Evolução do mercado: Diatomite (CN 6901) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativo ao código aduaneiro 6901 — produtos cerâmicos de farinhas siliciosas fósseis (diatomite, kieselguhr, tripolite) — ao longo do período 2015–2025. Este setor, embora de dimensão relativamente modesta no panorama comercial europeu, apresenta dinâmicas estruturais significativas que refletem tanto alterações na procura global como reestruturações internas da capacidade produtiva europeia. O período em análise abrange um conjunto de eventos macroeconómicos relevantes — desde a recuperação pós-crise das dívidas soberanas até à pandemia de COVID-19, à crise energética de 2022 e às alterações geopolíticas subsequentes — que deixaram marca na evolução comercial deste produto. A análise baseia-se exclusivamente nos dados disponíveis no Painel de Comércio da UE e procura interpretar as tendências observadas de forma fundamentada.
1. A transição volumétrica: menos toneladas, mais valor unitário
1.1 O colapso das exportações em volume e a valorização do preço médio
O fenómeno mais marcante do período é a divergência radical entre a evolução das exportações em volume e em valor unitário. Enquanto o volume exportado caiu 71,6% — passando de 46.185 toneladas em 2015 para apenas 13.134 toneladas em 2025 —, o preço médio de exportação subiu 202,0%, de 442 €/t para 1.336 €/t. Esta subida compensou parcialmente a queda volumétrica, resultando num decréscimo do valor total das exportações de apenas 14,1% (de 20,4 milhões € para 17,5 milhões €), conforme detalhado no Painel Geral de Comércio.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Volume exportado (t) | 46.185 | 13.134 | -71,6% |
| Preço médio exportação (€/t) | 442 | 1.336 | +202,0% |
| Valor exportações (€) | 20.426.755 | 17.549.650 | -14,1% |
Esta dinâmica sugere uma reestruturação profunda do perfil exportador europeu: a UE passou progressivamente de exportador de grandes volumes a baixos preços para exportador de quantidades significativamente inferiores a preços unitários muito mais elevados. A interpretação mais plausível aponta para uma especialização em produtos de maior valor acrescentado — possivelmente produtos com maior grau de transformação ou com especificações técnicas mais exigentes — ou então para a deslocalização das produções de base para fora da UE.
1.2 A produção europeia confirma a reestruturação em curso
Os dados de produção da UE corroboram esta hipótese. A produção em volume caiu 57,1%, de 326.269 toneladas (2015) para 140.000 toneladas (2025), registando um mínimo intercalar de 116.551 toneladas. Contudo, o valor da produção subiu 27,7%, passando de 122,5 milhões € para 156,4 milhões €, com um máximo de 173,4 milhões €, como se pode observar nos dados de produção em volume e produção em valor.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Produção em volume (kg) | 326.269.113 | 140.000.000 | -57,1% |
| Produção em valor (€) | 122.510.066 | 156.441.474 | +27,7% |
O indicador resultante — uma duplicação aproximada do valor por quilograma produzido — confirma que a indústria europeia de diatomite se reorientou fortemente para segmentos de maior valor, abandonando progressivamente a produção de base.
1.3 Importações em crescimento moderado e preço estável
Em contraste com as exportações, as importações apresentaram uma dinâmica mais linear. O volume importado cresceu 48,4% (de 4.655 para 6.910 toneladas), enquanto o valor aumentou 37,4% (de 2,57 milhões € para 3,53 milhões €). O preço médio de importação registou até uma ligeira queda de 7,4%, de 552 €/t para 511 €/t, sugerindo que as importações se mantêm no segmento de produtos de base, com origem predominantemente em países com custos de produção mais competitivos. O máximo do período registou-se num ponto intercalar com 21.265 toneladas e 7,80 milhões €, indicando um pico seguido de retração.
2. Concentração crescente dos mercados e reconfiguração geográfica
2.1 A concentração das exportações duplicou
Um dos desenvolvimentos mais relevantes do período é o aumento significativo da concentração das exportações europeias num número reduzido de parceiros. O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das exportações em valor subiu 92,0%, de 1.315 para 2.525 — ultrapassando limiares que, em análise de mercados, indicam uma estrutura moderadamente concentrada a caminho de uma concentração elevada, conforme pode ser consultado nos dados de concentração HHI.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| HHI exportações (valor) | 1.315 | 2.525 | +92,0% |
| HHI importações (valor) | 1.576 | 1.922 | +21,9% |
O Reino Unido consolidou-se como destino dominante das exportações europeias, representando 8,36 milhões € em 2025 (acréscimo de 29,8% face a 2015). A crescente dependência do mercado britânico — que sozinho absorve quase metade do valor exportado — tornou-se um fator de risco relevante, nomeadamente no contexto do Brexit e das incertezas regulatórias associadas. Os dados de parceiros principais detalham esta evolução.
2.2 Redução das exportações para destinos tradicionais em África e Médio Oriente
Em contraste com o crescimento no Reino Unido, as exportações para vários mercados tradicionais registaram quedas acentuadas. A Argélia sofreu uma redução de 83,9% (de 1,02 milhões € para 164.839 €), o Canadá recuou 51,7%, e a Rússia — apesar de um crescimento nominal de 193,3% entre 2015 e o último ano disponível — registou uma elevada volatilidade (CV de 1,16) e valores máximos de 6,69 milhões € que subsequentemente se desvaneceram. Estas flutuações refletem tanto fatores geopolíticos (sanções à Rússia) como instabilidades económicas nos mercados de destino.
