Evolução do mercado: Cimento (CN 2523) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 2523 abrange os cimentos hidráulicos, incluindo os clínqueres (clinkers), mesmo corados. Trata-se de uma categoria de produto essencial para a construção civil e infraestruturas, agregando cinco subprodutos: clínqueres (252310), cimento Portland (252329), cimentos brancos (252321), cimentos aluminosos (252330) e outros cimentos (252390).
Ao longo da década 2015–2025, o comércio externo da União Europeia neste setor registou transformações estruturais profundas. O período arranca com a UE numa posição líquida de exportadora — com um excedente comercial de 1 197,98 M€ em 2015 — e termina com um défice de 108,13 M€ em 2025. Esta inversão reflecte uma combinação de fatores: contração da produção interna, encarecimento relativo das exportações europeias e o surgimento de fornecedores externos com vantagens de custo, sobretudo na região do Mediterrâneo e no Leste Europeu.
O presente relatório analisa os dados disponíveis para o período 2015–2025 e organiza-se em três eixos principais: a inversão dos fluxos comerciais, as reconfigurações geográficas e de parceiros, e os aspetos estruturais que moldaram a competitividade do setor europeu do cimento.
1. A inversão radical dos fluxos comerciais: de exportador líquido a importador líquido
1.1 O colapso das exportações europeias
As exportações da UE de cimento (CN 2523) sofreram uma redução acentuada tanto em volume como em valor ao longo do período analisado:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (M€) | 1 414,68 | 966,71 | −31,7 % |
| Volume (kt) | 26 820 | 9 018 | −66,4 % |
| Preço médio (€/t) | 52,75 | 107,19 | +103,2 % |
A queda no volume exportado (−66,4 %) é muito mais acentuada do que a queda no valor (−31,7 %), o que se explica pelo forte aumento do preço médio de exportação, que praticamente duplicou. Isto sugere que a UE deixou de competir em segmentos de baixo valor (cimento a granel, clínqueres) e passou a exportar sobretudo produtos de maior valor acrescentado — ou que, alternativamente, os custos de produção europeus aumentaram significativamente, refletindo-se nos preços de saída.
1.2 A explosão das importações
Em contraste direto, as importações da UE cresceram de forma exponencial:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (M€) | 216,70 | 1 074,84 | +396,0 % |
| Volume (kt) | 2 613 | 14 235 | +444,7 % |
| Preço médio (€/t) | 82,92 | 75,47 | −9,0 % |
O volume importado passou de 2,6 Mt para 14,2 Mt — um crescimento de mais de cinco vezes. Curiosamente, o preço médio das importações desceu ligeiramente (−9,0 %), o que indica que os novos fornecedores externos oferecem cimento a preços competitivos, frequentemente inferiores aos preços de exportação da própria UE.
1.3 O saldo comercial: de excedente a défice
A convergência destas duas tendências produziu uma inversão completa do saldo comercial:
| Período | Saldo comercial (M€) |
|---|---|
| 2015 | +1 197,98 |
| 2025 | −108,13 |
A dependência líquida de importações passou de valores moderadamente positivos (0,47 % em 2015) para valores negativos (−0,87 % em 2025), confirmando que a UE se tornou estruturalmente dependente de importações para satisfazer a procura interna de cimento.
2. Reconfiguração geográfica: novos parceiros dominam as importações
2.1 A ascensão de fornecedores do Mediterrâneo e do Norte de África
A transformação mais visível no mapa comercial do cimento europeu é o surgimento de novos fornecedores privilegiados, sobretudo na bacia do Mediterrâneo. Os sete principais parceiros de importação registaram crescimentos extraordinários:
| Parceiro | Importações 2015 (M€) | Importações 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Turquia | 67,09 | 436,60 | +550,8 % |
| Ucrânia | 3,38 | 159,58 | +4 621,2 % |
| Argélia | 0,02 | 104,07 | +490 964 % |
| Tunísia | 2,55 | 71,71 | +2 714,9 % |
| Egipto | 0,00 | 90,25 | (de quase zero) |
| Bósnia e Herzegovina | 6,22 | 39,34 | +532,4 % |
| Bielorrússia | 9,41 | 11,62 | +23,5 % |
A Turquia consolidou-se como o maior fornecedor extra-UE, com importações que atingiram 436,60 M€ em 2025 — quase metade do total das importações da UE. A proximidade geográfica, a capacidade produtiva excedentária e os custos energéticos mais baixos explicam em grande parte esta posição dominante. Por outro lado, a Ucrânia registou o crescimento percentual mais espetacular (+4 621 %), passando de 3,38 M€ para 159,58 M€, num contexto em que o país procura escoar a sua produção para mercados europeus, nomeadamente no quadro das preferências comerciais concedidas pela UE.
