Evolução do mercado: Malhas (CN 60) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) em tecidos de malha (posição combinada 60) ao longo do período 2015–2025. Esta posição aduaneira abrange uma família alargada de produtos têxteis — desde veludos e pelúcias (6001) até tecidos de malha-urdidura (6005) e os tecidos de tricô/croché convencionais com largura superior a 30 cm (6006) — e constitui um indicador relevante da competitividade industrial europeia no segmento têxtil. Os dados disponíveis no painel de comércio revelam um período marcado por três dinâmicas estruturais: uma divergência de preços entre importações e exportações, uma reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais, e uma consolidação da produção intra-UE em torno de Itália e de novos polos como a Polónia e a Espanha.
1. O paradoxo do volume estável e da margem crescente
Ao longo da década, o valor total das exportações e importações da UE em tecidos de malha registou quebras modestas (-3,3% e -4,8%, respetivamente), mas as trajetórias de volume e preço revelam dinâmicas bem distintas entre os dois fluxos.
As importações mantiveram o volume enquanto os preços caíram
Em termos de volume, as importações de malhas praticamente não variaram: passaram de 280 074 toneladas em 2015 para 283 723 toneladas em 2025 (+1,3%). No entanto, o preço médio de importação desceu de 5 314 EUR/t para 4 996 EUR/t (-6,0%), reflectindo uma pressão deflacionária proveniente sobretudo de fornecedores asiáticos com custos de produção mais baixos. O valor total das importações situou-se em 1 418 milhões de EUR em 2025, abaixo do máximo de 1 982 milhões registado noutro ponto do período.
As exportações perderam volume mas ganharam em preço
Em contraste, as exportações sofreram uma redução de volume mais acentuada: de 131 903 toneladas para 122 475 toneladas (-7,1%). Contudo, o preço médio de exportação subiu de 11 505 EUR/t para 11 976 EUR/t (+4,1%), o que sugere que a UE se está a reposicionar na gama de valor acrescentado. O preço médio exportado é mais do dobro do preço médio importado (11 976 vs. 4 996 EUR/t em 2025), evidenciando uma especialização em segmentos de maior valor.
A balança comercial melhorou, mas com volatilidade
A balança comercial passou de um superavit de +29 milhões de EUR em 2015 para +49 milhões de EUR em 2025 (+68,8%), embora tenha registado um défice máximo de -88 milhões de EUR nalgum ponto do período. Esta melhoria reflecte sobretudo a subida de preços nas exportações.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor, mil M EUR) | 1 518 | 1 467 | -3,3% |
| Exportações (volume, kt) | 131,9 | 122,5 | -7,1% |
| Exportações (preço, EUR/t) | 11 505 | 11 976 | +4,1% |
| Importações (valor, mil M EUR) | 1 488 | 1 418 | -4,8% |
| Importações (volume, kt) | 280,1 | 283,7 | +1,3% |
| Importações (preço, EUR/t) | 5 314 | 4 996 | -6,0% |
| Balança (mil M EUR) | +29 | +49 | +68,8% |
2. Reorientação geográfica: a ascensão da China e a consolidação do Magrebe
Os parceiros comerciais da UE em tecidos de malha sofreram reconfigurações significativas ao longo do período, tanto do lado das importações como das exportações.
A China tornou-se o fornecedor dominante
Do lado das importações, a China consolidou-se como o principal fornecedor, passando de 480 milhões de EUR em 2015 para 629 milhões de EUR em 2025 (+31,0%), apesar de ter registado um pico de 818 milhões de EUR noutro ponto do período. Em contraste, a Turquia, outrora o maior fornecedor (587 milhões de EUR em 2015), recuou para 438 milhões de EUR (-25,4%). A Coreia do Sul registou a quebra mais acentuada: de 144 milhões para 49 milhões de EUR (-65,9%), sinal de uma perda de competitividade acentuada ou de uma reestruturação das cadeias de abastecimento asiáticas.
