Evolução do mercado: Outros couros (CN 4113) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento dos couros preparados de outros animais (posição aduaneira CN 4113), abrangendo couros de caprinos (411310), suínos (411320), répteis (411330) e de outros animais como antílopes, veados e elefantes (411390). O período em análise estende-se de 2015 a 2025, um intervalo que abrange transformações profundas na indústria curtumeira europeia, marcadas por choques de procura, alterações na cadeia de abastecimento e uma crescente competição global.
A posição 4113 exclui expressamente os couros de bovinos e equinos (4114), concentrando-se num conjunto heterogéneo de peles que serve sobretudo as indústrias de moda de luxo, calçado e artigos de marroquineria. A Itália destaca-se como o epicentro europeu deste mercado, com uma vantagem comparativa revelada (RCA) de 8,28 em 2025 e uma quota de 66,3% na produção comunitária do setor.
Ao longo da década, o mercado registou três dinâmicas centrais: (i) uma contração massiva dos volumes transacionados, compensada parcialmente por uma valorização significativa dos preços; (ii) uma reconfiguração das rotas geográficas de abastecimento e destino; e (iii) um aumento da vulnerabilidade estrutural da UE, com maior concentração das fontes de importação e crescimento da dependência externa.
1. A grande contração de volumes e a ascensão dos preços
O colapso das quantidades importadas e exportadas
A característica mais marcante do período 2015–2025 é a redução dramática dos volumes físicos transacionados. As importações da UE de couros CN 4113 caíram de 15 932 toneladas em 2015 para 3 029 toneladas em 2025 — uma queda de 81,0% em termos de massa líquida. Em área suplementar (m²), a redução foi de 50,68 milhões de m² para 14,13 milhões de m² (−72,1%).
As exportações apresentaram uma trajetória semelhante, embora menos acentuada: de 4 497 toneladas em 2015 para 1 629 toneladas em 2025 (−63,8% em massa; −54,2% em m²).
| Fluxo | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações (t) | 15 932 | 3 029 | −81,0% |
| Importações (milhões €) | 271,6 | 120,6 | −55,6% |
| Importações (milhões m²) | 50,7 | 14,1 | −72,1% |
| Exportações (t) | 4 497 | 1 629 | −63,8% |
| Exportações (milhões €) | 137,3 | 60,4 | −56,0% |
| Exportações (milhões m²) | 7,2 | 3,3 | −54,2% |
| Saldo comercial (milhões €) | −134,3 | −60,2 | +55,1% |
Fonte: Visão geral do comércio CN 4113
A valorização compensatória dos preços unitários
Embora os volumes tenham colapsado, os preços unitários por tonelada registaram subidas notáveis, sinalizando uma transição para produtos de maior valor acrescentado ou, alternativamente, a erosão da oferta global que empurrou os preços para cima.
Os preços médios de importação passaram de 17 048 €/t em 2015 para 39 819 €/t em 2025, uma subida de 133,6%. Os preços de exportação também aumentaram, mas de forma mais moderada — de 30 538 €/t para 37 079 €/t (+21,4%). Esta divergência sugere que a UE está a importar couros a preços crescentemente elevados, o que pressiona a margem dos transformadores europeus.
| Indicador de preço | 2015 (€/t) | 2025 (€/t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Preço médio de importação | 17 048 | 39 819 | +133,6% |
| Preço médio de exportação | 30 538 | 37 079 | +21,4% |
| Preço suplementar importação (€/m²) | 5,36 | 8,54 | +59,3% |
| Preço suplementar exportação (€/m²) | 19,19 | 18,43 | −4,0% |
A segmentação por tipo de animal: répteis e «outros» dominam em valor
A análise por subposição revela que as dinâmicas de preço diferem radicalmente entre os segmentos:
- Couros de répteis (411330) apresentam preços médios de importação que atingiram 2,86 milhões de €/t em 2024, refletindo o carácter de nicho de luxo deste segmento. Apesar de representarem apenas 21 toneladas importadas em 2025, geraram 51,9 milhões de euros em valor — 43,0% do total importado.
