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Evolução do mercado: Calçados de couro (CN 6403) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) com países terceiros para o código pautal CN 6403 — Calçado com sola exterior de borracha, plástico, couro natural ou reconstituído e parte superior de couro natural — ao longo do período 2015–2025. Esta posição pautal abrange um leque alargado de subprodutos, desde calçado desportivo (640319) até calçado casual com sola de borracha ou plástico (640399), passando por calçado de segurança com biqueira metálica (640340) e calçado clássico de sola de couro (640359).

A análise incide sobre três eixos fundamentais: (i) a evolução dos preços e a crescente premiumização das exportações europeias; (ii) a reconfiguração das parcerias comerciais impulsionada por choques geopolíticos como o Brexit e as sanções à Rússia; e (iii) o declínio acentuado da produção europeia e a consequente intensificação da abertura comercial da UE. Os dados dizem respeito exclusivamente ao comércio da UE com países terceiros, excluindo o comércio intra-UE.


1. Premiumização e expansão do superávite comercial

1.1 Exportações que ganham valor apesar da contração de volumes

Ao longo da década analisada, o comércio externo de calçado de couro da UE caracterizou-se por uma clara dissociação entre a evolução do valor e a evolução dos volumes. As exportações da UE cresceram 19,7 % em valor (de 7 482 M€ para 8 956 M€), mas recuaram 12,9 % em número de pares (de 144,5 milhões para 125,9 milhões). Em termos de massa líquida, a queda foi ainda mais acentuada: −17,4 %, de 120 340 toneladas para 99 343 toneladas.

Indicador 2015 2025 Variação
Valor das exportações 7 482 M€ 8 956 M€ +19,7 %
Pares exportados 144,5 M 125,9 M −12,9 %
Preço médio por par (exportação) 51,77 € 71,13 € +37,4 %
Valor das importações 7 239 M€ 7 318 M€ +1,1 %
Pares importados 427,2 M 376,2 M −11,9 %
Preço médio por par (importação) 16,94 € 19,45 € +14,8 %
Saldo comercial 244 M€ 1 638 M€ +572,5 %

O preço médio de exportação subiu de 51,77 €/par para 71,13 €/par (+37,4 %), enquanto o preço médio de importação apenas aumentou de 16,94 €/par para 19,45 €/par (+14,8 %). A rácio entre o preço médio de exportação e de importação passou assim de 3,1 para 3,7, sinalizando que a UE se reposicionou de forma crescente na gama alta do mercado global de calçado de couro.

1.2 Um superávite comercial em expansão contínua

Em resultado destas dinâmicas, o saldo comercial da UE passou de um excedente modesto de 244 M€ em 2015 para 1 638 M€ em 2025 — uma variação de +572,5 %. O pico atingiu os 2 285 M€, impulsionado por exportações recorde de 9 623 M€ num único ano. Apesar de o valor das importações se ter mantido praticamente estável ao longo do período (crescimento de apenas 1,1 %), o valor das exportações cresceu quase 20 %, consolidando a posição da UE como exportador líquido de calçado de couro de valor acrescentado.

O índice de dependência líquida de importações passou de −11,4 % para −19,4 %, confirmando o reforço da posição exportadora líquida da UE. O valor mais negativo registado ao longo do período foi de −24,2 %, evidenciando que em nenhum momento a UE se aproximou de uma posição de dependência importadora líquida para este produto.

1.3 Transformação da estrutura por segmento de produto

A análise por segmento de produto revela uma transformação profunda na composição do comércio. O segmento dominante — calçado casual com sola de borracha ou plástico e parte superior de couro (640399) — concentrou o grosso do crescimento em ambos os fluxos:

Segmento (CN 8 dígitos) Importações 2015 (t) Importações 2025 (t) Variação Exportações 2015 (t) Exportações 2025 (t) Variação
640399 — Calçado casual 182 008 247 036 +35,7 % 54 852 64 593 +17,8 %
640391 — Cobrindo o tornozelo 106 655 77 154 −27,7 % 27 938 16 095 −42,4 %
640340 — Com biqueira metálica 38 573 41 204 +6,8 % 8 172 4 840 −40,8 %
640319 — Desportivo 17 363 5 069 −70,8 % 6 028 2 616 −56,6 %
640359 — Sola e parte superior de couro 8 360 3 095 −63,0 % 17 362 8 491 −51,1 %
640351 — Couro, cobrindo o tornozelo 3 576 1 768 −50,6 % 5 635 2 208 −60,8 %
640320 — Sandálias de tiras 592 160 −73,0 % 270 383 +41,9 %

Enquanto o segmento 640399 cresceu em ambos os fluxos, os segmentos mais tradicionais — como o calçado de sola e parte superior inteiramente em couro (640359) e o calçado desportivo (640319) — registaram quedas acentuadas, tanto em importações como em exportações.

