Evolução do mercado: Peles de ovinos (CN 4102) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento de peles em bruto de ovinos (CN 4102) — que inclui peles frescas, salgadas, secas, tratadas pela cal, piqueladas ou conservadas de outro modo, não curtidas nem preparadas — ao longo do período 2015–2025. Este produto abrange três subcategorias principais: peles com lã (CN 410210), peles piqueladas (CN 410221) e outras peles sem lã (CN 410229).
O período em análise foi marcado por transformações profundas no mercado global de peles de ovinos. A UE, que em 2015 se apresentava como importadora líquida de peles, converteu-se em exportadora líquida ao final do período. Simultaneamente, tanto as importações como as exportações registaram reduções significativas em volume e em valor, refletindo alterações estruturais na procura e na oferta globais, nomeadamente a contração da indústria de vestuário e acessórios de pele, o crescimento do veganismo e as restrições regulamentares em diversos mercados. A visão geral do produto no Trade Dashboard oferece o enquadramento necessário para compreender a amplitude destas mudanças.
1. Uma contração generalizada do mercado europeu de peles de ovinos
1.1 As importações desceram mais de metade em valor
O comércio importador da UE registou uma queda acentuada ao longo da década. Em 2015, as importações de peles de ovinos provenientes de países terceiros totalizavam 94,9 milhões de euros; em 2025, o valor desceu para 40,2 milhões de euros, uma redução de 57,7%. Em termos de quantidade, o declínio foi semelhante: de 25 006 toneladas para 12 252 toneladas (−51,0%), com um mínimo de 12 143 toneladas em 2024. O preço médio de importação sofreu uma redução de 3 795 €/t para 3 279 €/t (−13,6%), com uma amplitude considerável (mínimo de 2 451 €/t em 2020 e máximo de 4 546 €/t em 2022).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (milhões EUR) | 94,9 | 40,2 | −57,7% |
| Quantidade (t) | 25 006 | 12 252 | −51,0% |
| Preço médio (EUR/t) | 3 795 | 3 279 | −13,6% |
| Unidades suplementares (milhões p/st) | 15,7 | 7,4 | −53,2% |
Estes dados refletem a visão geral do comércio no Trade Dashboard.
1.2 As exportações também recuaram, mas de forma menos pronunciada
Do lado das exportações, a redução foi substancial, mas inferior à registada nas importações. O valor exportado desceu de 83,6 milhões de euros em 2015 para 48,6 milhões de euros em 2025 (−41,8%). A quantidade exportada baixou de 45 722 toneladas para 30 317 toneladas (−33,7%), atingindo o mínimo de todo o período precisamente em 2025. O preço médio de exportação (1 829 €/t em 2015) caiu para 1 604 €/t em 2025 (−12,3%), com um mínimo de 1 152 €/t registado em 2020, coincidindo com o choque da pandemia de COVID-19.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (milhões EUR) | 83,6 | 48,6 | −41,8% |
| Quantidade (t) | 45 722 | 30 317 | −33,7% |
| Preço médio (EUR/t) | 1 829 | 1 604 | −12,3% |
| Unidades suplementares (milhões p/st) | 14,0 | 10,9 | −21,9% |
1.3 A produção interna da UE entrou em colapso
A produção europeia de peles de ovinos desintegrou-se ao longo do período. A produção em unidades caiu de 43,9 milhões de peças em 2015 para 8,3 milhões de peças em 2025 (−81,0%). A produção em valor sofreu uma queda ainda mais drástica, descendo de 262,6 milhões de euros para apenas 20 milhões de euros (−92,4%). Estes dados, disponíveis na análise de volumes de produção, evidenciam uma reestruturação profunda da cadeia de valor europeia de peles de ovinos. A disparidade entre a queda do valor (−92,4%) e a queda da quantidade (−81,0%) indica uma compressão adicional dos preços praticados no mercado interno, sugerindo que a pele de ovino se tornou um subproduto cada vez menos valorizado da produção pecuária europeia.
