Evolução do mercado: laminados a quente (CN 7208) — 2015–2025
Introdução
Este relatório analisa a evolução do comércio da União Europeia (UE) de produtos laminados planos de ferro ou aço não ligado, com largura igual ou superior a 600 mm, laminados a quente e não revestidos (CN 7208) no período 2015–2025. O período em análise foi marcado por eventos económicos e geopolíticos de grande impacto, como a crise do aço de 2015-2016, a introdução de salvaguardas europeias em 2018, a pandemia de COVID-19 e a invasão da Ucrânia. Com base nos dados fornecidos, o relatório descreve e interpreta as dinâmicas comerciais, evidenciando uma profunda transformação estrutural na posição da UE, que passou de uma posição de superávit para um déficit comercial acentuado, com mudanças significativas nas parcerias comerciais e um aumento da vulnerabilidade a choques externos.
A reversão da balança comercial: de superávit para déficit crónico
A análise do período revela uma transformação radical no balanço comercial da UE para este produto, marcado por uma deterioração contínua.
O crescimento sustentado das importações frente à queda das exportações
Entre 2015 e 2025, as importações da UE de CN 7208 cresceram significativamente em valor, passando de 3,8 mil milhões de EUR para 6,6 mil milhões de EUR (+71,3%). Em contraste, as exportações sofreram uma contração severa, caindo de 2,5 mil milhões de EUR para 1,7 mil milhões de EUR (-32,1%). Esta divergência de trajetórias levou a um aumento acentuado do déficit comercial. Visualização da evolução do comércio.
| Métrica | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações (valor, mil M. EUR) | 3,84 | 6,57 | +71,3 |
| Exportações (valor, mil M. EUR) | 2,48 | 1,68 | -32,1 |
| Balança (valor, mil M. EUR) | -1,36 | -4,89 | -259,9 |
A erosão da base industrial exportadora europeia
A queda das exportações é ainda mais pronunciada em termos de volume, com uma redução de 58,5% (de 5,0 para 2,1 milhões de toneladas). Isto indica uma perda substancial de competitividade e capacidade de exportação da indústria siderúrgica da UE. Os principais destinos tradicionais viram encomendas europeias a diminuir drasticamente: as exportações para os EUA caíram 83,1% e para a Turquia 69,3%. Apenas o Reino Unido apresentou um crescimento significativo (+131,1%), refletindo possivelmente reajustamentos pós-Brexit. Dados sobre os principais parceiros de exportação.
A consolidação da dependência externa
O aumento das importações, combinado com a queda da produção interna (ver infra), traduziu-se num crescimento espetacular da dependência líquida da UE em relação a fornecedores externos. Esta métrica passou de 10,2% em 2015 para 20,7% em 2025, um aumento de mais de 100%. Isto significa que, no final do período, mais de um quinto do consumo aparente de laminados a quente na UE era suprido por importações líquidas. Evolução da dependência líquida de importações.
A reconfiguração geográfica das rotas de abastecimento
O mapa dos fornecedores da UE sofreu uma alteração drástica, ditada por sanções, custos de produção e capacidade logística.
O desaparecimento da Rússia e a ascensão da Turquia e da Ásia
A Rússia, que em 2015 era o maior fornecedor da UE com 710 milhões de EUR em valor, vir as suas exportações para a UE caírem para valores residuais (574 EUR) em 2025, refletindo o impacto total das sanções. Este vazio foi preenchido por novos atores. A Turquia consolidou a sua posição como principal fornecedor, com um crescimento de 490% no valor das exportações para a UE. Simultaneamente, fornecedores asiáticos como Coreia do Sul (+289%), Taiwan (+568%) e Índia (+322%) ganharam uma quota de mercado muito significativa. Evolução dos principais parceiros de importação.
