Evolução do mercado: Cerâmica ornamental (CN 6913) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no segmento de estatuetas e outros objetos de ornamentação de cerâmica (posição aduaneira CN 6913), entre 2015 e 2025. Este produto abrange dois subsegmentos: artigos de porcelana (CN 691310) e artigos cerâmicos ornamentais não especificados (CN 691390). Ao longo da década analisada, o setor registou um crescimento significativo das importações, um alargamento do défice comercial estrutural e uma crescente dependência em relação à China como fornecedor principal. A produção intracomunitária, por sua vez, apresentou uma trajetória descendente em termos de valor.
1. O aprofundamento do défice comercial e a crescente dependência das importações
1.1. Um défice que quase duplicou
O balanço comercial da UE em cerâmica ornamental registou uma deterioração acentuada ao longo do período. O défice passou de -142,5 milhões EUR em 2015 para -210,7 milhões EUR em 2025, uma variação negativa de 47,9%. O ponto mais agudo foi atingido em 2022, com um défice de -332,1 milhões EUR, impulsionado por um pico simultâneo nas importações.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (EUR) | 303,0 M | 422,2 M | +39,3% |
| Exportações (EUR) | 160,5 M | 211,4 M | +31,7% |
| Saldo comercial (EUR) | -142,5 M | -210,7 M | -47,9% |
As importações cresceram mais rapidamente do que as exportações, tanto em valor como em volume, o que reflete uma procura interna resiliente face a uma capacidade de produção doméstica em declínio.
1.2. Importações: crescimento puxado pela China e aumento dos preços
O volume total de importações da UE cresceu de 123 722 toneladas (2015) para 144 225 toneladas (2025), uma variação de +16,6%. Contudo, o valor das importações cresceu muito mais (+39,3%), sinal de uma subida generalizada dos preços unitários. O preço médio de importação subiu de 2 449 EUR/t para 2 927 EUR/t (+19,5%), tendo atingido o máximo de 3 656 EUR/t em 2022.
| Ano | Volume (t) | Valor (EUR) | Preço (EUR/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 123 722 | 303,0 M | 2 449 |
| 2020 | 100 379 | 285,3 M | 2 390 |
| 2022 | 128 481 | 545,2 M | 3 656 |
| 2025 | 144 225 | 422,2 M | 2 927 |
A China é o parceiro dominante nas importações, com um valor que passou de 226,4 milhões EUR (2015) para 350,0 milhões EUR (2025), uma variação de +54,6%. Em 2022, as importações chinesas atingiram 432,5 milhões EUR, o que constitui um choque de preço detetado com uma anormalidade de 3,1 e uma variação de +36,6% face ao ano anterior. Este fenómeno pode estar associado a disrupções nas cadeias de abastecimento pós-COVID e ao aumento dos custos de transporte marítimo.
O Vietnã, segundo maior fornecedor, manteve-se estável (≈35–59 milhões EUR), enquanto a Tailândia registou uma quebra de -50,1% ao longo do período. A concentração das importações por parceiro medida pelo índice HHI subiu de 5 755 para 6 978 (+21,3%), refletindo o crescimento da quota chinesa.
1.3. Dependência líquida de importações em forte crescimento
A dependência líquida de importações passou de 19,8% em 2015 para 37,7% em 2025, uma variação de +90,3%, tendo atingido o máximo de 50,9% em 2022. Este indicador revela que a UE se tornou significativamente mais dependente das importações para satisfazer a procura interna de cerâmica ornamental.
| Indicador | 2015 | 2025 | Máximo | Variação |
|---|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações | 19,8% | 37,7% | 50,9% (2022) | +90,3% |
| Intensidade comercial | 87,3% | 86,1% | 92,7% | -1,4% |
| Propensão exportadora | 74,6% | 68,1% | 82,0% | -8,7% |
A intensidade comercial manteve-se elevada (≈86–93%), indicando que o setor continua profundamente integrado no comércio internacional. No entanto, a propensão exportadora diminuiu ligeiramente (-8,7%), sugerindo que a capacidade exportadora da UE não acompanhou o ritmo do crescimento da procura interna.
