Evolução do mercado: Automóveis e suas partes (CN 87) — 2015–2025
Introdução
O setor automóvel europeu, codificado pela posição combinada (CN) 87 — que abrange automóveis de passageiros, veículos de mercadorias, tratores, motociclos, reboques e respetivas partes e acessórios — representa um dos pilares fundamentais da economia da União Europeia. O período 2015–2025 foi marcado por transformações estruturais profundas: a pandemia de COVID-19 (2020–2021), a crise energética subsequente à invasão da Ucrânia (2022), a aceleração da eletrificação da frota e a crescente concorrência internacional, em particular da China. Este relatório analisa a evolução do comércio extra-UE da CN 87 com base nos dados disponíveis, identificando três dinâmicas centrais: o crescimento assimétrico das importações face às exportações, a reconfiguração geográfica das parcerias comerciais, e as pressões de preço que refletem uma transformação tecnológica do setor.
Definições e âmbito do produto CN 87
1. O crescimento assimétrico das importações e a erosão do superávit comercial
As exportações cresceram em valor, mas perderam volume
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE em CN 87 para países terceiros passou de 236,8 mil milhões de euros para 253,2 mil milhões, um crescimento de apenas 6,9%. Contudo, em termos de volume, as exportações diminuíram de 21,4 milhões de toneladas para 18,5 milhões de toneladas (−13,5%). Esta divergência é explicada pelo aumento do preço médio de exportação, que subiu 23,6% — de 11 058 €/t para 13 668 €/t — refletindo uma reorientação do mix exportador para produtos de maior valor acrescentado.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor, mil M€) | 236,8 | 253,2 | +6,9 |
| Exportações (volume, M toneladas) | 21,4 | 18,5 | −13,5 |
| Preço médio exportação (€/t) | 11 058 | 13 668 | +23,6 |
As importações cresceram de forma muito mais acentuada
O contraste com as importações é marcante. O valor das importações extra-UE subiu de 81,6 mil milhões de euros para 140,7 mil milhões (+72,4%), enquanto o volume cresceu de 9,6 para 13,2 milhões de toneladas (+38,1%). O preço médio de importação também subiu 24,8%, mas o crescimento do volume explica a maior parte do aumento do valor. Em termos de unidades suplementares, as importações de automóveis de passageiros (CN 8703) passaram de 3,17 milhões para 4,52 milhões de unidades (+42,7%), evidenciando uma procura crescente por veículos importados.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações (valor, mil M€) | 81,6 | 140,7 | +72,4 |
| Importações (volume, M toneladas) | 9,6 | 13,2 | +38,1 |
| Preço médio importação (€/t) | 8 539 | 10 661 | +24,8 |
| Importações 8703 (unidades, M) | 3,17 | 4,52 | +42,7 |
O superávit comercial reduziu-se significativamente
O saldo comercial da UE em CN 87 passou de 155,2 mil milhões de euros em 2015 para 112,6 mil milhões em 2025, uma redução de 27,5%. A dependência líquida de importações, embora a UE se mantenha exportadora líquida (valores negativos), agravou-se de −16,8% para −22,3%, com um mínimo de −39,4% registado num ano intermédio. A intensidade comercial (trade intensity) subiu de 32,3% para 47,6%, e a propensão para exportar passou de 25,0% para 37,5%, sugerindo que o setor se tornou mais integrado no comércio global — mas simultaneamente mais dependente das importações.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Saldo comercial (mil M€) | 155,2 | 112,6 | −27,5 |
| Dependência líquida de importações (%) | −16,8 | −22,3 | −32,6 |
| Intensidade comercial (%) | 32,3 | 47,6 | +47,3 |
| Propensão para exportar (%) | 25,0 | 37,5 | +49,5 |
Indicadores de autonomia e vulnerabilidade
2. Reconfiguração geográfica do comércio europeu
A ascensão da China como fornecedor e o recuo enquanto destino de exportação
A transformação mais visível no período é a ascensão da China nas importações da UE. O valor das importações de CN 87 provenientes da China disparou de 5,3 mil milhões de euros em 2015 para 30,0 mil milhões em 2025, um aumento de 464,6% — o crescimento mais acentuado entre todos os principais parceiros. Simultaneamente, as exportações da UE para a China diminuíram de 22,9 mil milhões para 16,4 mil milhões (−28,2%), invertendo a balança. A China, que em 2015 era um destino muito mais importante do que uma origem de importações, tornou-se o maior fornecedor extra-UE em 2025.