A premiumização é particularmente visível nos segmentos de maior valor. Nas exportações do segmento 640359, o preço médio por tonelada subiu de 123 168 €/t para 202 702 €/t (+64,6 %); no segmento 640351, de 94 970 €/t para 159 138 €/t (+67,5 %). Estes dois segmentos, apesar de volumes em forte queda, representam o calçado europeu de maior valor unitário e evidenciam a aposta da indústria europeia no segmento premium.


2. Choques geopolíticos e reconfiguração das parcerias

2.1 O impacto profundo do Brexit no comércio com o Reino Unido

O Reino Unido, que em 2015 era o principal destino das exportações da UE de calçado de couro (1 601 M€) e um importante fornecedor (723 M€), viu o seu peso reduzir-se drasticamente. As exportações para o Reino Unido caíram 35,3 %, para 1 037 M€ em 2025, enquanto as importações recuaram 69,7 %, de 723 M€ para apenas 219 M€.

Fluxo 2015 2025 Variação
Exportações da UE para o RU 1 601 M€ 1 037 M€ −35,3 %
Importações da UE do RU 723 M€ 219 M€ −69,7 %

O Reino Unido passou do 1.º ao 2.º lugar nos destinos de exportação (ultrapassado pelos EUA) e do 5.º ao 7.º lugar nas importações. A volatilidade associada ao comércio com o Reino Unido é a mais elevada de todos os parceiros, com um coeficiente de variação de 0,81 nas importações — evidência de um choque estrutural e não apenas de uma flutuação conjuntural.

Em 2021, detetou-se um choque de preço nas importações do Reino Unido com uma anormalidade de 133,7 e uma variação de +161,3 %, o choque mais significativo de todo o período, refletindo os efeitos imediatos do Brexit na reconfiguração das cadeias de abastecimento e no aumento dos custos de transação.

2.2 A ascensão do Vietname como segundo fornecedor asiático

Enquanto a China manteve a sua posição de maior fornecedor de calçado de couro à UE (de 1 718 M€ em 2015 para 1 792 M€ em 2025, +4,3 %), o Vietname registou o crescimento mais expressivo entre os principais fornecedores, passando de 1 175 M€ para 1 896 M€ (+61,3 %). O Vietname tornou-se assim o segundo maior fornecedor, ultrapassando a Índia (estável, de 807 M€ para 771 M€, −4,5 %) e a Indonésia (em recuo, de 737 M€ para 607 M€, −17,7 %).

Fornecedor asiático 2015 2025 Variação
China 1 718 M€ 1 792 M€ +4,3 %
Vietname 1 175 M€ 1 896 M€ +61,3 %
Índia 807 M€ 771 M€ −4,5 %
Indonésia 737 M€ 607 M€ −17,7 %

Estas dinâmicas refletem a diversificação das cadeias de abastecimento globais do setor do calçado, com uma clara migração de capacidade produtiva para o Vietname. Em 2022, detetou-se ainda um choque de preço nas importações do Vietname (anormalidade de 4,9, variação de +13,3 %), refletindo os ajustamentos de preço associados à reorientação das cadeias de abastecimento pós-pandemia e à crescente procura europeia por este fornecedor.

2.3 Consolidação dos EUA e perda da Rússia como mercados de exportação

Do lado das exportações, a transformação mais marcante ocorreu em dois mercados. Os Estados Unidos tornaram-se o principal destino das exportações da UE, com um crescimento de 53,2 % (de 1 373 M€ para 2 103 M€), consolidando a procura norte-americana por calçado europeu de gama alta. As exportações para a Suíça cresceram 10,0 % (de 1 048 M€ para 1 152 M€), mantendo-se como terceiro mercado.