- Couros de caprinos (411310) mantiveram-se como o segmento de maior volume em importação (1 412 t em 2025), com preços relativamente estáveis na ordem dos 21 224–22 529 €/t.
- Couros de suínos (411320) sofreram a maior contração em volume (de 11 374 t para 1 498 t, −86,8%), embora os seus preços se tenham mantido na faixa dos 12 909–13 965 €/t.
- Couros de outros animais (411390) registaram a subida de preço mais espetacular: de 35 309 €/t em 2015 para 180 612 €/t em 2025 (+411,5%), refletindo a crescente escassez e o carácter exótico destes materiais.
| Subposição | Descrição | Imp. 2025 (t) | Imp. 2025 (mil. €) | Preço 2025 (€/t) |
|---|---|---|---|---|
| 411310 | De caprinos | 1 412 | 31,8 | 22 529 |
| 411320 | De suínos | 1 498 | 19,3 | 12 909 |
| 411330 | De répteis | 21 | 51,9 | 2 419 670 |
| 411390 | De outros animais | 97 | 17,6 | 180 612 |
A produção interna europeia em queda livre
A produção comunitária de couros CN 4113 sofreu um colapso ainda mais pronunciado do que o comércio externo. A quantidade produzida desceu de 278,9 milhões de kg em 2015 para 20,4 milhões de kg em 2025 (−92,7%), enquanto o valor de produção caiu de 1 555 milhões de euros para 311 milhões de euros (−80,0%). Este descalabro produtivo — potencialmente ligado ao encerramento de curtumes, à deslocalização para países terceiros e a restregulações ambientais — explica em grande parte a crescente dependência externa da UE e a subida dos preços de importação.
2. Reconfiguração geográfica das rotas comerciais
Os fornecedores asiáticos perdem peso, mas a Tailândia resiste
O mapa das principais origens de importação sofreu uma transformação significativa:
| Parceiro | Importações 2015 (mil. €) | Importações 2025 (mil. €) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Índia | 50,5 | 17,8 | −64,8% |
| Tailândia | 40,4 | 10,6 | −73,9% |
| Paquistão | 32,3 | 7,5 | −76,6% |
| China | 36,4 | 2,9 | −92,0% |
| Taiwan | 20,1 | 0,8 | −95,8% |
| Nigéria | 14,8 | 7,0 | −52,5% |
| Camboja | 0,02 | 5,2 | +21 215% |
A China registou a contração mais espetacular (−92,0%), com as importações a passarem de 36,4 milhões de euros para apenas 2,9 milhões. Taiwan sofreu uma redução semelhante (−95,8%). Estas quedas refletem provavelmente a reorientação das cadeias de valor asiáticas e o aumento dos custos de produção na China.
Destaca-se o crescimento exponencial das importações originárias do Camboja — de 24 504 euros em 2015 para 5,2 milhões de euros em 2025 —, sugerindo a emergência de novos centros de curtimento no Sudeste Asiático. A Nigéria manteve-se como fornecedor relevante para o segmento de couros exóticos, embora com uma redução de 52,5%.
Destinos de exportação: os Balcãs perdem centralidade
Do lado das exportações, os principais destinos foram:
| Parceiro | Exportações 2015 (mil. €) | Exportações 2025 (mil. €) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Albânia | 14,7 | 5,2 | −64,6% |
| Bósnia e Herzegovina | 12,5 | 4,4 | −64,9% |
| Marrocos | 8,1 | 5,7 | −29,2% |
| Tunísia | 7,3 | 3,8 | −48,0% |
| China | 8,9 | 4,9 | −44,7% |
| Vietname | 6,6 | 4,8 | −27,5% |
| Turquia | 5,3 | 2,1 | −60,9% |
Os países dos Balcãs Ocidentais (Albânia, Bósnia e Herzegovina) registaram quedas acentuadas, refletindo possivelmente a maturação dos seus próprios setores curtumeiros ou a concorrência de outras origens. Os parceiros do Magrebe (Marrocos e Tunísia) mantiveram-se como mercados de destino relevantes, embora em trajetória descendente. Marrocos (-29,2%) e Vietname (-27,5%) foram os destinos que melhor resistiram à contração.