| Parceiro | Importações 2015 (mil M€) | Importações 2025 (mil M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 5,3 | 30,0 | +464,6 |
| Turquia | 10,9 | 24,5 | +125,6 |
| Reino Unido | 21,1 | 15,1 | −28,4 |
| Japão | 10,6 | 16,4 | +53,9 |
| Coreia do Sul | 5,7 | 13,0 | +129,3 |
| EUA | 10,7 | 10,5 | −1,9 |
| Marrocos | 1,5 | 5,6 | +280,7 |
Principais parceiros por valor
O colapso do comércio com a Rússia e a consolidação de novas parcerias
As exportações da UE para a Rússia em CN 87 praticamente desapareceram: de 6,5 mil milhões de euros em 2015 para apenas 153 milhões em 2025 (−97,6%), refletindo diretamente as sanções impostas após 2022. Em compensação, as exportações para a Turquia duplicaram (de 12,4 mil milhões para 25,4 mil milhões, +105,2%) e para a Ucrânia quadruplicaram (de 869 milhões para 4,0 mil milhões, +365,8%). O Reino Unido permaneceu o principal destino das exportações da UE, apesar de uma ligeira redução (60,6 mil milhões → 55,7 mil milhões, −8,1%), refletindo os efeitos do Brexit na integração comercial.
| Parceiro | Exportações 2015 (mil M€) | Exportações 2025 (mil M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 60,6 | 55,7 | −8,1 |
| EUA | 45,1 | 42,5 | −5,7 |
| Turquia | 12,4 | 25,4 | +105,2 |
| China | 22,9 | 16,4 | −28,2 |
| Suíça | 10,4 | 13,7 | +31,7 |
| Rússia | 6,5 | 0,2 | −97,6 |
| Ucrânia | 0,9 | 4,0 | +365,8 |
A concentração do comércio diminuiu em ambos os lados
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) de concentração das exportações por parceiro desceu de 1 228 para 1 012 (−17,6%), e o das importações de 1 323 para 1 217 (−8,1%). A diversificação das exportações é particularmente notável, sugerindo que a UE alargou os seus mercados de destino. Contudo, a concentração das importações por volume subiu 26,6% (de 1 212 para 1 535), indicando uma maior dependência de um número mais reduzido de fornecedores em termos de volume físico — coerente com o crescimento massivo das importações chinesas.
| Indicador HHI | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações por valor | 1 323 | 1 217 | −8,1 |
| Importações por volume | 1 212 | 1 535 | +26,6 |
| Exportações por valor | 1 228 | 1 012 | −17,6 |
| Exportações por volume | 957 | 776 | −18,9 |
3. Preços crescentes, produção em alta e especialização regional
A componente automóvel de passageiros (CN 8703) domina o comércio e lidera a subida de preços
A CN 8703 (automóveis de passageiros) representa a esmagadora maioria do comércio. Em 2025, as importações de 8703 totalizaram 75,1 mil milhões de euros e as exportações 156,7 mil milhões. O preço médio de exportação por tonelada de 8703 subiu de 14 062 €/t para 17 431 €/t (+23,9%), refletindo o aumento do preço médio dos veículos à saída de fábrica, impulsionado pela eletrificação e pela inflação. Em unidades suplementares, o preço médio de exportação subiu de 21 068 €/un para 28 287 €/un (+34,3%). Curiosamente, as exportações de 8703 em unidades diminuíram de 7,10 milhões para 5,54 milhões (−21,9%), enquanto as importações subiram de 3,17 para 4,52 milhões (+42,7%), sinalizando uma perda de quota de mercado no segmento automóvel de passageiros.