A concentração e a vulnerabilidade das importações
Apesar da diversificação geográfica, a concentração das importações (medida pelo índice HHI) manteve-se em níveis moderados, tendo até diminuído ligeiramente (-18%). No entanto, a nova estrutura de fornecedores apresenta riscos específicos, como a dependência de rotas marítimas longas (Ásia) e de parceiros com elevada volatilidade. A volatilidade (coeficiente de variação) das importações de alguns fornecedores-chave é elevada, como é o caso da Turquia (0,51) e, sobretudo, da Indonésia (1,45) e do Japão (1,16). Análise da concentração e volatilidade do comércio.
A centralidade dos Estados-Membros do Sul e Leste da UE como portas de entrada
Os dados de importação por Estado-Membro revelam que a Itália e Espanha são os maiores importadores da UE, responsáveis por uma quota dominante das compras externas. Outros membros do Sul e Leste, como Portugal, Grécia, Bulgária e Polónia, também apresentam crescimentos muito acentuados. Este padrão sugere que estes países, com as suas indústria de transformação metalomecânica e construção civil, se tornaram os pontos de entrada e consumo principal para o aço importado. Dados por Estado-Membro da UE.
Vulnerabilidade, pressões nos preços e contração da produção
O período é caracterizado por grande instabilidade nos mercados, com impacto direto nos custos e na estrutura produtiva europeia.
Choques de preço e picos de volatilidade
Os preços de importação e exportação foram extremamente voláteis, com um pico acentuado em 2021-2022, seguido de uma correção. O sistema de deteção de choques identificou eventos de anomalia significativos, como um aumento de preço das importações da Sérvia em 2021 (desvio de 18,0 desvios-padrão). Estes picos estão ligados à recuperação pós-pandemia, à crise energética e às disrupções nas cadeias de abastecimento, pressionando fortemente os custos para os utilizadores finais europeus. Mapa dos choques de oferta detetados.
A perda de propensão exportadora e intensidade comercial
Os indicadores de autonomia revelam uma deterioração marcante. A propensão exportadora (exportações como % da produção) caiu de 19,4% para 10,8% (-44,3%), evidenciando que a produção europeia está cada vez mais virada para o mercado interno e menos competitiva para exportação. A intensidade comercial (comércio total como % do PIB) também caiu ligeiramente (-9,2%), sugerindo que o setor está a tornar-se menos integrado no comércio global. Evolução da intensidade comercial e propensão exportadora.
A contração da base produtiva europeia
Os dados de produção (PRODCOM) indicam um enfraquecimento claro da capacidade produtiva da UE. A produção em volume (kg) diminuiu 15,2%, e em valor 16,7%, entre o primeiro e o último ano da série com dados disponíveis. Esta contração reflete os encerramentos de altos-fornos e a reestruturação da indústria siderúrgica europeia face à concorrência internacional, custos de energia e pressões ambientais. Evolução da produção industrial na UE.
Conclusão
A análise do comércio da UE em laminados a quente (CN 7208) entre 2015 e 2025 revela uma indústria e um mercado em profunda transformação. A UE deixou de ser um exportador líquido para se tornar um importador líquido cada vez mais dependente, com um déficit que atingiu quase 5 mil milhões de EUR em 2025. Esta mudança foi impulsionada por uma combinação de perda de competitividade exportadora, contração da base produtiva interna e uma reconfiguração drástica das cadeias de abastecimento globais, marcada pela saída da Rússia e o avanço da Turquia e da Ásia.
O cenário atual apresenta riscos claros para a autonomia estratégica e a competitividade da indústria transformadora europeia. A elevada dependência de importações, sujeitas a volatilidade de preços e a potenciais disrupções logísticas e políticas, torna a UE vulnerável. A evolução futura dependerá da capacidade da política industrial europeia (como o Mecanismo de Ajustamento Carbónico na Fronteira, CBAM) reequilibrar as condições de concorrência e sustentar uma base produtiva siderúrgica essencial para a transição verde e a resiliência económica do bloco.