Evolução do mercado: Cabos de aço (CN 7312) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no setor das cordas, cabos, entrançados (tranças), lingas e artigos semelhantes, de ferro ou aço, não isolados para usos elétricos, classificados pela posição aduaneira CN 7312. O período em análise abrange de 2015 a 2025 (dados anuais, excluindo períodos incompletos).
A posição CN 7312 abrange dois subprodutos principais:
- 731210 — Cordas e cabos de ferro ou aço
- 731290 — Entrançados, lingas e artefactos semelhantes
Ambos os subprodutos excluem produtos isolados para usos elétricos. A sua aplicação abrange setores como a construção civil, energia (eólica e petrolífera), naval, transportes e maquinaria pesada.
O período 2015–2025 foi marcado por transformações estruturais significativas: a transição energética gerou procura crescente por cabos de aço de elevado valor acrescentado; a pandemia de COVID-19 e a invasão da Ucrânia em 2022 provocaram disrupções nas cadeias de abastecimento; e o agravamento das sanções à Bielorrússia eliminou praticamente uma fonte de importação tradicional. Os dados revelam um padrão claro: a UE tornou-se progressivamente mais dependente de importações, mantendo simultaneamente uma indústria exportadora de nicho orientada para produtos de maior valor unitário.
1. A viragem estrutural: de exportador líquido a importador líquido
1.1. O défice comercial alargou-se de forma acentuada
A dinâmica mais marcante do período é a deterioração da balança comercial da UE neste setor. Em 2015, o défice situou-se nos -22,5 milhões de EUR, valor residual numa balança quase equilibrada. Em 2025, esse valor agravou-se para -223,7 milhões de EUR, uma deterioração de 893% (ver dados gerais).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor, M EUR) | 598,9 | 668,5 | +11,6% |
| Importações (valor, M EUR) | 621,4 | 892,2 | +43,6% |
| Balança (M EUR) | −22,5 | −223,7 | −893% |
| Dependência líquida de importações (%) | −5,1% | +7,5% | +248,5% |
A dependência líquida de importações passou de -5,1% em 2015 (a UE era ligeiramente exportadora líquida) para +7,5% em 2025, com um máximo intercalar de 13,0%. Este indicador confirma uma viragem estrutural na posição comercial da UE no setor.
1.2. O volume importado cresceu 41%, enquanto as exportações encolheram 21%
A divergência entre importações e exportações acentuou-se tanto em valor como em volume:
| Fluxo | 2015 (t) | 2025 (t) | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações | 317 237 | 447 693 | +41,1% |
| Exportações | 256 251 | 201 889 | −21,2% |
As importações cresceram em volume (+41,1%) e em valor (+43,6%), refletindo um aumento real da procura interna por produto importado. As exportações, pelo contrário, diminuíram significativamente em volume (-21,2%), embora o seu valor tenha crescido (+11,6%), o que indica uma reorientação da produção europeia exportadora para segmentos de maior valor unitário (ver secção 2).
1.3. A intensidade comercial e a propensão para exportar cresceram significativamente
A intensidade comercial passou de 35,4% em 2015 para 54,4% em 2025 (+54,0%), enquanto a propensão para exportar cresceu de 23,4% para 34,8% (+49,1%). Isto significa que, em 2025, a UE exportava proporcionalmente mais do que em 2015, mas os volumes totais em circulação (importação + exportação) cresceram em relação à produção doméstica, sinalizando uma economia cada vez mais integrada nas cadeias globais de valor deste setor.
2. A reconfiguração geográfica: novos parceiros e choques geopolíticos
2.1. A China consolidou-se como parceiro dominante nas importações
A China foi, em todo o período, o maior fornecedor externo da UE em cabos de aço. No entanto, a sua quota cresceu de forma acentuada: as importações de origem chinesa passaram de 144,8 milhões de EUR em 2015 para 319,5 milhões de EUR em 2025, uma subida de 120,6%, com um máximo de 425,5 milhões de EUR registado num ano intercalar (ver parceiros por valor).
