Evolução do mercado: Roupa interior feminina (CN 6208) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no que respeita ao código aduaneiro combinado 6208, que abrange camisolas interiores, combinações, saiotes, calcinhas, camisas de noite, pijamas, déshabillés, roupões de banho, robes de quarto e artigos semelhantes de uso feminino (excluindo os de malha). O período em análise — de 2015 a 2025 — foi marcado por transformações estruturais profundas: o colapso da produção doméstica europeia, a consolidação de fornecedores asiáticos emergentes, o impacto do Brexit nas rotas comerciais tradicionais, a pandemia de COVID-19 e a escalada de custos energéticos e logísticos pós-2021. O produto abrange oito subposições classificadas por matéria têxtil (algodão, fibras sintéticas/artificiais e outras matérias), permitindo uma análise segmentada que revela dinâmicas distintas em função do tipo de fibra.
Os dados analisados dizem respeito ao fluxo comercial da UE com países terceiros, excluindo o comércio intra-UE.
1. O colapso da produção europeia e a hiper-dependência das importações
A produção nacional praticamente desapareceu
O dado mais marcante da série histórica é a queda dramática da produção europeia. Em termos de unidades, a produção caiu de 250,2 milhões de peças para 18,3 milhões de peças — uma redução de 92,7%. Em valor, a quebra foi de 89,6% (de €710,9 milhões para €73,7 milhões). Estes números sugerem que a UE passou de um bloco com capacidade industrial significativa neste segmento para uma economia quase totalmente dependente de importações.
A dependência das importações atingiu níveis críticos
A dependência líquida de importações passou de 8,1% em 2015 para 80,3% em 2025 — um aumento de 895%. Em paralelo, a intensidade comercial cresceu de 10,8% para 105,5%, e a propensão para exportar disparou de 1,6% para 135,5%. Estes indicadores apontam para uma transformação estrutural: a UE deixou de produzir para o seu próprio consumo e passou a ser sobretudo um centro logístico de redistribuição, importando bens acabados e reexportando parte significativa dos mesmos.
O défice comercial agravou-se em volume e valor
O défice comercial da UE em CN 6208 agravou-se de -€194,1 milhões em 2015 para -€317,7 milhões em 2025, um aumento de 63,7%:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações (€) | 258,0 M | 420,6 M | +63,0% |
| Importações (t) | 18 979 | 25 432 | +34,0% |
| Exportações (€) | 63,9 M | 102,9 M | +61,0% |
| Exportações (t) | 2 974 | 3 230 | +8,6% |
| Saldo (€) | -194,1 M | -317,7 M | -63,7% |
Enquanto as importações cresceram fortemente em volume e valor, as exportações praticamente só cresceram em valor (+61%) sem crescimento proporcional de volume (+8,6%), o que evidencia que a UE está a exportar cada vez mais valor por unidade de peso — provavelmente bens de gama mais elevada — mas não a expandir a base física da sua atividade exportadora.
2. Reconfiguração geográfica: a ascensão do Sul e Sudeste Asiático
Os fornecedores tradicionais perderam relevância
A análise dos principais parceiros de importação revela uma profunda reconfiguração das cadeias de abastecimento:
| Parceiro de importação | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 101,7 M | 118,9 M | +17,0% |
| Turquia | 54,7 M | 67,0 M | +22,6% |
| Índia | 18,6 M | 43,8 M | +135,0% |
| Bangladesh | 10,4 M | 52,4 M | +403,9% |
| Paquistão | 10,2 M | 35,8 M | +250,9% |
| Reino Unido | 22,5 M | 4,9 M | -78,1% |
| Vietname | 5,8 M | 5,2 M | -9,9% |
A China mantém-se como o maior fornecedor individual (€118,9 milhões), mas o seu crescimento de apenas 17% é modesto face ao aumento global das importações, indicando uma perda de quota de mercado. A Turquia cresceu de forma moderada (+22,6%), mas os verdadeiros vencedores foram Bangladesh (+403,9%), Paquistão (+250,9%) e Índia (+135,0%), que triplicaram, quadruplicaram e mais do que duplicaram as suas vendas à UE, respetivamente.
