Evolução do mercado: Sucata de níquel (CN 7503) — 2015–2025
Introdução
O código CN 7503 — Desperdícios e resíduos, e sucata, de níquel abrange as matérias-primas secundárias de níquel (código PRODCOM 38.32.24.00, «Matérias-primas secundárias de níquel»), um insumo essencial para a indústria metalúrgica e para a fabricação de ligas de alto desempenho. Entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE neste produto registou uma expansão significativa: o valor das exportações cresceu 97,8 % (de 79,5 M EUR para 157,2 M EUR), enquanto o das importações aumentou 114,5 % (de 54,9 M EUR para 117,8 M EUR). A UE manteve-se exportador líquida ao longo de todo o período, registando um saldo comercial de 39,4 M EUR em 2025, face a 24,6 M EUR no início do período. Contudo, esta evolução agregada mascara dinâmicas estruturais profundas — divergências de preços, reconfigurações geográficas dos parceiros, contração da produção doméstica e crescente integração nos mercados globais — que são analisadas nos três eixos que se seguem.
1. Crescimento robusto do comércio externo e divergência acentuada nas dinâmicas de preços
1.1 As importações cresceram mais do que as exportações em termos proporcionais
O período 2015–2025 foi marcado por um crescimento generalizado dos fluxos comerciais em sucata de níquel. No entanto, as importações cresceram a um ritmo significativamente superior ao das exportações, sobretudo em volume:
| Fluxo | Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|
| Exportações | Valor (M EUR) | 79,5 | 157,2 | +97,8 |
| Quantidade (mil t) | 12,0 | 19,1 | +58,9 | |
| Importações | Valor (M EUR) | 54,9 | 117,8 | +114,5 |
| Quantidade (mil t) | 12,5 | 30,2 | +141,5 |
Enquanto o volume exportado cresceu 58,9 % (de 12 000 t para 19 100 t), o volume importado mais do que duplicou (+141,5 %), passando de 12 500 t para 30 200 t. Em valor, as importações cresceram quase ao mesmo ritmo (+114,5 % vs. +97,8 %), ultrapassando progressivamente a evolução das exportações. Este padrão sugere que a UE intensificou fortemente a sua absorção de sucata de níquel de fornecedores externos, ao mesmo tempo que manteve — e até reforçou em termos absolutos — a sua posição como exportador líquido.
1.2 Os preços de exportação mantiveram-se persistentemente e crescentemente acima dos preços de importação
Uma das dinâmicas mais estruturais do período é a divergência entre os preços médios de exportação e de importação:
| Indicador de preço | 2015 (EUR/t) | Mínimo (EUR/t) | Máximo (EUR/t) | 2025 (EUR/t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Preço médio de exportação | 6 628 | 3 882 | 11 075 | 8 250 | +24,5 |
| Preço médio de importação | 4 390 | 3 899 | 7 753 | 3 899 | −11,2 |
| Prémio de exportação | 2 238 | — | — | 4 351 | +94,4 |
Os preços de exportação atingiram um máximo de 11 075 EUR/t durante o período (concomitante com o pico das commodities em 2022), enquanto os preços de importação registaram o seu mínimo precisamente em 2025 (3 899 EUR/t). O prémio de exportação — a diferença entre o preço médio de exportação e o de importação — praticamente duplicou, passando de 2 238 EUR/t para 4 351 EUR/t. Esta divergência é consistente com o papel da UE como centro de processamento: a UE importa sucata de níquel a preços mais baixos e exporta materiais de maior valor acrescentado — sobretudo ligas processadas e materiais semi-refinados — a preços significativamente superiores.
