Evolução do mercado: Roupa interior masculina (CN 6207) — 2015–2025
Introdução
O código NC 6207 abrange um vasto leque de vestuário íntimo e doméstico masculino — desde cuecas e camisolas interiores até pijamas, camisas de noite, roupões de banho e robes — excluindo-se os artigos de malha. Trata-se de um setor com procura estruturalmente estável, mas que ao longo da última década enfrentou uma profunda reconfiguração da sua base produtiva e das cadeias de abastecimento na União Europeia.
O período analisado, de 2015 a 2025, foi marcado por três tendências dominantes: o colapso da produção interna europeia, a consolidação do Sudeste Asiático como principal fornecedor e uma crescente volatilidade de preços e fluxos, agravada por choques geopolíticos e comerciais como o Brexit e a pandemia de COVID-19. As importações da UE permaneceram relativamente estáveis em valor (crescimento de 5,7%), mas as exportações cresceram 51,1%, refletindo em grande medida reexportações e a reorganização dos fluxos intra-comunitários, bem como a especialização residual de alguns Estados-Membros.
Para contextualizar, o produto inclui sete subcategorias detalhadas, desde artigos de algodão (620711, 620721, 620791) até peças em fibras sintéticas ou artificiais (620722) e de outras matérias têxteis (620719, 620729, 620799). Dados de produção industrial (PRODCOM) estão igualmente disponíveis, permitindo cruzar fluxos comerciais com a evolução da capacidade fabril europeia.
1. O colapso da produção europeia e a consolidação da dependência externa
1.1 A produção interna sofreu uma queda estrutural sem precedentes
A produção europeia de roupa interior masculina (CN 6207) registou uma redução dramática entre 2015 e 2025. Em unidades produzidas, o declínio foi de 125,4 milhões para 7,1 milhões de peças (−94,3%). Em valor de produção, a quebra atingiu os 83,3%, passando de 288,2 milhões € para 48,1 milhões €.
Estes números refletem a deslocalização acelerada da produção têxtil europeia para países com custos laborais inferiores, um processo que já vinha de trás mas se intensificou após a pandemia de COVID-19. Os custos energéticos europeus crescentes após 2022 terão igualmente contribuído para comprimir margens numa indústria já debilitada.
1.2 A dependência de importações atingiu níveis sem precedentes
A taxa líquida de dependência de importações disparou de 9,9% em 2015 para 71,6% em 2025, um aumento de +620,6%. Em simultâneo, a intensidade comercial cresceu de 10,8% para 104,1%, e a propensão exportadora atingiu 119,1%, sinalizando que as exportações europeias passaram a exceder a produção interna — um indicador claro de que a UE se tornou fundamentalmente um hub de distribuição e reimplementação, e não de fabrico.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Produção (unidades) | 125,4 M p/st | 7,1 M p/st | −94,3 |
| Produção (valor) | 288,2 M€ | 48,1 M€ | −83,3 |
| Dependência importações (%) | 9,9% | 71,6% | +620,6 |
| Intensidade comercial (%) | 10,8% | 104,1% | +860,3 |
| Propensão exportadora (%) | 0,5% | 119,1% | +22 324 |
1.3 A specialização fragmentou-se e concentrou-se em países periféricos
Em 2025, os países europeus mais especializados neste produto foram a Bulgária (RSCA: 0,735), Portugal (0,463), Roménia (0,461), Croácia (0,448) e Espanha (0,441). Trata-se sobretudo de economias da Europa Central e do Sul com tradição no subcontrato têxtil e custos de mão de obra inferiores à média europeia. Em contraste, países como Malta (RSCA: −0,975), Estónia (−0,827), Irlanda (−0,815), Finlândia (−0,809) e Luxemburgo (−0,772) apresentam especialização negativa, concentrando-se noutros setores.
A concentração geográfica das importações (HHI por valor) diminuiu ligeiramente, de 1729 para 1572 (−9,1%), refletindo uma diversificação moderada das fontes de abastecimento. Por sua vez, a concentração das exportações caiu mais acentuadamente, de 1740 para 1117 (−35,8%), espelhando uma maior dispersão dos destinos de saída.
