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Evolução do mercado: Sucata de aço (CN 7204) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no setor de sucata de ferro e aço (posição aduaneira CN 7204) ao longo do período 2015–2025. Este setor, fundamental para a economia circular e para a descarbonização da indústria siderúrgica europeia, conheceu transformações profundas na última década. A UE, que em 2015 era marginalmente importadora líquida de sucata, tornou-se num dos maiores exportadores mundiais, com consequências significativas para a segurança de abastecimento da sua própria indústria.

A análise baseia-se exclusivamente nos dados estatísticos disponíveis, abrangendo o comércio da UE com países terceiros (extra-UE), e estrutura-se em três dimensões principais: a dinâmica global das exportações e importações, a reconfiguração das relações comerciais com os principais parceiros, e os riscos estruturais associados à crescente dependência externa e concentração do mercado.


1. Da dependência à proeminência exportadora: a transformação estrutural do comércio externo da UE

A UE tornou-se um exportador líquido consolidado de sucata

O indicador mais revelador da transformação ocorrida neste setor é a evolução da dependência líquida de importações. Em 2015, este rácio situava-se em +0,88%, indicando que a UE era ligeiramente importadora líquida. Em 2025, o valor fixou-se em −5,72%, sinalizando uma posição de exportador líquido consolidado. O ponto de inversão mais pronunciado ocorreu por volta de 2020–2021, quando a dependência atingiu o mínimo de −21,8%.

As exportações cresceram a um ritmo muito superior ao das importações

A assimetria de crescimento entre exportações e importações é a pedra angular desta transformação:

Indicador 2015 2025 Variação (%)
Exportações — valor 2 333 M€ 5 145 M€ +120,5%
Exportações — quantidade 9,14 Mt 15,76 Mt +72,5%
Importações — valor 1 681 M€ 1 835 M€ +9,1%
Importações — quantidade 5,24 Mt 4,79 Mt −8,7%
Saldo comercial 652 M€ 3 310 M€ +408,0%

Fonte: Visão geral do comércio

O pico exportador registou-se em 2021–2022, atingindo um valor máximo de 7 622 M€ e um volume máximo de 19,43 Mt. Desde então, observou-se alguma retracção, mas os níveis de 2025 permanecem muito superiores aos de 2015. Em contraste, as importações mantiveram-se relativamente estáveis em volume, com ligeiro declínio, embora o valor tenha aumentado devido à subida dos preços.

A balança comercial apresentou uma evolução em três fases

A análise da evolução temporal permite identificar três fases distintas:

  1. 2015–2019: Expansão gradual. O saldo comercial cresceu de forma moderada, impulsionado por um aumento sustentado das exportações (em valor e volume), enquanto as importações se mantiveram relativamente estáveis. Os preços internacionais do aço acompanharam a recuperação pós-crise financeira.

  2. 2020–2022: Aceleração e pico. A pandemia da COVID-19 perturbou inicialmente os fluxos comerciais em 2020, mas a forte retoma da procura global de aço em 2021 — aliada a restrições de oferta — gerou um aumento excecional dos preços (preço médio de exportação subiu para 432,7 €/t, máximo do período) e das quantidades exportadas. O saldo comercial atingiu o seu máximo histórico em 2022 (5 428 M€).

  3. 2023–2025: Normalização parcial. Os preços retrocederam face ao pico de 2021–2022 (preço médio de exportação desceu para 326,5 €/t em 2025), e as quantidades exportadas diminuíram. Contudo, o saldo comercial permaneceu significativamente acima dos valores pré-pandemia, consolidando a posição exportadora da UE.

O segmento de sucata comum (720449) domina tanto importações como exportações

A segmentação por subcategoria revela uma forte concentração no subcódigo 720449 — desperdícios de ferro ou aço (excl. sucata de ferro fundido, aço inoxidável, aço-liga, estanhados, aparas e resíduos em lingotes). Em 2025, este segmento representou:

Subcategoria Partilha nas exportações (%) Partilha nas importações (%)
720449 — Sucata comum de ferro/aço ~84% (em valor) ~63% (em valor)
720421 — Aço inoxidável ~5% ~22%
720441 — Aparas e limalhas ~4% ~4%
720429 — Outros aços-liga ~5% ~6%

O aço inoxidável (720421) destaca-se como o segundo maior segmento, com preços unitários significativamente mais elevados (~1 293 €/t nas importações e ~1 327 €/t nas exportações em 2025), refletindo o maior valor intrínseco desta liga. Os resíduos em lingotes (720450), embora representando uma fracção mínima em volume, apresentam os preços mais elevados (~2 175 €/t nas importações).


