Evolução do mercado: Melaços (CN 1703) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 1703 compreende os melaços resultantes da extração ou refinação do açúcar, um subproduto com múltiplas aplicações na indústria agroalimentar, forragens e para a produção de bioetanol. Este relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) com parceiros não-UE para este produto entre 2015 e 2025, com base em dados anuais completos. A análise foca-se na identificação das principais dinâmicas comerciais, mudanças estruturais e vulnerabilidades do bloco.
1. Transformação do papel da UE: de importador líquido a exportador emergente
O período em análise foi marcado por uma inversão significativa na posição comercial da UE relativamente aos melaços, com uma diminuição acentuada do déficit comercial tradicional.
As exportações crescem significativamente em volume, superando a evolução dos preços
As exportações da UE apresentaram um crescimento robusto, com a quantidade a aumentar 966.6% e o valor a duplicar (+101.3%) entre o primeiro e o último ano da série. Os preços de exportação, contudo, tiveram uma evolução muito mais moderada (+2.4%), sugerindo que o crescimento do valor foi impulsionado primordialmente pelo aumento das quantidades exportadas, e não por uma valorização significativa do preço médio. Este crescimento concentrou-se no segmento de melaços de beterraba (CN 170390).
As importações contraem-se, revertendo uma dependência histórica
Em contraste, as importações da UE diminuíram 17.0% em quantidade e 6.1% em valor. Apesar da redução em volume, os preços médios de importação aumentaram 13.1%. Consequentemente, o défice comercial da UE reduziu-se 27.5% (de -139,6 mil milhões EUR para -101,3 mil milhões EUR).
A propensão para exportar da UE dispara
Um indicador chave desta transformação é a propensão para exportação (export propensity), que mede a quota das exportações no consumo aparente (produção + importações - exportações). Esta aumentou de 8.6% em 2015 para 14.4% em 2025, um crescimento de 66.3%. Simultaneamente, a dependência de importações líquidas caiu de 23.8% para 18.9%, evidenciando um reforço da autonomia da UE neste mercado.
2. Dinâmicas de parceiros-chave: consolidação e volatilidade
A reestruturação do comércio europeu de melaços refletiu-se numa alteração drástica do mapa de parceiros comerciais, com consolidação nas exportações e volatilidade nas importações.
Reino Unido consolida-se como principal destino de exportação da UE
O Reino Unido tornou-se de longe o principal destino das exportações da UE, recebendo 47.4% do seu valor total em 2025. O crescimento das exportações para este parceiro (+50.5% em valor) foi acompanhado por uma redução paralela da concentração das exportações (HHI), que caiu 38.7%. Isto indica que, embora o Reino Unido seja o sócio dominante, a UE diversificou os seus mercados de destino, com destaque para o crescimento exponencial das exportações para Noruega (+421%), Canadá e Vietname.
Colapso das importações tradicionais e surgimento de choques de abastecimento
Do lado das importações, assistiu-se a uma reconfiguração radical. A Índia, outrora um parceiro de peso com 33,3 milhões EUR em 2015, viu as suas exportações para a UE descer 99.4% para apenas 195 mil EUR em 2025. Outros fornecedores como a Rússia e a Bielorrússia também sofreram quebras acentuadas. Esta retração coletiva abre espaço para a consolidação de parceiros como o Egito e a Guatemala. Os dados revelam também episódios de grande volatilidade e choques de preço, como os registados nas importações do Paquistão (2021) e de El Salvador (2023), refletindo vulnerabilidades no abastecimento.
A UE exibe um perfil de produtor especializado na exportação de melaços
O índice de vantagem comparativa revelada (RCA) em 2025 mostra que os Estados-Membros com maior especialização na exportação deste produto são a Letónia, Lituânia, Croácia e, em particular, a Polónia, que é o principal exportador da UE em valor. Em contrapartida, países como a Irlanda e Portugal apresentam uma altamente especialização na importação, com um RCA muito baixo.
3. Ressignificação da produção europeia: menos volume, mais valor
A evolução da produção intracomunitária de melaços fornece o pano de fundo para entender as mudanças nos fluxos comerciais, apontando para uma reestruturação produtiva.
A produção europeia cai em volume, mas ganha em valor
Entre o primeiro e o último ano com dados disponíveis, a produção total da UE em quantidade caiu 43.8%, passando de 5.6 para 3.2 mil milhões de kg. Contudo, o valor da produção aumentou 29.4% para 452 milhões EUR. Esta aparente contradição — menos volume mas mais valor — só pode ser explicada por um aumento significativo do preço médio da produção, o que se torna ainda mais evidente ao observar os preços de exportação do melaço de cana (CN 170310), que se mantiveram sistematicamente mais elevados do que os de beterraba.
As variações por segmento de produto explicam as tendências agregadas
A divisão entre melaço de cana (CN 170310) e melaço de beterraba (CN 170390) revela dinâmicas distintas:
| Segmento (CN 1703) | Evolução das Importações (2015-2025) | Evolução das Exportações (2015-2025) |
|---|---|---|
| 170310 (Cana) | Quantidade: -28.2% | Quantidade: -4.5% |
| Valor: +1.2% | Valor: +51.3% | |
| Preço Médio: +40.7% | Preço Médio: +58.5% | |
| 170390 (Beterraba) | Quantidade: -1.5% | Quantidade: +134.3% |
| Valor: -18.8% | Valor: +121.7% | |
| Preço Médio: -17.5% | Preço Médio: -5.4% |
Fonte: Cálculos com base nos dados de Segmentos de Produto.
O crescimento estrondoso das exportações foi, portanto, impulsionado quase exclusivamente pelo melaço de beterraba, cuja produção e exportação parecem ter absorbido a redução da importação. O melaço de cana, por sua vez, manteve-se um produto de importação de valor mais elevado.
Conclusão
O período 2015-2025 assistiu a uma transformação estrutural no comércio europeu de melaços. A UE evoluiu de uma posição de significativa dependência para a de um ator exportador cada vez mais ativo e competitivo, impulsionado pelo melaço de beterraba. Esta mudança resultou de uma combinação de fatores: uma contração da produção interna (em peso) que parcialmente gerou excedentes exportáveis, o colapso de fornecedores asiáticos tradicionais e uma diversificação de mercados de destino.
Contudo, persistem riscos. O crescimento das exportações depende fortemente do Reino Unido. A volatilidade registada nas importações de alguns parceiros (e.g., Paquistão) e a elevada variância dos preços em certas rotas (e.g., Marrocos, Ucrânia nas exportações) sinalizam vulnerabilidades nos mercados de abastecimento. Em suma, a UE reforçou a sua autonomia no setor dos melaços, mas a consolidação desta vantagem dependerá da manutenção da competitividade face a concorrentes globais e da gestão dos riscos geopolíticos e de preço.