1.3 O saldo comercial permaneceu positivo, mas com períodos de volatilidade
O saldo comercial da UE em sucata de níquel manteve-se positivo na maior parte do período, passando de 24,6 M EUR em 2015 para 39,4 M EUR em 2025 (+60,4 %). Contudo, as flutuações ao longo da década foram notáveis:
| Indicador | 2015 | Mínimo | Máximo | 2025 |
|---|---|---|---|---|
| Saldo comercial (M EUR) | 24,6 | −5,9 | 74,2 | 39,4 |
O saldo atingiu brevemente um défice de −5,9 M EUR num ponto do período — provavelmente em 2020, quando a pandemia perturbou as cadeias de valor globais —, o que evidencia a sensibilidade deste mercado a choques externos. O valor das exportações caiu nesse período até um mínimo de 53,7 M EUR (face aos 79,5 M EUR de 2015).
Paradoxalmente, enquanto o saldo absoluto cresceu, a dependência líquida de importações (net import reliance) passou de −56,3 % para −32,2 % — valores negativos que indicam posição exportadora líquida, mas numa margem relativamente menor. Esta aparente contradição explica-se pelo crescimento desproporcionadamente mais rápido das importações em volume: o denominador do rácio (importações + exportações) cresceu mais do que o numerador absoluto.
2. Reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais e volatilidade crescente
2.1 A Ásia Central emergiu como fonte de importações, enquanto a Rússia recuou de forma acentuada
O mapa dos principais fornecedores externos da UE em sucata de níquel foi profundamente reconfigurado entre 2015 e 2025:
| Parceiro (importações) | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 15,2 | 43,3 | +186,0 |
| Cazaquistão | 0,04 | 18,1 | +50 483 |
| Estados Unidos | 12,0 | 14,1 | +17,1 |
| Rússia | 11,5 | 3,7 | −68,0 |
| Noruega | 1,4 | 2,9 | +104,5 |
| Suíça | 3,0 | 3,8 | +24,5 |
| Uzbequistão | 0,1 | 1,1 | +740,0 |
A ascensão do Cazaquistão — de apenas 35,7 mil EUR em 2015 para 18,1 M EUR em 2025 — constitui a mudança mais dramática do período: o país passou de fornecedor residual a segundo maior parceiro de importação da UE. O Uzbequistão seguiu uma trajetória semelhante em termos proporcionais (+740 %), ainda que em menor escala absoluta. Estas evoluções refletem a emergência da Ásia Central como polo de fornecimento de matérias-primas de níquel, provavelmente ligada à exploração de recursos naturais no Cazaquistão integrados em cadeias de valor globais.
Em contrapartida, a Rússia viu as suas exportações para a UE recuarem 68,0 % (de 11,5 M EUR para 3,7 M EUR), com um mínimo de 2,6 M EUR. Este declínio acentuou-se significativamente após 2022, em resultado das sanções associadas ao conflito na Ucrânia. O Reino Unido reforçou a sua posição como principal fornecedor (+186 %), consolidando o papel do mercado britânico no contexto pós-Brexit. A Noruega duplicou as suas vendas para a UE (+104,5 %), beneficiando da proximidade geográfica, da estabilidade das relações comerciais no Espaço Económico Europeu e da sua tradição na indústria do níquel.
2.2 Os mercados de exportação diversificaram-se rumo à Ásia e consolidaram-se no Atlântico Norte
Do lado das exportações, os Estados Unidos e o Reino Unido permaneceram como os dois principais destinos, representando em conjunto 119,1 M EUR em 2025:
| Parceiro (exportações) | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 37,2 | 70,6 | +89,6 |
| Estados Unidos | 25,8 | 48,5 | +87,9 |
| Japão | 13,9 | 10,8 | −22,3 |
| Coreia do Sul | 0,4 | 2,7 | +670,3 |
| Índia | 0,3 | 1,8 | +600,5 |
| Filipinas | 0,9 | 1,0 | +14,8 |
A diversificação mais significativa ocorreu em direção à Ásia: a Coreia do Sul (+670,3 %) e a Índia (+600,5 %) tornaram-se mercados crescentemente relevantes para a sucata de níquel europeia. O Japão, apesar de ter recuado 22,3 % em valor, manteve-se como terceiro destino mais importante. Estas dinâmicas sugerem um reposicionamento da procura asiática, provavelmente associado à crescente procura global de níquel para baterias de iões de lítio e ligas de alto desempenho para a indústria aeroespacial.
