Evolução do mercado: Outros açúcares (CN 1702) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para a posição pautal CN 1702 — que abrange outros açúcares em estado sólido (incluindo lactose, maltose, glicose e frutose quimicamente puras), xaropes de açúcar sem adição de aromatizantes ou corantes, mel artificial e caramelo — ao longo do período 2015–2025. (Vista geral)
A análise baseia-se exclusivamente em dados aduaneiros com frequência anual, excluindo períodos incompletos. A CN 1702 constitui uma posição residual de elevada heterogeneidade, agregando subprodutos como lactose para fins farmacêuticos e alimentares, xaropes de glicose e frutose usados como adoçantes industriais, e caramelo para a indústria alimentar e de bebidas. As principais conclusões do relatório organizam-se em torno de três eixos: (i) o crescimento acentuado das exportações e a consolidação da UE como exportador líquido; (ii) a reconfiguração das parcerias comerciais e o aumento da concentração das importações; e (iii) a volatilidade dos segmentos de produto e a dinâmica de preços pós-2020.
1. A consolidação da UE como exportador líquido estrutural
Ao longo da década 2015–2025, o comércio externo da UE na posição CN 1702 registou um crescimento significativo, com as exportações a superarem claramente as importações em todos os períodos analisados. Este dinamismo refletiu-se quer em volume quer em valor, transformando a UE num exportador líquido cada vez mais consolidado.
1.1. O crescimento assimétrico de exportações e importações
O valor das exportações da UE para países terceiros cresceu de 523 M€ em 2015 para 1.081 M€ em 2025, uma variação de +106,9%. No mesmo período, as importações cresceram de 234 M€ para 397 M€ (+69,5%). Em volume, as exportações passaram de 567 474 t para 821 057 t (+44,7%), enquanto as importações cresceram de 189 830 t para 244 414 t (+28,8%). (Dados de comércio)
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor exportações (M€) | 523 | 1 081 | +106,9 |
| Volume exportações (kt) | 567 | 821 | +44,7 |
| Valor importações (M€) | 234 | 397 | +69,5 |
| Volume importações (kt) | 190 | 244 | +28,8 |
| Preço exportações (€/t) | 921 | 1 317 | +43,0 |
| Preço importações (€/t) | 1 235 | 1 625 | +31,6 |
| Saldo comercial (M€) | 288 | 684 | +137,4 |
O facto de o crescimento das exportações ter sido sistematicamente superior ao das importações — tanto em valor como em volume — indica que a UE não apenas manteve a sua posição como exportador líquido, como a ampliou substancialmente. O saldo comercial passou de 288 M€ para 684 M€ (+137,4%), tendo atingido o máximo de 730 M€ em 2024.
1.2. Uma produção estável em volume, mas com forte valorização
Os dados de produção industrial da UE revelam um padrão importante: a quantidade produzida manteve-se praticamente estável, passando de 6,33 mil milhões de kg para 6,28 mil milhões de kg (-0,7%), enquanto o valor da produção quase duplicou, de 2.729 M€ para 5.152 M€ (+88,8%). Isto sugere que o aumento do valor das exportações resultou em parte de uma valorização dos preços, e não apenas de um crescimento real das quantidades transacionadas.
1.3. A crescente importância do setor no comércio externo da UE
Dois indicadores de intensidade comercial confirmam a crescente relevância internacional deste setor:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Intensidade comercial (%) | 9,9 | 26,4 | +166,0 |
| Propensão exportadora (%) | 5,8 | 20,7 | +256,4 |
A propensão exportadora — que mede a fração da produção destinada a exportação — mais do que triplicou, passando de 5,8% para 20,7%. Este crescimento acentuado sugere uma reorientação estratégica dos produtores europeus para mercados externos, possivelmente motivada por limitações ao crescimento da procura interna ou por vantagens competitivas em mercados terceiros. O índice de dependência líquida de importações passou de -1,2% para -14,8% (valores negativos indicam posição exportadora líquida), confirmando a consolidação da UE como fornecedor líquido para o resto do mundo.
2. Reconfiguração das parcerias comerciais e concentração crescente das importações
A segunda grande dinâmica observável no período 2015–2025 diz respeito à evolução dos parceiros comerciais da UE. As exportações mantiveram-se geograficamente diversificadas, enquanto as importações se tornaram progressivamente mais concentradas num número reduzido de fornecedores.
2.1. O Reino Unido como principal destino das exportações da UE
O Reino Unido consolidou-se como o principal destino das exportações da UE, com um crescimento do valor exportado de 63 M€ para 169 M€ (+168,9%). Este crescimento é particularmente relevante no contexto do Brexit (concluído em 2020), que deveria ter gerado barreiras ao comércio bilateral. Os dados sugerem que, apesar das novas formalidades aduaneiras, a proximidade geográfica e as cadeias de abastecimento integradas continuaram a sustentar o fluxo comercial. (Parceiros comerciais)
Outros destinos de destaque incluem:
| Destino das exportações | Valor 2015 (M€) | Valor 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 63 | 169 | +168,9 |
| China | 11 | 99 | +820,3 |
| Índia | 26 | 83 | +220,8 |
| Suíça | 34 | 63 | +86,5 |
| Nova Zelândia | 11 | 47 | +307,2 |
| Sérvia | 15 | 32 | +109,5 |
O crescimento mais expressivo registou-se nas exportações para a China (+820,3%), passando de 11 M€ para 99 M€ — um aumento que reflete a procura crescente do gigante asiático por ingredientes alimentares e por lactose para a indústria farmacêutica. A Nova Zelândia (+307,2%) e a Índia (+220,8%) também registaram crescimentos acentuados, sugerindo uma diversificação geográfica das exportações europeias para mercados da Ásia-Pacífico e do Sul Global.
