestuário exceto malha passou de 36,0 mil milhões de EUR para 43,8 mil milhões de EUR, um crescimento de 21,5%. No mesmo período, as exportações cresceram na mesma proporção, de 17,3 mil milhões de EUR para 21,0 mil milhões de EUR (Visão geral do comércio). Contudo, os volumes contam uma história muito diferente:

Indicador 2015 2025 Variação (%)
Importações — valor (mil M EUR) 36,0 43,8 +21,5
Importações — volume (kt) 1 647 1 923 +16,7
Importações — preço médio (EUR/t) 21 872 22 776 +4,1
Exportações — valor (mil M EUR) 17,3 21,0 +21,5
Exportações — volume (kt) 280 242 −13,8
Exportações — preço médio (EUR/t) 61 769 87 091 +41,0

As importações cresceram tanto em volume como em preço, ainda que de forma moderada no preço. As exportações, pelo contrário, viram os seus volumes recuar 13,8%, mas compensaram amplamente com uma subida de 41,0% nos preços médios. Isto sugere que a indústria europeia exportadora se deslocou para segmentos de maior valor acrescentado, enquanto a procura interna continuou a ser satisfeita em grande medida por importações de menor preço unitário.

1.2. O pico de 2022 e a correção subsequente

O ano de 2022 marcou o ponto máximo de valor em ambos os fluxos: as importações atingiram 46,8 mil milhões de EUR e as exportações 22,4 mil milhões de EUR. Este pico reflete a conjugação de dois fatores — a inflação generalizada nos custos de energia e matérias-primas têxteis, e o efeito de reabertura pós-pandémica que comprimiu stocks e elevou a procura. Em 2023 e 2024 verificou-se uma correção moderada, com as importações a recuarem para 42,7 mil milhões de EUR e as exportações a estabilizarem perto dos 21 mil milhões de EUR (Visão geral do comércio).

1.3. O défice comercial estrutural alarga-se

O saldo comercial da UE neste setor passou de −18,7 mil milhões de EUR em 2015 para −22,8 mil milhões de EUR em 2025, uma deterioração de 21,5%. O ponto mais profundo do défice registou-se precisamente em 2022 (−24,4 mil milhões de EUR). Apesar da melhoria parcial em 2023, a trajetória de médio prazo é claramente ascendente em termos de défice. A UE continua a ser um importador líquido estrutural de vestuário, com uma balança sempre negativa ao longo de todo o período observado.


2. Reconfiguração geográfica das cadeias de abastecimento

2.1. A China mantém-se como principal fornecedor, mas perde quota

A China continua a ser, de longe, o maior fornecedor externo de vestuário à UE, com importações de 13,3 mil milhões de EUR em 2025 (face a 13,4 mil milhões de EUR em 2015). No entanto, a variação de −1,0% mascara uma evolução mais complexa: o pico de 14,6 mil milhões de EUR em 2022 foi seguido de uma descida pronunciada, e a quota da China no total das importações de países terceiros reduziu-se significativamente ao longo da década (Principais parceiros por valor).

Fornecedor 2015 (mil M EUR) 2025 (mil M EUR) Variação (%)
China 13,4 13,3 −1,0
Bangladesh 4,6 7,7 +66,3
Turquia 3,2 3,4 +8,2
Paquistão 1,1 1,9 +76,5
Vietname 1,7 2,5 +49,2
Índia 2,0 2,2 +12,0
Myanmar 0,3 1,3 +401,2

2.2. Bangladesh e Paquistão como grandes vencedores

O crescimento mais expressivo em termos absolutos coube a Bangladesh, que passou de 4,6 mil milhões de EUR para 7,7 mil milhões de EUR (+66,3%), consolidando-se como o segundo maior fornecedor da UE. O Paquistão duplicou quase as suas exportações para a UE (+76,5%), atingindo 1,9 mil milhões de EUR. Estes dois países beneficiam de custos laborais significativamente inferiores e de regimes preferenciais de acesso ao mercado europeu (sistema GSP+), que lhes conferem uma vantagem competitiva face a fornecedores asiáticos mais distantes (Principais parceiros por valor).