A Argélia, o Egipto e a Tunísia representam uma nova vaga de fornecedores do Norte de África, com capacidades cimenteiras que historicamente se orientavam para o mercado interno ou para outros destinos africanos, e que agora reorientam-se para a Europa. A presença da Bósnia e Herzegovina e da Bielorrússia reforça a importância das rotas logísticas terrestres do Leste Europeu.
2.2 Perda de mercados tradicionais de exportação
Do lado das exportações, a reconfiguração dos parceiros revela uma erosão acentuada das posições europeias em África:
| Parceiro | Exportações 2015 (M€) | Exportações 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 226,55 | 334,10 | +47,5 % |
| EUA | 163,98 | 132,45 | −19,2 % |
| Israel | 73,33 | 41,99 | −42,7 % |
| Argélia | 211,68 | 0,68 | −99,7 % |
| Camarões | 32,50 | 0,09 | −99,7 % |
| Costa do Marfim | 34,01 | 0,68 | −98,0 % |
| Suíça | 62,70 | 66,68 | +6,4 % |
O Reino Unido permaneceu como principal destino de exportação e até cresceu (+47,5 %), provavelmente beneficiando do efeito do Brexit e da necessidade de o mercado britânico diversificar fontes de abastecimento. A Suíça manteve-se estável. No entanto, os mercados africanos — Argélia, Camarões e Costa do Marfim — praticamente desapareceram enquanto destinos de exportação europeus, com quedas superiores a 98 %. Este fenómeno está provavelmente ligado ao facto de esses países terem desenvolvido capacidade produtiva própria ou terem passado a importar de fornecedores mais competitivos (Turquia, China, etc.).
2.3 A concentração crescente dos parceiros comerciais
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) confirma a crescente concentração dos parceiros comerciais:
| Fluxo | HHI 2015 (valor) | HHI 2025 (valor) | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações | 1 421 | 2 116 | +48,9 % |
| Exportações | 810 | 1 825 | +125,3 % |
O HHI das importações subiu de 1 421 para 2 116, o que indica um mercado de importação moderadamente concentrado, dominado cada vez mais por um número reduzido de fornecedores — sobretudo a Turquia. Do lado das exportações, o HHI duplicou (810 → 1 825), refletindo uma base de clientes cada vez mais estreita e dependente de poucos mercados (Reino Unido e EUA em particular). Esta evolução representa um risco de vulnerabilidade em ambos os lados da balança comercial.
3. Dinâmicas estruturais: produção interna, segmentação de produto e volatilidade
3.1 A contração da produção europeia
Os dados de produção mostram uma redução significativa do volume produzido na UE:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Volume de produção (Mt) | 230,04 | 166,98 | −27,4 % |
| Valor de produção (M€) | 13 934,62 | 19 830,01 | +42,3 % |
O volume caiu 27,4 %, mas o valor da produção subiu 42,3 %, o que implica um aumento muito significativo do valor unitário — consistente com a inflação de custos de energia, matérias-primas e cumprimento ambiental que caracterizou a indústria cimenteira europeia nos últimos anos. Este aumento de custos internos é simultaneamente causa e consequência da perda de competitividade externa e do crescimento das importações de fornecedores com estruturas de custos mais baixas.
3.2 Segmentação de produto: clínqueres e cimento Portland lideram as importações
A análise por segmento de produto revela que o crescimento das importações se concentrou sobretudo em dois subprodutos:
Importações por segmento (volume, kt):
| Segmento | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Clínqueres (252310) | 1 052 | 7 148 | +579,7 % |
| Cimento Portland (252329) | 1 223 | 5 766 | +371,4 % |
| Cimentos brancos (252321) | 213 | 724 | +239,5 % |
| Outros cimentos (252390) | 65 | 508 | +678,7 % |
| Cimentos aluminosos (252330) | 60 | 90 | +48,9 % |
Os clínqueres foram o segmento que mais cresceu em volume absoluto (de 1,05 Mt para 7,15 Mt). Isto é particularmente relevante porque os clínqueres constituem o semi-acabado da produção de cimento — a sua importação em grandes quantidades sugere que as fábricas europeias de moagem estão a utilizar clínqueres importados para produzir cimento acabado internamente, como forma de contornar os custos elevados de produção completa na UE (cozimento do clínquer é a fase mais intensiva em energia e emissões de CO₂).
Do lado das exportações, observa-se a tendência oposta nos clínqueres:
Exportações de clínqueres (volume, kt):
| Ano | Volume (kt) |
|---|---|
| 2015 | 10 616 |
| 2020 | 3 799 |
| 2025 | 636 |
As exportações de clínqueres desceram 94 % em volume, de 10,6 Mt para apenas 0,6 Mt. Em paralelo, o preço médio de exportação dos clínqueres subiu de 42,94 €/t para 139,90 €/t (+226 %), refletindo provavelmente custos de carbono mais elevados (ETS) e a seletividade crescente dos mercados de destino. O cimento Portland (252329) manteve-se como principal produto exportado, mas o seu volume caiu de 14,5 Mt para 7,4 Mt (−49 %), com o preço a subir de 52,02 €/t para 92,33 €/t.
