Evolução do mercado: Casacos de malha (CN 6102) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código CN 6102 — que abrange casacos compridos (mantôs), capas, anoraques, blusões e artigos semelhantes, de malha, de uso feminino, excluindo os artigos da posição 6104 — no período compreendido entre 2015 e 2025. A análise baseia-se em dados anuais de importações e exportações da UE com países terceiros, abrangendo valores, quantidades, preços, parceiros comerciais e estrutura sectorial. Este período é particularmente relevante por ter sido marcado por eventos estruturais como o Brexit (2020–2021), a pandemia de COVID-19, a guerra na Ucrânia e alterações nas cadeias de abastecimento têxtil global. Os dados revelam um setor em profunda transformação, com crescimento significativo das importações, reconfiguração geográfica dos fornecedores e uma gradual especialização europeia na produção de maior valor acrescentado.
1. Aumento do déficit comercial e crescente dependência das importações
O crescimento das importações superou significativamente o das exportações
Ao longo da década analisada, as importações da UE de casacos de malha femininos cresceram de forma expressiva. Em termos de valor, as importações passaram de 683,8 milhões de euros em 2015 para 1 178,8 milhões de euros em 2025, registando um aumento de 72,4%. As exportações, por seu lado, cresceram de 195,8 milhões de euros para 334,0 milhões de euros (+70,6%). Embora as taxas de crescimento em valor sejam semelhantes, a diferença absoluta é substancial: o déficit comercial agravou-se de -488,0 milhões de euros para -844,9 milhões de euros, uma deterioração de 73,1% (dados gerais de comércio).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor das importações (milhões €) | 683,8 | 1 178,8 | +72,4% |
| Valor das exportações (milhões €) | 195,8 | 334,0 | +70,6% |
| Saldo comercial (milhões €) | -488,0 | -844,9 | -73,1% |
O volume importado duplicou enquanto os preços médios de importação diminuíram
Uma dinâmica particularmente reveladora é a evolução divergente entre volume e preço. A quantidade importada (em toneladas) duplicou, passando de 37 382 toneladas para 75 851 toneladas (+102,9%), enquanto o preço médio por tonelada desceu 15,0%, de 18 291 €/t para 15 540 €/t. Isto sugere que a UE está a importar volumes muito superiores a preços unitários mais baixos, o que é consistente com a crescente penetrazione de fornecedores asiáticos de baixo custo. Em termos de unidades complementares, as importações cresceram de 73,0 milhões para 114,8 milhões de unidades (+57,3%) (dados gerais).
A dependência líquida de importações acentuou-se
O indicador de dependência líquida de importações (net import reliance) subiu de 45,4% em 2015 para 63,8% em 2025, atingindo um máximo de 84,0% em 2022 — refletindo o impacto combinado da recuperação pós-pandemia e das disrupções nas cadeias de abastecimento. A intensidade comercial (trade intensity) cresceu de 67,9% para 96,2%, confirmando que o comércio internacional se tornou ainda mais central para este segmento de produto (indicadores de autonomia e vulnerabilidade).
2. Diversificação geográfica das importações: a ascensão do Sueste Asiático
A China mantém a liderança mas perde quota relativa
A China continua a ser o principal fornecedor extra-UE de casacos de malha femininos, com importações a crescerem de 325,7 milhões de euros em 2015 para 405,0 milhões de euros em 2025 (+24,4%). No entanto, a sua quota relativa no total das importações diminuiu significativamente: de cerca de 47,6% para 34,4%. O crescimento mais moderado da China em comparação com outros fornecedores reflete a diversificação estratégica das cadeias de abastecimento europeias (principais parceiros de importação).
Camboja, Mianmar e Paquistão registam crescimento explosivo
Os dados revelam uma mudança tectónica na geografia das importações. O Camboja passou de 69,0 milhões de euros para 235,1 milhões de euros (+240,9%), tornando-se o terceiro maior fornecedor. Mianmar apresentou o crescimento mais espetacular, de 6,7 milhões para 85,6 milhões de euros (+1 183,6%), impulsionado pela abertura comercial do país e pelos baixos custos laborais. O Paquistão cresceu de 13,1 milhões para 45,6 milhões de euros (+246,9%). O Vietname duplicou as suas exportações para a UE (+122,5%), e o Bangladesh cresceu 90,6%, atingindo 151,9 milhões de euros em 2025.
| Parceiro | 2015 (M €) | 2025 (M €) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 325,7 | 405,0 | +24,4% |
| Bangladesh | 79,7 | 151,9 | +90,6% |
| Camboja | 69,0 | 235,1 | +240,9% |
| Mianmar | 6,7 | 85,6 | +1 183,6% |
| Vietname | 31,6 | 70,4 | +122,5% |
| Paquistão | 13,1 | 45,6 | +246,9% |
| Turquia | 39,3 | 53,7 | +36,6% |
A concentração das importações diminuiu significativamente
O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor desceu de 2 610 para 1 886 (-27,8%), confirmando uma diversificação real das fontes de abastecimento. Em 2015, a concentração era elevada e dominada pela China; em 2025, os fornecedores do Sueste Asiático ganharam uma quota considerável, tornando a base de importação mais equilibrada. Esta evolução é consistente com as estratégias de redução de risco adotadas pelas empresas europeias do setor têxtil, particularmente após a pandemia (concentração HHI).
