Evolução do mercado: Açúcares e doces (CN 17) — 2015–2025
Introdução
Este relatório analisa a evolução do comércio da União Europeia (UE) com países terceiros para o capítulo 17 da Nomenclatura Combinada (CN 17) — "Açúcares e Produtos de Confeitaria" — no período entre janeiro de 2015 e dezembro de 2025. Os dados revelam uma transformação estrutural significativa na posição comercial do bloco, impulsionada por mudanças na produção, preços e dinâmicas com os principais parceiros comerciais. A análise baseia-se em dados agregados disponíveis no Trade Dashboard.
1. Da dependência à liderança exportadora: A transformação da balança comercial
A principal dinâmica observada no período foi a consolidação da UE como um exportador líquido de açúcares e produtos de confeitaria, revertendo a situação inicial de pequena dependência líquida.
1.1. Superação do déficit e crescimento do superávit
No início do período (2015), a UE apresentava uma dependência líquida de importações de -2,9%, indicando um pequeno superávit comercial. Esta situação agravou-se e inverteu-se de forma expressiva. Em 2025, a dependência líquida atingiu -11,0%, sinalizando uma posição exportadora sólida. O superávit comercial em valor cresceu 205,2%, passando de 903 milhões de euros para 2.756 milhões de euros.
| Indicador | 2015 (valor inicial) | 2025 (valor final) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor das Exportações (milhões EUR) | 2.975 | 5.034 | +69,2% |
| Valor das Importações (mil milhões EUR) | 2.072 | 2.278 | +9,9% |
| Saldo Comercial (milhões EUR) | 903 | 2.756 | +205,2% |
| Dependência Líquida de Importações (%) | -2,9% | -11,0% | -280,9% |
Fonte: Dados gerais de comércio
1.2. Dinâmica de volumes e preços: a valorização das exportações
O crescimento do valor das exportações (+69,2%) foi muito superior ao crescimento dos seus volumes (+8,9%), apontando para uma significativa valorização dos preços. O preço médio de exportação subiu 55,3%, de 882 para 1.370 euros por tonelada. Por outro lado, as importações viram os seus volumes recuar 31,0% enquanto o seu preço médio aumentava 59,4%. Esta evolução sugere que a UE não só expandiu o valor das suas vendas externas, mas também o fez num contexto de mercado de preços crescentes, embora tenha reduzido a sua absorção física de produtos externos.
2. Reconfiguração das parcerias: Fim do ciclo cubano e a ascensão do Brasil e Ucrânia
A geografia comercial da UE no setor sofreu alterações profundas, com mudanças acentuadas nos fornecedores e nos mercados de destino prioritários.
2.1. A instabilidade dos fornecedores tradicionais e o fortalecimento de novos atores
A volatilidade nas relações de importação é elevada. Exemplos marcantes são:
- Cuba: O fornecimento colapsou de 105 milhões de euros em 2015 para apenas 75 mil euros em 2025 (-99,9%), encerrando um ciclo histórico.
- Ucrânia: Emergiu como um parceiro crucial, com as importações a saltarem de 28 milhões para 191 milhões de euros (+587,4%), atingindo um pico de 490 milhões de euros em 2023.
- Brasil: Tornou-se o principal fornecedor extra-UE, com um crescimento de 317,6% (de 80 para 336 milhões de euros), refletindo a sua competitividade global.
- Reino Unido: Manteve-se como o maior parceiro, mas a sua quota nas importações da UE recuou, com valor a cair 31,3%.
2.2. Diversificação e consolidação dos mercados de exportação
Do lado das exportações, a concentração geográfica diminuiu (HHI passou de 1.182 para 840). Os principais destinos mantiveram-se:
- Reino Unido: Continuou como o principal destino, com valor a crescer 26,8%.
- Estados Unidos: Tornaram-se um mercado muito mais importante, com um crescimento de 137,9% no valor das exportações.
- Israel e Suíça: Demonstraram um crescimento robusto, de 109,4% e 43,8%, respetivamente.
A UE, liderada por Alemanha (+91,6%), Bélgica (+111,2%) e Polónia (+152,3%), consolidou a sua posição como exportador competitivo para mercados desenvolvidos e de médio rendimento.
3. Dinâmicas internas: o domínio da confeitaria e a redução da produção de açúcar
Uma análise por segmentos de produto revela uma especialização crescente na produção de bens de maior valor acrescentado e uma reconfiguração da base produtiva da UE.
3.1. Os produtos de confeitaria como motor do comércio externo
O segmento 1704 (Produtos de confeitaria, sem cacau) tornou-se o mais valioso no comércio externo da UE. Em 2025, representou 55% do valor total das exportações e 36% do valor das importações. O preço médio de exportação destes produtos (5.005 €/t) é muito superior ao do açúcar (549 €/t), evidenciando o seu carácter de bem processado de alto valor. O seu valor de exportação cresceu continuamente, de 1,4 mil milhões para 2,8 mil milhões de euros (+96%). Em contraste, o açúcar branco (CN 1701) viu o seu peso relativo nas exportações diminuir, apesar de flutuações de valor significativas ligadas à volatilidade dos preços do açúcar.
3.2. Uma indústria açucareira em reestruturação
A produção interna de açúcares na UE diminuiu 15,8% em volume (de 34,1 para 28,7 milhões de toneladas) entre 2015 e 2025. Esta redução reflete provavelmente os efeitos da reforma do regime açucareiro da UE (2017) e a crescente pressão competitiva global. No entanto, o valor da produção cresceu 24,2%, indicando uma subida de preços ou uma mudança para produtos de maior valor.
Esta reestruturação produtiva é visível nas importações de matérias-primas. As importações de melaço (CN 1703), um subproduto do processamento, mantiveram-se volumosas mas com preços voláteis. A dependência de fornecedores específicos, como a Ucrânia, para este segmento, representa uma vulnerabilidade na cadeia de abastecimento, como evidenciado pelo elevado coeficiente de variação (0,91) nas importações desse país.
Conclusão
O período 2015-2025 assistiu a uma transformação decisiva no comércio externo da UE no setor dos açúcares e confeitaria. O bloco consolidou-se como um exportador líquido de valor acrescentado, impulsionado pela competitividade da indútria de confeitaria e pela reestruturação da sua produção açucareira interna. Esta mudança ocorreu num contexto de grande volatilidade nas relações com parceiros tradicionais, levando a uma diversificação tanto de fornecedores (com destaque para o Brasil e a Ucrânia) como de mercados de destino (com crescimento para os EUA e a Europa de Leste). Os principais riscos residem na elevada volatilidade dos preços das matérias-primas e na dependência de cadeias de abastecimento específicas para inputs como o melaço. No entanto, a crescente especialização em produtos de confeitaria de alto valor posiciona a UE favoravelmente no comércio global.