No interior da UE, os maiores exportadores foram a Alemanha (40,6 M EUR, +11,6 %), a França (34,2 M EUR, +38,6 %) e a Itália (16,7 M EUR, +387,7 %), com destaque para a Polónia, que registou o crescimento mais espetacular: de 26 mil EUR para 12,8 M EUR (+49 018 %). Do lado das importações, a Alemanha (28,6 M EUR, +173,4 %), a França (18,8 M EUR, +1 207 %) e a Suécia (14,7 M EUR, −20,9 %) lideraram, com a Itália a registar também um crescimento expressivo (+792,8 %), num total de 4,4 M EUR.
2.3 Choques de preço em 2022 e volatilidade acentuada nos parceiros menos consolidados
O ano de 2022 destaca-se como o de maior tensão nos preços do período, com três eventos de choque identificados:
| Evento | Fluxo | Anomalia | Variação de preço (%) | Peso no valor (%) |
|---|---|---|---|---|
| Noruega | Importações | 155,8 | +85,3 | 4,4 |
| Estados Unidos | Importações | 23,4 | +54,0 | 22,6 |
| Estados Unidos | Exportações | 22,4 | +107,1 | 40,3 |
O choque mais intenso registou-se nos preços de importação da Noruega (anomalia de 155,8), mas o de maior impacto económico foi o choque dos preços de exportação para os EUA, que representavam 40,3 % do valor total das exportações e viram os preços mais do que duplicar (+107,1 %). Estes choques inserem-se no contexto da crise energética e das disrupções nas cadeias de abastecimento de 2022, agravadas pelas sanções à Rússia e pelo forte aumento dos preços do níquel nas bolsas de metais (notavelmente o episódio do LME em março de 2022).
Em termos de volatilidade estrutural (coeficiente de variação ao longo do período), os parceiros de importação mais instáveis foram o Cazaquistão (CV = 2,79) e o Quirguistão (CV = 2,12), o que evidencia o carácter ainda incipiente e volátil dos fornecimentos provenientes da Ásia Central. Do lado das exportações, Singapura (CV = 2,53), as Filipinas (CV = 1,56) e a Coreia do Sul (CV = 1,46) apresentaram os maiores índices de volatilidade, sugerindo que as relações com mercados asiáticos, embora em crescimento, ainda se encontram numa fase de consolidação. Em contraste, parceiros mais tradicionais como o Reino Unido (CV de exportações = 0,28) ou os EUA (CV = 0,22) apresentaram flutuações muito mais contidas, refletindo relações comerciais mais maduras e estáveis.
3. Produção europeia em queda e crescente integração nos mercados globais
3.1 A produção doméstica de matérias-primas secundárias de níquel diminuiu significativamente
A produção europeia de matérias-primas secundárias de níquel (PRODCOM 38.32.24.00) registou uma redução considerável ao longo do período:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Quantidade produzida (milhares t) | 95,0 | 78,5 | −17,4 |
| Valor de produção (M EUR) | 190,0 | 126,2 | −33,6 |
A produção caiu 17,4 % em volume e 33,6 % em valor — uma queda desproporcionadamente maior no valor do que na quantidade, o que sugere uma deterioração do mix de produtos, uma pressão adicional nos preços ou uma mudança na composição da produção para materiais de menor valor unitário. Em 2025, o valor das exportações da UE (157,2 M EUR) ultrapassou o valor da produção doméstica (126,2 M EUR), confirmando que a UE exportou mais do que produziu internamente — um indicativo claro do seu papel como transformador e reexportador de sucata de níquel importada versus a sua capacidade de produção nacional.
