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Evolução do mercado: Couro reconstituído (CN 4115) — 2015–2025

Introdução

O código NC 4115 abrange o couro reconstituído à base de couro ou de fibras de couro (em chapas, folhas ou tiras), bem como aparas, desperdícios, serragem, pó e farinha de couro — produtos que se inserem no capítulo 41 da Nomenclatura Combinada ("Peles, exceto as peles com pelo, e couros"). Trata-se de um setor com relevância estratégica para a indústria europeia do couro, particularmente em países como Itália, Alemanha e Espanha.

O período 2015–2025 foi marcado por transformações estruturais significativas nas trocas da UE com o resto do mundo neste produto. As exportações sofreram uma acentuada contracção em volume, as importações triplicaram em valor, e a paisagem das parcerias comerciais foi profundamente reconfigurada — em grande parte sob o impacto do Brexit e das alterações nas cadeias de abastecimento globais. Este relatório analisa as principais dinâmicas observadas com base nos dados disponíveis.


1. Contracção do volume exportado e valorização crescente do produto europeu

1.1. As exportações perderam mais de metade do volume, mas mantiveram o valor

Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de produtos CN 4115 diminuíram 55,0% em quantidade, passando de 20 528 toneladas para 9 235 toneladas. Apesar deste colapso volumétrico, o valor das exportações recuou apenas 18,4% — de 52,6 M€ para 42,9 M€ — o que reflecte uma subida acentuada dos preços unitários de exportação.

Indicador 2015 2025 Variação
Valor exportações 52,6 M€ 42,9 M€ −18,4%
Quantidade exportações 20 528 t 9 235 t −55,0%
Preço unitário exportação 2 563 €/t 4 647 €/t +81,3%

1.2. O couro reconstituído em chapas sustenta o valor das exportações, enquanto os desperdícios desaparecem

A decomposição por subproduto revela dinâmicas muito distintas. O couro reconstituído em chapas, folhas ou tiras (CN 411510) representou a esmagadora maioria do valor exportado, mantendo-se em torno dos 40 M€ ao longo da década, apesar de a volume ter descido de 14 525 t para 7 496 t (−48,4%). O seu preço unitário de exportação subiu de 2 801 €/t para 5 428 €/t (+93,8%), sinal de uma clara movimentação da oferta europeia para segmentos de maior valor acrescentado.

Em contraste, as exportações de aparas e desperdícios de couro (CN 411520) desabaram de 11,9 M€ para 2,2 M€ (−81,3% em valor) e de 6 002 t para 1 740 t (−71,0% em volume). Esta quebra reflecte provavelmente a crescente valorização interna destes resíduos na UE, onde são cada vez mais reaproveitados na própria produção de couro reconstituído, em vez de serem exportados.

Subproduto Valor 2015 Valor 2025 Variação
CN 411510 — Couro reconstituído em chapas 40,7 M€ 40,7 M€ +0,1%
CN 411520 — Aparas, desperdícios e serragem 11,9 M€ 2,2 M€ −81,3%

1.3. Os preços de exportação acompanharam a inflação dos custos e a especialização ascendente

A subida consistente dos preços de exportação de couro reconstituído em chapas (de 2 801 €/t em 2015 para 5 428 €/t em 2025) é consistente com dois fenómenos conjugados: por um lado, a inflação dos custos das matérias-primas e da energia na Europa; por outro, uma aposta crescente dos produtores europeus em couro reconstituído de maior qualidade e valor, destinado a aplicações na moda, automóvel e decoração, em concorrência directa com o couro natural.


2. Reconfiguração radical das parcerias comerciais: o peso dominante do Reino Unido e a crescente concentração

2.1. O Reino Unido tornou-se simultaneamente o maior destino e a maior origem das trocas

A mudança mais dramática no período foi a ascensão do Reino Unido como parceiro comercial dominante no CN 4115, em ambos os sentidos do comércio. Nas exportações da UE, o Reino Unido passou de 975 K€ (2015) para 16,0 M€ (2025), um crescimento de 1 540,7%. Nas importações, o Reino Unido cresceu de 1,2 M€ para 9,2 M€ (+652,9%), tendo atingido um máximo de 12,0 M€ em 2022.

Estes dados são fortemente influenciados pelo Brexit: a saída do Reino Unido da UE em 2020 fez com que o comércio anteriormente intra-UE passasse a ser registado como comércio extra-UE, gerando um efeito aparente de crescimento que, em grande medida, reflecte uma reclassificação estatística. Todavia, o crescimento verificado em 2021–2025 para além dos níveis anteriores sugere também um reforço real das relações comerciais bilaterais neste sector.

2.2. As exportações tradicionais para a Ásia e África recuaram acentuadamente

Paralelamente ao crescimento do peso do Reino Unido, as exportações da UE para parceiros asiáticos tradicionais sofreram quebras acentuadas:

Parceiro Valor 2015 Valor 2025 Variação
Hong Kong 11,4 M€ 2,8 M€ −75,8%
China 10,0 M€ 3,2 M€ −67,8%
Coreia do Sul 2,6 M€ 579 K€ −77,8%
Nigéria 1,5 M€ 248 K€ −83,4%
Índia 4,5 M€ 4,4 M€ −0,5%

A quebra das exportações para Hong Kong e China sugere uma redução da procura de couro reconstituído europeu por parte das indústrias transformadoras asiáticas, possivelmente devido ao aumento da produção local. A Índia é a excepção notável, tendo mantido um nível estável de importações da UE (~4,4 M€).

2.3. A concentração das trocas intensificou-se, sobretudo nas importações

O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 1 533 para 4 557 (+197,3% em valor), ultrapassando limiares que indicam uma concentração moderada a elevada. Este aumento reflecte o peso crescente do Reino Unido como fornecedor. No caso das exportações, o HHI passou de 1 056 para 1 725 (+63,4%), sinalizando uma maior dependência de poucos mercados de destino.

