Evolução do mercado: Doces (CN 1704) — 2015–2025
Introdução
Este relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no segmento de produtos de confeitaria sem cacau (incluindo chocolate branco), classificados pela posição aduaneira CN 1704, ao longo do período 2015–2025. A posição 1704 abrange uma vasta gama de produtos — desde pastilhas elásticas (170410) até gomas, rebuçados, caramelos, chocolate branco e extratos de alcaçuz (170490), mapeados a múltiplos códigos PRODCOM do sector alimentar.
O período em análise foi marcado por uma forte expansão das exportações, uma diversificação geográfica significativa das fontes de importação e uma crescente integração da indústria europeia nos mercados globais. A balança comercial apresentou um superavit crescente, reflectindo a consolidação da UE como polo exportador líquido de confeitaria.
A análise baseia-se exclusivamente nos dados fornecidos, excluindo períodos incompletos, e estrutura-se em três eixos: dinâmicas de crescimento, reorientação geográfica e transformação estrutural do sector.
1. Crescimento robusto e sustentado: valor, volume e preços em ascensão
1.1. As exportações europeias quase duplicaram em valor
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de produtos da posição 1704 cresceram de €1 417 milhões para €2 775 milhões, um aumento de 95,8% (ver dados). Este crescimento foi sustentado tanto pelo aumento de volume como pela valorização dos preços:
| Indicador (Exportações) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (EUR) | 1 417 M | 2 775 M | +95,8% |
| Quantidade (t) | 428 074 t | 554 379 t | +29,5% |
| Preço médio (EUR/t) | 3 310 | 5 005 | +51,2% |
O crescimento do valor das exportações (+95,8%) resultou de uma combinação de maior volume exportado (+29,5%) e de uma subida acentuada dos preços (+51,2%). Os preços de exportação atingiram o mínimo em 2019 (€2 804/t) antes de iniciar uma trajetória ascendente que se prolongou até 2025 (€5 005/t), sugerindo que a inflação nos custos de produção (matérias-primas, energia, mão-de-obra) e a valorização de produtos com maior valor acrescentado explicam uma parte substancial do crescimento nominal.
1.2. As importações cresceram a um ritmo inferior, ampliando o superavit comercial
As importações cresceram de €448 milhões para €815 milhões (+81,9%), com o volume a subir de 121 932 t para 187 505 t (+53,8%) e o preço médio a aumentar apenas 18,3% (de €3 673/t para €4 344/t).
| Indicador (Importações) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (EUR) | 448 M | 815 M | +81,9% |
| Quantidade (t) | 121 932 t | 187 505 t | +53,8% |
| Preço médio (EUR/t) | 3 673 | 4 344 | +18,3% |
O diferencial de crescimento entre exportações e importações traduziu-se num alargamento do superavit comercial de €969 milhões para €1 961 milhões (+102,3%), consolidando a posição da UE como exportador líquido.
1.3. A dependência líquida de importações acentuou-se negativamente
O indicador de dependência líquida de importações passou de -5,9% para -24,1%, com um mínimo de -26,5% registado em 2023. Valores negativos indicam que a UE é exportador líquido, e o aprofundamento deste valor ao longo da década reflecte a crescente capacidade exportadora do sector face à procura externa, tornando-o numa indústria com elevado contributo para a balança comercial externa do bloco.
2. Reorientação geográfica: diversificação das importações e consolidação dos mercados de destino
2.1. As importações diversificaram-se significativamente, reduzindo a concentração
O índice de concentração HHI das importações (em valor) desceu de 2 456 para 1 408 (-42,7%), sinalizando uma diversificação acentuada das origens de abastecimento. Em 2015, as importações estavam fortemente concentradas no Reino Unido; em 2025, os fluxos estão mais distribuídos por múltiplos parceiros.
