Evolução do mercado: Cerâmica técnica (CN 6909) — 2015–2025
Introdução
Este relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no setor dos aparelhos e artigos para usos químicos ou outros usos técnicos de cerâmica, recipientes para agricultura e vasilhas para transporte/embalagem (posição pautal CN 6909), no período compreendido entre 2015 e 2025.
A posição 6909 abrange quatro subcategorias principais: artigos cerâmicos técnicos que não porcelana nem cerâmicas de dureza ≥9 na escala de Mohs (690919), artigos com dureza equivalente a ≥9 na escala de Mohs (690912), artigos de porcelana (690911) e recipientes para agricultura, transporte ou embalagem (690990). Ao longo da década analisada, a UE consolidou-se como exportador líquido neste setor, registando uma dinâmica marcada pela valorização dos preços, por fortes reconfigurações geográficas — com destaque para o crescimento exponencial das importações chinesas e o colapso das exportações para o Reino Unido — e por uma especialização produtiva crescente em Estados-Membros como a Alemanha e a Polónia.
1. Valorização acentuada: o triunfo do preço sobre o volume
As exportações cresceram em valor, apesar da contração dos volumes
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE para países terceiros no setor CN 6909 aumentou 23,5%, passando de €969 milhões para €1 197 milhões. Contudo, esta evolução esconde uma divergência fundamental: o volume exportado diminuiu 20,9%, caindo de 61 177 toneladas para 48 412 toneladas. A explicação reside na forte subida do preço médio de exportação, que cresceu 56,1%, de €15 837/t para €24 718/t — o valor mais elevado de todo o período.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor exportações (€) | 969 005 120 | 1 196 932 833 | +23,5% |
| Quantidade exportações (t) | 61 177 | 48 412 | −20,9% |
| Preço médio exportação (€/t) | 15 837 | 24 718 | +56,1% |
As importações acompanharam a mesma tendência de encarecimento
Do lado das importações, registou-se um crescimento do valor de 36,4% (de €558 milhões para €761 milhões), com um aumento modesto de 9,7% no volume (de 44 068 t para 48 356 t) e uma subida do preço médio de 24,3% (de €12 662/t para €15 741/t). Cabe notar que o pico de importações em valor ocorreu em 2022 (€905 milhões), possivelmente impulsionado por disrupções pós-COVID e pelo choque energético associado ao conflito na Ucrânia, antes de registar uma correção.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor importações (€) | 558 088 762 | 761 367 855 | +36,4% |
| Quantidade importações (t) | 44 068 | 48 356 | +9,7% |
| Preço médio importação (€/t) | 12 662 | 15 741 | +24,3% |
O saldo comercial mantém-se estruturalmente positivo
A UE manteve um saldo comercial positivo ao longo de todo o período, variando entre €340 milhões (mínimo em 2024) e €534 milhões (máximo em 2021). Em 2025, o excedente situou-se nos €436 milhões, 6,0% acima do registado em 2015. A dependência líquida de importações (indicador negativo = exportador líquido) intensificou-se de −14,7% para −22,9%, confirmando a consolidação da posição exportadora da UE. Este padrão sugere que a cerâmica técnica europeia mantém uma vantagem competitiva sustentável nos mercados internacionais, baseada não no volume, mas na qualidade e valor acrescentado dos seus produtos.
2. Reconfiguração geográfica: a ascensão da China e o impacto do Brexit
A China tornou-se a segunda maior origem de importações da UE
A evolução mais marcante do lado das importações foi o crescimento exponencial das aquisições à China, que registaram uma subida de 329,5%, escalando de €53 milhões em 2015 para €229 milhões em 2025. A China passou assim de uma quota de 9,5% para 30,1% das importações totais da UE de países terceiros, tornando-se a segunda maior origem — logo a seguir aos Estados Unidos (€240 milhões, +5,0%). Ao mesmo tempo, as importações do Japão — outrora uma fonte relevante — diminuíram 16,8%, caindo de €136 milhões para €113 milhões. O Brasil apresenta a maior variação percentual (+4 298%), ainda que em valores absolutos marginais, refletindo uma base inicial próxima de zero.