| Fornecedor | 2015 (mil M EUR) | 2025 (mil M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 480 | 629 | +31,0% |
| Turquia | 587 | 438 | -25,4% |
| Coreia do Sul | 144 | 49 | -65,9% |
| Reino Unido | 96 | 69 | -28,0% |
| Egipto | 15 | 11 | -27,9% |
| Vietname | 12 | 12 | -1,0% |
| Indonésia | 8 | 7 | -11,4% |
A concentração das importações, medida pelo índice HHI, subiu de 2 769 para 2 983 (+7,7%), reflectindo precisamente esta concentração crescente na China.
O Magrebe consolida-se como destino preferencial das exportações
Do lado das exportações, Marrocos e a Tunísia dominam como principais destinos, com 266 milhões e 224 milhões de EUR em 2025, respetivamente (+19,2% e +4,2%). Estes dois países representam juntos mais de um terço do valor total exportado, funcionando como plataformas de nearshoring onde os tecidos são transformados em confecções para reimportação. A Ucrânia emergiu como destino crescente (+31,5%, de 47 para 62 milhões de EUR), possivelmente reflectindo a integração industrial pré-conflito. Em contraste, as exportações para o Reino Unido caíram acentuadamente (-42,2%, de 112 para 65 milhões de EUR), um efeito provável do Brexit.
| Destino | 2015 (mil M EUR) | 2025 (mil M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Marrocos | 223 | 266 | +19,2% |
| Tunísia | 215 | 224 | +4,2% |
| EUA | 113 | 110 | -2,8% |
| Reino Unido | 112 | 65 | -42,2% |
| Turquia | 63 | 68 | +7,3% |
| Ucrânia | 47 | 62 | +31,5% |
| N.ª Macedónia | 50 | 40 | -20,5% |
Choques e volatilidade nos parceiros de exportação
A análise de volatilidade revela que a Turquia apresenta o maior coeficiente de variação nas exportações (0,55), seguida da Rússia (0,42). Foram detetados choques de preço significativos: em 2022, um choque de preço nas exportações para a Ucrânia (anomalia de 96,0, com subida de 17,8%), coincidindo com o início do conflito; em 2023, um choque nas exportações para a Rússia (anomalia de 8,7, subida de 55,9%), possivelmente ligado a distorções nas sanções; e em 2022, um choque de preço nas exportações para Marrocos (anomalia de 7,3, subida de 16,0%), que sendo o parceiro mais relevante em quota (21,1%) teve impacto significativo no conjunto.
3. Reestruturação industrial intra-UE: Itália consolida a liderança, Polónia e Espanha ascendem
No interior da UE, a produção e o comércio de tecidos de malha sofreram uma profunda reconfiguração, com a concentração da produção em Itália e a emergência de novos polos industriais.
A produção europeia em declínio acentuado
A produção intra-UE de tecidos de malha registou uma contração significativa: em quantidade, de 470 milhões de kg para 323 milhões de kg (-31,4%); em valor, de 3 538 milhões de EUR para 2 326 milhões de EUR (-34,2%). Esta quebra reflecte a pressão competitiva dos fornecedores asiáticos (sobretudo chineses) e a deslocalização de capacidade produtiva.
Itália como pivô central do sector
Itália é simultaneamente o maior importador e o maior exportador de malhas da UE. Em 2025, as suas importações atingiram 451 milhões de EUR (-2,4% face a 2015), enquanto as exportações subiram para 500 milhões de EUR (+10,1%). O seu RSCA (índice de vantagem comparativa normalizado) de 0,48 em 2025 confirma uma especialização significativa. Portugal, com RSCA de 0,64, é o Estado-membro mais especializado (depois de Malta, cujo peso é marginal), reflectindo o peso do sector têxtil na sua economia.