2.2. Os maiores importadores intra-UE: Países Baixos, Alemanha e França
A análise por Estados-Membros revela que os Países Baixos, a Alemanha e a França dominam tanto as importações como as exportações intra-UE:
| Estado-Membro (importações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 58 | 64 | +10,4 |
| Alemanha | 40 | 99 | +148,5 |
| França | 25 | 60 | +135,5 |
| Bélgica | 12 | 32 | +175,9 |
| Espanha | 16 | 23 | +42,7 |
| Estado-Membro (exportações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 192 | 285 | +48,4 |
| Alemanha | 122 | 242 | +99,1 |
| França | 35 | 201 | +482,2 |
| Áustria | 6 | 65 | +930,6 |
| Dinamarca | 3 | 70 | +1.894,4 |
Destaca-se o crescimento excecional das exportações de França (+482,2%), Áustria (+930,6%) e Dinamarca (+1.894,4%). Estes aumentos extraordinários podem refletir investimentos em capacidade de produção, especialização em subprodutos de maior valor acrescentado ou a reconfiguração de cadeias de abastecimento europeias. A França, em particular, apresenta o maior índice de especialização relativa (RSCA de 0,56) entre os grandes Estados-Membros, com uma quota de produção de 27,7% face a apenas 7,8% no total das exportações da UE.
2.3. A crescente concentração das importações
Enquanto as exportações da UE se mantiveram geograficamente diversificadas (HHI em valor de 572 a 626, indicando baixa concentração), as importações tornaram-se progressivamente mais concentradas. O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações em valor subiu de 1 243 para 1 464 (+17,8%), aproximando-se do limiar convencional de concentração moderada (1 500).
| Fluxo | HHI 2015 (valor) | HHI 2025 (valor) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações | 1 243 | 1 464 | +17,8 |
| Exportações | 572 | 626 | +9,4 |
Entre os principais fornecedores extra-UE, os destaque incluem:
| Origem das importações | Valor 2015 (M€) | Valor 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Canadá | 40 | 108 | +165,9 |
| Turquia | 26 | 69 | +168,8 |
| México | 19 | 51 | +177,6 |
| China | 8 | 26 | +240,0 |
| Reino Unido | 42 | 48 | +15,5 |
| Estados Unidos | 17 | 23 | +33,1 |
| Israel | 15 | 11 | -29,5 |
O Canadá tornou-se o principal fornecedor extra-UE, com um crescimento de +165,9% em valor — uma evolução que pode estar relacionada com o acordo comercial CETA, em aplicação provisória desde 2017. A Turquia (+168,8%) e o México (+177,6%) também ganharam relevância. O declínio de Israel (-29,5%) como fornecedor contrasta com a tendência geral de crescimento das importações.
3. Dinâmica dos segmentos de produto e choques de preços
A análise por subposições pautais revela que o crescimento do comércio da UE em CN 1702 não se distribuiu de forma homogénea pelos diferentes segmentos de produto. A composição das exportações e das importações evoluiu significativamente, com destaque para a dominância da glicose e xarope de glicose nas exportações e para os picos de volatilidade registados após 2021.
3.1. A dominância da glicose nas exportações e a sua posterior normalização
O segmento de glicose e xarope de glicose (CN 170230) foi, ao longo de todo o período, o principal componente das exportações da UE, representando em média cerca de 30% do valor total. A sua evolução, contudo, foi marcada por um pico extraordinário em 2021–2022: (Comparação por segmento)
| Ano | Volume exportações 170230 (t) | Valor exportações 170230 (M€) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 197 151 | 85 | 432 |
| 2019 | 139 957 | 73 | 520 |
| 2021 | 341 071 | 177 | 519 |
| 2022 | 413 490 | 231 | 558 |
| 2024 | 255 965 | 168 | 656 |
| 2025 | 243 404 | 148 | 610 |
O volume exportado praticamente duplicou entre 2019 e 2022 (de 140 kt para 413 kt), antes de regressar a níveis mais moderados em 2024–2025. Este pico coincide com o período de disrupções nas cadeias globais de abastecimento alimentar (COVID-19 e conflito Rússia-Ucrânia), que pode ter reforçado o papel da UE como fornecedor alternativo de xaropes de glicose para mercados terceiros.
