Evolução do mercado: Couro bovino (CN 4107) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para a posição aduaneira 4107 — Couros preparados após curtimenta ou após secagem (crusting) e couros e peles apergaminhados, de bovinos (incluindo os búfalos) ou de equídeos, depilados, mesmo divididos, exceto os da posição 4114 — no período compreendido entre janeiro de 2015 e dezembro de 2025. Este produto abrange subcategorias como couros de plena flor (divididos e não divididos), bem como pedaços, tiras e folhas de couro bovino e equino preparados (Descrição do produto CN 4107).
A década em análise foi marcada por transformações estruturais significativas. O período incluiu o choque da pandemia de COVID-19 (2020), conflitos geopolíticos e sanções comerciais, alterações nos padrões de procura global e uma reconfiguração profunda da cadeia de valor do couro. Os dados revelam uma contração generalizada do comércio, uma reorientação geográfica dos fluxos e uma consolidação da posição da UE como exportador líquido relevante.
1. Contração generalizada: um mercado em recessão estrutural
O declíneo das exportações e importações da UE
O período 2015–2025 foi caracterizado por uma redução acentuada tanto das exportações como das importações da UE em couro bovino preparado. As exportações caíram de 1 992,8 milhões EUR (2015) para 1 463,4 milhões EUR (2025), uma diminuição de 26,6% em valor. Em volume, o declínio foi ainda mais pronunciado: de 93 099 toneladas para 66 054 toneladas (−29,0%). As importações sofreram uma queda ainda mais dramática — de 924,0 milhões EUR para 343,9 milhões EUR (−62,8% em valor) e de 55 252 toneladas para 27 186 toneladas (−50,8% em volume).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (milhões EUR) | 1 992,8 | 1 463,4 | −26,6% |
| Exportações (toneladas) | 93 099 | 66 054 | −29,0% |
| Importações (milhões EUR) | 924,0 | 343,9 | −62,8% |
| Importações (toneladas) | 55 252 | 27 186 | −50,8% |
| Saldo comercial (milhões EUR) | 1 068,8 | 1 119,4 | +4,7% |
Fonte: Visão geral do comércio
A erosão da produção interna da UE
Paralelamente ao declínio comercial, a produção industrial de couro preparado na UE também se reduziu significativamente. A quantidade produzida caiu de 832,4 milhões de kg (2015) para 491,1 milhões de kg (2025), uma queda de 41,0%. O valor da produção reduziu-se de 3 178,4 milhões EUR para 2 767,0 milhões EUR (−12,9%). Esta divergência entre a queda em quantidade (41%) e a queda em valor (12,9%) indica que os produtores europeus tenderam a migrar para segmentos de maior valor acrescentado, abandonando produtos de menor margem.
Fonte: Volumes de produção
Preços estáveis apesar da contração
Um dado notável é a relativa estabilidade dos preços médios de exportação, que se mantiveram entre 20 105 EUR/t e 22 839 EUR/t ao longo do período, fechando em 2025 em 22 154 EUR/t (+3,5% face a 2015). Os preços de importação, por seu lado, desceram de 16 724 EUR/t para 12 651 EUR/t (−24,4%), sugerindo que os fornecedores externos reduziram preços para compensar a menor procura europeia ou que o mix de produtos importados se deslocou para categorias de menor valor unitário.
2. Reconfiguração geográfica: novos parceiros e concentrações divergentes
A crescente importância da Ásia como destino das exportações europeias
Os destinos das exportações da UE sofreram uma reconfiguração marcante. Hong Kong, que em 2015 era o maior destino individual (324,8 milhões EUR), registou uma queda de 80,1%, caindo para apenas 64,8 milhões EUR em 2025. A China também registou uma redução significativa (de 199,4 para 86,2 milhões EUR; −56,8%). Em contraste, Vietname tornou-se num parceiro cada vez mais relevante: as exportações cresceram de 130,4 para 149,1 milhões EUR (+14,4%), refletindo o deslocamento da indústria de curtumes e calçado para o Sudeste Asiático.