As fibras sintéticas dominam cada vez mais o segmento das importações
A decomposição por subcategoria revela que os casacos de fibras sintéticas ou artificiais (CN 610230) dominam esmagadoramente as importações, com um crescimento de 21 987 toneladas em 2015 para 58 039 toneladas em 2025 — representando cerca de 76,5% do volume total importado em 2025, contra 58,8% em 2015. Os casacos de algodão (CN 610220) cresceram mais modestamente (de 14 244 para 16 770 toneladas), enquanto os de lã (CN 610210) permaneceram em volumes residuais (cerca de 759 toneladas). Esta dominância das fibras sintéticas reflete as tendências globais de moda fast fashion e athleisure (segmentação por produto).
3. Transformação da indústria europeia: menos volume, mais valor
A produção europeia reduziu em volume mas duplicou em valor
Os dados de produção da UE revelam uma transformação estrutural profunda. A quantidade produzida (em unidades) diminuiu de 9,3 milhões para 6,4 milhões de unidades (-30,7%), atingindo um mínimo de 3,1 milhões em 2020 — ano da pandemia. Contudo, o valor da produção subiu de 174,4 milhões de euros para 396,2 milhões de euros (+127,2%), com um pico de 429,3 milhões de euros. Isto implica que o valor médio por unidade produzida triplicou, passando de cerca de 18,7 €/unidade para 61,4 €/unidade, sinalizando uma clara reorientação para segmentos de maior valor acrescentado (dados de produção).
As exportações europeias migram para mercados premium
O preço médio de exportação por tonelada cresceu de 46 562 €/t para 56 342 €/t (+21,0%), enquanto o preço médio de importação desceu. Esta divergência de preços — exportações cada vez mais caras, importações cada vez mais baratas — confirma que a UE se está a especializar na produção de casacos de malha femininos de gama mais alta, enquanto delega a produção de volume para fornecedores asiáticos. O preço de exportação por unidade cresceu de 25,87 €/unidade para 35,94 €/unidade (+38,9%) (dados gerais).
A geografia das exportações reconfigurou-se radicalmente
A reconfiguração dos destinos de exportação reflete os choques geopolíticos da década. O Reino Unido, maior destino em 2015 com 69,6 milhões de euros, viu as exportações da UE caírem para 34,0 milhões de euros (-51,1%) — uma consequência direta do Brexit e das novas barreiras comerciais. Em contraste, a Suíça tornou-se o maior destino de exportação, com um crescimento de 26,2 milhões para 62,4 milhões de euros (+138,3%). A Turquia registou o crescimento mais acentuado (+459,6%), passando a 44,6 milhões de euros, o que pode refletir tanto o comércio bilateral como o papel da Turquia como plataforma logística. As exportações para a Rússia caíram 53,6%, refletindo as sanções impostas após 2022. A Polónia emergiu como um exportador europeu relevante, com crescimento de 1 001,3%, passando de 2,0 milhões para 22,3 milhões de euros — evidenciando a sua crescente integração nas cadeias de valor têxteis europeias (principais parceiros de exportação).
| Destino de exportação | 2015 (M €) | 2025 (M €) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 69,6 | 34,0 | -51,1% |
| Suíça | 26,2 | 62,4 | +138,3% |
| Turquia | 8,0 | 44,6 | +459,6% |
| Federação Russa | 15,5 | 7,2 | -53,6% |
| Noruega | 4,1 | 10,4 | +153,7% |
| Estados Unidos | 14,2 | 24,4 | +72,1% |
| Ucrânia | 2,2 | 8,3 | +279,5% |
Espanha e Itália consolidam-se como hubs de importação e distribuição
Entre os Estados-Membros, destaca-se o crescimento exponencial das importações de Espanha (de 78,1 milhões para 316,3 milhões de euros, +304,8%) e de Itália (de 31,8 milhões para 95,8 milhões de euros, +201,2%). A Alemanha, apesar de continuar como o maior importador em valor absoluto (343,0 milhões de euros), registou um crescimento muito modesto (+36,6%). Do lado das exportações, a França (+265,4%) e a Polónia (+1 001,3%) destacam-se como as economias com maior dinamismo exportador, sugerindo o surgimento de novos polos de produção têxtil de valor na Europa Central e Ocidental (principais países da UE).
Conclusão
O mercado europeu de casacos de malha femininos (CN 6102) experimentou, entre 2015 e 2025, uma transformação profunda em múltiplas dimensões. Em primeiro lugar, o déficit comercial agravou-se significativamente, com as importações a crescerem em volume muito mais do que em valor, refletindo a pressão deflacionária dos fornecedores asiáticos de baixo custo. Em segundo lugar, observou-se uma nítida diversificação geográfica das fontes de abastecimento: embora a China permaneça o principal fornecedor, o Camboja, Mianmar, o Bangladesh, o Vietname e o Paquistão ganharam quotas consideráveis, reduzindo a concentração das importações. Em terceiro lugar, a indústria europeia reorientou-se claramente para segmentos de maior valor acrescentado — produzindo menos unidades mas a preços significativamente mais elevados — enquanto os fluxos de exportação se reconfiguraram em resposta ao Brexit, às sanções à Rússia e ao crescimento de novos mercados como a Suíça e a Turquia. A crescente dependência líquida de importações (de 45% para 64%) constitui um fator de vulnerabilidade estratégica, embora a especialização europeia em produtos de gama mais alta e a diversificação das origens de importação atenuem parcialmente este risco. Os dados sugerem, em síntese, uma indústria europeia que cedeu a produção de volume ao exterior mas que reforçou a sua posição na cadeia de valor através da diferenciação e da qualidade.