3.3 Volatilidade e choques de abastecimento
A análise de volatilidade revela padrões distintos entre importações e exportações:
Os parceiros de importação apresentam coeficientes de variação (CV) mais elevados, refletindo uma maior instabilidade nos fluxos de entrada. Destaca-se o caso do Egipto (CV = 1,53) e da Argélia (CV = 1,10), cujas exportações para a UE surgiram de forma descontínua e explosiva. As exportações da UE para parceiros tradicionais como o Reino Unido (CV = 0,14) e a Suíça (CV = 0,22) apresentam, em contraste, uma estabilidade muito maior.
Foram detetados três choques de preço significativos:
| Entidade | Tipo | Fluxo | Centro | Variação (%) | Grau de anormalidade | Participação no valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Argélia | Preço | Importações | 2017 | +779 % | 103 | 12,0 % |
| Israel | Preço | Exportações | 2022 | +110,2 % | 62,1 | 4,6 % |
| Gana | Preço | Exportações | 2022 | +461,6 % | 39,1 | 2,2 % |
O choque mais relevante foi o da Argélia em 2017, com um aumento de preço de 779 % e um grau de anormalidade de 103, sugerindo uma entrada súbita e massiva no mercado de importação da UE — possivelmente ligada à conclusão de grandes projetos de capacidade cimenteira argelina e à procura de escoamento externo.
3.4 Especialização e posição dos Estados-Membros
A análise de especialização (RSCA, 2025) revela um mapa desigual dentro da UE:
Estados-Membros mais especializados na exportação de cimento:
| País | RSCA | RCA | Participação na produção (%) |
|---|---|---|---|
| Letónia | 0,859 | 13,21 | 4,41 |
| Croácia | 0,786 | 8,32 | 3,39 |
| Luxemburgo | 0,763 | 7,43 | 2,40 |
| Eslováquia | 0,630 | 4,40 | 9,31 |
| Grécia | 0,464 | 2,73 | 1,84 |
Estados-Membros menos especializados:
| País | RSCA | RCA |
|---|---|---|
| Chipre | −0,976 | 0,01 |
| Dinamarca | −0,881 | 0,06 |
| Hungria | −0,811 | 0,10 |
| Países Baixos | −0,659 | 0,21 |
| Estónia | −0,618 | 0,24 |
Os principais Estados-Membros importadores em 2025 foram Itália (278,49 M€), Roménia (138,55 M€), Espanha (109,42 M€) e França (136,07 M€). Os crescimentos mais acentuados ocorreram na Roménia (+1 677 %), Itália (+1 340 %), Polónia (+1 484 %) e Espanha (+1 081 %) — países com grandes programas de infraestruturas e construção que, progressivamente, passaram a recorrer a fornecedores externos para complementar a produção interna.
Do lado das exportações, Espanha (−54,7 %), Portugal (−71,3 %) e Grécia (−41,8 %) registaram as maiores quebras entre os grandes exportadores tradicionais. A Irlanda (+23,7 %), a Croácia (+35,2 %) e a Dinamarca (+56,7 %) foram das poucas exceções com crescimento positivo.
Conclusão
A análise do comércio externo da UE em cimentos hidráulicos (CN 2523) ao longo da década 2015–2025 revela uma transformação estrutural profunda do setor. Três grandes tendências dominam este período:
-
A inversão do saldo comercial, com a UE a passar de uma posição de excedente líquido (+1 198 M€ em 2015) para défice (−108 M€ em 2025), impulsionada por uma queda de 66 % no volume exportado e um aumento de 445 % no volume importado.
-
A reconfiguração geográfica do comércio, com o surgimento da Turquia como fornecedor dominante (437 M€ em 2025), a entrada massiva de fornecedores do Norte de África (Argélia, Egipto, Tunísia) e do Leste Europeu (Ucrânia, Bósnia), e a perda quase total dos mercados africanos de exportação.
-
A pressão estrutural sobre a indústria europeia, evidenciada pela queda de 27 % na produção interna em volume, pelo aumento de 42 % no valor (reflectindo inflação de custos), e pela reorientação das importações para clínqueres — o semi-acabado mais intensivo em energia — como forma de manter a atividade nas fábricas de moagem europeias.
Estas dinâmicas sugerem que a indústria cimenteira da UE enfrenta um desafio estrutural de competitividade, ligado a custos energéticos elevados, à regulamentação ambiental (incluindo o regime ETS de comércio de emissões) e à concorrência de produtores com menores custos de produção. A crescente concentração dos parceiros comerciais (HHI em alta em ambos os lados da balança) constitui adicionalmente um fator de vulnerabilidade que importa monitorizar.