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Evolução do mercado: Açúcar (CN 1701) — 2015–2025

Introdução

O açúcar classificado sob o código CN 1701 abrange os açúcares de cana e de beterraba, bem como a sacarose quimicamente pura em estado sólido, incluindo as subposições 170112 (beterraba), 170113 (açúcar de cana especial), 170114 (açúcar bruto de cana), 170191 (com aromatizantes ou corantes) e 170199 (outros açúcares sólidos). Este relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia com países terceiros no período 2015–2025, identificando as principais dinâmicas estruturais que moldaram o posicionamento da UE como ator global no mercado do açúcar.

O período em análise é particularmente relevante por incluir múltiplos choques estruturais: a liberalização das quotas açucareiras da UE em outubro de 2017, a pandemia de COVID-19 (2020), a invasão da Ucrânia pela Rússia (2022) e a subsequente crise energética europeia. Os dados revelam uma transformação profunda das relações comerciais da UE, com implicações significativas para a segurança do abastecimento e a competitividade do setor.


1. Da dependência ao excedente: a transformação da balança comercial da UE

1.1. A contração acentuada das importações

O período 2015–2025 foi marcado por uma redução significativa das importações de açúcar pela UE, tanto em volume como em valor. As importações passaram de 2 893 188 t (2015) para 1 616 247 t (2025), uma queda de 44,1%. Em valor, a redução foi de 25,3%, de €1 202 598 044 para €898 200 220 — uma diferença percentual que reflete o aumento significativo dos preços unitários (de €415,7/t para €555,7/t, +33,7%).

Indicador 2015 2025 Variação
Importações (volume, t) 2 893 188 1 616 247 -44,1%
Importações (valor, €) 1 202 598 044 898 200 220 -25,3%
Preço médio import. (€/t) 415,7 555,7 +33,7%

A queda mais acentuada registou-se entre 2017 e 2018, quando o volume de importações desceu para 1 603 343 t — coincidindo com a eliminação do sistema de quotas da UE em outubro de 2017. Esta liberalização permitiu que a produção interna europeia respondesse mais livremente à procura, reduzindo a necessidade de importações. O mínimo absoluto em valor ocorreu em 2016 (€709 718 638), sugerindo um período de preços internacionais particularmente baixos que antecedeu a reforma.

1.2. A resiliência das exportações europeias em volume

Em contraste com a evolução das importações, as exportações mantiveram volumes relativamente estáveis ao longo do período. O volume exportado situou-se em 1 865 754 t em 2015 e em 1 859 014 t em 2025, uma variação de apenas -0,4%. Contudo, a trajetória não foi linear: o pico de exportações em volume ocorreu em 2018, com 3 706 274 t — precisamente o ano em que a liberalização das quotas gerou um excedente exportável temporário.

Indicador 2015 2018 (pico) 2025 Variação 2015-25
Exportações (volume, t) 1 865 754 3 706 274 1 859 014 -0,4%
Exportações (valor, €) 799 087 773 1 385 860 517 1 020 376 738 +27,7%
Preço médio export. (€/t) 428,3 548,9 +28,2%

O valor das exportações cresceu 27,7%, impulsionado sobretudo pela subida dos preços (mínimo de €347,6/t em 2019, máximo de €794,5/t em 2023). A divergência entre volume estável e valor crescente confirma que a inflação dos preços do açúcar foi o principal motor da valorização das exportações europeias.

1.3. A inversão da balança comercial

A combinação destes dois vetores — importações em queda e exportações resilientes — produziu uma inversão completa da balança comercial:

Indicador 2015 2023 2025 Variação
Saldo comercial (€) -403 510 271 578 505 558 122 176 518 +130,3%

Em 2015, a UE apresentava um défice comercial de €403,5 milhões em açúcar. Em 2023, o saldo atingiu o máximo de +€578,5 milhões. Embora em 2025 o excedente tenha diminuído para €122,2 milhões (devido à recuperação das importações em valor), a posição líquida da UE permaneceu positiva — uma mudança estrutural face ao ponto de partida. A dependência líquida de importações variou entre -8,5% (exportador líquido) e +11,8% ao longo do período, terminando em -1,5%.