Em 2025, a China representou aproximadamente 39,8% do valor total das importações da UE neste setor, contribuindo também para o maior choque de preços registado no período (ver secção 3).
2.2. A eliminação da Bielorrússia como fornecedor e o surgimento de novos parceiros
Uma das transformações mais visíveis do período foi a desaparecimento da Bielorrússia como fornecedor da UE. Em 2015, as importações bielorrussas ascendiam a 65,3 milhões de EUR. Em 2025, o valor residual registado foi de apenas 20 EUR — uma queda de -100%. Esta evolução está diretamente ligada ao regime de sanções da UE imposto à Bielorrússia a partir de 2021, em resposta à crise política interna e ao envolvimento no conflito ucraniano.
O vazio deixado pela Bielorrússia foi preenchido por múltiplos fornecedores, com destaque para:
| Parceiro (importações) | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 144,8 | 319,5 | +120,6% |
| Vietname | 55,7 | 74,9 | +34,5% |
| Turquia | 45,4 | 96,9 | +113,5% |
| Tailândia | 32,5 | 76,8 | +136,0% |
| Índia | 4,2 | 47,7 | +1 049,4% |
| Coreia do Sul | 128,6 | 103,8 | −19,3% |
| Bielorrússia | 65,3 | 0,0 | −100,0% |
O crescimento mais espetacular em termos percentuais registou-se na Índia, cujas exportações para a UE passaram de 4,2 milhões de EUR para 47,7 milhões de EUR (+1 049,4%). A Turquia (+113,5%) e a Tailândia (+136,0%) registaram também avanços significativos. Estas três origens (Índia, Turquia e Tailândia) passaram coletivamente de 82,3 milhões de EUR para 221,4 milhões de EUR, mais do que compensando a eliminação das importações bielorrussas.
A Coreia do Sul, apesar de ter registado uma ligeira queda (-19,3%), permaneceu como o terceiro maior fornecedor em 2025.
2.3. Os principais destinos de exportação mantiveram-se estáveis, com exceções notáveis
Nos principais destinos de exportação, os Estados Unidos mantiveram-se como o maior mercado externo da UE, com crescimento de 106,8 milhões de EUR para 145,7 milhões de EUR (+36,4%). Destaca-se também o Marrocos (+281,7%, de 9,4 para 35,8 milhões de EUR) e a Sérvia (+158,8%), refletindo os efeitos da integração económica dos Balcãs Ocidentais e da cooperação UE-Marrocos em infraestruturas.
Em contrapartida, as exportações para o Reino Unido desceram 26,3% (de 61,9 para 45,7 milhões de EUR), refletindo provavelmente os efeitos do Brexit e das novas barreiras alfandegárias.
| Parceiro (exportações) | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 106,8 | 145,7 | +36,4% |
| Reino Unido | 61,9 | 45,7 | −26,3% |
| Noruega | 39,1 | 34,0 | −13,0% |
| China | 52,9 | 55,3 | +4,6% |
| Turquia | 18,2 | 32,8 | +79,9% |
| Marrocos | 9,4 | 35,8 | +281,7% |
| Sérvia | 6,1 | 15,8 | +158,8% |
3. Riscos, volatilidade e fragilidades estruturais
3.1. A concentração das importações agravou-se, com a China a dominar
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações da UE em valor subiu de 1 323 para 1 774 (+34,1% em valor) entre 2015 e 2025. Quando medido em volume, a concentração foi ainda mais acentuada: subiu de 1 413 para 1 996 (+41,2%). Um HHI de 1 774 em valor indica um grau moderado-alto de concentração — o que, no contexto das importações, traduz uma dependência crescente de um número limitado de parceiros externos.
O peso da China nas importações é particularmente preocupante de uma perspetiva de segurança de abastecimento: com quase 40% do valor das importações e uma volatilidade elevada (coeficiente de variação de 0,31), qualquer disrupção no comércio bilateral teria um impacto significativo.
