Evolução do mercado: Tijolos cerâmicos (CN 6904) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no segmento de tijolos cerâmicos para construção e produtos similares (posição aduaneira CN 6904), no período compreendido entre 2015 e 2025. Este produto abrange tijolos para construção (690410) e blocos cerâmicos para pavimentos, tijoleiras e produtos semelhantes (690490).
O período em análise foi marcado por transformações profundas: a UE permaneceu como exportador líquido ao longo de toda a década, mas assistiu a uma reconfiguração acentuada das suas relações comerciais, à erosão do volume físico trocado e a uma escalada sem precedentes dos preços. A pandemia de COVID-19, a invasão da Ucrânia e as sanções subsequentes à Rússia, bem como a reconfiguração das cadeias de abastecimento, deixaram marcas claras nos dados. Este relatório estrutura-se em três eixos principais que procuram captar as dinâmicas mais relevantes observadas.
1. A grande divergência: preços em forte subida contra volumes em contração
1.1. Exportações da UE: o valor duplica enquanto o volume recua
O panorama mais marcante do período é a divergência entre a evolução do valor e do volume das exportações da UE para países terceiros. O valor das exportações cresceu de €177,3 milhões em 2015 para €297,5 milhões em 2025, um aumento de 67,8%. Contudo, o volume exportado caiu de 1,97 milhões de toneladas para 1,27 milhões de toneladas (−35,7%). Estas duas tendências opostas só se explicam pela forte subida do preço médio de exportação, que passou de €90/t para €235/t — um aumento acumulado de 160,8%.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor exportações (€) | 177,3 M | 297,5 M | +67,8% |
| Quantidade exportações (t) | 1 970 612 | 1 267 742 | −35,7% |
| Preço médio export. (€/t) | 90,0 | 234,7 | +160,8% |
Fonte: Visão geral do comércio
1.2. Importações da UE: crescimento acelerado em valor e volume
As importações apresentaram uma trajetória de crescimento ainda mais acentuada. O valor subiu de €10,1 milhões para €46,3 milhões (+358,5%), enquanto a quantidade mais do que duplicou, passando de 145 018 toneladas para 363 209 toneladas (+150,5%). O preço médio de importação cresceu de €70/t para €128/t (+83,2%).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor importações (€) | 10,1 M | 46,3 M | +358,5% |
| Quantidade importações (t) | 145 018 | 363 209 | +150,5% |
| Preço médio import. (€/t) | 69,7 | 127,6 | +83,2% |
Fonte: Visão geral do comércio
1.3. O saldo comercial permanece fortemente positivo
Apesar do crescimento mais rápido das importações, a UE manteve ao longo de todo o período um superavit comercial significativo. O saldo passou de €167,2 milhões (2015) para €251,1 milhões (2025), com um máximo de €317,1 milhões registado em 2022, coincidindo com o pico de preços exportados. A dependência líquida de importações passou de −1,4% para −9,6%, o que confirma o aprofundamento da posição de exportador líquido da UE.
1.4. Segmento de produto: os tijolos de construção dominam, mas os blocos de pavimento surpreendem nos preços
A análise por subproduto revela que os tijolos para construção (690410) dominam claramente o comércio, representando a esmagadora maioria do volume — tanto em exportações como em importações. No entanto, o subproduto 690490 (blocos para pavimentos, tijoleiras e similares) apresenta preços unitários substancialmente mais elevados:
- Preço médio de exportação 690490 em 2025: €342/t, face a €229/t para 690410.
- Preço médio de importação 690490 em 2025: €239/t, face a €122/t para 690410.
É particularmente notável a escalada dos preços de importação do 690490, que cresceram de €71/t (2015) para €239/t (2025) — um aumento de 235%, sugerindo uma alteração estrutural na composição das importações deste segmento, com a entrada de fornecedores de maior valor acrescentado ou a subida dos custos de produção nos países de origem.
2. Reconfiguração geográfica: o Reino Unido no centro, a Rússia em colapso, os Balcãs em ascensão
2.1. O Reino Unido consolidou-se como parceiro dominante em ambas as direções
O Reino Unido é, de longe, o principal destino das exportações da UE e tornou-se simultaneamente uma fonte crescente de importações. Em 2025, absorveu €200,1 milhões em exportações (67,3% do total), face a €97,4 milhões em 2015 (+105,4%). Do lado das importações, o crescimento foi ainda mais espetacular: de €2,3 milhões para €16,6 milhões (+631,9%), tornando o Reino Unido o segundo maior fornecedor extra-UE da UE.