Em contraste, as exportações para a Rússia caíram 52,6 % (de 564 M€ para 268 M€), refletindo o impacto das sanções económicas. Em 2022, detetou-se um choque de preço nas exportações para a Rússia com uma variação de −11,4 % e uma anormalidade de 6,3, coincidindo com a imposição de sanções alargadas.

Paralelamente, as exportações para a China cresceram 177,1 % (de 319 M€ para 885 M€) e para a Turquia 117,3 % (de 166 M€ para 360 M€), evidenciando o crescimento da procura de calçado europeu premium nestes mercados de rendimento crescente.

A concentração das importações (HHI) aumentou 24,0 % (de 1 225 para 1 520), sinalizando maior dependência de um número mais reduzido de fornecedores. Em contrapartida, a concentração das exportações diminuiu 6,7 % (de 1 154 para 1 078), indicando uma ligeira diversificação dos mercados de destino, com a China e a Turquia a ganharem peso.


3. Queda da produção europeia e intensificação da abertura comercial

3.1 O colapso dos volumes de produção na UE

A produção europeia de calçado de couro sofreu uma queda dramática ao longo do período analisado. O volume de produção caiu 62,5 %, de 631,8 milhões de pares em 2015 para 237,2 milhões de pares em 2025. O valor de produção diminuiu em proporção muito menor (−15,8 %, de 12 601 M€ para 10 612 M€), o que implica que o preço médio de produção por par mais do que duplicou ao longo do período.

Indicador 2015 2025 Variação
Produção (pares) 631,8 M 237,2 M −62,5 %
Produção (valor) 12 601 M€ 10 612 M€ −15,8 %

Esta evolução sugere uma seletividade crescente na produção europeia: as fábricas da UE abandonaram progressivamente a produção de volume para se concentrarem em calçado de maior valor unitário, onde a vantagem comparativa europeia — design, materiais premium, marca — permanece mais sólida. A produção europeia de calçado de couro deslocou-se claramente para a gama alta, com os fabricantes a cederem o mercado de volume aos produtores asiáticos.

3.2 Propensão exportadora e intensidade comercial em máximos históricos

O declínio produtivo teve como consequência direta uma intensificação sem precedentes da abertura comercial da UE neste setor. A intensidade comercial (soma de exportações e importações relativa à produção) quase duplicou, passando de 54,7 % para 96,0 % (+75,5 %). A propensão exportadora (exportações relativas à produção) registou uma variação ainda mais impressionante, de 40,8 % para 93,0 % (+127,6 %).

Indicador 2015 2025 Variação
Intensidade comercial 54,7 % 96,0 % +75,5 %
Propensão exportadora 40,8 % 93,0 % +127,6 %
Dependência líquida de importações −11,4 % −19,4 % −70,6 %

Estes indicadores revelam uma transformação estrutural: a indústria europeia de calçado de couro passou de um modelo orientado para o mercado interno para um modelo quase inteiramente virado para a exportação. Em 2025, praticamente toda a produção europeia de calçado de couro era destinada a mercados externos, refletindo a reconfiguração da indústria europeia como fornecedora de nicho para o mercado global de gama alta.

3.3 Assimetrias na especialização dos Estados-Membros

A análise da vantagem comparativa revelada (RCA) evidencia uma forte assimetria na especialização dos Estados-Membros. Portugal apresenta o maior índice de especialização (RCA de 4,34, RSCA de 0,63), seguido pela Croácia (RCA 2,55) e Itália (RCA 2,28):

Estado-Membro RCA RSCA Quota nas exportações da UE
Portugal 4,34 0,63 6,0 %
Croácia 2,55 0,44 1,0 %
Itália 2,28 0,39 18,3 %
Bélgica 1,37 0,15 11,6 %
Polónia 1,09 0,04 7,2 %

No extremo oposto, a Irlanda (RCA 0,02), Malta (RCA 0,03) e a Finlândia (RCA 0,17) apresentam os índices mais baixos, refletindo uma quase inexistência de indústria exportadora de calçado de couro.

No que respeita à evolução das importações por Estado-Membro, os Países Baixos registaram o maior crescimento (+74,0 %, de 826 M€ para 1 437 M€), ultrapassando a Alemanha como principal importador da UE. A Polónia (+141,3 %, de 130 M€ para 313 M€) e Espanha (+42,3 %, de 429 M€ para 610 M€) também cresceram significativamente, enquanto a Alemanha (−19,0 %), a Bélgica (−26,9 %) e sobretudo a França (−35,9 %) viram as suas importações diminuir.

