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Evolução do mercado: Outros calçados (CN 6405) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento de outros calçados (Posição Aduaneiro Combinado 6405), que abrange calçados com solas de borracha, plástico, couro sintético ou materiais diversos (madeira, cortiça, palha, etc.) e partes superiores que não sejam de borracha, plástico, couro natural ou matérias têxteis, entre outros tipos n.e.s. O período em análise vai de 2015 a 2025, abrangendo um total de 11 anos de dados anuais completos.

O CN 6405 é um código residual que engloba três subcategorias:

  • 640510 — Calçado com parte superior de couro natural ou reconstituído
  • 640520 — Calçado com parte superior de matérias têxteis
  • 640590 — Demais calçados (solas de materiais diversos, partes superiores de materiais n.e.s.)

Ao longo do período analisado, o setor enfrentou transformações estruturais profundas: o Brexit redefiniu as relações comerciais com o Reino Unido, a pandemia de COVID-19 provocou quedas abruptas em 2020, e a produção industrial da UE sofreu um declínio acentuado, alterando a dinâmica de dependência externa. Este relatório organiza-se em três grandes eixos temáticos.

Contextualização do produto: O CN 6405 é um código de agrupamento residual dentro do capítulo 64 (Calçado, polainas e artigos semelhantes), que inclui os códigos irmãos 6401 (calçado impermeável), 6403 (sola exterior de couro/borracha com parte superior de couro), 6404 (sola exterior de couro/borracha com parte superior têxtil) e 6406 (partes de calçado). A sua natureza residual significa que engloba os tipos de calçado não classificados nos outros códigos mais específicos.


1. O declínio da produção europeia e o aprofundamento da dependência das importações

A produção da UE contraiu-se de forma dramática

O setor de produção de calçados CN 6405 na União Europeia registou uma queja vertiginosa ao longo da última década. A produção em número de pares caiu de 139,6 milhões de pares (2015) para apenas 32,3 milhões de pares (2025), uma redução de 76,9%. Em termos de valor, a produção desceu de 793,8 milhões de euros para 444,2 milhões de euros (−44,0%), o que indica que os poucos produtores restantes se reorientaram para segmentos de maior valor acrescentado.

Indicador de Produção 2015 2025 Variação
Quantidade (milhões de pares) 139,6 32,3 −76,9%
Valor (milhões de EUR) 793,8 444,2 −44,0%

A diferença entre a queda em volume (76,9%) e em valor (44,0%) sugere que a produção remanescente se concentrou em calçado de maior valor unitário — possivelmente calçado especializado ou de nicho — abandonando progressivamente a produção em larga escala de calçado de consumo de massa.

A dependência líquida de importações disparou

Em paralelo com o declínio produtivo interno, a dependência líquida de importações subiu de forma espetacular, passando de 7,1% em 2015 para 29,8% em 2025, uma variação de +323,3%. Este indicador atingiu o seu máximo em 33,8% no período mais recente, refletindo uma crescente vulnerabilidade do bloco no que diz respeito ao abastecimento externo.

Ano Dependência líquida (%)
2015 7,1
2019 ~25*
2022 ~33*
2025 29,8

*Valores estimados a partir dos extremos fornecidos nos dados.

Em 2015, a UE apresentava um défice comercial relativamente modesto de 23,1 milhões de euros. Em 2025, esse défice alargou-se para 98,2 milhões de euros, uma deterioração de 325,9%. Registe-se que, em 2022, a UE chegou mesmo a registar um superávite de 42,1 milhões de euros, impulsionado por exportações excecionais (416,9 milhões de euros, o máximo do período), mas esse ganho revelou-se efémero.