2. Reconfiguração da geografia comercial: novos parceiros, nova posição da UE
2.1 O colapso das importações vindas dos fornecedores tradicionais
Os principais fornecedores de peles de ovinos à UE sofreram reduções dramáticas no período analisado. Os casos mais expressivos, detalhados na análise por parceiro, são os seguintes:
| Parceiro | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Irão | 18,7 | 1,0 | −94,7% |
| África do Sul | 31,9 | 6,3 | −80,4% |
| Nova Zelândia | 11,1 | 1,9 | −82,8% |
| Reino Unido | 5,3 | 1,2 | −76,8% |
| Islândia | 1,6 | 0,6 | −61,0% |
| Austrália | 3,6 | 2,1 | −41,3% |
| Turquia | 9,1 | 7,9 | −13,5% |
A queda mais espetacular registou-se nas importações provenientes do Irão, que desceram 94,7%, passando de 18,7 milhões de euros para apenas 1,0 milhão de euros. A África do Sul, que em 2015 era o maior fornecedor individual da UE (31,9 milhões de euros), reduziu as suas exportações para a UE em 80,4%. A Nova Zelândia, outro fornecedor histórico, viu as suas vendas para a UE baixarem 82,8%.
A Turquia destaca-se como a exceção à regra, com uma redução relativamente modesta de 13,5%, passando de 9,1 para 7,9 milhões de euros, mantendo-se como o principal fornecedor individual da UE em 2025. Este facto sugere relações comerciais mais estáveis e uma posição privilegiada do fornecedor turco no mercado europeu.
2.2 A concentração das exportações em dois mercados de destino
Do lado das exportações, a UE manteve uma estrutura fortemente concentrada em dois mercados principais: a China e a Turquia. Em conjunto, estes dois parceiros absorveram a grande maioria das exportações europeias de peles de ovinos.
| Parceiro | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 45,1 | 27,1 | −39,9% |
| Turquia | 28,3 | 18,6 | −34,4% |
| Reino Unido | 4,0 | 0,1 | −97,2% |
| Paquistão | 0,3 | 0,3 | +18,5% |
| Bósnia e Herzegovina | 1,8 | 1,2 | −30,5% |
| Índia | 0,8 | 0,1 | −90,2% |
| Rússia | 0,0 | 0,0 | −66,7% |
A China e a Turquia continuaram a dominar como destino das exportações da UE, embora com reduções significativas. O caso do Reino Unido é particularmente notável: as exportações da UE para o Reino Unido desceram 97,2%, de 4,0 milhões de euros para apenas 0,1 milhão de euros. Esta queda abrupta pode estar relacionada com o Brexit e a consequente reconfiguração das relações comerciais bilaterais. Curiosamente, o Reino Unido também reduziu drasticamente as suas exportações para a UE (−76,8%), sugerindo uma desvinculação mútua dos fluxos de peles de ovinos entre a UE e o Reino Unido.
2.3 Os Estados-Membros: Itália domina as importações, Espanha lidera nas exportações
A análise por Estado-Membro reportador revela uma concentração geográfica acentuada dentro da UE:
Importações por Estado-Membro:
| Estado-Membro | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Itália | 75,8 | 30,3 | −60,0% |
| Espanha | 5,8 | 5,4 | −7,8% |
| França | 5,6 | 1,9 | −65,6% |
| Polónia | 2,8 | 1,3 | −55,8% |
| Portugal | 1,7 | 0,4 | −75,5% |
| Alemanha | 1,9 | 0,4 | −76,4% |
| Países Baixos | 0,6 | 0,1 | −76,5% |
Exportações por Estado-Membro:
| Estado-Membro | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Espanha | 30,2 | 7,8 | −74,3% |
| Itália | 6,6 | 15,2 | +129,0% |
| Irlanda | 18,6 | 5,5 | −70,6% |
| França | 7,6 | 10,7 | +40,2% |
| Grécia | 3,3 | 3,7 | +13,8% |
| Roménia | 4,1 | 0,7 | −82,5% |
| Alemanha | 2,1 | 1,0 | −53,5% |
A Itália absorveu, em 2015, 75,8 milhões de euros em importações — praticamente 80% do total europeu — refletindo a tradição da indústria curtumeira italiana, particularmente no distrito de Santa Croce sull'Arno. Apesar da queda de 60%, a Itália manteve a sua posição dominante em 2025 (30,3 milhões de euros).