Esta evolução reflete, em grande medida, os efeitos do Brexit: a saída do Reino Unido do mercado único converteu um parceiro comercial interno num parceiro externo registado nas estatísticas extra-UE, o que explica parte do crescimento aparente em ambas as direções.
2.2. Colapso das exportações para a Rússia e surgimento de uma categoria residual
As exportações para a Federação Russa registaram uma queda dramática: de €22,1 milhões em 2015 para €1,9 milhões em 2025 (−91,5%). O ponto de rutura situa-se em 2024, quando o choque de abastecimento atingiu a magnitude de −97,2% face ao ano anterior, como confirmado pela análise de choques. Este colapso é claramente atribuível às sanções comerciais impostas no contexto do conflito na Ucrânia.
Simultaneamente, a categoria «Países e territórios não especificados por razões comerciais ou militares» registou um crescimento de €25 mil para €86,1 milhões, o que sugere a reclassificação de fluxos anteriormente atribuídos a parceiros identificados — possivelmente incluindo rotas comerciais indiretas ou fluxos com restrições de divulgação.
2.3. Sérvia, Turquia e Ucrânia: novos fornecedores em ascensão
Do lado das importações, três parceiros ganharam uma relevância crescente:
| País | Importações 2015 (€) | Importações 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Sérvia | 5,1 M | 21,1 M | +316,3% |
| Reino Unido | 2,3 M | 16,6 M | +631,9% |
| Turquia | 0,13 M | 2,9 M | +2 111,5% |
| Ucrânia | 0,12 M | 1,1 M | +852,5% |
| China | 0,25 M | 2,0 M | +691,1% |
Fonte: Parceiros por valor
A Sérvia tornou-se o principal fornecedor extra-UE, com €21,1 milhões em 2025. A sua proximidade geográfica, os custos de transporte reduzidos e o processo de adesão à UE explicam em grande medida esta ascensão. A Turquia e a Ucrânia representam igualmente uma crescente integração das indústrias cerâmicas dos Balcãs e do Leste europeu nas cadeias de valor da construção europeias. Note-se, porém, que a Turquia apresenta a maior volatilidade entre os fornecedores (coeficiente de variação de 1,52 nas importações), o que reflete a instabilidade cambial e os ciclos económicos desse país.
2.4. Moldávia e Bósnia-Herzegovina: trajetórias divergentes
Dois parceinos dos Balcãs merecem destaque pela sua evolução divergente. A Moldávia, que em 2015 era o terceiro maior fornecedor extra-UE (€706 mil), registou uma queda acentuada até €185 mil em 2025 (−73,8%), com um mínimo de apenas €18 mil em 2022. A Bósnia-Herzegovina, pelo contrário, triplicou as suas exportações para a UE (de €145 mil para €482 mil em importações, +231,6%), e viu as exportações da UE para o seu território crescerem de €2,3 milhões para €6,6 milhões (+182,9%).
3. Concentração crescente, produção em declínio e reconfiguração dos fluxos intrabloco
3.1. A concentração geográfica das exportações acentuou-se
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das exportações por valor subiu de 3 320 para 4 627 (+39,4%), indicando uma concentração crescente dos destinos de exportação. Em grande medida, este resultado reflecte a dominância crescente do Reino Unido como destino, conjugada com a perda de diversidade resultante do colapso das exportações para a Rússia.
Do lado das importações, a concentração por valor manteve-se relativamente estável (de 3 150 para 3 434), apesar de uma subida pontual acentuada em 2022 (HHI de 4 916), possivelmente ligada a disrupções logísticas pós-pandemia e ao início da guerra na Ucrânia.
3.2. A produção europeia registou uma contração acentuada
Os dados de produção revelam uma queda profunda: o valor de produção passou de €4 947 milhões (2015) para €3 093 milhões (2025), uma redução de 37,5%. A queda em volume é ainda mais acentuada (−87,9%), ainda que esta cifra extrema deva ser interpretada com cautela, dado que a unidade de medida é o metro cúbico e pode reflectir variações metodológicas na recolha de dados.