3.2. Choques de preços de 2022: o efeito da guerra na Ucrânia
A análise de eventos de choque identificou três registos anómalos significativos, todos centrados em 2022:
| Entidade | Tipo de choque | Anomalia | Variação (% ) | Quota de valor |
|---|---|---|---|---|
| Canadá (exportações UE) | Preço | 15,2 | +29,4% | 3,9% |
| Sérvia (exportações UE) | Preço | 6,0 | +61,9% | 2,8% |
| China (importações para UE) | Preço | 5,2 | +28,1% | 39,8% |
O choque de preços das importações da China em 2022 — com uma anomalia de 5,2 desvios-padrão e um aumento de 28,1% — é o mais relevante em termos sistémicos, dado que a China representava 39,8% do valor total das importações. Este choque está alinhado com a escalada dos custos de energia e matérias-primas em 2022, agravada pela invasão da Ucrânia.
3.3. A volatilidade revela fragilidades em múltiplas origens
O coeficiente de variação (CV) das importações por parceiro revela padrões de volatilidade muito diferenciados:
| Entidade (importações) | CV | Avaliação |
|---|---|---|
| Índia | 0,60 | Elevada |
| Federação Russa | 0,75 | Muito elevada |
| Ucrânia | 0,84 | Muito elevada |
| China | 0,31 | Moderada |
| Turquia | 0,29 | Moderada |
| Coreia do Sul | 0,22 | Moderada |
| Vietname | 0,14 | Baixa |
A Ucrânia (CV = 0,84) e a Federação Russa (CV = 0,75) registaram as maiores volatilidades nas importações, refletindo claramente o impacto do conflito armado e das sanções. A instabilidade destas origens, apesar dos volumes residuais, sinaliza o risco geopolítico subjacente a determinadas cadeias de abastecimento.
No lado das exportações, a Federação Russa apresentou a maior volatilidade (CV = 0,65), refletindo a desvinculação comercial progressiva. Os mercados de exportação mais estáveis foram a Suíça (CV = 0,07) e a Noruega (CV = 0,16).
3.4. A produção europeia recuou em volume, mas cresceu em valor
Os dados de produção industrial da UE (série PRODCOM) revelam uma evolução paradoxal:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Produção (volume, milhões de kg) | 1 068 | 898 | −15,9% |
| Produção (valor, milhões de EUR) | 1 254 | 1 995 | +59,1% |
A produção europeia de cabos de aço diminuiu 15,9% em volume, mas aumentou 59,1% em valor. Este aparente paradoxo reflete, com toda a probabilidade, uma mudança estrutural na especialização da indústria europeia, que se deslocou para segmentos de maior valor acrescentado — nomeadamente cabos de aço de alto desempenho para aplicações offshore, eólicas, mineiras e de elevação — abandonando a produção de commodities a baixo preço face à concorrência asiática.
3.5. Especialização desigual dentro da UE: Roménia e Eslováquia lideram
A análise de especialização (RSCA) revela importantes disparidades entre Estados-Membros:
| País | RSCA | RCA | Participação na produção (%) |
|---|---|---|---|
| Roménia | 0,763 | 7,43 | 12,4% |
| Eslováquia | 0,566 | 3,61 | 7,6% |
| Luxemburgo | 0,558 | 3,53 | 1,1% |
| Portugal | 0,483 | 2,87 | 4,0% |
| Hungria | 0,284 | 1,79 | 4,8% |
| Malta | −1,000 | 0,0002 | 0,0% |
| Chipre | −0,987 | 0,006 | 0,0% |
| Irlanda | −0,980 | 0,010 | 0,02% |
A Roménia surge como o Estado-Membro mais especializado (RSCA = 0,763), contribuindo com 12,4% da produção total da UE. A Eslováquia (RSCA = 0,566) e Portugal (RSCA = 0,483) são também economias relativamente especializadas, provavelmente refletindo a presença de importantes unidades industriais transformadoras de aço.