2. Reconfiguração geográfica: novos fornecedores, parceiros perdidos e crescente concentração

2.1. O declínio dos parceiros tradicionais e a ascensão do Brasil

A estrutura geográfica das importações da UE sofreu uma transformação radical entre 2015 e 2025. Os parceiros tradicionais — muitos deles beneficiários de preferências comerciais da UE — perderam peso significativo, enquanto o Brasil se consolidou como o principal fornecedor:

Parceiro Import. 2015 (€) Import. 2025 (€) Variação
Brasil 77 786 481 332 964 280 +328,0%
Reino Unido 191 317 988 61 250 513 -68,0%
Maurícia 139 245 729 72 773 972 -47,7%
Cuba 104 078 174 75 156 -99,9%
Eswatini 101 978 812 24 219 725 -76,3%
Ucrânia 7 961 742 78 885 388 +890,8%
África do Sul 2 283 765 26 323 620 +1 052,6%

A ascensão do Brasil é o dado mais marcante: as importações provenientes do país sul-americano multiplicaram-se por mais de quatro, passando de €77,8 milhões para €333,0 milhões. Em 2022, o pico das importações brasileiras atingiu €555,7 milhões, o que sugere uma intensificação do fornecimento num contexto de crise global.

O caso de Cuba é particularmente significativo: as importações caíram de €104,1 milhões para praticamente zero, refletindo o colapso da produção cubana e o agravamento das sanções económicas dos EUA, que indiretamente afetam as cadeias de abastecimento.

A Ucrânia surgiu como um fornecedor relevante, com crescimento de 890,8% no período. No entanto, o valor das importações ucranianas apresentou extrema volatilidade (pico de €393,6 milhões em 2022, seguido de queda para €78,9 milhões em 2025), sugerindo que muito deste fluxo esteve associado a choques de curto prazo ligados ao conflito.

2.2. Diversificação das exportações europeias

A distribuição geográfica das exportações da UE também se reconfigurou, embora de forma menos dramática:

Parceiro Export. 2015 (€) Export. 2025 (€) Variação
Reino Unido 296 342 344 130 329 823 -56,0%
Israel 83 541 813 172 481 839 +106,5%
Noruega 54 058 473 70 456 194 +30,3%
Suíça 34 114 943 50 952 383 +49,4%
Egito 53 626 009 25 692 638 -52,1%
Líbano 21 018 835 43 136 257 +105,2%
Turquia 9 445 575 16 343 690 +73,0%

O Reino Unido, principal destino das exportações europeias em 2015 (€296,3 milhões), viu as suas compras reduzidas para metade — provavelmente refletindo o Brexit e a reconfiguração das relações comerciais bilaterais. Em contrapartida, Israel (+106,5%) e o Líbano (+105,2%) registaram crescimentos expressivos.

2.3. Concentração crescente nas importações, diversificação nas exportações

A concentração das importações, medida pelo Índice Herfindahl-Hirschman (HHI), aumentou significativamente:

Fluxo HHI 2015 HHI 2025 Variação
Importações (valor) 776 1 697 +118,8%
Importações (volume) 791 2 425 +206,6%
Exportações (valor) 1 661 661 -60,2%
Exportações (volume) 1 390 715 -48,5%

O HHI das importações em valor mais do que duplicou, passando de 776 para 1 697 — um nível que indica mercado moderadamente concentrado. Em volume, a concentração foi ainda mais acentuada (2 425), refletindo a dominância crescente do Brasil. Este é um dado de vulnerabilidade: a dependência de um único fornecedor expõe a UE a riscos de abastecimento em caso de quebras de produção ou perturbações logísticas.

Em contraste, as exportações europeias diversificaram-se substancialmente, com o HHI a cair de 1 661 para 661 em valor. Esta evolução sugere uma estratégia bem-sucedida de abertura de novos mercados.

2.4. Volatilidade por parceiro e choques de fornecimento

Os níveis de volatilidade variam significativamente entre parceiros. Nos fornecedores, os maiores coeficientes de variação (CV) registam-se na Ucrânia (1,38), Moçambique (1,06) e Cuba (0,87), indicando fluxos extremamente instáveis. Nos destinos de exportação, a Síria (1,31), o Egito (1,08) e a Turquia (0,83) apresentam a maior volatilidade, enquanto a Noruega (0,04) e a Suíça (0,14) se afirmam como mercados estáveis.

