Evolução do mercado: Artigos de corselete (CN 6212) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro CN 6212 abrange sutiãs, cintas, espartilhos, suspensórios, ligas e artigos semelhantes, incluindo as suas partes. Trata-se de um setor do vestuário intimamente ligado à manufatura têxtil, com uma cadeia de valor global intensiva em mão de obra. O período 2015–2025 foi marcado por eventos transformadores — a pandemia de COVID-19, o Brexit e a reorganização contínua das cadeias de abastecimento globais — cujos efeitos se refletem de forma inequívoca nos dados de comércio da UE.
O segmento dominante é o dos sutiãs e bustiês (CN 621210), que em 2025 representou cerca de 91 % do valor das importações e 87 % das exportações da UE. Os restantes subsegmentos — cintas e cintas-calças (621220), cintas-sutiãs (621230) e outros artigos e partes (621290) — têm um peso residual.
Ao longo desta década, o panorama comercial da UE neste setor foi definido por três dinâmicas fundamentais: (i) o colapso da produção europeia e a consequente aceleração da dependência externa; (ii) a reconfiguração geográfica das fontes de importação, com a ascensão da Ásia emergente e o recuo do comércio com o Reino Unido após o Brexit; e (iii) a crescente polarização entre Estados-Membros, com alguns a ganharem competitividade exportadora e outros a perderem terreno significativo.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (€) | 1 705 M | 1 816 M | +6,5 % |
| Exportações (€) | 469 M | 422 M | −10,0 % |
| Saldo comercial (€) | −1 236 M | −1 394 M | −12,7 % |
| Dependência líquida de importações | 24,1 % | 79,5 % | +229,6 % |
| Produção (unidades) | 256 M | 46,2 M | −82,0 % |
1. Do produtor ao importador: o colapso da produção europeia e a dependência externa crescente
1.1. A produção europeia colapsou em mais de 80 % em volume
A produção europeia de artigos de corselete registou uma quebra dramática ao longo do período em análise. Em termos de unidades produzidas (PRODCOM), a produção caiu de 256 milhões de unidades em 2015 para apenas 46,2 milhões em 2025, uma redução de 82,0 %. Em valor, a contração foi igualmente severa: de 1 551 milhões de euros para 337 milhões de euros (−78,3 %). O mínimo de produção registou-se no último ano da série, sugerindo que a tendência de declínio ainda não se inverteu.
Este declínio reflecte a continuação de uma tendência secular de deslocalização da produção têxtil e de vestuário europeia para países com custos de mão de obra significativamente mais baixos. A UE passou de produtora relevante a meramente residual neste segmento.
1.2. O déficit comercial agravou-se apesar da subida no valor unitário das exportações
O saldo comercial da UE em artigos de corselete deteriorou-se de −1 236 M€ em 2015 para −1 394 M€ em 2025 (−12,7 %). O ponto mais negativo registou-se em 2022, com um défice de aproximadamente −1 601 M€, impulsionado por um pico histórico de importações de 2 071 M€ no contexto de reposição de stocks pós-COVID e pressões inflacionistas. Em contraste, 2020 apresentou o menor défice (aproximadamente −1 007 M€), devido à contracção simultânea das importações durante a pandemia.
No entanto, os dados de preços revelam uma diferenciação estrutural:
| Indicador de preço | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Preço médio de importação (€/t) | 38 258 | 34 727 | −9,2 % |
| Preço médio de exportação (€/t) | 76 343 | 92 072 | +20,6 % |
| Preço unitário importado — sutiãs (€/pç) | 3,52 | 3,55 | Estável |
| Preço unitário exportado — sutiãs (€/pç) | 7,95 | 9,61 | +20,9 % |
O preço médio de exportação subiu 20,6 %, enquanto o preço médio de importação desceu 9,2 %. Por unidade de produto, os sutiãs exportados pela UE custam quase o triplo dos importados (9,61 € vs. 3,55 €). Esta dinâmica sugere que a UE se está a posicionar progressivamente no segmento premium, exportando menos volume mas a preços mais elevados, enquanto importa maioritariamente artigos de valor unitário mais baixo.