2. Dinâmica das exportações: resiliência europeia com reorientação geográfica
2.1. Crescimento exportador focado nos mercados anglo-saxónicos
As exportações da UE de cerâmica ornamental cresceram de 160,5 milhões EUR para 211,4 milhões EUR (+31,7% em valor) e de 25 323 toneladas para 35 474 toneladas (+40,1% em volume). Este crescimento mais acentuado no volume do que no valor reflete uma ligeira descida do preço médio de exportação, de 6 338 EUR/t para 5 959 EUR/t (-6,0%).
Os principais destinos das exportações da UE em 2025 foram:
| Destino | 2015 (EUR) | 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 20,0 M | 37,1 M | +85,3% |
| Estados Unidos | 32,8 M | 53,4 M | +62,7% |
| Suíça | 16,3 M | 21,4 M | +31,2% |
| Noruega | 14,2 M | 8,6 M | -39,5% |
| Canadá | 1,8 M | 4,6 M | +157,9% |
| Austrália | 2,7 M | 2,8 M | +5,5% |
O crescimento mais notável é o dos Estados Unidos e do Canadá, mercados onde a procura por cerâmica ornamental europeia — frequentemente associada a marcas de luxo e artesanato — beneficiou de um ciclo favorável. O Reino Unido, apesar do Brexit, consolidou-se como o maior destino europeu das exportações da UE, com crescimento de 85,3%.
2.2. O colapso das exportações para a Rússia
O destino que mais perdeu relevância foi a Federação Russa: as exportações caíram de 7,9 milhões EUR para 1,7 milhões EUR, uma variação de -78,7%. Esta queda acentua-se a partir de 2022, coincidindo com as sanções comerciais impostas pela UE no contexto do conflito Rússia-Ucrânia. A elevada volatilidade associada a este destino (coeficiente de variação de 0,61) confirma a instabilidade deste fluxo.
2.3. Volatilidade e choques nos fluxos de exportação
O choque de preço mais significativo nas exportações detetado ocorreu em 2022 na Suíça, com uma anormalidade de 10,0 e uma variação de +40,9%, representando 18,6% do valor total das exportações nesse ano. Este pico pode refletir o efeito de alterações cambiais, procura antecipada ou reexportação suíça.
A Suíça apresenta a menor volatilidade entre os principais destinos (CV de apenas 0,068), o que a torna o mercado externo mais estável para os exportadores europeus. Em contraste, as exportações para a Sérvia (CV 0,41) e Canadá (CV 0,40) apresentam maior instabilidade.
3. Estrutura de mercado, especialização e declínio produtivo interno
3.1. A produção europeia em erosão
O valor da produção intracomunitária de cerâmica ornamental registou um declínio de 357,9 milhões EUR (2015) para 298,3 milhões EUR (2025), uma variação de -16,7%, após ter atingido o mínimo de 205,7 milhões EUR num ano intermédio. Este decréscimo produtivo é consistente com a crescente pressão concorrencial das importações asiáticas e com a reestruturação do setor cerâmico europeu, que concentra esforços em segmentos de maior valor acrescentado.
3.2. A especialização revelada dos Estados-Membros
A análise da vantagem comparativa revelada (RSCA) permite identificar os Estados-Membros com maior especialização na produção e exportação de cerâmica ornamental:
| País | RSCA | RCA | Quota prod. | Quota total UE |
|---|---|---|---|---|
| Portugal | 0,815 | 9,78 | 13,5% | 1,4% |
| Dinamarca | 0,631 | 4,42 | 7,6% | 1,7% |
| Países Baixos | 0,250 | 1,67 | 24,2% | 14,5% |
| Áustria | 0,171 | 1,41 | 4,7% | 3,3% |
| Alemanha | 0,045 | 1,09 | 23,1% | 21,2% |
Portugal destaca-se com o maior RSCA (0,815) e uma RCA de 9,78, indicando uma forte especialização setorial, ainda que com uma quota modesta no total do comércio da UE. A Dinamarca apresenta também um perfil especializado, refletido na marca conhecida por design nórdico (p. ex., Royal Copenhagen).