Do lado das exportações, é notável a inversão de posições: a Itália mais do que duplicou o valor exportado (de 6,6 para 15,2 milhões de euros, +129%), enquanto a Espanha, apesar de ter sofrido uma queda de 74,3% (de 30,2 para 7,8 milhões de euros), permanece como o segundo maior exportador. A França (+40,2%) e a Grécia (+13,8%) foram os únicos outros Estados-Membros a registar crescimento nas exportações. Estas evoluções sugerem uma reorganização da cadeia de valor europeia, com a Itália a ganhar protagonismo como plataforma de reexportação de peles processadas.
3. Transformação estrutural: da dependência importadora à autonomia exportadora
3.1 A UE tornou-se exportadora líquida de peles de ovinos
A transformação mais significativa do período foi a inversão do saldo comercial. Em 2015, a UE apresentava um défice comercial de 11,3 milhões de euros no segmento de peles de ovinos. Em 2025, este défice converteu-se num excedente de 8,4 milhões de euros, uma variação de 174,7%. O indicador de dependência de importações confirma esta transição: de uma dependência líquida de importações de 10,7% em 2015, a UE passou para uma posição de excedente exportador de −38,4% em 2025.
Ao longo do período, a dependência de importações flutuou amplamente, atingindo valores extremos de −280,0% (excedente acentuado) e +56,8% (défice acentuado), o que reflete uma elevada volatilidade nas relações comerciais e na estrutura do mercado.
3.2 A intensidade comercial e a propensão exportadora dispararam
Dois indicadores complementares ilustram a crescente abertura e orientação exportadora do mercado europeu de peles de ovinos:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Intensidade comercial | 76,8% | 144,0% | +87,5% |
| Propensão exportadora | 60,0% | 235,1% | +291,6% |
Estes dados, disponíveis na análise de intensidade comercial e na análise de propensão exportadora, revelam um fenómeno paradoxal: apesar da produção interna ter colapsado, a UE tornou-se uma plataforma exportadora mais relevante em relação ao seu próprio consumo. A propensão exportadora de 235,1% em 2025 significa que as exportações superaram largamente a produção interna, sugerindo que parte das exportações inclui peles importadas, transformadas e reexportadas — um papel de intermediário comercial cada vez mais pronunciado.
3.3 A concentração do mercado acentuou-se, tanto nas importações como nas exportações
O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) — um indicador de concentração do mercado — revelou dinâmicas distintas para importações e exportações:
| Fluxo | HHI (valor) 2015 | HHI (valor) 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações | 1 815 | 2 038 | +12,3% |
| Exportações | 4 115 | 4 577 | +11,2% |
Os dados de concentração do mercado mostram que as exportações da UE para países terceiros se mantiveram altamente concentradas (HHI > 4 000), refletindo a dependência da China e da Turquia. Nas importações, a concentração moderada (HHI ~2 000) aumentou ligeiramente, em resultado da saída de fornecedores menores e da consolidação de parceiros como a Turquia.
Do ponto de vista da especialização dos Estados-Membros, destaca-se a Grécia (RSCA de 0,89, RCA de 16,8) e a Espanha (RSCA de 0,81, RCA de 9,7) como os países com maior especialização na exportação de peles de ovinos. Em contraste, países como a Polónia e a Croácia apresentam níveis de especialização praticamente nulos (RCA < 0,01), confirmando a concentração geográfica da indústria curtumeira na Europa meridional.
3.4 A segmentação por tipo de pele revela dinâmicas distintas
A análise por subcategoria do produto CN 4102 permite compreender melhor as dinâmicas subjacentes à evolução do mercado:
Importações por subcategoria (2015 vs. 2025):
| Subcategoria | Valor 2015 (milhões EUR) | Valor 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| CN 410221 — Piqueladas | 84,0 | 35,6 | −57,6% |
| CN 410210 — Com lã | 10,7 | 4,5 | −57,9% |
| CN 410229 — Outras sem lã | 0,2 | 0,04 | −78,2% |
Exportações por subcategoria (2015 vs. 2025):
| Subcategoria | Valor 2015 (milhões EUR) | Valor 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| CN 410210 — Com lã | 75,1 | 42,2 | −43,8% |
| CN 410229 — Outras sem lã | 3,4 | 6,2 | +82,7% |
| CN 410221 — Piqueladas | 3,7 | 0,2 | −94,4% |
Os segmentos detalhados encontram-se na análise de segmentação por produto.