A concentração geográfica das importações aumenta
O índice de concentração HHI para as importações subiu significativamente ao longo do período:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| HHI importações (valor) | 1 087 | 1 859 | +71,1% |
| HHI exportações (valor) | 647 | 728 | +12,6% |
O HHI das importações atingiu o máximo de 1 961 em 2024, aproximando-se do limiar de 2 500 que marca um mercado altamente concentrado. A saída de fornecedores como China e Taiwan, combinada com a persistência de parceiros como a Tailândia, a Índia e o Camboja, concentrou a base de abastecimento num número reduzido de origens.
A Itália como epicentro europeu do comércio de couros 4113
A análise por Estado-Membro confirma a centralidade absoluta da Itália no setor:
| Estado-Membro | Imp. 2015 (mil. €) | Imp. 2025 (mil. €) | Var. (%) | Exp. 2015 (mil. €) | Exp. 2025 (mil. €) | Var. (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Itália | 117,4 | 26,1 | −77,7% | 75,3 | 29,8 | −60,4% |
| Espanha | 57,3 | 16,5 | −71,1% | 18,2 | 10,8 | −40,5% |
| França | 38,0 | 53,2 | +40,1% | 13,8 | 9,5 | −31,4% |
| Alemanha | 28,5 | 10,1 | −64,3% | 10,5 | 2,7 | −74,5% |
| Portugal | 9,2 | 6,1 | −33,9% | — | — | — |
A Itália perdeu 77,7% do valor das suas importações, mas manteve uma vantagem comparativa revelada (RCA) de 8,28, confirmando a sua especialização estrutural. A Finlândia (RCA 2,70) e a Espanha (RCA 2,34) são os outros dois Estados-Membros com vantagem comparativa positiva.
Em contraste, a França é o único grande Estado-Membro a registar um crescimento das importações (+40,1%), passando de 38,0 milhões para 53,2 milhões de euros, ultrapassando a Espanha e a Alemanha em 2025. Esta evolução pode refletir o crescimento da procura da indústria de luxo francesa, nomeadamente no segmento de couros exóticos.
3. Vulnerabilidade crescente e volatilidade dos mercados de abastecimento
A dependência externa da UE acentua-se
Apesar da contração dos volumes absolutos, a dependência líquida de importações da UE aumentou ao longo do período:
| Indicador de vulnerabilidade | 2015 | 2025 | Variação (%) | Máximo |
|---|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações (%) | 13,9% | 17,9% | +29,1% | 26,0% (2020) |
| Intensidade comercial (%) | 23,3% | 51,0% | +118,6% | 55,2% |
| Propensão para exportar (%) | 6,2% | 27,0% | +335,5% | 27,7% |
A dependência líquida de importações atingiu o pico de 26,0% em 2020 — provavelmente no contexto da pandemia COVID-19 e da quebra simultânea da produção interna — antes de estabilizar em torno dos 18% em 2025.
A intensidade comercial mais do que duplicou (de 23,3% para 51,0%), indicando que o setor dos couros 4113 se tornou significativamente mais internacionalizado. Simultaneamente, a propensão para exportar cresceu de 6,2% para 27,0% (+335,5%), sugerindo que uma fatia crescente da produção europeia (ou do couro importado e transformado) se destina a mercados externos.
