Evolução do mercado: Outras obras de cerâmica (CN 6914) — 2015–2025
Introdução
O código combinado 6914 — "Ceramic articles, n.e.s." — abrange um leque residual de obras cerâmicas que não se enquadram nas categorias mais específicas (como azulejos, louça sanitária ou artigos de porcelana). Esta posição inclui dois subcapítulos: 691410 (de porcelana) e 691490 (excl. porcelana). No período compreendido entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE neste setor registou uma expansão notável, com as exportações a superarem sistematicamente as importações. Este relatório analisa as principais dinâmicas observáveis: o crescimento estrutural do setor, a reconfiguração das relações comerciais com países terceiros e os fatores de vulnerabilidade e volatilidade que marcaram o período.
1. Crescimento robusto e consolidação do superavit comercial da UE
1.1. As exportações europeias triplicaram em valor entre 2015 e 2025
O período em análise foi marcado por um crescimento acentuado do valor das exportações da UE de obras de cerâmica n.e.s., que passaram de 129,9 milhões EUR em 2015 para 383,5 milhões EUR em 2025, correspondendo a um aumento de 195,2% (Visão geral do comércio). As importações também cresceram, mas de forma menos intensa, passando de 90,6 milhões EUR para 203,5 milhões EUR (+124,8%).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor, M EUR) | 129,9 | 383,5 | +195,2% |
| Exportações (quantidade, mil t) | 67,6 | 132,4 | +95,7% |
| Importações (valor, M EUR) | 90,6 | 203,5 | +124,8% |
| Importações (quantidade, mil t) | 47,3 | 89,4 | +88,9% |
| Balança comercial (M EUR) | 39,4 | 180,0 | +357,4% |
1.2. A evolução dos preços reflete uma valorização acrescida das exportações
Embora o crescimento dos volumes tenha sido substancial, a valorização dos preços exportados contribuiu de forma decisiva para o aumento do valor total. O preço médio das exportações subiu de 1.920 EUR/t para 2.896 EUR/t (+50,8%), enquanto o preço médio das importações cresceu apenas de 1.912 EUR/t para 2.275 EUR/t (+19,0%). Este diferencial sugere que a UE tem progressivamente orientado a sua produção para segmentos de maior valor acrescentado, nomeadamente a porcelana, cujo preço médio de exportação atingiu 18.584 EUR/t em 2025 (Segmentação por produto).
1.3. O superavit comercial consolidou-se como tendência estrutural
A balança comercial da UE em obras de cerâmica n.e.s. passou de 39,4 milhões EUR em 2015 para 180,0 milhões EUR em 2025 — um crescimento de 357,4%. O indicador de dependência líquida de importações (net import reliance) confirma esta trajetória: partindo de -143,3% em 2015 (indicando forte posição exportadora), o valor situou-se em -28,5% em 2025. A redução em termos absolutos deve-se sobretudo ao crescimento mais acelerado das importações, mas a UE mantém-se claramente como exportador líquido. A dependência de importações atingiu mesmo um ligeiro valor positivo em 2022 (3,0%), reflexo da subida acentuada dos custos de importação nesse ano.
2. Reconfiguração geográfica: novos parceiros e mudanças na liderança
2.1. Os Estados Unidos consolidaram-se como principal destino das exportações da UE
O mercado norte-americano tornou-se de longe o destino mais relevante para as exportações europeias de obras de cerâmica, com o valor a crescer de 38,9 milhões EUR em 2015 para 125,0 milhões EUR em 2025 (+221,6%). O Reino Unido, o segundo maior parceiro, cresceu de 21,4 milhões EUR para 43,6 milhões EUR (+103,3%). A Suíça e o Canadá registaram crescimentos de 199,2% e 313,9%, respetivamente (Principais parceiros de exportação).
| Destino das exportações | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 38,9 | 125,0 | +221,6% |
| Reino Unido | 21,4 | 43,6 | +103,3% |
| Suíça | 11,0 | 32,9 | +199,2% |
| Canadá | 4,3 | 18,0 | +313,9% |
| Israel | 1,1 | 19,0 | +1.652,5% |
| Austrália | 10,7 | 8,4 | -21,6% |
Destaca-se o caso de Israel, cujas importações da UE passaram de valores residuais (1,1 milhão EUR) para 19,0 milhões EUR — um crescimento de 1.652,5% que reflete possivelmente a reorientação das cadeias de abastecimento no Médio Oriente. A Austrália é o único parceiro do top 7 onde se regista uma quebra (-21,6%).