| Parceiro | 2015 (€M) | 2025 (€M) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 53,3 | 228,9 | +329,5% |
| Estados Unidos | 228,7 | 240,1 | +5,0% |
| Japão | 135,5 | 112,7 | −16,8% |
| Reino Unido | 12,7 | 19,8 | +55,8% |
| México | 49,8 | 56,5 | +13,4% |
| Coreia do Sul | 14,7 | 17,6 | +19,6% |
O Brexit e a reconfiguração das rotas de exportação
Do lado das exportações, a transformação mais impactante foi o colapso das vendas para o Reino Unido, que caíram 89,8% — de €289 milhões (o principal destino em 2015) para apenas €29 milhões em 2025. A volatilidade associada a este fluxo é das mais elevadas (coeficiente de variação de 0,68), refletindo uma ruptura estrutural — muito provavelmente ligada à saída do Reino Unido da UE e ao subsequente regime aduaneiro.
Em contrapartida, a Macedónia do Norte ascendeu ao primeiro lugar como destino das exportações da UE, com um crescimento de 88,0% (de €152 milhões para €285 milhões). Este país dos Balcãs Ocidentais, que partilha fronteira com a Grécia e a Bulgária (ambos Estados-Membros), funciona provavelmente como plataforma de reexportação ou como local de produção intermediário no âmbito de cadeias de valor regionais. Os Estados Unidos também registaram um crescimento sólido (+88,6%, de €95 milhões para €180 milhões), enquanto a China surpreende com +363,2% (de €33 milhões para €151 milhões) como destino de exportação, sinal de uma crescente procura de cerâmica técnica europeia no mercado asiático.
| Parceiro | 2015 (€M) | 2025 (€M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Macedónia do Norte | 151,8 | 285,4 | +88,0% |
| Reino Unido | 289,2 | 29,5 | −89,8% |
| Estados Unidos | 95,4 | 179,9 | +88,6% |
| China | 32,7 | 151,5 | +363,2% |
| Coreia do Sul | 65,5 | 52,7 | −19,7% |
| Arábia Saudita | 4,3 | 12,3 | +183,4% |
A concentração geográfica diminuiu em ambos os flujos
O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor diminuiu 10,5% (de 2 477 para 2 218), enquanto o das exportações caiu 19,0% (de 1 408 para 1 140), indicando uma diversificação crescente das relações comerciais em ambos os sentidos. Destaca-se, contudo, que a concentração das importações por volume aumentou 58,2% (de 2 612 para 4 133), o que sugere um aumento da dependência volumétrica de origens específicas — em especial a China — apesar da diversificação nominal das fontes de abastecimento.
3. Especialização produtiva e consolidação exportadora da UE
A produção da UE cresceu em valor, impulsionada pela transformação para gama superior
Os dados de produção da UE revelam uma evolução particularmente expressiva: a quantidade produzida aumentou 36,9% (de 80,4 milhões de kg para 110,0 milhões de kg), mas o valor da produção disparou 203,1% — de €616 milhões para €1 868 milhões. Isto implica que o preço médio de produção interna mais do que duplicou (de aproximadamente €7,7/kg para €17,0/kg), sinalizando uma clara aposta na subida na cadeia de valor, com a produção de cerâmicas técnicas de maior desempenho e preço. Este fenómeno é consistente com a dominância da subcategoria 690919 (artigos técnicos de cerâmica que não porcelana nem dureza ≥9 Mohs), que em 2025 representou 81,8% do valor das exportações e 77,1% do valor das importações.