2.3 A geografia das importações: do Magrebe e Rússia para a Ásia Meridional
Do lado das importações, a composição geográfica também se reconfigurou. A Rússia, que em 2015 representava 281.444 €, passou para apenas 16.361 € em 2025 (redução de 94,2%). O Marrocos registou um recuo de 57,3%. Em contrapartida, o Bangladesh emergiu como principal fornecedor, crescendo 61,7% até 973.437 €, e a Sérvia triplicou a sua quota com um crescimento de 571,6% (de 24.802 € para 166.575 €). A concentração das importações em valor subiu 21,9%, como indicam os dados de parceiros principais para importações.
Estas alterações sugerem uma reconfigurção das cadeias de abastecimento europeias, com desvio geográfico do Magrebe e da Rússia para a Ásia Meridional e os Balcãs Ocidentais.
3. Volatilidade, especialização e autonomia estratégica da UE
3.1 Eventos de choque identificados: Brasil, Turquia e Noruega
A análise de volatilidade e choques revelou três eventos de choque significativos:
| Parceiro | Fluxo | Tipo de choque | Ano central | Variação (%) | Grau de anormalidade |
|---|---|---|---|---|---|
| Brasil | Exportações | Preço | 2022 | +120,6% | 413,7 |
| Turquia | Importações | Preço | 2019 | +390,6% | 74,5 |
| Noruega | Exportações | Preço | 2022 | +113,4% | 57,4 |
O choque no comércio com o Brasil em 2022 — com uma anormalidade de 413,7 e uma variação de preço de +120,6% — é o mais intenso do período e coincide com as perturbações energéticas e logísticas globais de 2022. O pico de preços nas exportações para a Turquia em 2019 (+390,6%) sugere uma descontinuidade pontual no fornecimento turco. Do lado das importações, os parceiros com maior volatilidade incluem o Paquistão (CV de 2,07) e o Reino Unido (CV de 1,81), como detalhado nos indicadores de volatilidade.
3.2 A UE mantém-se exportador líquido, mas com sinais de erosão
Ao longo de todo o período, a UE manteve uma posição de exportador líquido de produtos CN 6901, com uma dependência líquida de importações sempre negativa — variando entre -30,3% e -0,3%, com valor final de -7,3%. O saldo comercial (balança positiva) diminuiu 21,5%, de 17,9 milhões € para 14,0 milhões €, sinalizando uma ligeira erosão da posição líquida.
Paralelamente, a intensidade comercial (exportações + importações como proporção da produção) diminuiu de 15,4% para 12,9%, e a propensão exportadora caiu de 11,8% para 10,1%. Estes indicadores sugerem uma economia europeia de diatomite progressivamente mais orientada para o mercado interno, em resultado da contração das exportações em volume.
3.3 Espanha, Itália e França lideram a especialização europeia
A análise de especialização por Estado-Membro revela uma distribuição geográfica concentrada. Em 2025, os países com maior Índice de Vantagem Comparativa Simétrica Revelada (RSCA) são:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota na produção UE | Quota no comércio UE |
|---|---|---|---|---|
| Espanha | 0,73 | 6,44 | 37,3% | 5,8% |
| Luxemburgo | 0,58 | 3,75 | 1,2% | 0,3% |
| Itália | 0,54 | 3,33 | 26,7% | 8,0% |
| França | 0,43 | 2,49 | 19,5% | 7,8% |
Espanha, Itália e França concentram cerca de 83,5% da produção europeia de diatomite, configurando um oligopólio produtivo geograficamente concentrado na Europa meridional. A França assume simultaneamente a liderança nas exportações intra e extra-UE (8,89 milhões € em 2025), enquanto a Irlanda registou o crescimento mais espetacular nas exportações (+6.484%), passando de 46.159 € para 3,04 milhões € — uma evolução que merece investigação adicional, possivelmente associada a reexportações ou a alterações nas rotas logísticas. Estes dados estão disponíveis nos principais Estados-Membro exportadores.
Conclusão
O mercado europeu de produtos cerâmicos de diatomite (CN 6901) sofreu, entre 2015 e 2025, uma transformação estrutural profunda. A queda acentuada dos volumes exportados (-71,6%) e produzidos (-57,1%), acompanhada de uma valorização acentuada dos preços (+202% nas exportações), aponta para uma clara reorientação da indústria europeia para segmentos de maior valor acrescentado, abandonando progressivamente a produção de base de baixo custo.
Simultaneamente, a crescente concentração das exportações em poucos mercados — sobretudo o Reino Unido — e a reconfiguração geográfica das fontes de importação (do Magrebe e Rússia para a Ásia Meridional e Balcãs) refletem ajustamentos nas cadeias de valor globais, acelerados por fatores geopolíticos e pela crise energética de 2022. Apesar da erosão do saldo comercial (-21,5%), a UE mantém a sua posição de exportador líquido e uma vantagem comparativa robusta, sustentada por um oligopólio produtivo em Espanha, Itália e França.
O principal risco identificado reside na concentração crescente — tanto geográfica como sectorial — que reduz a resiliência da indústria europeia face a choques exógenos. A diversificação de mercados de destino e de fontes de abastecimento permanece como prioridade estratégica para garantir a autonomia da UE neste setor especializado de produtos cerâmicos.