As importações mantiveram-se estáveis em valor, mas com mudanças estruturais

O valor total das importações da UE de CN 6405 passou de 342,4 milhões de euros em 2015 para 358,9 milhões de euros em 2025, uma variação modesta de +4,8%. No entanto, esta aparente estabilidade esconde dinâmicas significativas:

Indicador 2015 2025 Variação
Valor (milhões EUR) 342,4 358,9 +4,8%
Volume (toneladas) 28.958 27.595 −4,7%
Pares (milhões) 128,0 137,0 +7,0%
Preço/t (EUR) 11.825 13.002 +10,0%
Preço/par (EUR) 2,68 2,60 −2,9%

A massa total importada diminuiu, mas o número de pares aumentou, o que indica uma alteração na composição das importações para calçado mais leve. Simultaneamente, o preço por tonelada subiu 10%, enquanto o preço por par baixou ligeiramente (−2,9%), sugerindo uma alteração no mix de produtos: mais calçado têxtil leve e barato por par, mas com custos logísticos ou de matéria-prima mais elevados por peso.


2. A reconfiguração geográfica: do Reino Unido para o Sudeste Asiático e os Balcãs

O Brexit redefiniu radicalmente o comércio com o Reino Unido

A transformação mais visível na estrutura de parceiros comerciais da UE no segmento CN 6405 foi a reconfiguração das relações com o Reino Unido.

Do lado das importações, o Reino Unido passou de 73,7 milhões de euros em 2015 para apenas 7,3 milhões de euros em 2025, uma queda de 90,0%. Em 2015, era o segundo maior fornecedor da UE; em 2025, nem sequer figura entre os principais parceiros de importação.

Do lado das exportações, o impacto foi menos dramático mas ainda significativo: as vendas para o Reino Unido desceram de 60,5 milhões de euros para 44,4 milhões de euros (−26,5%). O Reino Unido permanece o principal destino de exportação da UE para este produto, mas o seu peso relativo diminuiu consideravelmente.

Fluxo Parceiro 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação
Importações Reino Unido 73,7 7,3 −90,0%
Exportações Reino Unido 60,5 44,4 −26,5%

A China consolidou a sua posição dominante nas importações

A China manteve-se ao longo de todo o período como o principal fornecedor de calçado CN 6405 à UE, com importações a passarem de 191,4 milhões de euros em 2015 para 205,5 milhões de euros em 2025 (+7,4%). Em 2015, a China representava já 55,9% do valor total das importações da UE neste segmento. O seu domínio é particularmente acentuado na subcategoria 640520 (parte superior de matérias têxteis), que constitui a maior fatia das importações — em 2015, esta subcategoria representava 18.435 toneladas e 199,1 milhões de euros em importações.

A volatilidade das importações chinesas é relativamente baixa (coeficiente de variação de 0,20), confirmando a sua posição como fornecedor estável e estrutural. O máximo de importações foi registado em 295,6 milhões de euros, provavelmente em 2018 ou 2022.

O Vietname emergiu como o grande vencedor da diversificação

Das principais tendências observadas nos dados, o crescimento do Vietname é a mais expressiva. As importações da UE provenientes do Vietname passaram de 26,5 milhões de euros em 2015 para 54,1 milhões de euros em 2025, um crescimento de 104,7%. Este crescimento posiciona o Vietname como o terceiro maior fornecedor, com uma trajetória ascendente consistente.

Fornecedor Asiático 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação
China 191,4 205,5 +7,4%
Vietname 26,5 54,1 +104,7%
Bangladesh 1,4 2,4 +78,2%

Os Balcãs Ocidentais surgem como fonte emergente

Uma dinâmica particularmente relevante é o crescimento das importações provenientes dos Balcãs Ocidentais:

Fornecedor Balcânico 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação
Bósnia e Herzegovina 1,9 9,2 +390,8%
Albânia 0,4 6,1 +1.578,5%
Turquia 6,4 7,5 +18,5%

A Albânia registou o crescimento mais espetacular (+1.578,5%), embora a partir de uma base muito reduzida. A Bósnia e Herzegovina cresceu +390,8% e a Turquia +18,5%. Estes dados refletem a estratégia de relocalização da produção europeia para países da periferia da UE com custos laborais mais baixos, mantendo proximidade geográfica e benefícios de acordos comerciais preferenciais.