3.2 A concentração das importações aumentou, enquanto a das exportações diminuiu
Os índices de concentração (HHI) revelaram tendências opostas nos dois fluxos:
| Fluxo / Métrica | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações — HHI (valor) | 1 745 | 1 842 | +5,5 |
| Importações — HHI (volume) | 1 559 | 2 253 | +44,5 |
| Exportações — HHI (valor) | 3 557 | 3 062 | −13,9 |
| Exportações — HHI (volume) | 3 197 | 2 166 | −32,2 |
O HHI das importações em volume cresceu 44,5 %, refletindo uma concentração crescente em poucos fornecedores — com o Cazaquistão e o Reino Unido a dominarem um peso cada vez maior. Em contraste, o HHI das exportações diminuiu tanto em valor (−13,9 %) como em volume (−32,2 %), sinal de uma diversificação dos mercados de destino das exportações europeias em direção a mercados asiáticos como a Coreia do Sul, a Índia e a Malásia, bem como europeus como a Polónia e a Espanha.
3.3 Os indicadores de autonomia e integração global sublinham o papel exportador crescente da UE
Os indicadores de vulnerabilidade e integração revelam uma crescente internacionalização do mercado europeu de sucata de níquel:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações (%) | −56,3 | −32,2 | +42,7 |
| Intensidade comercial (%) | 99,0 | 108,0 | +9,1 |
| Propensão exportadora (%) | 98,4 | 115,2 | +17,2 |
A intensidade comercial ultrapassou os 100 % em 2025, indicando que a UE comercializa sucata de níquel em volumes acima do que seria expectável dado o peso médio das suas trocas globais. A propensão exportadora atingiu 115,2 % — o que, combinado com o facto de o valor das exportações superar o da produção doméstica, confirma que a UE exporta valor em níquel do que produz internamente. A pontuação de saliência (salience score) atribuiu maior destaque à propensão exportadora (82,4) do que à intensidade comercial (67,1), sublinhando o carácter estruturalmente exportador da UE neste sector.
Do ponto de vista da especialização intra-UE, os Estados-Membros mais especializados em exportações de sucata de níquel em 2025 foram a Áustria (RSCA = 0,614; RCA = 4,17), a Estónia (RSCA = 0,577; RCA = 3,72) e a França (RSCA = 0,304; RCA = 1,87), enquanto a Grécia (RSCA = −0,950), a Hungria (RSCA = −0,931) e a Letónia (RSCA = −0,769) figuraram entre os menos especializados. Estas diferenças refletem a heterogeneidade industrial da UE e a concentração das atividades de reciclagem e transformação de níquel nos países com tradição metalúrgica mais consolidada.
Conclusão
O mercado europeu de sucata de níquel (CN 7503) evoluiu de forma estruturalmente significativa entre 2015 e 2025. A UE consolidou a sua posição como exportador líquido e como hub de processamento de valor acrescentado, importando sucata a preços médios de 3 899 EUR/t em 2025 e exportando-a a 8 250 EUR/t — um prémio de 4 351 EUR/t que praticamente duplicou ao longo da década. No entanto, esta posição assenta em bases cada vez mais frágeis: a produção doméstica de matérias-primas secundárias de níquel caiu 17,4 % em volume e 33,6 % em valor, e as importações cresceram mais rapidamente do que as exportações (+141,5 % vs. +58,9 % em volume).
A reconfiguração geográfica das importações — com a emergência do Cazaquistão (+50 483 %) e do Uzbequistão (+740 %) e o recuo acentuado da Rússia (−68 %) — e a diversificação das exportações em direção à Ásia (Coreia do Sul, Índia) refletem uma adaptação a novas realidades geopolíticas, em particular as sanções à Rússia pós-2022 e a crescente procura global de níquel para a transição energética. Os choques de preço de 2022, sobretudo nos fluxos com os EUA e a Noruega, evidenciam a vulnerabilidade do sector a perturbações externas numa época de instabilidade nos mercados de commodities.
Em suma, a UE mantém uma vantagem competitiva na transformação e exportação de materiais secundários de níquel, mas a sua crescente dependência de fornecedores da Ásia Central — ainda pouco consolidados e de elevada volatilidade — e a contração da base produtiva doméstica constituem riscos estratégicos que merecem acompanhamento atento, sobretudo num contexto de transição energética em que o níquel desempenha um papel cada vez mais central.