2. Reconfiguração das parcerias comerciais: a Turquia como parceiro dominante e o colapso das importações da Rússia

A Turquia consolidou-se como destino principal das exportações europeias de sucata

A análise por parceiro revela uma concentração crescente das exportações na Turquia. Este país, que em 2015 já absorvia 1 186 M€ em exportações de sucata da UE, passou a absorver 3 055 M€ em 2025, uma variação de +157,5%. A sua quota nas exportações extra-UE rondou os 59% em 2025.

Principais destinos de exportação 2015 2025 Variação (%)
Turquia 1 186 M€ 3 055 M€ +157,5%
Índia 238 M€ 561 M€ +135,4%
Egito 83 M€ 512 M€ +519,6%
Paquistão 91 M€ 279 M€ +207,3%
Marrocos 56 M€ 124 M€ +120,4%
Estados Unidos 47 M€ 80 M€ +70,1%
Suíça 103 M€ 106 M€ +3,1%

Fonte: Principais parceiros por valor

O padrão é claro: os principais destinos são países com indústrias siderúrgicas em rápida expansão (Turquia, Índia, Egito, Paquistão), que dependem fortemente de sucata importada como matéria-prima para fornos elétricos de arco. A Turquia, em particular, é o maior importador mundial de sucata de aço, e a sua procura determinou em grande medida a evolução das exportações europeias.

O Egito e a Ucrânia registaram os crescimentos mais acentuados entre os parceiros importadores

Do lado das importações, as mudanças foram igualmente significativas:

Principais origens de importação 2015 2025 Variação (%)
Reino Unido 573 M€ 461 M€ −19,5%
Suíça 176 M€ 256 M€ +45,5%
Noruega 101 M€ 185 M€ +82,5%
Rússia 346 M€ 25 M€ −92,6%
Estados Unidos 78 M€ 242 M€ +209,7%
Turquia 107 M€ 131 M€ +22,1%
Ucrânia 7 M€ 118 M€ +1 490,3%

O caso mais notável é o colapso das importações provenientes da Rússia: de 346 M€ em 2015 para apenas 25 M€ em 2025 (−92,6%). Esta evolução resulta claramente das sanções comerciais impostas após a invasão da Ucrânia em 2022. A Rússia, que em 2015 era o terceiro maior fornecedor de sucata à UE, praticamente desapareceu do mapa comercial. A Ucrânia, inversamente, passou de fornecedor marginal (7 M€ em 2015) para um fornecedor relevante (118 M€ em 2025), num crescimento de +1 490,3% que reflete tanto a reorientação dos fluxos comerciais como a integração económica com a UE.

Os Estados Unidos tornaram-se também num fornecedor crescentemente importante (+209,7%), possivelmente em resultado da crescente procura europeia de sucata de aço inoxidável e de ligas especiais, dada a redução do acesso à sucata russa.

Os Países Baixos e a Bélgica desempenham um papel central como plataformas logísticas

Os principais Estados-Membros exportadores revelam o papel de hub logístico dos Países Baixos e da Bélgica:

Estado-Membro exportador 2015 2025 Variação (%)
Países Baixos 627 M€ 1 082 M€ +72,6%
Bélgica 418 M€ 767 M€ +83,7%
Alemanha 234 M€ 463 M€ +97,8%
Dinamarca 113 M€ 369 M€ +225,4%
Roménia 113 M€ 362 M€ +221,0%
Suécia 155 M€ 308 M€ +99,0%
França 125 M€ 250 M€ +99,7%

A posição geográfica portuária dos Países Baixos e da Bélgica, com os grandes portos de Roterdão e Antuérpia, explica em grande medida a sua proeminência. Importa notar que a Dinamarca e a Roménia registaram os crescimentos mais acentuados (+225,4% e +221,0%, respetivamente), possivelmente refletindo uma maior recolha e processamento de sucata nesses mercados.

Do lado das importações, Espanha continua a ser o maior importador intra-UE, embora tenha registado um declínio significativo (de 565 M€ para 291 M€, −48,4%), sugerindo uma menor dependência de sucata importada ou uma reorientação para fontes intra-UE. A Grécia registou o maior crescimento entre os importadores (+398,1%).


3. Concentração crescente, volatilidade e riscos para a segurança de abastecimento

A concentração das exportações agravou-se significativamente

O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) permite avaliar a concentração dos fluxos comerciais:

Fluxo HHI 2015 (valor) HHI 2025 (valor) Variação (%)
Exportações 2 852 3 798 +33,2%
Importações 1 816 1 235 −32,0%

A concentração das exportações aumentou significativamente, impulsionada pela dominância crescente da Turquia. Um HHI de 3 798 situa-se já numa zona de concentração moderada-alta, sinalizando uma vulnerabilidade acrescida a perturbações no mercado turco. Em contraste, as importações tornaram-se mais diversificadas (HHI desceu de 1 816 para 1 235), refletindo a perda de quota da Rússia e a diversificação das fontes de abastecimento.

