Evolução do mercado: Semi-acabados de aço (CN 7207) — 2015–2025
Introdução
O código NC 7207 abrange os produtos semimanufaturados de ferro ou aço não ligado — uma posição aduaneira fundamental na cadeia de valor siderúrgica, que inclui lingotes, palanquilhas e blocos de diferentes secções transversais e teores de carbono (Definições e âmbito do produto). Este relatório analisa a evolução do comércio externo da UE neste produto entre 2015 e 2025, abordando as dinâmicas de importação e exportação, as alterações geográficas nos parceiros comerciais, a evolução da produção interna e os choques de preços que marcaram a década.
Ao longo do período em análise, três grandes tendências dominam o panorama: (i) o aprofundamento do défice comercial e da dependência importadora; (ii) uma profunda reconfiguração geográfica das correntes comerciais, com a ascensão da China e do Vietname nas importações e dos EUA e Reino Unido nas exportações; e (iii) uma contração acentuada dos volumes de produção europeia, compensada parcialmente pela subida dos preços.
1. Um défice estrutural em aprofundamento
A UE é, por natureza, importadora líquida de semi-acabados de aço não ligado. A dimensão deste défice, contudo, agravou-se significativamente ao longo da década, reflectindo uma crescente dependência externa.
A disparidade entre importações e exportações é crescente
Ao longo do período 2015–2025, as importações da UE em CN 7207 cresceram 45,2 % em valor (de 2 816,6 M€ para 4 090,6 M€), enquanto as exportações duplicaram, passando de 276,0 M€ para 607,2 M€ (+120,0 %). Apesar do crescimento mais acentuado das exportações em termos percentuais, em termos absolutos o hiato manteve-se vasto: o saldo comercial passou de −2 540,6 M€ em 2015 para −3 483,4 M€ em 2025 (Visão geral do comércio).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor, M€) | 2 816,6 | 4 090,6 | +45,2 % |
| Exportações (valor, M€) | 276,0 | 607,2 | +120,0 % |
| Saldo comercial (M€) | −2 540,6 | −3 483,4 | −37,1 % |
Os volumes de importação cresceram moderadamente, mas o preço disparou
O volume importado subiu apenas 8,6 % (de 8 238 309 t para 8 943 526 t), enquanto o preço médio de importação aumentou 33,8 % (de 341,9 €/t para 457,4 €/t). Do lado das exportações, o crescimento volumétrico foi de 52,7 % (de 643 022 t para 981 876 t) e o preço médio subiu 44,1 % (de 429,2 €/t para 618,3 €/t). A inflação de preços explica assim uma parte substancial do agravamento do défice em valor.
A dependência líquida de importações mais do que duplicou
O indicador de dependência líquida de importações passou de 11,6 % em 2015 para 27,3 % em 2025 (+134,4 %), tendo atingido um máximo de 32,8 % no período intermédio. Esta evolução reflecte simultaneamente a redução da produção interna (ver secção 3) e o crescimento das importações. O índice de intensidade comercial subiu de 18,9 % para 30,8 %, confirmando a crescente abertura — e exposição — do mercado europeu a fornecedores externos.
A propensão exportadora da UE diminuiu
Paradoxalmente, apesar do crescimento das exportações em valor, a propensão exportadora — a razão entre exportações e produção interna — caiu de 4,6 % para 2,8 % (−37,7 %). Isto significa que a produção europeia está cada vez mais orientada para o consumo interno e que a capacidade exportadora em semi-acabados é marginal face à dimensão da produção total.
2. Reconfiguração geográfica das correntes comerciais
A década 2015–2025 foi marcada por uma profunda alteração na geografia do comércio de CN 7207, tanto do lado das importações como das exportações, impulsionada por factores geopolíticos, pelo Brexit e pela emergência de novos fornecedores asiáticos.
A Rússia manteve-se o principal fornecedor, mas com volatilidade crescente
A Federação Russa foi consistentemente o maior fornecedor externo de semi-acabados à UE, com importações a crescerem de 1 049,8 M€ (2015) para 1 627,1 M€ (2025), uma subida de 55,0 % (Principais parceiros por valor). Todavia, o valor máximo atingido foi 2 617,5 M€, reflectindo uma volatilidade significativa (coeficiente de variação de 0,11 — o mais baixo entre os principais fornecedores, mas ainda assim com flutuações notáveis em termos absolutos). A dependência da Rússia representa um risco estratégico, como evidenciado pelas tensões geopolíticas recentes.