2.2. A China e o Vietname dominam as importações, mas a concentração aumentou
Do lado das importações, a China manteve-se como principal fornecedor, com o valor a crescer de 26,6 milhões EUR para 78,3 milhões EUR (+194,0%). O Vietname, segundo maior parceiro, passou de 16,8 milhões EUR para 41,3 milhões EUR (+146,2%). Outros fornecedores como a Malásia (+229,8%), a Tunísia (+224,8%) e o México (+141,1%) registaram crescimentos expressivos, mas em valores absolutos muito inferiores (Principais parceiros de importação).
| Origem das importações | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 26,6 | 78,3 | +194,0% |
| Vietname | 16,8 | 41,3 | +146,2% |
| Reino Unido | 4,5 | 8,3 | +84,1% |
| México | 3,0 | 7,2 | +141,1% |
| Malásia | 1,2 | 3,8 | +229,8% |
| Tunísia | 0,7 | 2,4 | +224,8% |
O índice de concentração HHI (Herfindahl-Hirschman) das importações por valor subiu de 1.673 para 2.107 (+26,0%), o que indica um aumento da concentração das fontes de abastecimento — um risco potencial de dependência. Do lado das exportações, o HHI manteve-se praticamente estável (1.408 → 1.404, -0,3%), refletindo uma diversificação equilibrada dos mercados de destino.
2.3. Espanha tornou-se a principal potência exportadora da UE
A análise por Estado-Membro revela uma transformação significativa na liderança das exportações (Principais Estados-Membros exportadores). Espanha passou de 25,8 milhões EUR em 2015 para 214,2 milhões EUR em 2025 — um crescimento de 730,1% que a posicionou como responsável por mais de metade do valor total exportado pela UE. A Itália e a Alemanha cresceram de forma mais moderada (+49,1% e +43,1%, respetivamente). Na especialização, Espanha ocupa a segunda posição a nível europeu (RSCA de 0,688), atrás apenas da Estónia (Especialização dos Estados-Membros).
| Estado-Membro exportador | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Espanha | 25,8 | 214,2 | +730,1% |
| Itália | 31,1 | 46,3 | +49,1% |
| Alemanha | 30,5 | 43,7 | +43,1% |
| França | 13,4 | 26,0 | +94,4% |
| Polónia | 1,9 | 8,7 | +363,1% |
3. Volatilidade, choques e fragilidades na cadeia de abastecimento
3.1. O choque de preços nas importações da China em 2022 foi o evento mais marcante
O período 2015–2025 não foi isento de perturbações. O evento de choque mais significativo detetado ocorreu em 2022 nas importações da China: registou-se uma subida anómala de preços de 57,7%, com um índice de anormalidade de 5,8 (Eventos de choque na oferta). Este fenómeno insere-se no contexto mais amplo das disrupções pós-COVID e da subida dos custos de transporte marítimo, que afetaram particularmente as importações de mercadorias de origem asiática. A China, que detinha 66,2% do valor das importações no ponto de choque, foi simultaneamente o parceiro com maior coeficiente de variação nas importações (0,416) — embora o México (0,918) e o Reino Unido (0,739) tenham registado volatilidade ainda superior (Volatilidade por parceiro).
3.2. A intensidade comercial e a propensão exportadora registaram quebras acentuadas
Apesar do crescimento em termos absolutos, dois indicadores estruturais revelam uma perda relativa de dinamismo. A intensidade comercial (comércio total enquanto percentagem da produção) desceu de 84,8% em 2015 para 56,9% em 2025 (-32,9%), sugerindo que o crescimento da produção interna superou o do comércio externo. A propensão exportadora caiu de 81,4% para 46,4% (-43,0%), indicando que uma quota crescente da produção europeia está a ser absorvida pelo mercado interno.
3.3. A composição segmentar revela a dominância das cerâmicas não-porcelânicas
A análise por subproduto confirma que a esmagadora maioria do comércio incide sobre o código 691490 (cerâmicas excl. porcelana): em 2025, este segmento representou 87.925 t das importações (98,3% do total em quantidade) e 131.906 t das exportações (99,7%) (Segmentação por produto). Contudo, a porcelana (691410), apresenta preços unitários significativamente mais elevados — 18.585 EUR/t nas exportações em 2025, contra 2.841 EUR/t para as cerâmicas não-porcelânicas — evidenciando o seu papel como segmento premium dentro deste código residual.
Conclusão
O período 2015–2025 foi, no seu conjunto, de forte expansão para o setor das obras de cerâmica n.e.s. na UE, com o valor das exportações a quase triplicar e a balança comercial a consolidar-se em território positivo. A UE beneficiou da crescente procura nos mercados norte-americano e europeu não-UE, com Espanha a emergir como a principal potência exportadora. Contudo, subsistem fragilidades: a concentração das importações em poucos fornecedores (sobretudo China e Vietname) aumentou, o choque de preços de 2022 expôs a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento asiáticas, e a queda da intensidade comercial sugere que o setor se está a reorientar parcialmente para o consumo interno. O crescimento das exportações de porcelana, com preços significativamente superiores, representa uma oportunidade de valor acrescentado que os operadores europeus parecem estar a aproveitar.