A combinação de produção doméstica em declínio com importações crescentes (de parceiros como Sérvia e Turquia) sugere uma perda gradual de competitividade da indústria cerâmica europeia, potencialmente ligada a custos energéticos crescentes, normas ambientais mais exigentes e concorrência de países com menores custos de produção.
3.3. Os exportadores mais especializados são economias pequenas
A análise de especialização revela que os Estados-Membros com maior vantagem comparativa revelada (RSCA) no segmento 6904 são economias de menor dimensão:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota produção | Quota exportações |
|---|---|---|---|---|
| Letónia | 0,82 | 10,22 | 3,4% | 0,3% |
| Dinamarca | 0,68 | 5,26 | 9,1% | 1,7% |
| Grécia | 0,68 | 5,21 | 3,5% | 0,7% |
| Croácia | 0,62 | 4,27 | 1,7% | 0,4% |
| Bélgica | 0,58 | 3,71 | 31,4% | 8,5% |
Fonte: Especialização
A Bélgica e os Países Baixos surgem como os maiores exportadores absolutos (€105,6 M e €75,7 M em 2025, respetivamente), funcionando como plataformas logísticas de reexportação. A Espanha registou o maior crescimento entre os grandes exportadores (+335,7%, de €6,8 M para €29,6 M), consolidando-se como terceiro maior exportador da UE.
No extremo oposto, a Irlanda e a Bulgária apresentam RSCA próximo de −1,0, indicando uma quase total dependência das importações. A Irlanda é, na verdade, o Estado-Membro com maior crescimento das importações (+918,3%, de €1,6 M para €16,1 M), reflexo da sua forte atividade construtiva e da escassez de produção doméstica.
3.4. A intensidade comercial e a propensão exportadora da UE dispararam
A intensidade comercial (comércio total como proporção da produção) passou de 1,6% para 11,2% (+588,1%), enquanto a propensão exportadora cresceu de 1,5% para 10,1% (+561,9%). Estes indicadores confirmam que, embora a produção europeia tenha diminuído, a UE redirecionou uma proporção crescente da sua produção para mercados externos, simultaneamente recorrendo mais intensamente a fornecedores terceiros.
3.5. Choques de preço e abastecimento pontuaram o período
A análise de volatilidade e de choques identifica três eventos relevantes:
| Evento | Tipo | Fluxo | Ano | Magnitude |
|---|---|---|---|---|
| Noruega — choque de preço | Preço | Exportações | 2021 | +109,3% |
| Rússia — colapso de abastecimento | Abastecimento | Exportações | 2024 | −97,2% |
| Suíça — choque de preço | Preço | Exportações | 2022 | +24,5% |
O choque de preço na Noruega em 2021 (+109,3%) é particularmente notável, ainda que o seu peso no valor total das exportações (5,4%) limite o seu impacto sistémico. A Suíça, destino estável ao longo de todo o período (com o menor coeficiente de variação nas exportações: 0,10), registou igualmente um ajuste de preços em 2022.
Conclusão
O mercado europeu de tijolos cerâmicos (CN 6904) experimentou, entre 2015 e 2025, uma transformação profunda mas coerente. A UE consolidou a sua posição de exportador líquido, mas fê-lo num contexto de contração da base produtiva doméstica e de forte inflação dos preços. O valor das exportações cresceu significativamente, mas à custa de preços mais elevados e não de maiores volumes.
A reconfiguração geográfica do comércio é o segundo grande tema: o Brexit elevou o Reino Unido a parceiro dominante em ambos os sentidos; as sanções à Rússia eliminaram um destino tradicional; e os Balcãs — em particular a Sérvia — emergiram como fornecedores crescentes. A Turquia, embora com elevada volatilidade, confirma o papel crescente da periferia europeia na indústria cerâmica.
O aumento da intensidade comercial e da propensão exportadora sugere que a indústria europeia se está a reorientar progressivamente para segmentos de maior valor acrescentado, enquanto produtos de base mais comuns tendem a ser importados de países terceiros com custos de produção inferiores. A manutenção de um superavit comercial robusto (€251 milhões em 2025) indica que a UE conserva vantagens competitivas relevantes, mas a tendência de longo prazo — produção em queda, importações em crescimento, concentração das exportações em poucos destinos — merece uma monitorização atenta por parte dos decisores políticos europeus.