Foram detetados choques de fornecimento relevantes:

Evento Tipo Fluxo Ano Desvio (%) Peso no valor
Sri Lanka Preço Exportações 2019 +426,9% 2,1%
Ucrânia Preço Importações 2022 +253,2% 9,5%
Sérvia Preço Importações 2022 +66,1% 5,2%

O choque mais pronunciado nas importações (Ucrânia, 2022) está claramente associado à invasão russa e à subsequente perturbação das cadeias de abastecimento do Mar Negro. O choque de preços nas exportações para o Sri Lanka (2019), apesar de ter um peso menor no valor total, ilustra como os mercados de destino periféricos podem registar disrupções pontuais.


3. Produção em declínio, preços em alta e especialização interna desigual

3.1. A redução da produção europeia de açúcar

A produção europeia de açúcar registou uma contração significativa em volume ao longo do período. A produção passou de 20 119 835 662 kg (2015) para 16 865 037 081 kg (2025), uma queda de 16,2%. O mínimo absoluto foi atingido em 2020 (15 124 463 581 kg), coincidindo com os efeitos da pandemia.

Indicador 2015 2020 (mínimo) 2025 Variação
Produção (kg) 20 119 835 662 15 124 463 581 16 865 037 081 -16,2%
Produção (€) 11 994 744 532 6 239 149 648 12 420 750 512 +3,6%

O contraste entre volume decrescente e valor crescente (+3,6%) confirma a subida dos preços unitários na produção. Em 2020, o valor da produção atingiu apenas €6,2 mil milhões — menos de metade do valor de 2025 — refletindo simultaneamente a quebra de volume e os preços historicamente baixos desse ano.

3.2. Especialização produtiva: França e Portugal lideram

A análise de especialização revela uma distribuição altamente desigual da capacidade produtiva de açúcar dentro da UE. Em 2025, os Estados-Membros mais especializados são:

País RSCA RCA Quota na produção da UE Quota no comércio total da UE
França 0,558 3,53 27,6% 7,8%
Portugal 0,552 3,47 4,8% 1,4%
Lituânia 0,478 2,83 1,8% 0,6%
Croácia 0,187 1,46 0,6% 0,4%
República Checa 0,111 1,25 6,0% 4,8%

A França é, de longe, o maior produtor europeu de açúcar, representando 27,6% da produção total da UE. A sua vantagem comparativa revelada (RCA de 3,53) e o RSCA de 0,558 confirmam uma especialização robusta. Portugal, apesar de uma quota de produção muito inferior (4,8%), apresenta um nível de especialização semelhante (RSCA 0,552), o que sugere que o açúcar ocupa um lugar desproporcionadamente importante na estrutura produtiva portuguesa.

No extremo oposto, a Irlanda (RSCA -0,993), o Chipre (-0,987) e a Estónia (-0,935) apresentam especialização negativa, com quotas residuais na produção e elevada dependência de importações.

3.3. Dinâmicas internas: Polónia e Roménia em trajetórias opostas

A evolução das exportações intrabloco revela dinâmicas internas notáveis. A Polónia, maior exportador em crescimento, multiplicou as suas exportações por 4,5 (de €59,9 milhões para €268,7 milhões, +348,3%), tornando-se o segundo maior exportador da UE em 2025, atrás apenas da França. A Alemanha (+90,5%) e a Bélgica (+42,8%) também registaram crescimentos robustos.

Já a Roménia, que em 2015 importava €147,5 milhões, reduziu as suas importações para apenas €1,9 milhões em 2025 (-98,7%), sugerindo uma reestruturação profunda do seu setor ou a conclusão de uma transição para a autossuficiência. Os Países Baixos (-65,6%) e a Áustria (-87,1% nas exportações) também registaram quedas acentuadas.

3.4. Intensidade comercial e vulnerabilidade

Os indicadores de vulnerabilidade revelam uma UE crescentemente integrada no mercado global do açúcar:

Indicador 2015 2025 Variação
Intensidade comercial (%) 12,5% 19,3% +54,6%
Propensão para exportar (%) 7,7% 11,3% +46,5%
Dependência líquida de importações (%) -2,3% -1,5% +38,1%

A intensidade comercial (relação entre o comércio total e a produção) aumentou 54,6%, indicando que o mercado europeu de açúcar se tornou significativamente mais aberto e exposto ao comércio internacional. A propensão para exportar subiu 46,5%, reforçando o papel da UE como exportador líquido de açúcar.