A Ucrânia perdeu quota enquanto a China e o Vietname emergiram com força
As importações originárias da Ucrânia descerem 43,0 % (de 761,4 M€ para 434,1 M€), com uma queda acentuada a partir de 2022. Em contraste, a China passou de 98,4 M€ para 714,8 M€ (+626,7 %), e o Vietname surgiu de praticamente zero (11 206 €) para 311,6 M€ — uma ascensão meteórica. Estas duas origens asiáticas reflectem a reorientação da procura europeia para fornecedores alternativos, mas também elevada instabilidade (CV de 1,29 para a China e 1,17 para o Vietname).
| Origem das importações | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Federação Russa | 1 049,8 | 1 627,1 | +55,0 % |
| Ucrânia | 761,4 | 434,1 | −43,0 % |
| China | 98,4 | 714,8 | +626,7 % |
| Vietname | 0,01 | 311,6 | — |
| Reino Unido | 306,0 | 43,6 | −85,7 % |
| Índia | 30,3 | 113,0 | +272,4 % |
| Brasil | 350,8 | 317,8 | −9,4 % |
O Brexit transformou o Reino Unido de fornecedor em mercado exportador
O caso do Reino Unido é particularmente revelador. As importações da UE provenientes do RU descerem 85,7 % (de 306,0 M€ para 43,6 M€), enquanto as exportações da UE para o RU subiram 237,5 % (de 43,8 M€ para 147,7 M€). Esta inversão sugere que, após o Brexit, o RU passou a ser mais um mercado de destino do que um fornecedor de semi-acabados para a UE, possivelmente devido à introdução de barreiras alfandegárias e à reconfiguração das cadeias de abastecimento.
Os EUA tornaram-se o principal destino das exportações da UE
Do lado das exportações, a transformação mais marcante foi o crescimento exponencial das vendas para os Estados Unidos, que passaram de 6,1 M€ (2015) para 216,3 M€ (2025) — uma subida de 3 449 % (Principais destinos de exportação). O Marrocos manteve-se um destino relevante (68,4 M€, +12,3 %), mas a Turquia (−58,1 %) e o México (−72,8 %) perderam relevância como mercados de destino.
| Destino das exportações | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| EUA | 6,1 | 216,3 | +3 449 % |
| Reino Unido | 43,8 | 147,7 | +237,5 % |
| Marrocos | 60,9 | 68,4 | +12,3 % |
| Canadá | 1,4 | 24,8 | +1 691 % |
| Turquia | 39,8 | 16,7 | −58,1 % |
| México | 58,9 | 16,0 | −72,8 % |
A concentração das exportações aumentou
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das exportações subiu de 1 451 para 2 105 (+45,0 %), sinalizando uma crescente concentração geográfica. As exportações da UE estão agora mais dependentes de um número reduzido de mercados (EUA, RU, Marrocos). Nas importações, o HHI desceu ligeiramente de 2 423 para 2 147 (−11,4 %), indicando uma modesta diversificação dos fornecedores, mas os níveis absolutos permanecem elevados.
Choques de preço pontuais marcaram o período
A análise de choques de abastecimento identificou eventos significativos:
- Tunísia (exportações, 2020): choque de preço com desvio anómalo de 35,2 e variação de +293 %, possivelmente associado a perturbações na oferta durante a pandemia.
- China (importações, 2017): choque de preço com desvio de 19,0 e variação de +125,5 %, reflectindo flutuações no mercado interno chinês.
- Marrocos (exportações, 2021): choque de preço com desvio de 17,0 e variação de +38,3 %, num destino que representa 23,5 % do valor das exportações.
3. Produção interna em contração e pressão ascendente sobre os preços
A indústria siderúrgica europeia de semi-acabados de aço não ligado atravessou uma fase de redução de volumes, compensada parcialmente pela subida de preços e valores, num contexto de reestruturação produtiva e pressões de custos.
Os volumes de produção recuaram acentuadamente
A produção europeia em CN 7207 passou de 17 257 768 t (2015) para 13 182 869 t (2025), uma queda de 23,6 %. O mínimo situou-se em 10 215 565 t, provavelmente no período 2020, coincidindo com a crise pandémica. O máximo de 21 675 181 t foi atingido antes do declínio subsequente, sugerindo que a indústria não recuperou os níveis pré-crise.