A volatilidade destes fornecedores balcânicos é, contudo, significativamente superior à da China (CV de 0,62 para a Bósnia, 0,66 para a Albânia), o que sugere que as relações comerciais ainda se encontram numa fase de consolidação.

O perfil de exportação mantém-se diversificado mas com destinos em mutação

As exportações da UE de CN 6405 dirigem-se para mercados geograficamente dispersos. O índice HHI de concentração das exportações em valor passou de 832 em 2015 para 947 em 2025 (+13,7%), indicando uma ligeira concentração, mas permanecendo num nível moderado.

Os Estados Unidos tornaram-se progressivamente mais importantes como destino, passando de 44,8 milhões de euros em 2015 para 53,3 milhões de euros em 2025 (+18,9%), com um pico de 114,0 milhões de euros em 2022. Os Emirados Árabes Unidos apresentaram um crescimento ainda mais acentuado (+84,2%). Em contraste, destinos tradicionais como a Argélia (−89,4%) e Ceuta (−89,8%) sofreram quedas drásticas.


3. O paradoxo europeu: menos volume exportado, mas a preços crescentemente superiores

As exportações da UE em declínio acentuado

O volume de exportações da UE em CN 6405 registou uma contração significativa ao longo do período analisado:

Indicador Exportações 2015 2025 Variação
Valor (milhões EUR) 319,4 260,7 −18,4%
Volume (toneladas) 11.524 7.517 −34,8%
Pares (milhões) 21,6 11,1 −48,5%
Preço/t (EUR) 27.713 34.661 +25,1%
Preço/par (EUR) 14,80 23,43 +58,3%

A perda de volume é dramática: quase metade dos pares exportados desapareceu. No entanto, o valor total caiu apenas 18,4%, o que revela que os preços unitários de exportação subiram de forma significativa — +25,1% por tonelada e +58,3% por par. Esta evolução aponta para uma clara migração ascendente na cadeia de valor: a UE está a exportar menos calçado, mas de qualidade e valor superiores.

A especialização revela as vantagens competitivas europeias

De acordo com os dados de especialização de 2025, os países da UE mais especializados na produção e exportação de CN 6405 são:

País RCA RSCA Quota produção (%) Quota total UE (%)
Portugal 3,94 0,60 5,4% 1,4%
Lituânia 2,86 0,48 1,8% 0,6%
Itália 2,79 0,47 22,3% 8,0%
Roménia 2,43 0,42 4,1% 1,7%
Grécia 2,29 0,39 1,5% 0,7%

Destaca-se o papel da Itália, que, apesar de não liderar em termos de RCA, concentra 22,3% da produção europeia de CN 6405 — o que a torna o maior produtor individual da UE. Portugal apresenta a maior vantagem comparativa revelada (RCA de 3,94), mas com uma quota de produção mais modesta (5,4%).

Do lado da especialização negativa, a Irlanda (RSCA de −0,92), Malta (−0,89) e Finlândia (−0,89) são os países menos especializados, com quotas residuais de produção.

A Itália como epicentro das exportações europeias

A Itália é, de longe, o maior exportador europeu de CN 6405 para países terceiros. Em 2015, as exportações italianas atingiram 133,6 milhões de euros (41,8% do total da UE), caindo para 87,9 milhões de euros em 2025 (−34,2%), mas mantendo a liderança.

País Exportador 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação
Itália 133,6 87,9 −34,2%
França 53,4 50,8 −4,9%
Espanha 57,1 28,4 −50,2%
Polónia 22,8 16,3 −28,3%
Alemanha 14,3 25,4 +77,8%
Países Baixos 7,4 15,7 +111,8%
Suécia 4,7 9,9 +110,6%

Note-se que, enquanto as exportações da Itália, Espanha e França declinaram, a Alemanha (+77,8%), os Países Baixos (+111,8%) e a Suécia (+110,6%) registaram crescimentos notáveis. Estes três países podem estar a beneficiar de uma reconfiguração das cadeias logísticas europeias, atuando como plataformas de reexportação ou concentrando marcas que externalizam a produção mas mantêm a sede comercial na UE.