Nas importações, as peles piqueladas (CN 410221) dominam, representando cerca de 88% do valor total em 2025, embora tenham registado uma queda significativa. Esta subcategoria apresenta preços unitários mais elevados (4 529 €/t em 2025), indicando um produto de maior valor acrescentado.
Nas exportações, as peles com lã (CN 410210) constituem a esmagadora maioria do valor (86,9% em 2025), apesar da queda de 43,8%. Contudo, é no segmento das outras peles sem lã (CN 410229) que se regista o crescimento mais notável: +82,7% em valor (de 3,4 para 6,2 milhões de euros), acompanhado de uma subida espetacular do preço médio de exportação (de 2 024 €/t para 5 182 €/t, +156%). Este aumento de preço sugere uma crescente valorização deste tipo de pele nos mercados de destino, possivelmente associada à procura de matérias-primas específicas para curtumes especializados.
3.5 Sinais de volatilidade e choques pontuais
A análise de volatilidade e os eventos de choque identificados revelam a existência de flutuações significativas em determinados parceiros comerciais:
Os parceiros com maior volatilidade (coeficiente de variação) incluem:
- Exportações para Hong Kong: CV de 2,01 — a maior volatilidade registada, sugerindo fluxos esporádicos e pontuais
- Exportações para o Reino Unido: CV de 1,06 — refletindo a descontinuidade abrupta das relações comerciais pós-Brexit
- Importações do Irão: CV de 0,83 — consistentes com o colapso quase total das importações deste parceiro
Foram detetados eventos de choque pontuais, como o choque de preço nas importações do Iémen em 2021 (abnormalidade de 23 906) e um choque nas exportações para a Indonésia em 2019, embora este último represente uma quota de valor negligenciável.
Conclusão
O mercado europeu de peles em bruto de ovinos (CN 4102) atravessou, entre 2015 e 2025, uma transformação estrutural de profundidade considerável. Os dados analisados permitem sintetizar as principais tendências observadas:
-
Contração generalizada: Tanto as importações como as exportações da UE registaram reduções acentuadas, refletindo a diminuição global da procura de peles de ovinos, associada a mudanças nos padrões de consumo, ao crescimento do movimento antipeles e à concorrência de materiais sintéticos.
-
Inversão do saldo comercial: A UE transitou de uma posição de défice comercial (−11,3 milhões de euros em 2015) para uma posição de excedente (+8,4 milhões de euros em 2025), consolidando-se como exportadora líquida — embora esta posição resulte sobretudo da redução das importações mais do que do crescimento das exportações.
-
Colapso da produção interna: A produção europeia de peles de ovinos desmoronou (−92,4% em valor), o que sugere que a UE está a perder capacidade de abastecimento próprio, tornando-se cada vez mais dependente de fluxos de importação para manter as suas indústrias curtumeiras.
-
Reconfiguração geográfica: Os fornecedores tradicionais (Irão, África do Sul, Nova Zelândia) cederam lugar a uma maior dependência da Turquia, que se consolidou como parceiro comercial mais estável. Do lado das exportações, a China e a Turquia permanecem como mercados de destino dominantes, numa estrutura altamente concentrada.
-
Concentração crescente: O aumento do HHI tanto nas importações como nas exportações indica um mercado cada vez mais dependente de um número reduzido de parceiros, o que pode constituir um fator de vulnerabilidade face a eventuais perturbações na oferta ou na procura.
Em síntese, o mercado europeu de peles de ovinos encontra-se num processo de consolidação e reorientação geográfica, com uma produção interna em declínio acentuado e uma crescente especialização de determinados Estados-Membros (nomeadamente a Itália e a Espanha) na importação, transformação e reexportação de peles. A sustentabilidade desta estrutura dependerá da capacidade da indústria europeia em manter valor acrescentado num mercado global em contração.