| Segmento CN | Descrição | Share nas exportações € (2025) | Share nas importações € (2025) |
|---|---|---|---|
| 690919 | Artigos cerâmicos técnicos (excl. porcelana e dureza ≥9) | 81,8% | 77,1% |
| 690912 | Dureza ≥9 na escala de Mohs | 15,0% | 19,3% |
| 690911 | De porcelana | 2,5% | 1,9% |
| 690990 | Recipientes para agricultura e transporte | 0,8% | 1,7% |
A Alemanha e a Polónia consolidam a liderança exportadora, mas com perfis distintos
No terreno da especialização, os dados de 2025 revelam que a Polónia detém o maior RSCA normalizado (0,485), seguida da Bélgica (0,429) e da Alemanha (0,280). A Alemanha mantém-se como o principal exportador da UE (€612 milhões, +30,8% vs. 2015), mas a sua quota nas exportações totais da UE (~51%) é proporcionalmente inferior à sua especialização, refletindo uma economia diversificada. Já a Polónia (€230 milhões, +28,2%) assegura uma quota de ~19% com uma especialização setorial mais acentuada.
| Estado-Membro | Exportações 2025 (€M) | Variação vs. 2015 | RSCA (2025) |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 612,3 | +30,8% | 0,280 |
| Polónia | 230,0 | +28,2% | 0,485 |
| Hungria | 94,5 | −32,3% | −0,068 |
| Países Baixos | 73,0 | +358,8% | — |
| Áustria | 34,2 | +301,1% | −0,040 |
Do lado das importações, a Bélgica (+49,9%, de €151M para €227M), os Países Baixos (+103,4%, de €55M para €112M) e Espanha (+122,0%, de €9M para €21M) registaram os maiores crescimentos entre os principais Estados-Membros importadores.
Choques sistémicos pontuais e elevada volatilidade em parceiros específicos
A análise de volatilidade e choques revela dois padrões distintos. Por um lado, registaram-se choques de preços pontuais em 2019 e 2021:
- Arábia Saudita (exportações, 2019): aumento anómalo de preço de +250,3% (abnormidade: 55,1), possivelmente associado a contratos de grande volume em projetos de infraestrutura.
- Brasil (importações, 2021): salto de preço de +451,7% (abnormidade: 45,6), num fluxo de valor marginal, mas que ilustra a acumulação de risco em parceiros periféricos.
- Emirados Árabes Unidos (exportações, 2021): aumento de +290,9%, possivelmente ligado a efémeros contratos energéticos.
Por outro lado, os parceiros com maior coeficiente de variação histórico nas importações são a Rússia (CV = 2,82) e o Brasil (CV = 1,22), enquanto nas exportações a Arábia Saudita (CV = 1,66) e o Reino Unido (CV = 0,68) se destacam — este último confirmadamente afetado pelo Brexit. A propensão exportadora da UE subiu de 36,6% para 63,2%, reforçando o carácter exportador líquido estrutural deste setor.
Conclusão
O mercado europeu de cerâmica técnica (CN 6909) entre 2015 e 2025 apresenta um padrão claro de valorização produtiva e comercial. A UE consolidou a sua posição como exportador líquido, com um excedente comercial sustentado e uma dependência líquida de importações que se intensificou de −14,7% para −22,9%. Contudo, esta valorização assenta sobretudo em preços — o que reflete a transição para cerâmicas técnicas de maior valor acrescentado — e não em crescimento volumétrico.
Dois desenvolvimentos estruturais merecem atenção: em primeiro lugar, a ascensão da China como segundo maior fornecedor da UE (com crescimento de 330%) representa simultaneamente uma oportunidade de diversificação de abastecimento e um risco de dependência crescente, num contexto geopolítico marcado por tensões comerciais. Em segundo lugar, o recolhimento das exportações para o Reino Unido após o Brexit — queda de quase 90% — constitui a maior reconfiguração geográfica do período, parcialmente compensada pelo crescimento em mercados como a Macedónia do Norte, os Estados Unidos e, surpreendentemente, a própria China.
A produção interna da UE cresceu 37% em volume e 203% em valor, sinalizando uma aposta consistente em gama superior. Com a Alemanha a contribuir com mais de metade das exportações e a Polónia a consolidar a sua liderança em termos de especialização relativa, o setor demonstra resiliência — mas também uma concentração geográfica e produtiva que justifica uma monitorização atenta.