2. Reconfiguração geográfica: a ascensão do Sul Asiático e o impacto do Brexit
2.1 O Sul Asiático consolidou-se como o principal polo de abastecimento
As importações da UE de roupa interior masculina foram dominadas por quatro países do Sul Asiático — China, Paquistão, Bangladesh e Índia — que em conjunto representam a esmagadora maioria dos fornecedores extra-UE. Contudo, as trajetórias divergiram significativamente:
| País fornecedor | Valor importações 2015 | Valor importações 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Paquistão | 16,5 M€ | 38,4 M€ | +133,1 |
| Bangladesh | 22,5 M€ | 34,4 M€ | +52,8 |
| Índia | 11,7 M€ | 20,4 M€ | +74,8 |
| China | 60,8 M€ | 43,1 M€ | −29,2 |
| Turquia | 22,6 M€ | 24,0 M€ | +6,2 |
O Paquistão registou o crescimento mais expressivo (+133,1%), consolidando-se como o maior fornecedor individual em 2023, ultrapassando a China. Bangladesh e Índia acompanharam a tendência ascendente. Em contraste, as importações chinesas caíram 29,2%, refletindo a contínua reorientação europeia para alternativas mais competitivas ou com melhor perfil de sustentabilidade.
2.2 O Brexit causou uma ruptura abrupta nos fluxos com o Reino Unido
O Reino Unido, que em 2015 era o sexto maior fornecedor extra-UE (18,5 M€), sofreu um colapso de 79,1%, caindo para apenas 3,9 M€ em 2025. A volatilidade destas importações elevada (CV de 0,82) confirma que se tratou de uma descontinuidade estrutural — provavelmente resultado das novas barreiras alfandegárias e burocráticas impostas pela saída do mercado único. A Tunísa registou uma queda ainda mais acentuada (−81,8%), passando de 7,4 M€ para 1,4 M€, sugerindo um impacto indireto ou reclassificação de fluxos.
Já nas exportações, o Reino Unido manteve-se como principal destino extra-UE, com crescimento modesto (+2,6%): de 11,4 M€ para 11,8 M€. A sua volatilidade de exportações relativamente baixa (CV: 0,15) sugere certa estabilidade, mas mascara um choque de preço em 2022 com índice de anormalidade de 320,4 e aumento de 75,3% no preço unitário — possivelmente associado à inflação pós-pandemia e à desvalorização da libra.
2.3 As exportações europeias diversificaram-se significativamente para mercados não tradicionais
A redução da concentração das exportações (HHI de 1740 para 1117, −35,8%) reflete uma expansão para novos destinos. Os destinos com maior crescimento incluem: Ucrânia (+312,1%, de 0,6 M€ para 2,3 M€), Marrocos (+120,2%), Estados Unidos (+86,5%) e Suíça (+75,4%).
O caso ucraniano é particularmente notável o coeficiente de variação (1,71) é o mais elevado entre os parceiros de exportação, refletindo flutuações extremas. O crescimento exponencial das exportações UE-Ucrânia no setor têxtil pode estar relacionado com acordos de liberalização comercial e, a partir de 2022, com o apoio humanitário e comercial no contexto do conflito armado.
No quadro dos Estados-Membros exportadores, Espanha (+237,4%) e França (+139,9%) registaram os crescimentos mais expressivos, enquanto a Alemanha, apesar de o maior importador em termos absolutos ter perdido peso relativo (importações alemãs −41,7%), manteve o seu papel como exportadora estável (+22,2%).
3. Volatilidade, choques de preço e resiliência setorial
3.2 Os choques de preço afetaram os fluxos em momentos-chave
A análise de eventos de choque identificou três anomalias significativas no período:
| Evento | Tipo | Fluxo | Anormalidade | Deslocamento (%) | Ano | Valor part. (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Reino Unido | Preço | Exportações | 320,4 | +75,3 | 2022 | 42,3 |
| Bangladesh | Preço | Importações | 65,9 | +20,9 | 2022 | 20,4 |
| Ceuta | Preço | Exportações | 35,2 | +141,5 | 2020 | 0,5 |
O choque no Reino Unido em 2022, com anormalidade de 320,4 e quotas de preço de 42,3% do valor exportado nesse ano, é o mais significativo. Reflete possivelmente a convergência de três fatores: a inflação energética global pós-2022, os custos adicionais de conformidade regulatória pós-Brexit e efeitos cambiais. O choque nas importações do Bangladesh (anormalidade 65,9) no mesmo ano é consistente com a "crise de preços" global das matérias-primas têxteis de 2022.