Volatilidade dos fornecedores: China e Taiwan como pontos de instabilidade
A análise de volatilidade — medida pelo coeficiente de variação (CV) das importações por parceiro — revela padrões distintos:
| Parceiro (importações) | CV |
|---|---|
| China | 1,45 |
| Taiwan | 1,11 |
| Turquia | 1,11 |
| Etiópia | 0,93 |
| Tailândia | 0,64 |
| Camboja | 0,69 |
| Paquistão | 0,61 |
| Nigéria | 0,59 |
| Parceiro (exportações) | CV |
|---|---|
| Israel | 0,98 |
| Turquia | 0,94 |
| Hong Kong | 0,81 |
| Índia | 0,71 |
| Sérvia | 0,64 |
| China | 0,56 |
| Albânia | 0,53 |
| Marrocos | 0,20 |
A China (CV = 1,45) e Taiwan (CV = 1,11) apresentam a maior instabilidade no fornecimento, coerente com as quedas abruptas registadas. Do lado das exportações, os mercados mais estáveis foram Marrocos (CV = 0,20) e Bielorrússia (CV = 0,28), enquanto Israel (CV = 0,98) e Turquia (CV = 0,94) se revelaram mais imprevisíveis.
Choques de preço detectados: Turquia e Tailândia
O sistema de deteção de choques identificou três eventos significativos:
| Evento | Fluxo | Tipo | Ano | Desvio (%) | Participação no valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Turquia — choque de preço nas exportações | Exportações | Preço | 2023 | +224,0% | 6,1% |
| Tailândia — choque de preço nas importações | Importações | Preço | 2017 | +57,1% | 29,7% |
| Tailândia — choque de preço nas exportações | Exportações | Preço | 2023 | +86,3% | 2,5% |
O choque na Tailândia em 2017 (com uma anormalidade de 89,2 e uma subida de preço de 57,1%) é particularmente relevante dado que a Tailândia representava 29,7% do valor total das importações da UE — um fornecedor sistemicamente importante. O choque turco nas exportações em 2023 (+224% no preço) sugere uma desvalorização acentuada da composição dos couros europeus exportados para a Turquia.
O crescimento exponencial do Camboja como novo fornecedor emergente
Um dos desenvolvimentos mais notáveis do período é a ascensão do Camboja como fornecedor de couros para a UE. De um valor residual de 24 504 euros em 2015, as importações do Camboja atingiram 13,8 milhões de euros em 2022 antes de se fixarem em 5,2 milhões em 2025 — um crescimento de 21 215% no período. Esta evolução sugere uma diversificação da base de abastecimento para o Sudeste Asiático, possivelmente em resultado de investimento direto estrangeiro de grupos curtumeiros em países com custos de mão de obra mais reduzidos.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação estrutural profunda do mercado europeu de couros CN 4113. A queda de 81% nos volumes importados e de 93% na produção interna europeia não significou, contudo, o desaparecimento do setor, mas sim a sua reconfiguração em torno de produtos de maior valor unitário — em particular os couros de répteis (com preços médios de importação de 2,4 milhões de €/t em 2025) e de outros animais exóticos (180 612 €/t).
A crescente dependência externa (de 13,9% para 17,9%), a concentração do abastecimento (HHI de importações subindo de 1 087 para 1 859) e a volatilidade de parceiros-chave como a China (CV = 1,45) e Taiwan (CV = 1,11) constituem riscos estruturais para a cadeia de valor europeia. Simultaneamente, o aumento da intensidade comercial (de 23,3% para 51,0%) e da propensão para exportar (de 6,2% para 27,0%) reflete uma integração mais profunda do setor nos mercados globais.
A Itália permanece como o epicentro indiscutível deste mercado na UE, com uma quota de 66,3% na produção e uma RCA de 8,28, mas a perda de 78% do valor das suas importações sugere um reajustamento significativo da sua base de abastecimento. A França, em contrapartida, emerge como o único grande Estado-Membro a registar crescimento das importações (+40,1%), impulsionada pela procura da indústria de luxo.
O surgimento de novos fornecedores como o Camboja e a erosão de parceiros tradicionais como a China e Taiwan apontam para uma reconfiguração geográfica permanente das cadeias de abastecimento. Os decisores políticos e os operadores económicos deverão monitorizar de perto esta concentração crescente e a volatilidade dos fornecedores, dado que o setor — apesar da sua redução dimensional — continua a ser estrategicamente relevante para a indústria europeia de moda e curtumes.