Em contrapartida, a concentração das exportações da UE em termos de HHI (de 681 para 796, +17%) permaneceu relativamente baixa, refletindo uma base exportadora diversificada por parceiro e por Estado-Membro, o que constitui uma relativa proteção contra disrupções.
3.6. O caso dos subprodutos: a divergência entre cordas/cabos e entrançados
A análise por segmento de produto revela dinâmicas distintas entre o subproduto principal (cordas e cabos, CN 731210) e o subproduto secundário (entrançados e lingas, CN 731290).
Importações CN 731210 (cordas e cabos):
| Ano | Volume (t) | Valor (M EUR) | Preço (EUR/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 310 620 | 598,3 | 1 926 |
| 2022 | 460 601 | 1 156,5 | 2 511 |
| 2025 | 439 027 | 855,2 | 1 948 |
Importações CN 731290 (entrançados e lingas):
| Ano | Volume (t) | Valor (M EUR) | Preço (EUR/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 6 617 | 23,1 | 3 478 |
| 2022 | 7 613 | 38,6 | 5 058 |
| 2025 | 8 666 | 37,0 | 4 260 |
Os entrançados e lingas (CN 731290), embora representem um volume muito inferior (~2% das importações em volume), apresentam preços unitários significativamente mais elevados (~4 260 EUR/t vs. ~1 948 EUR/t para cordas e cabos em 2025), refletindo o maior valor acrescentado destes produtos especializados.
Exportações CN 731290 (entrançados e lingas):
| Ano | Volume (t) | Valor (M EUR) | Preço (EUR/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 18 176 | 58,1 | 3 198 |
| 2022 | 7 941 | 41,3 | 5 198 |
| 2025 | 5 948 | 43,2 | 7 230 |
As exportações de entrançados e lingas atingiram 7 230 EUR/t em 2025 — mais do dobro do preço registado em 2015 — apesar de uma contração acentuada do volume (-67%). Este é o subproduto onde a reorientação europeia para o valor acrescentado é mais visível: a UE exporta cada vez menos em volume, mas a preços progressivamente mais elevados.
Conclusão
A análise do comércio externo da UE na posição CN 7312 entre 2015 e 2025 revela um setor em profunda transformação estrutural. Três grandes conclusões emergem dos dados:
Primeiro, a UE passou de exportador líquido ligeiro a importador líquido significativo. O défice comercial agravou-se de -22,5 milhões de EUR para -223,7 milhões de EUR, impulsionado por uma combinação de crescimento das importações (+43,6% em valor) e estagnação relativa das exportações (crescimento moderado em valor, mas queda acentuada em volume). A dependência líquida de importações atingiu +7,5% em 2025.
Segundo, a geografia comercial foi profundamente reconfigurada. O desaparecimento da Bielorrússia como fornecedor (-100%), o crescimento acentuado da China, Turquia, Tailândia e Índia como fornecedores, e a consolidação de mercados como Marrocos e Sérvia como destinos de exportação, refletem tanto os efeitos das sanções geopolíticas como uma reconfiguração competitiva mais ampla das cadeias de valor globais.
Terceiro, a indústria europeia está a reorientar-se para segmentos de maior valor acrescentado. Apesar da queda de 15,9% na produção doméstica em volume, o valor da produção cresceu 59,1%, e os preços de exportação de entrançados e lingas mais do que duplicaram. Esta evolução sugere que a UE está a abandonar a competição em segmentos de commodity e a apostar em produtos de alto desempenho.
Os principais riscos identificados incluem a elevada concentração das importações na China (HHI de 1 774), a volatilidade das importações de determinadas origens geopoliticamente instáveis, e os choques de preços registados em 2022. Em termos de autonomia estratégica, o setor das cordas e cabos de aço da UE encontra-se numa posição de fragilidade crescente, embora a diversificação dos fornecedores — com a Índia, Turquia e Tailândia a ganharem relevância — e a manutenção de uma base exportadora diversificada ofereçam alguma resiliência.