O valor da produção subiu apesar da queda de volume
Contrariamente à evolução dos volumes, o valor da produção cresceu 49,7 %, de 4 523,6 M€ para 6 773,7 M€. O máximo atingido foi 9 686,8 M€. Esta aparente contradição — menos toneladas mas mais euros — explica-se pela subida generalizada dos preços do aço, impulsionada por custos de energia, matérias-primas e, em 2021–2022, pela recuperação pós-pandémica e tensões na cadeia de abastecimento global.
A Alemanha lidera a especialização produtiva europeia
A análise de especialização revela que a Alemanha é o principal produtor europeu, com 40,3 % da quota de produção interna e um RSCA de 0,311. A França (11,6 % da produção, RSCA 0,194) e a Espanha (8,0 %, RSCA 0,158) completam o trio de maior especialização. Nos extremos, a Croácia (RSCA 0,513) e a Eslováquia (RSCA 0,415) apresentam elevada especialização relativa, embora com quotas de produção marginais. Em contraste, países como Chipre, Malta, Letónia e Bulgária não dispõem de capacidade produtiva relevante neste segmento.
Os segmentos dominantes nas importações e exportações diferem
A análise por segmento revela uma clara assimetria na composição do comércio:
Importações por subproduto (volume, kt):
| Subproduto | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| 720712 (retangular, largura ≥ 2× espessura) | 6 025 | 6 498 | +7,8 % |
| 720711 (quadrada/retangular, largura < 2× espessura) | 1 452 | 2 120 | +46,0 % |
| 720720 (≥ 0,25 % carbono) | 713 | 194 | −72,8 % |
| 720719 (circular ou outra secção) | 49 | 131 | +167,3 % |
O subproduto 720712 domina as importações, representando mais de dois terços do volume. A 720711 cresceu 46,0 %, sugerindo um aumento da procura de produtos de secção quadrada. A queda acentuada do subproduto 720720 (aços com ≥ 0,25 % de carbono, −72,8 %) pode reflectir uma reorientação da procura para aços de baixo carbono ou alterações na capacidade produtiva interna.
Exportações por subproduto (volume, kt):
| Subproduto | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| 720711 (quadrada/retangular) | 286 | 287 | +0,5 % |
| 720719 (circular ou outra secção) | 148 | 381 | +157,8 % |
| 720712 (retangular, largura ≥ 2× espessura) | 169 | 242 | +43,1 % |
| 720720 (≥ 0,25 % carbono) | 41 | 72 | +77,3 % |
Do lado das exportações, destaca-se o crescimento explosivo do subproduto 720719 (+157,8 %), que em 2025 se tornou o segmento mais exportado em volume.
Conclusão
O mercado europeu de semi-acabados de aço não ligado (CN 7207) entre 2015 e 2025 caracterizou-se por um aprofundamento da dependência externa, com o rácio de importações líquidas a mais do que duplicar (de 11,6 % para 27,3 %). Embora as exportações tenham crescido a um ritmo mais acelerado do que as importações em termos percentuais, o défice comercial absoluto agravou-se em cerca de 37 %, situando-se nos −3 483 M€ em 2025.
A geografia do comércio sofreu uma transformação profunda: a Rússia consolidou-se como principal fornecedor num contexto de crescente volatilidade, a China e o Vietname emergiram como alternativas à perda de quota da Ucrânia, e o Reino Unido passou de fornecedor a mercado exportador — provavelmente como reflexo do Brexit. Do lado das exportações, os EUA tornaram-se o principal destino, crescendo mais de 3 400 % ao longo do período.
A produção interna recuou 23,6 % em volume, mas o valor da produção cresceu quase 50 %, evidenciando o impacto da inflação de preços na indústria siderúrgica. A crescente concentração geográfica das exportações (HHI a subir de 1 451 para 2 105) e a elevada dependência de fornecedores externos representam vulnerabilidades estratégicas para o bloco europeu. O segmento 720712 continua a dominar as importações, enquanto a exportação se reorientou para produtos de secção circular (720719). Estes padrões sublinham a necessidade de monitorização contínua das dependências externas e da competitividade da base produtiva europeia neste segmento fundamental da cadeia siderúrgica.