2.2. A Turquia, a Ucrânia e a China tornaram-se fornecedores-chave
A análise dos principais parceiros de importação revela uma transformação profunda na geografia das importações:
| Parceiro | Importação 2015 | Importação 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 198 M | 192 M | -3,0% |
| Turquia | 60 M | 134 M | +123,5% |
| Suíça | 71 M | 119 M | +67,3% |
| China | 30 M | 113 M | +280,9% |
| Ucrânia | 13 M | 98 M | +649,6% |
| EUA | 11 M | 29 M | +165,5% |
| Rússia | 10 M | 3 M | -72,7% |
O Reino Unido manteve-se como principal fornecedor, mas com valor praticamente estável (€198 M → €192 M), perdendo quota relativa. As subidas mais expressivas registaram-se na Ucrânia (+649,6%), China (+280,9%) e Turquia (+123,5%). A entrada da Ucrânia como fornecedor relevante pode estar ligada à liberalização comercial associada ao Acordo de Associação UE-Ucrânia, enquanto a China reflecte a sua crescente competitividade no sector alimentar transformado. A Rússia viu as suas exportações para a UE descerem 72,7% (de €10 M para €3 M), em contexto de sanções e deterioração das relações comerciais.
2.3. O Reino Unido e os EUA consolidaram-se como mercados de destino prioritários
Do lado das exportações, os principais mercados de destino reforçaram a sua posição:
| Mercado destino | Exportação 2015 | Exportação 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 430 M | 793 M | +84,2% |
| EUA | 200 M | 537 M | +169,0% |
| Noruega | 86 M | 136 M | +58,5% |
| Canadá | 49 M | 118 M | +139,5% |
| Suíça | 79 M | 125 M | +58,3% |
| Coreia do Sul | 45 M | 70 M | +54,2% |
| Rússia | 63 M | 80 M | +27,3% |
O Reino Unido absorveu €793 M em exportações em 2025, representando o maior mercado individual. Os EUA registaram o crescimento mais expressivo em termos absolutos (+€337 M), reflectindo a forte procura norte-americana por confeitaria europeia premium. O Canadá (+139,5%) e a Coreia do Sul (+54,2%) sublinham a crescente peneteração em mercados extra-europeus, possivelmente impulsionada por acordos comerciais recentes (CETA com o Canadá).
2.4. A concentração das exportações permaneceu estável
Ao contrário das importações, o HHI das exportações manteve-se relativamente constante (de 1 302 para 1 344; +3,3%), indicando que a distribuição das exportações pelos mercados de destino não se alterou de forma estrutural, embora os volumes e valores tenham crescido substancialmente em praticamente todos os destinos.
3. Transformação estrutural: especialização produtiva e integração comercial crescente
3.1. A produção europeia cresceu em valor mais do que em volume
Segundo os dados de produção disponível, a produção da UE passou de 2 081 milhões de kg para 2 532 milhões de kg (+21,6%), enquanto o valor de produção subiu de €7 460 milhões para €10 024 milhões (+34,4%). Este diferencial confirma uma tendência de valorização da produção — os produtores europeus estão a mover-se para gama mais elevada, com maiores margens unitárias.
3.2. A especialização geográfica dentro da UE é desigual
Os dados de vantagem comparativa revelada (RCA) para 2025 evidenciam uma clara divisão interna:
Países mais especializados (RSCA > 0):
| País-membro | RCA | RSCA | Quota na produção (1704) |
|---|---|---|---|
| Dinamarca | 1,99 | 0,332 | 3,4% |
| Bélgica | 1,93 | 0,318 | 16,4% |
| Polónia | 1,53 | 0,209 | 10,2% |
| Espanha | 1,51 | 0,203 | 8,8% |
| Suécia | 1,24 | 0,109 | 3,0% |
Países menos especializados (RSCA < 0):
| País-membro | RCA | RSCA | Quota na produção (1704) |
|---|---|---|---|
| Malta | 0,001 | -0,998 | ~0% |
| Chipre | 0,002 | -0,996 | ~0% |
| Luxemburgo | 0,048 | -0,908 | 0,02% |
| Portugal | 0,113 | -0,797 | 0,16% |
| Croácia | 0,223 | -0,636 | 0,09% |
A Bélgica destaca-se pela combinação de elevada especialização (RCA 1,93) com uma quota significativa na produção total da UE (16,4%), sendo um hub produtivo e exportador de confeitaria. A Polónia e a Espanha apresentam igualmente vantagens competitivas relevantes. Portugal, apesar de ter uma quota de 1,8% nas importações totais da UE, apresenta uma RCA muito baixa (0,113), indicando que o seu mercado interno é predominantemente abastecido por produção nacional insuficiente, recorrendo significativamente às importações intracomunitárias e extra-comunitárias.
