Evolução do mercado: ferro-esponja (CN 7203) — 2015–2025
Introdução
O código NC 7203 abrange os produtos ferrosos obtidos por redução direta dos minérios de ferro e outros produtos ferrosos esponjosos, incluindo ferro com pureza mínima de 99,94 % em peso. Trata-se de um insumo intermédio fundamental para a indústria siderúrgica europeia, servindo como matéria-prima em fornos de arco elétrico e em processos de fusão de aços especiais. A produção interna da UE é limitada, o que confere a este mercado uma elevada dimensão estratégica do ponto de vista da segurança de abastecimento.
No período 2015–2025, as importações da UE de ferro-esponja representaram sempre a esmagadora maioria do consumo aparente, com uma dependência líquida de importações que partiu de 93,9 % em 2015 para atingir um mínimo de 83,9 % em 2025. Apesar desta ligeira melhoria relativa, a UE permanece fortemente dependente do exterior para este produto.
O período em análise foi marcado por três grandes dinâmicas: (i) o colapso quase total das exportações da UE; (ii) uma profunda reconfiguração geopolítica dos fornecedores, sobretudo após a invasão da Ucrânia em 2022; e (iii) episódios de volatilidade extrema nos preços, particularmente em 2021–2022. O presente relatório estrutura-se em torno destas três tendências.
1. O desapareimento quase total das exportações europeias
1.1. Queda acentuada do volume e do valor exportado
Ao longo da década, as exportações da UE de ferro-esponja sofreram uma contração dramática. O valor exportado caiu de €26,6 milhões em 2015 para €3,1 milhões em 2025, uma redução de 88,2 %. Em volume, a queda foi ainda mais acentuada: das 61 013 toneladas registadas no início do período para apenas 2 773 toneladas em 2025 (−95,5 %). A UE deixou assim de ser um ator relevante nas exportações mundiais deste produto.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (EUR) | 26 637 127 | 3 134 724 | −88,2 % |
| Volume (t) | 61 013 | 2 773 | −95,5 % |
| Preço médio (EUR/t) | 437 | 1 130 | +158,9 % |
1.2. Redução drástica do número de destinos e das principais rotas
Em 2015, os principais destinos das exportações da UE eram Marrocos (€15,9 milhões), Noruega (€2,7 milhões), Estados Unidos (€3,0 milhões), Argélia (€2,2 milhões) e Reino Unido (€1,5 milhões). Em 2025, nenhum destes destinos excedeu os €1,5 milhões. A concentração das exportações por destino (HHI) diminuiu de 3 904 para 2 841 (−27,2 %), o que reflete menos a diversificação do que a erosão generalizada das vendas.
1.3. Os Estados Unidos como destino residual principal
Em 2025, os Estados Unidos foram o principal destino das exportações da UE (€1,5 milhões), mas mesmo este valor representa uma redução de 50,2 % face ao registado em 2015. A propensão exportadora da UE despenhou de 34,1 % para 4,0 %, o que confirma que a produção interna foi progressivamente redirecionada para o consumo doméstico ou que a capacidade produtiva europeia se reorientou para produtos de maior valor acrescentado.
1.4. Implicações para a balança comercial
O défice comercial da UE em ferro-esponja agravou-se de −€516 milhões em 2015 para −€679 milhões em 2025 (−31,6 %), tendo atingido um máximo de −1 104 milhões em 2022. A contração das exportações agravou este desequilíbrio, uma vez que a margem de cobertura das importações pelas exportações se tornou residual.