2.3. Myanmar: crescimento explosivo, mas volatilidade extrema

Myanmar apresenta a maior variação percentual do período — de 255 milhões de EUR para 1 277 milhões de EUR (+401,2%), com um pico intercalar de 1 973 milhões de EUR em 2022. Contudo, este crescimento é acompanhado do maior coeficiente de variação entre os fornecedores analisados (CV = 0,47), o que reflete a instabilidade política e os riscos de reputação associados a este fornecedor, onde se registaram sanções e perturbações na cadeia de abastecimento (Volatilidade e choques).

2.4. Choques de preço em 2022 no subcontinente indiano

O ano de 2022 foi marcado por choques de preço significativos nas importações de dois fornecedores chave:

Choque Tipo Ano Desvio (σ) Variação (%) Peso no valor (%)
Paquistão (importações) Preço 2022 11,3 +20,5 5,0
Bangladesh (importações) Preço 2022 6,2 +20,5 21,0

Estes choques estão provavelmente relacionados com a crise energética global de 2022, que afetou desproporcionadamente os custos de produção no subcontinente indiano, e com as inundações devastadoras no Paquistão em 2022 que interromperam a produção têxtil (Volatilidade e choques).

2.5. Itália lidera as exportações, mas a distribuição geográfica das exportações europeias muda profundamente

Do lado das exportações, a Itália é o principal exportador europeu, com 8,1 mil milhões de EUR em 2025 (+25,1% face a 2015), seguida da França (3,8 mil milhões, +42,8%) e da Alemanha (3,1 mil milhões, +44,7%). A Polónia regista o crescimento mais espetacular entre os Estados-Membros (+403,4%), refletindo a consolidação do seu papel como plataforma de produção e reexportação na Europa Central (Principais reportadores por valor).

Nos destinos de exportação, as alterações foram igualmente notáveis:

Destino 2015 (mil M EUR) 2025 (mil M EUR) Variação (%)
Reino Unido 3,7 2,6 −29,5
Suíça 2,1 3,3 +61,8
Rússia 1,2 0,7 −46,4
Turquia 0,5 1,0 +93,4
EUA 1,9 2,9 +49,2
China 0,8 1,9 +125,6

A queda das exportações para o Reino Unido (−29,5%) é consistente com as barreiras comerciais introduzidas após o Brexit, enquanto o colapso das exportações para a Rússia (−46,4%) reflete diretamente as sanções impostas após 2022. Em contraste, a China tornou-se um destino de crescimento exponencial (+125,6%), sinalizando a procura crescente de vestuário europeu de luxo no mercado chinês (Principais parceiros por valor).


3. Declínio produtivo interno e crescente vulnerabilidade estrutural

3.1. Queda acentuada da produção europeia

Os dados de produção PRODCOM revelam uma erosão profunda da capacidade produtiva europeia no setor. A produção em unidades passou de 2 317 milhões de peças em 2015 para apenas 800 milhões em 2025 (−65,5%), enquanto o valor da produção caiu de 19,8 mil milhões de EUR para 12,5 mil milhões de EUR (−37,2%). A queda mais acentuada verificou-se durante a pandemia de COVID-19 (2020–2021), de onde a produção europeia nunca recuperou plenamente (Volumes de produção).

3.2. A dependência das importações triplica em termos de intensidade

O indicador de dependência líquida de importações subiu de 10,9% em 2015 para 60,8% em 2025, com um pico de 66,0% em 2024. Esta evolução é consistente com a conjugação de produção interna em declínio e procura que se mantém ou cresce moderadamente. A intensidade comercial (trade intensity) passou de 34,9% para 117,2%, indicando que o comércio externo cresceu muito mais rapidamente do que o PIB ou a produção interna, e a propensão exportadora (export propensity) disparou de 16,3% para 174,0%, refletindo uma crescente reexportação e integrão da UE nas cadeias globais de valor (Vulnerabilidade e dependência).