Indicador 2015 2025 Variação
HHI importações (valor) 1 533 4 557 +197,3%
HHI exportações (valor) 1 056 1 725 +63,4%

2.4. Os maiores importadores intra-UE revelam a persistência dos polos tradicionais do couro

No lado das importações dos Estados-Membros, a Itália (3,0 M€), a Alemanha (2,3 M€) e a Polónia (2,4 M€) lideram, reflectindo a localização das principais indústrias transformadoras de couro na UE. A França registou um crescimento particularmente acentuado (+6 176,8%), passando de 56 K€ para 3,5 M€, o que poderá estar ligado à expansão do sector do luxo e da moda no país.

Do lado das exportações, a Alemanha (11,8 M€) e a Itália (10,1 M€) continuam a ser os maiores exportadores, embora ambos tenham registado quebras significativas. A Roménia destaca-se com um crescimento exponencial (de 69 K€ para 14,5 M€), tornando-se o terceiro maior exportador da UE — um dado sugestivo de uma rápida industrialização do sector coureiro no país.


3. Queda acentuada da produção europeia e riscos emergentes para a autonomia do sector

3.1. A produção europeia de couro reconstituído encolheu 74,5% em volume

Os dados de produção europeia (medida em metros quadrados) revelam uma contracção dramática: de 28,6 Mm² em 2015 para 7,3 Mm² em 2025 (−74,5%). Em valor, a produção desceu de 40,0 M€ para 26,5 M€ (−33,8%), tendo atingido um mínimo de 16,8 M€ em 2022.

Indicador 2015 2025 Variação
Quantidade produzida 28,6 Mm² 7,3 Mm² −74,5%
Valor da produção 40,0 M€ 26,5 M€ −33,8%

A contracção é tanto mais preocupante quanto ocorre num período em que a procura global de alternativas ao couro animal — incluindo couro reconstituído — tem vindo a aumentar. Isto sugere que a UE está a perder quota de mercado para produtores extra-europeus.

3.2. As importações cresceram a um ritmo muito superior ao da procura aparente

O valor das importações da UE de CN 4115 aumentou 193,8% entre 2015 e 2025, passando de 4,8 M€ para 14,1 M€. Em volume, o crescimento foi mais moderado (de 6 845 t para 8 367 t, +22,2%), o que indica que também nos preços de importação se registou uma forte subida (de 702 €/t para 1 688 €/t, +140,3%).

Os principais fornecedores extra-UE, além do Reino Unido, incluem a China (1,8 M€), o Brasil (278 K€), a Turquia (472 K€) e o Marrocos (133 K€). A variação das importações da China (+54,0%) e do México (+4 020,0%) destaca-se, ainda que as importações mexicanas tenham sido muito voláteis (CV de 2,23).

3.3. A dependência líquida de importações atenuou-se, mas a autonomia estrutural está em causa

A UE permanece uma exportadora líquida de couro reconstituído, com um saldo comercial que passou de 47,8 M€ em 2015 para 28,8 M€ em 2025 (−39,8%). A dependência líquida de importações, medida em percentagem, continua fortemente negativa (indicando superavit), mas a sua evolução de −17 837% para −624% evidencia uma convergência rápida entre importações e exportações. A propensão exportadora da UE para este produto é elevada (132,7% em 2025), o que confirma que o sector continua orientado para os mercados externos, mas a dependência crescente de fornecedores terceiros em simultâneo com a contracção produtiva interna constitui um risco potencial para a resiliência da cadeia de valor europeia do couro reconstituído.

3.4. A especialização europeia concentra-se em cinco Estados-Membros, com destaque para Espanha

A análise de especialização (RSCA) revela que, em 2025, a Espanha (RSCA de 0,64, RCA de 4,59) e a Eslovénia (RSCA de 0,50, RCA de 2,97) são os Estados-Membros com maior vantagem comparativa revelada na exportação de couro reconstituído. A Alemanha (RSCA 0,30), a Itália (0,22) e a França (0,19) seguem-se, embora com níveis de especialização mais moderados. Em contraste, países como a Suécia, a Áustria e a Croácia apresentam RSCA próximos de −1,0, indicando uma quase inexistência de actividade exportadora neste produto.


Conclusão

O período 2015–2025 foi marcado por uma profunda transformação do comércio da UE em couro reconstituído (CN 4115). A contracção de 55% no volume exportado, aliada à queda de 74,5% na produção interna em metros quadrados, aponta para uma reestruturação significativa do sector no espaço europeu. Contudo, a estabilidade relativa do valor das exportações de couro reconstituído em chapas (CN 411510), sustentada pela forte subida dos preços unitários, sugere que os produtores europeus que permanecem activos se estão a posicionar no segmento de maior valor acrescentado.

A reconfiguração das parcerias comerciais — com o Reino Unido a tornar-se, em grande medida devido ao Brexit, o principal parceiro em ambos os sentidos do comércio — trouxe uma concentração sem precedentes nas trocas, potenciando riscos de dependência bilateral. A crescente presença de fornecedores extra-UE como China, Brasil e México nas importações, num contexto de contracção da produção europeia, constitui um sinal de alerta para a autonomia estratégica do sector. A manutenção do superavit comercial, embora em erosão, e a vantagem comparativa demonstrada por Espanha, Alemanha e Itália indicam que a UE dispõe ainda de uma base industrial competitiva, mas cuja sustentabilidade a prazo dependerá da capacidade de inovação, da gestão das cadeias de abastecimento e das condições regulatórias e ambientais em vigor.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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