3.2. A composição das importações: frutose pura e açúcar de bordo em destaque
Do lado das importações, o segmento dominante é a frutose quimicamente pura (CN 170250), que representou em 2025 72 016 t (29,5% do total) e 81 M€ em valor. O açúcar e xarope de bordo (CN 170220), embora em menor volume (15 712 t), registou o maior valor unitário médio (6 954 €/t em 2025), refletindo a sua natureza de produto premium.
| Segmento de importação | Volume 2025 (t) | Valor 2025 (M€) | Preço 2025 (€/t) | Variação volume 2015-2025 (%) |
|---|---|---|---|---|
| 170250 — Frutose quimicamente pura | 72 016 | 81 | 1 118 | -3,1 |
| 170290 — Outros açúcares, mel artificial, caramelo | 47 296 | 92 | 1 945 | +51,2 |
| 170230 — Glicose e xarope de glicose | 48 057 | 45 | 935 | +91,3 |
| 170211 — Lactose ≥99% | 33 536 | 14 | 422 | +131,3 |
| 170260 — Frutose (>50% frutose, excl. pura) | 26 706 | 52 | 1 938 | -16,9 |
| 170220 — Açúcar de bordo | 15 712 | 109 | 6 954 | +129,1 |
O crescimento mais acentuado nas importações registou-se na lactose (CN 170211, +131,3% em volume) e no açúcar de bordo (CN 170220, +129,1%). A lactose, matéria-prima essencial para a indústria farmacêutica e alimentar, viu o seu volume de importação crescer de 14 499 t para 33 536 t, com um declínio acentuado do preço médio (de 1 391 €/t para 422 €/t, -69,7%), sugerindo uma pressão competitiva crescente ou mudanças na estrutura de fornecimento.
3.3. Volatilidade, choques de preço e os efeitos da crise energética
A análise de volatilidade revela disparidades significativas entre parceiros. Os maiores coeficientes de variação (CV) nas importações registaram-se para a Índia (CV = 2,10) e a Bósnia e Herzegovina (CV = 1,21), indicando fluxos muito instáveis. Nas exportações, a Vietname (CV = 1,27) e o Reino Unido (CV = 0,58) apresentaram a maior volatilidade.
Três choques de preço particularmente significativos foram detetados no período:
| Evento | Tipo | Fluxo | Período | Abnormalidade | Variação (%) | Quota de valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Índia | Preço | Exportações | 2022 | 130,8 | +39,6 | 9,3 |
| Suíça | Preço | Exportações | 2023 | 43,4 | +66,5 | 9,2 |
| Coreia do Sul | Preço | Exportações | 2023 | 11,9 | +85,0 | 2,7 |
O choque mais significativo registou-se nas exportações para a Índia em 2022, com uma abnormalidade de 130,8 desvios-padrão e uma variação de preço de +39,6%. Este evento coincide com a crise energética global subsequente ao conflito Rússia-Ucrânia, que afetou os custos de produção de açúcares alternativos (a glicose e a frutose são produzidas a partir de matérias-primas agrícolas cujos custos estão intimamente ligados aos preços da energia). Os choques de 2023 nas exportações para a Suíça (+66,5%) e a Coreia do Sul (+85,0%) sugerem que a pressão inflacionária nos custos de produção se prolongou durante o ano seguinte.
De notar que os preços médios de exportação da UE subiram de forma generalizada após 2020, atingindo máximos históricos em 2022–2023. Por exemplo, o preço médio de exportação de glicose (CN 170230) passou de 432 €/t em 2015 para 779 €/t em 2023, antes de corrigir para 610 €/t em 2025. Os preços de lactose exportada (CN 170211) seguiram uma trajetória semelhante, subindo de 1 202 €/t para 1 930 €/t entre 2015 e 2022.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma consolidação significativa da posição da União Europeia no comércio internacional de outros açúcares (CN 1702). O saldo comercial positivo duplicou para 684 M€, sustentado por um crescimento das exportações (+107% em valor) muito superior ao das importações (+70%). A propensão exportadora quadruplicou, indicando uma reorientação estrutural da produção europeia para mercados externos.
A geografia comercial evoluiu de forma assimétrica: as exportações mantiveram-se diversificadas e ganharam novos mercados (China, Nova Zelândia, Índia), enquanto as importações se tornaram progressivamente mais concentradas num número reduzido de fornecedores (HHI das importações +18%). O Canadá emergiu como o principal fornecedor extra-UE, possivelmente impulsionado pelo CETA, enquanto a França consolidou a sua posição como membro da UE mais especializado na produção de CN 1702.
A análise dos segmentos de produto revelou que a glicose e xarope de glicose (CN 170230) dominam as exportações europeias, com um pico extraordinário em 2021–2022 que reflete a reconfiguração das cadeias de abastecimento alimentar durante as crises sucessivas (COVID-19 e conflito na Ucrânia). Os choques de preço detetados em 2022–2023, particularmente nas exportações para a Índia, Suíça e Coreia do Sul, confirmam o impacto da crise energética global sobre os custos de produção e os preços de transação destes produtos.
O conjunto dos dados sugere que o setor europeu dos "outros açúcares" beneficiou de uma conjuntura favorável ao longo da década, mas que a crescente concentração das importações e a volatilidade dos preços constituem fatores de risco que merecem acompanhamento nos próximos anos.