1.3. A dependência líquida de importações triplicou ao longo da década
O indicador de dependência líquida de importações subiu de 24,1 % em 2015 para 79,5 % em 2025, uma variação de +229,6 %. Paralelamente, a intensidade comercial passou de 58,0 % para 103,7 % (+78,8 %), e a propensão exportadora disparou de 31,4 % para 122,3 % (+289,2 %).
A propensão exportadora é o indicador com maior saliência na análise, reflectindo uma transformação profunda. Um valor de propensão exportadora acima de 100 % indica que as exportações excedem a produção doméstica, sugerindo que a UE funciona crescentemente como plataforma de distribuição e reexportação, em detrimento de produtora. Estes indicadores, em conjunto, confirmam que a UE se tornou fortemente dependente de importações para abastecer o seu mercado interno, ao mesmo tempo que a sua base produtiva encolheu drasticamente.
2. Reconfiguração das cadeias de abastecimento: a ascensão da Ásia emergente e o recuo do comércio com o Reino Unido
2.1. A China mantém a liderança, mas perde quota de mercado para novos concorrentes
A China continua a ser, de longe, o principal fornecedor externo da UE em artigos de corselete. Em 2025, as importações chinesas totalizaram 706 M€, representando cerca de 39 % do total das importações da UE neste setor. Contudo, em termos de evolução, o valor recuou 17,7 % face ao registo de 2015 (858 M€), tendo atingido um mínimo de 573 M€ num ponto intermédio da série.
O coeficiente de variação das importações chinesas é de 0,17, relativamente baixo, o que indica que a China é um fornecedor estável em volume, apesar da perda de quota relativa.
Paralelamente, a concentração das importações (HHI) diminuiu significativamente:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| HHI das importações (valor) | 2 750 | 2 041 | −25,8 % |
| HHI das exportações (valor) | 980 | 1 085 | +10,7 % |
| HHI das importações (volume) | 3 506 | 3 067 | −12,5 % |
O HHI das importações passou de um nível de alta concentração (acima de 2 500) para uma concentração moderada (entre 1 500 e 2 500), sinalizando uma efectiva diversificação geográfica das fontes de abastecimento. Do lado das exportações, o HHI permanece num nível não concentrado (abaixo de 1 500), com um ligeiro aumento de 10,7 % que reflecte uma maior concentração nos principais mercados de destino.
2.2. Bangladesh, Vietname e Myanmar registam crescimentos extraordinários
Enquanto a China perdia quota, três países asiáticos emergentes capturaram uma parte crescente do mercado europeu:
| País | 2015 (€M) | 2025 (€M) | Variação | CV |
|---|---|---|---|---|
| Bangladesh | 117 | 251 | +114,4 % | 0,25 |
| Vietname | 68 | 211 | +208,9 % | 0,33 |
| Myanmar | 15 | 57 | +288,0 % | 0,48 |
| Sri Lanka | 130 | 179 | +37,3 % | 0,22 |
Bangladesh e Vietname beneficiam de regimes preferenciais de acesso ao mercado da UE (como o Sistema de Preferências Generalizadas — SPG), bem como de investimento massivo em capacidade produtiva têxtil. Myanmar registou o maior crescimento percentual, embora a partir de uma base muito mais pequena, tendo beneficiado do regime Everything But Arms (EBA). Em contraste, a Indonésia perdeu terreno (−32,7 %, de 79 M€ para 53 M€).
No que respeita à volatilidade das importações, os coeficientes de variação (CV) situam-se em níveis moderados a elevados para os novos fornecedores asiáticos (0,25–0,48). O elevado CV de Myanmar (0,48) reflecte tanto o rápido crescimento como eventuais instabilidades políticas e comerciais. Do lado das exportações da UE, a Turquia (+84,9 %, de 16 M€ para 29 M€) e a Suíça (+42,2 %, de 72 M€ para 102 M€) foram os mercados de destino que mais cresceram.