O caso do Reino Unido é particularmente notável: perdeu 78,1% do seu valor de exportação para a UE (de €22,5 M para €4,9 M), um reflexo direto do Brexit e da saída do mercado único. Este parceiro passou de 3º maior fornecedor a uma posição marginal.
Os destinos de exportação também se diversificaram
Do lado das exportações da UE, a reconfiguração é menos dramática mas igualmente significativa:
| Destino de exportação | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 15,7 M | 12,3 M | -21,5% |
| Suíça | 6,2 M | 13,5 M | +117,4% |
| EUA | 7,3 M | 13,3 M | +81,5% |
| Rússia | 8,2 M | 10,3 M | +25,7% |
| Ucrânia | 1,6 M | 4,1 M | +151,7% |
| Marrocos | 1,2 M | 3,0 M | +154,7% |
| Argélia | 1,7 M | 1,8 M | +8,0% |
O Reino Unido continua a ser o maior destino das exportações da UE, mas perdeu relevância (-21,5%), reforçando o efeito Brexit no comércio bilateral. A Suíça e os EUA tornaram-se mercados muito mais importantes, com crescimentos de 117% e 82%, respetivamente. A Ucrânia e Marrocos também registaram crescimentos espetaculares, ainda que de bases mais reduzidas.
A concentração das importações diminuiu, sinal de diversificação
O índice de concentração HHI para as importações caiu de 2 195 para 1 507 (-31,4% em valor), passando de um nível moderadamente concentrado para um mercado significativamente mais disperso. Isto confirma que a UE diversificou as suas fontes de abastecimento, reduzindo a dependência de fornecedores individuais — embora a China continue claramente dominante.
No que respeita à especialização produtiva dos Estados-Membros, os países do Leste Europeu (Bulgária, Croácia, Polónia) e a França e Portugal mostram os maiores índices de vantagem comparativa revelada, sugerindo que a produção residual da UE se concentra nestes Estados-Membros.
3. Dinâmicas por segmento de produto: algodão ganha terreno às fibras sintéticas
O algodão impulsiona o crescimento das importações
A análise das subposições por matéria têxtil revela que o crescimento das importações é desigual entre tipos de fibra:
| Subposição | Descrição | 2015 (t) | 2025 (t) | Var. (%) | 2015 (€) | 2025 (€) | Var. (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 620891 | Outros artigos, algodão | 8 153 | 11 329 | +39,0% | 84,7 M | 130,2 M | +53,8% |
| 620892 | Outros artigos, sintéticos | 4 105 | 3 920 | -4,5% | 60,1 M | 66,1 M | +10,0% |
| 620821 | Pijamas/camisas noite, algodão | 3 028 | 4 734 | +56,3% | 39,9 M | 86,4 M | +116,4% |
| 620822 | Pijamas/camisas noite, sintéticos | 2 521 | 4 299 | +70,5% | 34,7 M | 81,4 M | +134,7% |
| 620899 | Outros artigos, outras matérias | 289 | 560 | +93,8% | 13,7 M | 25,5 M | +87,1% |
| 620829 | Pijamas/camisas noite, outras matérias | 454 | 318 | -30,0% | 11,4 M | 16,2 M | +42,3% |
| 620811 | Combinações/saiotes, sintéticos | 321 | 150 | -53,3% | 7,6 M | 3,8 M | -50,2% |
Destacam-se dois segmentos em forte crescimento:
- Pijamas e camisas de noite de algodão (620821): +56,3% em peso e +116,4% em valor, com o preço médio por tonelada a subir de €13 185 para €18 240 — um sinal de subida de gama.
- Pijamas e camisas de noite sintéticos (620822): +70,5% em peso e +134,7% em valor, com preços também em forte subida.
Em contraste, os segmentos de combinações e saiotes sintéticos (620811) e pijamas de outras matérias (620829) registaram quedas em volume, sugerindo uma reorientação do consumo e/ou da oferta para produtos de algodão e sintéticos convencionais.