3.3 A composição por material revela padrões distintos de resiliência
A decomposição das importações por subcategoria mostra uma clara diferenciação:
| Subcategoria | Descrição | Valor import. 2015 | Valor import. 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|
| 620711 | Cuecas/ceroulas, algodão | 78,1 M€ | 55,5 M€ | −29,0 |
| 620791 | Outros artigos, algodão | 38,6 M€ | 60,1 M€ | +55,7 |
| 620721 | Pijamas/camisas noite, algodão | 34,8 M€ | 39,0 M€ | +12,1 |
| 620799 | Outros, outras matérias | 11,8 M€ | 17,4 M€ | +47,5 |
| 620722 | Pijamas, sintéticas | 4,8 M€ | 5,5 M€ | +14,8 |
| 620719 | Cuecas, outras matérias | 10,0 M€ | 8,9 M€ | −10,2 |
| 620729 | Pijamas, outras matérias | 1,2 M€ | 3,1 M€ | +153,5 |
A subcategoria 620791 (outros artigos de algodão, que inclui roupões e robes) foi a que mais cresceu em valor absoluto, ultrapassando as cuecas de algodão (620711) como a maior linha importada. Isto pode refletir uma mudança no mix de consumo — maior procura de artigos de conforto doméstico, tendência reforçada pela pandemia. A 620729 (pijamas de outras matérias têxteis) cresceu 153,5%, embora de uma base muito mais reduzida.
Do lado das exportações, destaca-se o crescimento vertiginoso da subcategoria 620729: de 32 toneladas/1,7 M€ em 2015 para 867 toneladas/8,8 M€ em 2025 — um aumento de volume de mais de 26×, sinalizando a reorientação de fluxos europeus para reexportação deste segmento.
3.4 Os preços médios de exportação mantiveram-se persistentemente superiores aos de importação
Um padrão constante ao longo de todo o período é o diferencial de preços entre exportações e importações. Em 2025, o preço médio de exportação situou-se em 25 753 €/t, face a 10 453 €/t nas importações — uma razão de 2,5:1. Esta assimetria estrutural indica que a UE tende a exportar artigos de maior valor acrescentado (roupas de marca, segmentos premium) enquanto importa sobretudo bens de consumo em massa. O preço médio de exportação cresceu 7,1% no período, enquanto o das importações recuou ligeiramente (−1,1%), comprimindo margens mas mantendo a vantagem qualitativa europeia.
Conclusão
O mercado europeu de roupa interior masculina (CN 6207) vivê, entre 2015 e 2025, uma transformação estrutural profunda. A base produtiva europeia praticamente desapareceu, com uma contração de 94% na produção de unidades, forçando uma dependência quase total das importações — a taxa de dependência passou de 10% para 72%. Esta dependência concentrou-se cada vez mais em países do Sul Asiático (Paquistão, Bangladesh, Índia), com a China a perder quota, paralelamente a um colapso dos fluxos com o Reino Unido após o Brexit.
Em contrapartida, a UE manteve e até expandiu a sua capacidade exportadora, sobretudo para mercados como a Suíça, os EUA e, mais recentemente, a Ucrânia, privilegiando segmentos de maior valor. A concentração das exportações baixou significativamente, sugerindo uma estratégia de diversificação de mercados. A especialização produtiva fragmentou-se geograficamente dentro da UE: países como Bulgária, Portugal, Roménia e Espanha mantiveram vantagens comparativas, enquanto as grandes economias do Norte se concentraram no comércio de distribuição.
O setor permanece exposto a vulnerabilidades: a dependência de cadeias longas e variadas, a volatilidade de preços das matérias-primas (particularmente visível nos choques de 2022) e a concentração residual em poucos fornecedores dominantes. A resiliência futura dependerá da capacidade de reindustrialização europeia (nomeadamente via automação), da diversificação geográfica efetiva e da manutenção de vantagens competitivas no segmento premium.