2. Reconfiguração geopolítica dos fornecedores
2.1. A Rússia como fornecedor dominante — e a sua gradual substituição
Em 2015, a Federação Russa era de longe o principal fornecedor da UE de ferro-esponja, com importações de €247 milhões, representando aproximadamente 45,5 % do total. Em 2025, esse valor desceu para €176 milhões (−28,9 %). O pico registou-se em 2022 (€681 milhões), provavelmente impulsionado pela antecipação de sanções e pelo encadeamento de preços elevados. A queda acentuada em 2023–2025 reflete o impacto das sanções da UE impostas no contexto do conflito na Ucrânia.
| Fornecedor | 2015 (EUR) | 2022 (EUR) | 2025 (EUR) | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| Federação Russa | 247 022 607 | 681 381 720 | 175 537 786 | −28,9 % |
| Venezuela | 149 476 133 | 165 260 471¹ | 193 593 437 | +29,5 % |
| Estados Unidos | 82 925 | 200 151 289 | 171 598 106 | +206 832 % |
| Líbia | 26 071 110 | 140 702 554 | 91 417 324 | +250,6 % |
| Trinidad e Tobago | 106 586 743 | 73 044 468² | 17 352 752 | −83,7 % |
¹ ² Valores interpolados para referência contextual.
2.2. Ascensão dos Estados Unidos como fornecedor estratégico
A evolução mais notável no lado das importações foi a ascensão meteórica dos Estados Unidos como fornecedor. De um valor marginal de €82 925 em 2015, as importações da UE provenientes dos EUA dispararam para €171,6 milhões em 2025 — uma variação de mais de 200 000 %. Este crescimento reflete provavelmente a expansão da capacidade de produção de ferro-esponja nos EUA (nomeadamente em instalações como a Nucor DRI no Louisiana) e a procura europeia de alternativas à fornecimento russo após 2022.
2.3. Redução da concentração geográfica das importações
O índice de concentração HHI das importações em valor desceu de 3 243 (2015) para 2 449 (2025), uma redução de 24,5 %. Em 2022, o HHI atingiu o seu máximo de 5 233, refletindo a enorme dependência de um número muito reduzido de fornecedores durante o período de crise. A redução registada entre 2022 e 2025 indica uma efetiva diversificação das fontes de abastecimento, com a UE a procurar novos parceiros em África (Líbia), na América do Sul (Venezuela) e na América do Norte.
2.4. A Venezuela e a Líbia como fornecedores alternativos
As importações da UE provenientes da Venezuela cresceram de €149,5 milhões em 2015 para €193,6 milhões em 2025 (+29,5 %), o que sugere que a Venezuela (com a sua empresa Sidor/Corporación Venezolana de Guayana) manteve ou reforçou a sua posição no mercado europeu. A Líbia, por sua vez, viu as suas exportações para a UE crescerem de €26,1 milhões para €91,4 milhões (+250,6 %), embora com uma volatilidade elevada (coeficiente de variação de 0,74), refletindo a instabilidade política e operacional nesse país.
2.5. Mudanças no lado da oferta interna da UE
Do lado da especialização dos Estados-Membros, a Bélgica (RSCA de 0,52), a Polónia (0,52) e os Países Baixos (0,37) destacam-se como os países mais especializados na produção de ferro-esponja. Em contraste, a Alemanha (RSCA de −1,00), a Áustria (−1,00) e a Eslováquia (−0,99) registam uma especialização negativa, apesar de serem grandes importadores. A Itália consolidou-se como o principal importador da UE (de €221,9 milhões em 2015 para €293,5 milhões em 2025, +32,3 %), enquanto a Alemanha reduziu drasticamente as suas importações (de €51,3 milhões para €10,0 milhões, −80,4 %).
3. Volatilidade extrema dos preços e choques de 2021–2022
3.1. Tripliação dos preços de importação
O preço médio de importação do ferro-esponja subiu de €190/t em 2015 para €301/t em 2025 (+58,5 %), mas a trajetória foi muito irregular. O preço atingiu o seu máximo em 2022 (€377/t) e o mínimo em 2016 (€147/t). A subida mais acentuada ocorreu entre 2020 e 2022, quando os preços mais do que duplicaram, impulsionados pela recuperação pós-pandemia, pela crise energética europeia e pela invasão da Ucrânia.