3.3. A propensão exportadora triplicou
O indicador de propensão exportadora — a razão entre exportações e produção — subiu de 8,8% para 27,0% (+207,8%), e a intensidade comercial (exportações + importações em % da produção) passou de 11,6% para 32,2% (+177,5%). Estes valores indicam que a indústria europeia de confeitaria tornou-se substancialmente mais internacionalizada, destinando uma proporção crescente da sua produção aos mercados externos.
3.4. A composição por subproduto revela padrões distintos
A decomposição por subsegmentos permite identificar dinâmicas diferenciadas:
Subcategoria 170490 (confeitaria sem cacau, excl. pastilhas elásticas):
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (t) | 422 339 | 547 749 | +29,7% |
| Exportações (EUR) | 1 383 M | 2 714 M | +96,3% |
| Importações (t) | 111 354 | 176 045 | +58,1% |
| Importações (EUR) | 412 M | 754 M | +82,9% |
Subcategoria 170410 (pastilhas elásticas / gomas de mascar):
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (t) | 5 735 | 6 630 | +15,6% |
| Exportações (EUR) | 34 M | 61 M | +78,1% |
| Importações (t) | 10 578 | 11 460 | +8,3% |
| Importações (EUR) | 36 M | 61 M | +71,0% |
A subcategoria 170490 domina claramente, representando mais de 95% do valor total em ambos os fluxos. As pastilhas elásticas (170410) apresentam volumes significativamente menores, mas com uma evolução de preços muito mais volatil — os preços de exportação oscilaram entre €437/t (2018) e €9 891/t (2024), sugerindo que os dados podem reflectir variações na composição de produto reportado, reclassificações ou movimentos atípicos de volume (como o pico de 84 128 t exportado em 2018).
3.5. A volatilidade das importações revela riscos específicos
Os coeficientes de volatilidade das importações variam significativamente entre parceiros:
| Parceiro de importação | Coeficiente de variação |
|---|---|
| Índia | 0,806 |
| Rússia | 0,498 |
| China | 0,497 |
| Ucrânia | 0,395 |
| EUA | 0,391 |
| Marrocos | 0,349 |
| Reino Unido | 0,322 |
| Turquia | 0,212 |
| Suíça | 0,093 |
| Tailândia | 0,085 |
A Índia apresenta a maior volatilidade (CV 0,806), seguida da Rússia e da China (ambas ~0,50). Os parceiros mais estáveis são a Tailândia (0,085) e a Suíça (0,093), sugerindo relações comerciais mais consolidadas e previsíveis. O elevado risco associado à Rússia confirma-se quer na volatilidade quer na quebra acentuada das importações (-72,7%).
Conclusão
O segmento de confeitaria sem cacau (CN 1704) consolidou-se, entre 2015 e 2025, como um subsector competitivo e exportador da indústria alimentar europeia. O superavit comercial mais do que duplicou, atingindo quase €2 mil milhões em 2025, impulsionado por uma combinação de crescimento de volume (+30% em exportações) e valorização de preços (+51%).
Três tendências estruturais definem o período:
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A internacionalização acelerada — a propensão exportadora triplicou, reflectindo a crescente capacidade da indústria europeia de competir em mercados globais, com destaque para o crescimento das exportações para os EUA (+169%), Canadá (+140%) e Coreia do Sul (+54%).
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A diversificação das fontes de abastecimento — o HHI das importações caiu 43%, com a Turquia, a Ucrânia e a China a emergirem como parceiros-chave, ao mesmo tempo que as importações russas colapsavam em contexto geopolítico adverso.
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A valorização produtiva — a produção europeia cresceu mais em valor (+34%) do que em volume (+22%), sugerindo uma transição para produtos de maior valor acrescentado, sustentada por especialização em países como a Bélgica, a Dinamarca, a Polónia e a Espanha.
Os principais riscos residem na elevada concentração das exportações no Reino Unido (€793 M, quase 29% do total), na volatilidade de alguns fornecedores emergentes e na sensibilidade a choques de preços de matérias-primas. Contudo, o quadro geral é de um sector resiliente, crescentemente competitivo e com margem para prosseguir a sua expansão nos mercados internacionais.