A análise da volatilidade por parceiro (coeficiente de variação) confirma que os parceiros com maior volatilidade são precisamente os mais pequenos ou os mais recentes:

  • Ucrânia (importações): CV = 1,48 — volatilidade extrema, refletindo a natureza recente e instável da relação comercial.
  • Venezuela (importações): CV = 1,34 — fluxos esporádicos.
  • Bangladesh (exportações): CV = 0,99 — mercado ainda incipiente.

Em contraste, os parceiros mais consolidados apresentam volatilidades mais moderadas: Turquia (CV = 0,19 nas exportações), Suíça (CV = 0,16 nas exportações) e Reino Unido (CV = 0,26 nas importações).

Choques de preços em 2021 marcaram o período de maior tensão

A análise de choques de oferta identificou três eventos de anomalia significativos, todos centrados em 2021:

Parceiro Tipo de choque Fluxo Anomalia Desvio (%) Quota no valor (%)
Paquistão Preço Exportações 27,4 +64,3% 6,4%
Reino Unido Preço Importações 21,4 +49,7% 35,3%
Turquia Preço Exportações 13,1 +47,8% 71,9%

O ano de 2021 foi um ponto de inflexão no mercado global de sucata. A procura acumulada durante a pandemia, as disrupções nas cadeias de abastecimento e a recuperação económica sincronizada geraram uma subida excecional dos preços. A Turquia, com uma quota de 71,9% no valor das exportações no momento do choque, amplificou o impacto no comércio europeu.

A produção europeia de sucata cresceu dramaticamente, mas a propensão exportadora intensificou-se

Os dados de produção revelam um crescimento notável da produção europeia de sucata:

Indicador 2015 2025 Variação (%)
Quantidade produzida 5,57 mil milhões kg 35,10 mil milhões kg +530,6%
Valor da produção 1 787 M€ 9 180 M€ +413,7%

Este crescimento da produção reflete tanto a maior recolha de sucata endógena (resultante da demolição de infraestruturas, obsolescência de equipamentos e resíduos industriais) como possíveis alterações metodológicas na contabilização. Contudo, a propensão exportadora passou de 0,12% em 2015 para 22,55% em 2025, o que significa que uma fracção crescente da produção europeia está a ser canalizada para mercados externos. A intensidade comercial seguiu uma trajetória semelhante, subindo de 1,1% para 33,9%.

Os preços médios de importação foram consistentemente superiores aos de exportação

Um padrão recorrente ao longo de todo o período é o diferencial de preços entre importações e exportações:

Ano Preço médio de exportação (€/t) Preço médio de importação (€/t)
2015 255,4 320,6
2018 297,2 342,4
2021 359,1 496,8
2022 420,4 518,5
2025 326,5 383,4

Fonte: Visão geral do comércio

Os preços de importação foram em média 15–35% superiores aos de exportação. Este diferencial explica-se pela composição do mix importado: segmentos de maior valor acrescentado (aço inoxidável, aços-liga especiais, resíduos em lingotes) representam uma quota superior nas importações do que nas exportações. Em particular, as importações de aço inoxidável (720421) atingem preços de ~1 293 €/t, enquanto a sucata comum (720449), que domina as exportações, se situa em torno dos ~311 €/t.


Conclusão

A evolução do comércio externo da UE em sucata de ferro e aço (CN 7204) entre 2015 e 2025 é marcada por três dinâmicas fundamentais:

  1. Uma transformação estrutural que converteu a UE de importadora líquida em exportadora líquida consolidada, com o saldo comercial a passar de 652 M€ para 3 310 M€ (+408%). Esta transição é impulsionada por uma procura global crescente, particularmente da Turquia, Índia e Egito, e pela expansão da produção europeia de sucata.

  2. Uma reconfiguração geopolítica das relações comerciais, com o colapso das importações da Rússia (−92,6%) e a emergência da Ucrânia e dos Estados Unidos como fornecedores alternativos. Do lado das exportações, a consolidação da Turquia como destino dominante (~59% do valor) e a diversificação para mercados do Médio Oriente e do Sul da Ásia redefiniram o mapa comercial europeu.

  3. Um agravamento dos riscos de concentração e volatilidade. O HHI das exportações subiu 33,2%, sinalizando uma crescente dependência de poucos destinos. Os choques de preços de 2021 demonstraram a vulnerabilidade do seteur a perturcações externas. Simultaneamente, a propensão exportadora de 22,5% em 2025 coloca questões legítimas sobre a sustentabilidade do abastecimento de sucata para a indústria siderúrgica europeia, num contexto em que a transição verde (Green Steel) deverá aumentar a procura interna de sucata como matéria-prima de baixo carbono.

Estas tendências sugerem que o debate político europeu sobre a regulamentação das exportações de sucata — já presente nas discussões relativas ao Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM) e à revisão da regulamentação de resíduos — tenderá a intensificar-se nos próximos anos.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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