| Parceiro (exportações) | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Hong Kong | 324,8 | 64,8 | −80,1% |
| China | 199,4 | 86,2 | −56,8% |
| Vietname | 130,4 | 149,1 | +14,4% |
| Estados Unidos | 222,2 | 139,0 | −37,5% |
| Tunísia | 141,7 | 140,5 | −0,9% |
| Índia | 74,5 | 60,0 | −19,5% |
| Ucrânia | 72,4 | 58,1 | −19,8% |
Fonte: Principais parceiros por valor
O colapso das importações da Rússia e a consolidação da Turquia
Do lado das importações, a Rússia registou uma queda total: de 64,9 milhões EUR em 2015 para apenas 7 492 EUR em 2025 (−100,0%), refletindo as sanções comerciais impostas após 2022. Em contraste, a Turquia foi o único fornecedor a registar crescimento substancial (+47,4%, de 25,3 para 37,3 milhões EUR), consolidando-se como fornecedor alternativo. Os maiores fornecedores tradicionais — Brasil (−63,1%), Índia (−64,8%) e Paquistão (−62,5%) — registaram quedas acentuadas.
| Parceiro (importações) | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Brasil | 240,3 | 88,8 | −63,1% |
| Índia | 139,9 | 49,2 | −64,8% |
| Reino Unido | 76,8 | 22,0 | −71,3% |
| Paquistão | 59,1 | 22,2 | −62,5% |
| Rússia | 64,9 | 0,007 | −100,0% |
| Turquia | 25,3 | 37,3 | +47,4% |
| África do Sul | 21,0 | 25,4 | +20,5% |
A Itália como epicentro do comércio europeu
A análise por Estados-Membros revela uma concentração extrema na Itália, que em 2015 respondia por 71,1% das exportações da UE (1 416,2 milhões EUR de um total de 1 992,8 milhões EUR) e por 40,7% das importações (375,6 milhões EUR de 924,0 milhões EUR). Em 2025, a Itália manteve a sua predominância, representando 71,8% das exportações (1 051,2 milhões EUR) e 40,1% das importações (137,9 milhões EUR). Esta concentração reflete a tradição italiana nos distritos curtumeiros (como Arzignano e Santa Croce sull'Arno) e a sua posição central nas cadeias de valor da moda de luxo.
| Estado-Membro (exportações) | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Itália | 1 416,2 | 1 051,2 | −25,8% |
| Alemanha | 147,3 | 72,9 | −50,5% |
| Polónia | 58,5 | 64,0 | +9,4% |
| França | 89,3 | 62,3 | −30,3% |
| Espanha | 77,9 | 62,5 | −19,7% |
| Áustria | 53,8 | 23,2 | −56,8% |
| Portugal | 14,1 | 33,1 | +135,3% |
Fonte: Principais Estados-Membros por valor
É de notar o crescimento expressivo de Portugal (+135,3%), que mais do que duplicou as suas exportações de couro preparado, e de Polónia (+9,4%), refletindo a crescente competitividade destes países em segmentos específicos.
Concentração crescente nas importações, diversificação nas exportações
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) revela uma evolução assimétrica: a concentração das importações por valor subiu de 1 165 para 1 202 (+3,2%), enquanto a das exportações desceu de 735 para 575 (−21,7%). Em termos de volume, a concentração das importações disparou de 1 420 para 2 111 (+48,7%), sinal de uma crescente dependência de poucos fornecedores. A especialização mais marcante encontra-se na Itália (RSCA de 0,752; RCA de 7,06), seguida da Croácia (RSCA 0,502) e Áustria (RSCA 0,370).
Fonte: Concentração HHI · Especialização
3. Vulnerabilidade, volatilidade e segmentação do produto
Da dependência líquida à autonomia exportadora
Uma das transformações mais significativas do período foi a mudança no grau de dependência das importações da UE. O indicador de dependência líquida de importações (net import reliance) passou de −1,5% em 2015 para −45,3% em 2025. Valores negativos indicam que a UE é exportador líquido — ou seja, as suas exportações excedem significativamente as importações. A evolução de −1,5% para −45,3% significa que a UE deixou de estar em equilíbrio comercial para se tornar fortemente exportadora, consolidando a sua posição como fornecedor global de couro preparado de alta qualidade.
Fonte: Dependência líquida de importações
A intensidade comercial (trade intensity) manteve-se elevada mas desceu ligeiramente de 78,4% para 72,2%, sugerindo que o setor continua profundamente integrado no comércio internacional, embora com um ligeiro recuo. A propensão para exportar (export propensity) manteve-se estável em torno de 63–65%.
Fonte: Intensidade comercial · Propensão para exportar
Volatilidade assimétrica e eventos de choque
A análise da volatilidade (coeficiente de variação, CV) revela diferenças acentuadas entre parceiros comerciais. Nas importações, os fornecedores com maior volatilidade incluem o Egito (CV = 0,835), a Rússia (CV = 0,575), o Uruguai (CV = 0,619) e o Reino Unido (CV = 0,534) — este último refletindo o efeito do Brexit. Os fornecedores mais estáveis foram o Brasil (CV = 0,175) e a Índia (CV = 0,198).