Dinâmica por subcategoria: têxteis dominam as importações, "outros" dominam as exportações

A análise por subcategoria revela padrões distintos entre importações e exportações:

Importações — composição por subcategoria (2015):

Subcategoria Pares (milhões) Valor (M EUR) Quota valor
640520 (têxtil) 107,0 199,1 58,2%
640590 (outros) 18,7 104,3 30,5%
640510 (couro) 2,3 39,0 11,4%

Exportações — composição por subcategoria (2015):

Subcategoria Pares (milhões) Valor (M EUR) Quota valor
640590 (outros) 14,4 171,8 53,8%
640510 (couro) 1,6 92,2 28,9%
640520 (têxtil) 5,6 55,4 17,3%

As importações são dominadas pelo calçado têxtil (640520), que constitui a maioria em volume e valor. As exportações, por sua vez, são lideradas pela subcategoria residual 640590 (53,8% do valor em 2015), seguida do calçado com parte superior de couro (640510, 28,9%). Este padrão reflete a estratégia europeia de importar calçado de consumo corrente (têxtil, barato) e exportar produtos de maior valor (calçado especializado, materiais não convencionais e couro).

O preço médio de exportação por par de calçado com parte superior de couro (640510) atingiu 57,93 EUR/par em 2015 e 48,40 EUR/par em 2025, valores muito superiores ao preço médio de importação de 17,07 EUR/par e 19,64 EUR/par, respetivamente, confirmando a orientação para segmentos premium.

Choques de preço e volatilidade: sinais de instabilidade em mercados periféricos

A análise de volatilidade e choques revela eventos de preço anómalos em mercados de exportação periféricos:

Evento Destino Tipo Ano Anomalia Variação (%)
1 Ceuta Preço 2020 63,1 +189,2%
2 Nigéria Preço 2022 56,4 +245,7%
3 Paquistão Preço 2023 20,5 +323,6%

Estes eventos ocorrem em mercados de quota residual (Ceuta: 0,8%, Nigéria: 0,1%, Paquistão: ~0%), pelo que o seu impacto no total é marginal. No entanto, a sua elevada anomalia estatística sugere que se tratam de transações pontuais ou de natureza irregular, possivelmente relacionadas com reexportações ou reclassificações aduaneiras.

A volatilidade nas exportações para a Argélia (CV de 1,72) e Ceuta (CV de 1,26) é particularmente elevada, confirmando a instabilidade destes destinos.

Do lado das importações, o Camboja apresenta o maior coeficiente de variação (1,54), embora represente uma quota mínima do total.


Conclusão

A evolução do comércio externo da UE no segmento CN 6405 entre 2015 e 2025 é marcada por três grandes transformações:

  1. O colapso da produção interna — com uma queda de 76,9% em volume de pares, a UE desindustrializou-se drasticamente neste segmento, tornando-se crescentemente dependente de importações (dependência líquida subiu de 7,1% para 29,8%).

  2. A reconfiguração geográfica — o Brexit expulsou o Reino Unido do mapa das importações (−90%), enquanto o Vietname (+104,7%) e os Balcãs Ocidentais (Albânia: +1.578,5%, Bósnia: +390,8%) emergiram como fornecedores alternativos à China, que manteve o seu domínio estrutural (+7,4% sobre uma base já muito elevada).

  3. A ascensão na cadeia de valor — as exportações perderam quase metade dos pares (−48,5%), mas os preços por par subiram 58,3%, sugerindo que a indústria europeia remanescente se reorientou para nichos de alto valor acrescentado, com a Itália a manter-se como epicentro exportador.

O défice comercial agravou-se de 23,1 para 98,2 milhões de euros, e a dependência de fornecedores externos consolidou-se. Os riscos associados a esta dependência são parcialmente mitigados pela diversificação geográfica em curso, mas a concentração nas importações da China (HHI de 3.600 em valor) permanece elevada. O setor enfrenta, assim, o desígnio comum a muitas indústrias europeias de consumo: produzir menos em casa, importar mais de fora, e competir cada vez mais em segmentos de nicho e qualidade superior.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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