2.3. O Brexit causou uma rutura estrutural no comércio com o Reino Unido
O Reino Unido registou a evolução mais instável de todos os parceiros comerciais da UE neste setor. Do lado das importações para a UE (ou seja, exportações do RU para a UE), o valor caiu de 72 M€ para 19 M€ (−73,2 %), com um coeficiente de variação de 1,16 — o mais elevado de todos os parceiros, indicando uma instabilidade extrema. Do lado das exportações da UE para o Reino Unido, o valor desceu de 91 M€ para 46 M€ (−49,7 %).
O sistema de deteção de choques identificou dois eventos de preço de magnitude excepcional associados ao Reino Unido:
- 2018 (exportações da UE para o RU): choque de preço com grau de anormalidade de 82,8 e variação de −26,3 %, representando 20,4 % do valor total das exportações da UE. Este evento pode estar associado à desvalorização da libra esterlina no contexto da incerteza pré-Brexit.
- 2023 (importações da UE a partir do RU): choque de preço com grau de anormalidade de 63,6 e variação de +157,2 %, reflectindo o impacto cumulativo das barreiras alfandegárias e regulatórias pós-Brexit.
Um terceiro choque de menor magnitude foi detetado nas exportações para a Noruega em 2017 (anormalidade 21,7, variação +30,3 %). No conjunto, estes dados confirmam que o Brexit teve um impacto estrutural e duradouro no padrão de comércio de vestuário entre a UE e o Reino Unido, transformando um parceiro outrora fluido num mercado de comércio significativamente mais dispendioso e instável.
3. Uma União desigual: polarização entre Estados-Membros na produção e no comércio
3.1. A França perdeu a sua posição de exportador líder para a Alemanha, Itália e Polónia
A análise por Estados-Membros exportadores revela uma reconfiguração profunda do mapa produtivo europeu:
| País | Exportações 2015 (€M) | Exportações 2025 (€M) | Variação |
|---|---|---|---|
| França | 145 | 32 | −77,9 % |
| Alemanha | 72 | 107 | +49,4 % |
| Itália | 51 | 90 | +74,8 % |
| Polónia | 9 | 31 | +235,0 % |
| Países Baixos | 20 | 35 | +74,9 % |
A França, que em 2015 era o maior exportador da UE neste setor com 145 M€, viu as suas exportações descerem para apenas 32 M€ em 2025, uma queda de −77,9 %. Esta quebra reflecte provavelmente a deslocalização final das últimas unidades produtivas francesas e a concentração das marcas de luxo francesas na subcontratação internacional.
Em contraste, a Alemanha, a Itália e, sobretudo, a Polónia registaram ganhos significativos. A Polónia emergiu como potência regional na produção de vestuário íntimo, com crescimento de +235 %, beneficiando de custos competitivos, proximidade geográfica com os mercados centrais da UE e mão de obra qualificada.
3.2. As importações redistribuíram-se geograficamente dentro da UE
Do lado das importações por Estado-Membro, os dois maiores mercados — Alemanha (321 M€) e França (295 M€) — registaram quebras face a 2015 (−15,0 % e −13,6 %, respetivamente). Em contrapartida, vários Estados-Membros aumentaram as suas importações:
| País | Importações 2015 (€M) | Importações 2025 (€M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 378 | 321 | −15,0 % |
| França | 341 | 295 | −13,6 % |
| Países Baixos | 252 | 295 | +17,3 % |
| Itália | 220 | 241 | +9,7 % |
| Espanha | 127 | 151 | +19,6 % |
| Áustria | 100 | 125 | +25,2 % |
Os Países Baixos (+17,3 %) ultrapassaram a França como segundo maior importador, reflectindo o papel crescente como hub logístico europeu para o vestuário. A Áustria (+25,2 %) e a Espanha (+19,6 %) também registaram crescimentos robustos, possivelmente associados à expansão do retalho fast fashion e ao crescimento do comércio eletrónico transfronteiriço.