Nas exportações, destaca-se a elevada volatilidade das vendas para Hong Kong (CV = 0,711), refletindo a forte contração registada, enquanto os mercados mais estáveis foram a Albânia (CV = 0,105), a Índia (CV = 0,142) e o Marrocos (CV = 0,111).
Fonte: Volatilidade
Foram detetados choques de preços significativos em 2022, afetando particularmente as exportações para:
| Destino | Tipo | Anomalia | Variação | Participação no valor |
|---|---|---|---|---|
| Vietname | Preço | 12,7 | +22,9% | 10,0% |
| México | Preço | 5,8 | +12,1% | 2,8% |
| Albânia | Preço | 5,7 | +8,6% | 5,0% |
Estes choques de 2022 coincidem com a escalada da guerra na Ucrânia, perturbações nas cadeias de abastecimento e a forte inflação nos custos de energia e matérias-primas que afetou o setor curtumeiro europeu.
Fonte: Eventos de choque
Dinâmica segmentar: couro dividido com lado flor domina
A análise por subcategoria do CN 4107 revela que o segmento 410712 ("Divididos, com o lado flor" — couros inteiros) é de longe o mais relevante tanto em importações como em exportações. Em 2025, as importações do subsegmento 410712 atingiram 16 792 toneladas (61,8% do total) e 173,1 milhões EUR (50,3% do valor). Nas exportações, este subsegmento representou 29 660 toneladas (44,9% do volume) e 746,6 milhões EUR (51,0% do valor).
| Subsegmento | Descrição | Importações 2025 (t) | Exportações 2025 (t) |
|---|---|---|---|
| 410712 | Divididos, com o lado flor (inteiros) | 16 792 | 29 660 |
| 410792 | Divididos, com o lado flor (pedaços) | 4 790 | 14 790 |
| 410799 | Outros couros bovinos/equinos (pedaços) | 1 984 | 10 763 |
| 410711 | Plena flor, não divididos (inteiros) | 1 246 | 2 089 |
| 410719 | Outros couros bovinos/equinos (inteiros) | 1 496 | 5 920 |
| 410791 | Plena flor, não divididos (pedaços) | 878 | 2 831 |
Fonte: Segmentação do produto
É particularmente relevante notar a evolução do subsegmento 410791 (plena flor, não divididos, em pedaços): as importações caíram de 4 755 toneladas para 878 toneladas (−81,5%), refletindo uma retração severa neste nicho de mercado. Por outro lado, as importações de 410799 (outros couros em pedaços) apresentaram uma forte subida de preço médio de importação — de 13 701 EUR/t em 2015 para 19 447 EUR/t em 2025 (+41,9%) — sugerindo uma deslocação para produtos de maior qualidade ou valor acrescentado.
Conclusão
O mercado europeu de couro bovino preparado (CN 4107) atravessou, entre 2015 e 2025, uma profunda reconfiguração que pode ser sintetizada em três tendências principais:
-
Contração estrutural do comércio: Tanto as exportações como as importações registaram quedas significativas, acompanhadas por uma redução de 41% na produção interna da UE. Esta evolução reflete simultaneamente a pressão da concorrência global (especialmente asiática), mudanças nos padrões de consumo (com o crescimento dos materiais sintéticos e alternativas sustentáveis) e o impacto de choques exógenos como a pandemia e a guerra na Ucrânia.
-
Consolidação da UE como exportador líquido: A dependência líquida de importações passou de −1,5% para −45,3%, revelando que, apesar da contração global, a UE reforçou a sua vantagem competitiva na produção de couro de elevada qualidade, mantendo preços de exportação estáveis (≈22 000 EUR/t) enquanto os preços de importação desciam.
-
Reconfiguração geográfica e concentração: Os fluxos comerciais sofreram uma redistribuição marcante: o Vietname substituiu parcialmente a China e Hong Kong como destino das exportações europeias; a Rússia desapareceu como fornecedor; a Turquia emergiu como parceiro crescente; e a Itália consolidou a sua posição como epicentro indiscutível da indústria curtumeira europeia, respondendo por mais de 70% das exportações da UE.
A resiliência dos preços de exportação, apesar da queda dos volumes, sugere que a indústria europeia se está a reposicionar em segmentos de maior valor acrescentado, uma estratégia crucial para a sustentabilidade do setor num contexto de concorrência global crescente e de pressões ambientais cada vez mais intensas.