| Período | Preço médio importação (EUR/t) | Variação |
|---|---|---|
| 2015 | 190 | — |
| 2016 | 147 | −23 % |
| 2018 | 232 | +58 % (vs. 2016) |
| 2020 | 218 | −6 % (vs. 2018) |
| 2021 | 333 | +53 % (vs. 2020) |
| 2022 | 377 | +13 % (vs. 2021) |
| 2023 | 311 | −17 % |
| 2025 | 301 | −3 % (vs. 2023) |
3.2. Choques de preço identificados em 2021
O sistema de deteção de choques identificou três eventos de anomalia significativa, todos centrados em 2020–2021:
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Federação Russa (importações, preço): desvio anómalo de 12,1 e variação de +60,4 % em 2021, com uma quota de 60,2 % no valor total das importações. Este choque reflete a combinação da recuperação da procura europeia com os preços elevados do minério de ferro e da energia na Rússia.
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Venezuela (importações, preço): desvio anómalo de 16,8 e variação de +76,6 % em 2021, com uma quota de 14,1 % no valor. A crise operacional e logística na Venezuela pode ter contribuído para esta anomalia.
-
Turquia (exportações, preço): desvio anómalo de 26,2 e variação de +463,8 % em 2020, com uma quota de 23,1 % nas exportações. Este choque extremo provavelmente reflete operações pontuais de grande valor, dado o volume residual das exportações da UE.
3.3. Volatilidade dos parceiros de exportação
Os coeficientes de variação das exportações da UE para os seus principais parceiros são sistematicamente elevados: China (3,28), Turquia (2,73), Argélia (2,73), Noruega (2,17) e Marrocos (1,80). Estes valores indicam que as exportações da UE para estes mercados foram esporádicas e altamente irregulares, reforçando a conclusão de que a UE deixou de ser um exportador estrutural de ferro-esponja.
3.4. Diferenciação por segmento de produto
A decomposição por subcapítulo revela que o código 720310 (ferro-esponja por redução direta) domina esmagadoramente o comércio, representando mais de 99 % do volume importado. O código 720390 (ferro de elevada pureza ≥ 99,94 %, obtido por atomização de ferro-gusa líquido) é residual em volume, mas com preços significativamente mais elevados. Em 2020, o preço médio de importação do 720390 atingiu €7 815/t, valor claramente anómalo que pode refletir uma transação pontual de pequeno volume (apenas 232 toneladas).
| Segmento | Volume importado 2025 (t) | Preço 2025 (EUR/t) |
|---|---|---|
| 720310 — Redução direta | 2 248 263 | 301 |
| 720390 — Ferro ≥ 99,94 % | 15 832 | 362 |
Conclusão
O mercado europeu de ferro-esponja (CN 7203) sofreu uma profunda transformação entre 2015 e 2025. Três conclusões principais emergem da análise dos dados:
Em primeiro lugar, a UE consolidou-se como uma economia quase inteiramente importadora de ferro-esponja. As exportações desapareceram na prática (−95,5 % em volume), e a dependência líquida de importações manteve-se acima dos 83 %, com a intensidade comercial a descer de 96 % para 85 %.
Em segundo lugar, a geografia do abastecimento foi profundamente reconfigurada. A Rússia perdeu quota face ao seu pico de 2022, os Estados Unidos emergiram como um fornecedor de primeira linha (de praticamente zero para €172 milhões), e países como a Venezuela e a Líbia ganharam relevância. A concentração das importações diminuiu, sinalizando uma diversificação bem-sucedida das fontes, ainda que à custa de maior exposição a fornecedores com elevada volatilidade operacional.
Em terceiro lugar, o período 2021–2022 foi marcado por choques de preços sem precedentes, com os preços de importação a atingirem €377/t em 2022. Embora os preços tenham entretanto recuado para €301/t em 2025, permanecem significativamente acima dos níveis pré-crise. A produção interna da UE diminuiu 37,5 % em volume (de 400 000 para 250 000 toneladas), o que sugere que a capacidade europeia de produção de ferro-esponja está a contrair-se, agravando a dependência estrutural do exterior.