A ascensão da Polónia e da Espanha; o recuo da Alemanha e de França
A Polónia registou o crescimento mais expressivo nas importações: de 78 milhões de EUR em 2015 para 187 milhões de EUR em 2025 (+139,1%), consolidando-se como terceiro maior importador da UE — um sinal do crescimento do seu sector de confecção. Em contraste, a Alemanha (-16,7% nas importações, -26,3% nas exportações) e sobretudo a França (-48,2% nas importações, -30,2% nas exportações) perderam peso significativo, reflectindo possivelmente a deslocalização das suas cadeias têxteis.
A Espanha destaca-se pela combinação de crescimento nas importações (+6,6%) e nas exportações (+36,0%), tornando-se o quarto maior exportador da UE com 210 milhões de EUR em 2025.
| Estado-membro | Imp. 2015 | Imp. 2025 | Δ | Exp. 2015 | Exp. 2025 | Δ |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Itália | 462 | 451 | -2,4% | 454 | 500 | +10,1% |
| Alemanha | 146 | 122 | -16,7% | 298 | 220 | -26,3% |
| Polónia | 78 | 187 | +139,1% | 36 | 43 | +19,3% |
| Espanha | 104 | 111 | +6,6% | 154 | 210 | +36,0% |
| França | 130 | 67 | -48,2% | 265 | 185 | -30,2% |
| Portugal | — | — | — | 36 | 46 | +26,2% |
(Valores em milhões de EUR. Dados completos disponíveis no painel.)
Mudanças na composição segmentar das importações
A análise por segmento de produto revela uma dinâmica interna relevante. O segmento dominante (6006 — tecidos de tricô/croché convencionais >30 cm) manteve o volume estável em termos relativos, embora tenha perdido 8,9% em quantidade (de 133 597 t para 121 672 t). Em contraste, o segmento de veludos e pelúcias (6001) mais do que dobrou em volume: de 23 571 toneladas para 51 522 toneladas (+118,6%), sugerindo um aumento da procura europeia deste tipo de tecido. Os tecidos de malha-urdidura (6005) também cresceram em volume importado (+25,2%).
Do lado das exportações, a composição manteve-se mais estável, com o segmento 6006 (570 milhões de EUR, 46 617 t) a continuar como o mais relevante. Destaca-se o segmento 6004 (tecidos com elastómeros >30 cm), cujas exportações cresceram em valor (+6,6%, para 419 milhões de EUR) apesar de uma queda de volume (-20,8%), evidenciando a subida de preços para este produto especializado.
Conclusão
O mercado europeu de tecidos de malha (CN 60) entre 2015 e 2025 caracteriza-se por uma aparente estabilidade de valores agregados que esconde transformações estruturais profundas. A UE manteve um superavit comercial modesto (+49 milhões de EUR em 2025), sustentado por uma vantagem de preço claro: exporta a 11 976 EUR/t o que importa a 4 996 EUR/t. Esta assimetria reflecte uma especialização progressiva em segmentos de maior valor acrescentado, nomeadamente tecidos com elastómeros (6004) e veludos (6001).
No entanto, subsistem vulnerabilidades. A produção intra-UE contraiu-se mais de 30% em volume, a concentração das importações na China aumentou, e a dependência de plataformas de transformação no Magrebe (Marrocos e Tunísia absorvem mais de um terço das exportações) cria riscos de interrupção na cadeia de valor. Os choques de preço detetados em 2022–2023 — ligados ao conflito na Ucrânia e às sanções sobre a Rússia — demonstram a exposição do sector a disrupções geopolíticas.
A reconfiguração geográfica intra-UE, com a consolidação de Itália, a ascensão da Polónia como polo de transformação e o declínio relativo da Alemanha e de França, sugere uma reorganização da cadeia de valor europeia em direção a economias com custos operativos mais competitivos. O índice de intensidade comercial, que subiu de 47,2% para 80,6%, confirma que o sector se tornou significativamente mais dependente do comércio externo, tornando a monitorização destes fluxos essencial para a formulação de políticas industriais.