A dependência líquida de importações permaneceu negativa ao longo de todo o período (com mínimos de -8,5% em 2024), confirmando que a UE é, em média, um exportador líquido. No entanto, a tendência de convergência para zero (-2,3% em 2015 → -1,5% em 2025) sugere que a margem de excedente exportável se está a estreitar, potencialmente em resultado da contração da produção interna.

3.5. Segmentação por produto: o domínio do açúcar bruto nas importações e dos açúcares refinados nas exportações

A análise por subposição revela uma estrutura comercial clara: a UE importa sobretudo açúcar bruto de cana (170114) e exporta predominantemente açúcares refinados e outros (170199).

Importações por subposição (2015 vs 2025):

Código Descrição Vol. 2015 (t) Vol. 2025 (t) Var. (%)
170114 Açúcar bruto de cana 1 858 413 949 093 -49,0%
170199 Outros açúcares sólidos 916 949 653 898 -28,7%
170112 Beterraba 67 904 1 500 -97,8%
170113 Açúcar de cana especial 42 173 9 881 -76,6%
170191 Com aromatizantes/corantes 7 748 1 875 -75,8%

O açúcar bruto de cana (170114) representa a maioria das importações (58,7% do volume em 2025), embora o seu peso tenha diminuído face a 2015. A subposição 170112 (beterraba) registou a queda mais drástica (-97,8%), caindo de 67 904 t para apenas 1 500 t — consistente com a crescente capacidade de produção interna de beterraba.

Exportações por subposição (2015 vs 2025):

Código Descrição Vol. 2015 (t) Vol. 2025 (t) Var. (%)
170199 Outros açúcares sólidos 1 797 923 1 845 270 +2,6%
170114 Açúcar bruto de cana 57 086 6 651 -88,3%
170191 Com aromatizantes/corantes 4 618 4 974 +7,7%
170112 Beterraba 5 822 1 791 -69,2%
170113 Açúcar de cana especial 304 327 +7,6%

As exportações são dominadas pela subposição 170199 (99,3% do volume em 2025), que se manteve estável ao longo do período. Os preços unitários da 170199 na exportação subiram de €420,6/t para €538,7/t (+28,1%), refletindo a valorização global do açúcar.


Conclusão

A análise do comércio externo da UE em açúcar (CN 1701) entre 2015 e 2025 revela uma década de transformação estrutural. Três grandes tendências emergem dos dados:

Primeiro, a UE reforçou a sua posição como exportador líquido de açúcar. A contração das importações (-44,1% em volume) e a relativa estabilidade das exportações inverteram o défice comercial de €403,5 milhões em 2015 para um excedente de €122,2 milhões em 2025. Esta evolução reflete a adaptação do setor europeu ao fim das quotas em 2017 e a crescente competitividade da produção interna.

Segundo, a geografia do comércio reconfigurou-se profundamente. Os parceiros tradicionais — Cuba, Maurícia, Eswatini — cederam lugar ao Brasil como fornecedor dominante, ao mesmo tempo que a Ucrânia emergiu como fonte relevante num contexto de crise. Do lado das exportações, o Reino Unido perdeu metade do seu peso enquanto Israel e o Líbano ganharam terreno. Esta reconfiguração trouxe consigo um aumento da concentração das importações (HHI a duplicar), elevando a exposição da UE a riscos de fornecimento.

Terceiro, os preços do açúcar elevaram-se significativamente, compensando parcialmente a queda dos volumes. O preço médio das importações subiu 33,7% e o das exportações 28,2%, enquanto a produção europeia caiu 16,2% em volume mas cresceu 3,6% em valor. A intensidade comercial da UE no setor açucareiro aumentou mais de 50%, sinalizando uma integração mais profunda nos mercados globais.

Os principais riscos identificados incluem a crescente dependência do Brasil como fornecedor, a volatilidade dos fluxos com parceiros em conflito (Ucrânia), e a erosão gradual da margem de excedente exportável face à contração da produção interna. A diversificação bem-sucedida dos destinos de exportação constitui, em contrapartida, um fator de resiliência. O setor europeu do açúcar entra na segunda metade da década de 2020 com uma posição comercial mais forte mas estruturalmente mais exposta a disrupções externas.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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