3.3. A especialização produtiva concentra-se na Europa Central e Oriental
Os níveis de especialização (RSCA) dos Estados-Membros variam significativamente, revelando um claro padrão geográfico:
| País mais especializado | RSCA | RCA |
|---|---|---|
| Croácia | 0,79 | 8,58 |
| Áustria | 0,53 | 3,28 |
| Estónia | 0,30 | 1,84 |
| Letónia | 0,26 | 1,70 |
| Polónia | 0,26 | 1,69 |
| País menos especializado | RSCA | RCA |
|---|---|---|
| Irlanda | −0,96 | 0,02 |
| Malta | −0,88 | 0,06 |
| Finlândia | −0,87 | 0,07 |
| Chipre | −0,85 | 0,08 |
| Grécia | −0,62 | 0,23 |
A Croácia apresenta o RSCA mais elevado (0,79) da UE, com um RCA de 8,58, indicando uma vantagem comparativa muito forte. A Áustria (RSCA 0,53), apesar de registar uma quebra nas exportações absolutas (−34,0 %), mantém uma posição fortemente especializada, sugerindo que este setor continua a ter um peso relevante na sua estrutura exportadora.
No extremo oposto, a Irlanda (RSCA −0,96), Malta (−0,88) e a Finlândia (−0,87) registam os níveis mais baixos de especialização, indicando uma dependência quase total das importações. Estes países representam mercados consumidores puros, sem base produtiva significativa.
O HHI de exportação subiu ligeiramente de 980 para 1 085 (+10,7 %), permanecendo num nível não concentrado. Isto sugere que, apesar da reconfiguração interna, as exportações da UE continuam repartidas por vários Estados-Membros, embora com uma ligeira tendência de concentração nos maiores exportadores (Alemanha, Itália, Países Baixos).
Conclusão
A evolução do comércio da UE em artigos de corselete (CN 6212) entre 2015 e 2025 reflecte, em microcosmo, a transformação mais ampla da indústria têxtil e de vestuário europeia. Três dinâmicas estruturais dominaram este período:
Em primeiro lugar, a produção europeia entrou em colapso (−82 % em unidades, −78 % em valor), transformando a UE de produtora significativa num mercado quase inteiramente dependente de importações. A dependência líquida de importações triplicou, de 24 % para 80 %, e o déficit comercial atingiu 1 394 M€ em 2025.
Em segundo lugar, as cadeias de abastecimento reconfiguraram-se geograficamente. A China perdeu quota relativa (−17,7 %), embora permaneça dominante com 39 % das importações. Bangladesh, Vietname e Myanmar capturaram uma parte crescente do mercado, impulsionados por preferências comerciais e custos competitivos. O HHI das importações desceu de 2 750 para 2 041, reflectindo uma diversificação efectiva. Em paralelo, o Brexit causou uma rutura duradoura no comércio com o Reino Unido, com quebras superiores a 50 % em ambos os sentidos e choques de preço de magnitude excepcional.
Em terceiro lugar, a União Europeia tornou-se internamente mais desigual. A França perdeu a sua posição de exportador líder (−77,9 %), enquanto a Alemanha, a Itália e a Polónia ganharam terreno. A especialização produtiva concentra-se agora na Europa Central e Oriental (Croácia, Áustria, Polónia), em contraste com a periferia ocidental e insular, que se tornou quase totalmente dependente de importações.
Olhando para o futuro, a manutenção de uma base produtiva mínima na UE, a crescente dependência de fornecedores asiáticos e a instabilidade associada a eventuais choques geopolíticos ou comerciais constituem riscos relevantes para a autonomia estratégica europeia neste setor.