| CN 8703 | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações valor (mil M€) | 149,5 | 156,7 | +4,8 |
| Exportações unidades (M) | 7,10 | 5,54 | −21,9 |
| Preço exportação (€/un) | 21 068 | 28 287 | +34,3 |
| Importações valor (mil M€) | 43,6 | 75,1 | +72,3 |
| Importações unidades (M) | 3,17 | 4,52 | +42,7 |
| Preço importação (€/un) | 13 723 | 16 605 | +21,0 |
As partes e acessórios (CN 8708) mantêm-se como segundo pilar, com crescimento estável
A CN 8708 (partes e acessórios) representa o segundo maior segmento. As exportações passaram de 47,0 mil milhões para 50,1 mil milhões (+6,5%), com o preço médio de exportação a subir de 8 992 €/t para 11 901 €/t (+32,3%). As importações cresceram mais rapidamente: de 19,6 mil milhões para 30,2 mil milhões (+54,0%), com volume a subir de 3,3 para 4,5 milhões de toneladas (+37,5%). Este crescimento das importações de componentes reflete a integração das cadeias de valor europeias com fornecedores não europeus, particularmente turcos e marroquinos.
A produção europeia cresceu em valor mas o mix de produtos especializou-se geograficamente
O valor da produção europeia em CN 87 subiu de 401,2 mil milhões de euros para 671,0 mil milhões (+67,2%), um crescimento muito superior ao das exportações, sugerindo que uma parte crescente da produção é absorvida pelo mercado interno ou que a valorização por unidade aumentou substancialmente. A produção em volume cresceu de 7,0 para 9,5 milhões de toneladas (+35,6%).
Em termos de especialização, a Eslováquia (RCA de 2,47), a Chéquia (RCA de 1,77), a Eslovénia (RCA de 1,75) e a Roménia (RCA de 1,70) são os Estados-membros mais especializados em CN 87, refletindo o papel das fábricas de automóveis na Europa Central e de Leste. No extremo oposto, a Irlanda (RCA de 0,01), o Chipre (RCA de 0,02) e Malta (RCA de 0,04) apresentam especialização muito baixa.
| Estado-membro | RCA (2025) | Partilha na produção (%) |
|---|---|---|
| Eslováquia | 2,47 | 5,2 |
| Chéquia | 1,77 | 8,5 |
| Eslovénia | 1,75 | 1,8 |
| Roménia | 1,70 | 2,8 |
| Espanha | 1,36 | 7,9 |
Especialização por Estado-membro
A volatilidade concentra-se em parceiros específicos
Os parceiros com maior volatilidade nas importações são a China (CV de 0,42) e Marrocos (CV de 0,38), ambos com crescimentos muito recentes e irregulares. Do lado das exportações, a Rússia apresenta a maior volatilidade (CV de 0,72), seguida da Ucrânia (CV de 0,34) e da Turquia (CV de 0,33), refletindo as convulsões geopolíticas do período. Dois eventos de choque de preço foram detetados: no Egito em 2023 (abnormalidade de 4,0, variação de +34,8%) e nos Emirados Árabes Unidos em 2017 (abnormalidade de 3,7, variação de +32,8%), embora ambos representem quotas reduzidas no comércio total.
| Parceiro | CV importações | CV exportações |
|---|---|---|
| China | 0,416 | 0,196 |
| Marrocos | 0,381 | 0,170 |
| Turquia | 0,121 | 0,327 |
| Rússia | — | 0,716 |
| Ucrânia | — | 0,336 |
| Reino Unido | 0,234 | 0,191 |
Conclusão
O período 2015–2025 foi de transformação estrutural para o setor automóvel europeu no comércio internacional. A UE manteve-se exportadora líquida em CN 87, mas o seu superávit comercial reduziu-se 27,5%, de 155,2 para 112,6 mil milhões de euros, enquanto as importações cresceram a um ritmo (72,4%) muito superior ao das exportações (6,9%). A China emergiu como o principal fornecedor extra-UE, com crescimento de 465% nas importações, e as exportações de automóveis de passageiros da UE perderam 22% em unidades. Geograficamente, o colapso do comércio com a Rússia (−97,6% em exportações) foi compensado por crescimentos expressivos para a Turquia (+105%), a Ucrânia (+366%) e a Suíça (+32%), embora a perda do mercado chinês como destino de exportação (−28%) permaneça preocupante. Em termos de preço, a subida generalizada (23–24% tanto em importações como exportações) reflete a inflação, a eletrificação e a reorientação do mix para produtos de maior valor acrescentado. A produção europeia cresceu 67% em valor, sustentada por Estados-membros da Europa Central com elevada especialização, mas a crescente dependência de importações de bens acabados e componentes exige vigilância estratégica num contexto de concorrência intensificada e geopolítica volátil.