No extremo oposto, Malta (RSCA -0,999), Irlanda (-0,995) e Croácia (-0,976) não registam praticamente nenhuma produção nem especialização neste segmento.
3.3. Perfis dos principais importadores e exportadores intra-UE
Os principais importadores de cerâmica ornamental de países terceiros são a Alemanha (87,3 M EUR em 2025), os Países Baixos (102,4 M EUR, +64,2%) e a França (47,3 M EUR, +78,5%). A Polónia regista o crescimento mais expressivo (+260,3%), refletindo a sua integração crescente nas cadeias logísticas europeias.
Nos principais exportadores, a Alemanha e a Espanha mantêm posições estáveis (≈28–38 M EUR). Destaca-se a evolução de:
- França: +95,9% (15,4 M → 30,2 M EUR), refletindo o dinamismo do artesanato de luxo.
- Portugal: +101,3% (13,1 M → 26,5 M EUR), consolidando a sua especialização.
- Países Baixos: +113,3% (8,7 M → 18,5 M EUR), possivelmente como entreposto logístico.
- Dinamarca: -41,2% (13,0 M → 7,7 M EUR), uma contração que merece acompanhamento.
3.4. Segmentação por subproduto: porcelana vs. cerâmica não especificada
O segmento CN 691390 (cerâmica ornamental não de porcelana) domina tanto as importações como as exportações em volume. No entanto, o segmento CN 691310 (porcelana) apresenta preços médios significativamente mais elevados, tanto nas importações como nas exportações:
| Subproduto | Preço médio importação (EUR/t) | Preço médio exportação (EUR/t) |
|---|---|---|
| CN 691390 (não porcelana) | 2 028 → 2 588 | 3 770 → 3 980 |
| CN 691310 (porcelana) | 5 524 → 5 347 | 41 625 → 40 885 |
O preço médio de exportação de porcelana é superior a 40 000 EUR/t, contra cerca de 4 000 EUR/t para a cerâmica não especificada. Esta diferença reflete o posicionamento da porcelana europeia como produto de gama alta, com forte valor de marca (p. ex., marcas portuguesas, francesas e dinamarquesas). O volume de exportação de porcelana (≈1 500–1 900 t/ano) é modesto mas com valor acrescentado substancial.
Conclusão
O mercado europeu de cerâmica ornamental (CN 6913) entre 2015 e 2025 caracterizou-se por três tendências convergentes: (i) o aprofundamento da dependência das importações, sobretudo da China, que concentrou uma quota crescente do abastecimento externo; (ii) uma relativa resiliência das exportações europeias, impulsionada por mercados anglo-saxónicos e por segmentos de alto valor como a porcelana; e (iii) uma erosão gradual da produção intracomunitária.
O choque de 2022 — com preços de importação a atingirem máximos históricos, o défice comercial a ultrapassar os 330 milhões EUR e a dependência líquida de importações a rondar os 51% — marcou um ponto de inflexão que, embora parcialmente revertido em 2023–2025, deixou um legado de preços mais elevados e de uma estrutura de mercado mais concentrada.
Olhando para o futuro, a crescente concentração das importações na China (HHI em alta) constitui um fator de vulnerabilidade potencial. A defesa de uma base produtiva europeia diversificada, com os seus centros de especialização em Portugal, Dinamarca e Itália, será determinante para manter o equilíbrio entre abastecimento acessível e resiliência estratégica do setor.