Do lado das exportações por Estado-Membro, a Itália manteve a sua posição dominante (de 4 000 M€ para 3 870 M€, −3,2 %), mas a Alemanha (+133,4 %, de 669 M€ para 1 562 M€) e a França (+89,1 %, de 746 M€ para 1 410 M€) registaram crescimentos espetaculares, reforçando o peso das economias do centro da UE. Em contrapartida, Portugal (−27,4 %, de 343 M€ para 249 M€) — apesar da sua elevada especialização — viu as suas exportações diminuir, sugerindo desafios de competitividade estrutural.

3.4 Concentração crescente das fontes de importação e volatilidade nos parceiros

A concentração das importações (HHI por valor) aumentou de 1 225 para 1 520 (+24,0 %), permanecendo num nível moderado mas numa trajetória ascendente. Em volume, o HHI subiu de 1 437 para 1 622 (+12,9 %). Este aumento reflete a perda de peso de fornecedores periféricos — em particular o Reino Unido — e a concentração do crescimento em poucos parceiros, sobretudo o Vietname.

A análise de volatilidade confirma que os parceiros mais voláteis são justamente aqueles que foram afetados por choques geopolíticos. Além do Reino Unido (CV de 0,81 nas importações), destaca-se a Turquia (CV de 0,35) como parceiro de exportação volátil e a Albânia (CV de 0,27) como fornecedor instável. Do lado das exportações, a China (CV de 0,53) e a Rússia (CV de 0,26) apresentam a maior instabilidade, refletindo sensibilidade a fatores geopolíticos e regulatórios.

Três choques de preço significativos foram detetados no período:

Evento Fluxo Ano Anormalidade Variação de preço
Reino Unido Importações 2021 133,7 +161,3 %
Rússia Exportações 2022 6,3 −11,4 %
Vietname Importações 2022 4,9 +13,3 %

O choque do Reino Unido em 2021, com uma anormalidade de 133,7, é de longe o evento mais extremo, refletindo os efeitos imediatos e desestruturantes do Brexit sobre as cadeias de abastecimento de calçado entre a UE e o Reino Unido.


Conclusão

O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação estrutural profunda no comércio externo da UE de calçado de couro (CN 6403). Três dinâmicas dominaram esta evolução.

Em primeiro lugar, a premiumização das exportações europeias: a UE passou a exportar menos pares a preços significativamente mais elevados, ampliando o seu superávite comercial de 244 M€ para 1 638 M€. O preço médio de exportação por par (71,13 €) é agora 3,7 vezes superior ao preço médio de importação (19,45 €), refletindo o reposicionamento da indústria europeia na gama alta do mercado global.

Em segundo lugar, a reconfiguração das parcerias comerciais provocada por choques geopolíticos: o Brexit reduziu drasticamente o comércio com o Reino Unido (−69,7 % nas importações, −35,3 % nas exportações), as sanções à Rússia cortaram as exportações para metade, e o Vietname emergiu como o segundo maior fornecedor asiático (+61,3 %), refletindo a diversificação das cadeias de abastecimento globais. Os EUA consolidaram-se como principal destino de exportação, com 2 103 M€.

Em terceiro lugar, o colapso da produção europeia — com uma queda de 62,5 % em volume — conduziu a uma abertura comercial sem precedentes, com a propensão exportadora a atingir 93 % e a intensidade comercial a aproximar-se dos 96 %. A indústria europeia de calçado de couro tornou-se, em 2025, quase inteiramente dependente dos mercados externos, concentrando a sua produção em segmentos de elevado valor acrescentado enquanto a produção de volume migrou para a Ásia.

Estas tendências apresentam tanto oportunidades — na consolidação da posição europeia no segmento premium, com crescimento em mercados como a China e a Turquia — como riscos, nomeadamente a crescente concentração das fontes de importação, a vulnerabilidade a choques geopolíticos e o desafio de manter a competitividade dos Estados-Membros periféricos que, como Portugal, possuem elevada especialização mas enfrentam dificuldades na conversão dessa vantagem em crescimento exportador.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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