3.3. Os segmentos mais importados: vestuário feminino e masculino de base

A decomposição por posição aduaneira revela que os dois segmentos dominantes nas importações são o vestuário feminino (CN 6204 — fatos, conjuntos, vestidos, calças) e o vestuário masculino (CN 6203 — fatos, calças, casacos), que em 2025 representaram respetivamente 538 kt e 477 kt em volume. O segmento de vestuário técnico com matérias não tecidas (CN 6210) mostrou um pico anómalo em 2020 (242 kt e 4,9 mil milhões de EUR), provavelmente associado às compras de emergência de equipamento de proteção durante a pandemia. Em 2025, este segmento regressou a valores mais próximos da tendência anterior (157 kt) (Comparação por segmento).

Segmento (CN) Importações 2025 (kt) Exportações 2025 (kt) Balança líquida (kt)
6204 — Vestuário feminino 538 66 −472
6203 — Vestuário masculino 477 41 −436
6202 — Casacos femininos 183 24 −159
6210 — Vestuário técnico 157 16 −141
6201 — Casacos masculinos 135 13 −122
6205 — Camisas masculinas 80 10 −70
6211 — Desporto e banho 83 37 −46

3.4. Especialização europeia: Itália e os países do Sul lideram, mas o gap tecnológico persiste

Em termos de especialização, os Estados-Membros com maior vantagem comparativa revelada (RSCA > 0) em 2025 são a Dinamarca (RSCA = 0,43), a Polónia (0,33), a Espanha (0,31) e a Itália (0,22). Os menos especializados são a Irlanda (RSCA = −0,91), Malta (−0,80) e a Hungria (−0,73). A concentração das exportações (HHI) em valor diminuiu de 921 para 817 (−11,3%), sugerindo uma ligeira diversificação dos destinos de exportação ao longo do período (Especialização).

Do lado das importações, o HHI em valor caiu de 1 778 para 1 456 (−18,1%), indicando uma redução da dependência de um único fornecedor dominante — o que é, em princípio, positivo do ponto de vista da resiliência da cadeia de abastecimento, embora a concentração continue a ser elevada face às exportações (Concentração HHI).


Conclusão

O setor do vestuário exceto malha (CN 62) na UE encontra-se num ponto de inflexão estrutural. Embora o valor total do comércio tenha crescido de forma consistente ao longo da década 2015–2025, este crescimento esconde uma realidade mais complexa: a produção europeia em unidades caiu 65,5%, a dependência líquida de importações quintuplicou, e o défice comercial alargou-se para os 22,8 mil milhões de EUR. O valor acrescentado parece deslocar-se progressivamente para fora da Europa — os volumes exportados recuam enquanto os preços sobem, sugerindo uma concentração nos segmentos de luxo e alta qualidade, mas uma perda de competitividade no vestuário de média e baixa gama.

A reconfiguração geográfica das cadeias de abastecimento é uma das tendências mais marcantes do período. A China, embora dominante, perde quota relativa face a Bangladesh, Paquistão, Vietname e Myanmar. Esta diversificação traz benefícios em termos de redução do risco de concentração, mas introduz novas vulnerabilidades — como demonstram os choques de preço de 2022 no subcontinente indiano e a instabilidade crónica de fornecedores como Myanmar.

Os desenvolvimentos geopolíticos recentes — Brexit, conflito na Ucrânia e sanções à Rússia — reconfiguraram profundamente os destinos de exportação europeus, com perdas significativas no Reino Unido e Rússia que foram apenas parcialmente compensadas por ganhos na Suíça, Turquia, EUA e, sobretudo, na China. A crescente dependência externa torna o setor vulnerável a disrupções na cadeia de abastecimento, oscilações cambiais e alterações regulatórias nos principais países fornecedores. As decisões futuras sobre política comercial, investimento na reindustrialização têxtil europeia e resiliência das cadeias de valor serão determinantes para o futuro deste setor.

Gerado em 2026-08-07. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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