Os preços de importação subiram em praticamente todos os segmentos
A evolução dos preços médios de importação reflete tanto a inflação de custos (matérias-primas, energia, transporte) como uma eventual subida de gama dos produtos importados. Os preços atingiram um pico generalizado em 2022, em plena crise energética e de cadeias de abastecimento pós-COVID, e desde então estabilizaram ou ligeiramente recuaram.
Em preço por peça (unidade suplementar), o algodão para pijamas/camisas de noite subiu de €3,74/pç em 2015 para €5,64/pç em 2025 (+50,8%), e os sintéticos passaram de €3,98/pç para €5,64/pç (+41,7%).
As exportações da UE concentram-se em segmentos de valor acrescentado
Do lado das exportações, o segmento de "outras matérias têxteis" (620899) cresceu de forma notável — de 165 toneladas para 953 toneladas em volume, com um pico de €26,4 milhões em valor em 2024. Os preços de exportação unitários para este segmento são significativamente mais elevados do que os de importação (€21 916/pç vs. preços de importação muito inferiores), o que sugere que a UE exporta sobretudo peças de gama elevada, com matérias-primas nobres (seda, lã, etc.). Esta dinâmica é consistente com a hipótese de que a indústria europeia se reposicionou na parte premium da cadeia de valor.
Choques de preço detetados nos mercados de exportação
A análise de volatilidade e choques revelou três eventos de choque de preço nas exportações:
| Destino | Tipo | Ano central | Variação (%) | Peso no valor (%) |
|---|---|---|---|---|
| Noruega | Preço | 2017 | +30,6% | 5,3% |
| Emirados Árabes | Preço | 2022 | +1 281,6% | 3,3% |
| EUA | Preço | 2022 | +65,5% | 17,7% |
O choque de 2022 nos EUA (65,5% num ano, com 17,7% do valor total de exportações) coincide com a escalada de custos logísticos e energéticos pós-pandemia. O caso dos Emirados Árabes Unidos (+1 281,6%) é um outlier que pode refletir uma alteração na composição do produto exportado ou uma operação atípica de grande volume.
Do lado das importações, os parceiros com maior volatilidade (coeficiente de variação) são Myanmar (CV = 0,90), Reino Unido (CV = 0,82) e Camboja (CV = 0,72) — refletindo, respetivamente, a instabilidade política, o choque do Brexit e as flutuações das preferências comerciais.
Conclusão
A evolução do mercado de roupa interior feminina (CN 6208) na UE entre 2015 e 2025 é uma história de transformação estrutural radical. A produção europeia praticamente desapareceu (-93% em unidades), transformando a UE num bloco quase totalmente dependente de importações (dependência líquida de 80%). As cadeias de abastecimento reconfiguraram-se profundamente: o Brexit expulsou o Reino Unido do mapa das importações, enquanto Bangladesh, Paquistão e Índia emergiram como fornecedores de escala, desafiando o domínio histórico da China e da Turquia.
Os dados sugerem dois modelos paralelos de comércio. Por um lado, a UE importa crescentemente volumes elevados de produtos de preço médio, sobretudo de algodão e fibras sintéticas, provenientes do Sul e Sudeste Asiático. Por outro, mantém uma atividade exportadora residual focada em segmentos de valor acrescentado (matérias têxteis nobres, marcas de luxo), destinada sobretudo à Suíça, EUA e mercados periféricos.
A diversificação geográfica das importações (queda do HHI de 2 195 para 1 507) é uma evolução positiva em termos de redução do risco de dependência. No entanto, o nível absoluto de dependência externa, conjugado com a volatilidade de fornecedores como Myanmar e Camboja e com os choques de preço de 2022, constitui uma vulnerabilidade estratégica para o bloco. A questão que se coloca para a próxima década é se a consolidação das cadeias de valor asiáticas permitirá à UE manter a sua posição de comprador com poder negocial, ou se a crescente distância entre produção e consumo tornará este mercado cada vez mais sujeito a disrupções externas.