Evolução do mercado: Couros em bruto (CN 4101) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no segmento de couros e peles em bruto de bovinos (incluindo búfalos) e equídeos, classificados pela posição aduaneira CN 4101, no período entre 2015 e 2025. Este produto abrange peles frescas, salgadas, secas ou conservadas por outros meios, que ainda não foram curtidas nem preparadas, englobando peles inteiras de diferentes pesos e retalhos. A análise baseia-se exclusivamente nos dados estatísticos disponíveis, procurando identificar as dinâmicas estruturais e conjunturais que moldaram este mercado ao longo da última década.
1. Colapso de preços exportados face à manutenção de volumes: uma década de desvalorização
A evolução do comércio externo da UE em couros em bruto é marcada, em primeiro lugar, por uma divergência pronunciada entre a evolução dos volumes exportados e a evolução dos seus valores em euros.
1.1. Exportações: volumes estáveis ou crescentes, valores em queda acentuada
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de couros em bruto registaram uma evolução paradoxal: enquanto as quantidades exportadas cresceram 10,0% (de 248 846 t para 273 855 t), o valor total caiu 52,5% (de €453,4 milhões para €215,3 milhões). O preço médio unitário de exportação desceu de €1 822/t para €786/t, uma queda de 56,9%.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor das exportações (€) | 453 378 198 | 215 267 263 | −52,5% |
| Quantidade exportada (t) | 248 846 | 273 855 | +10,0% |
| Preço médio exportação (€/t) | 1 822 | 786 | −56,9% |
1.2. O segmento de peles inteiras pesadas (410150) como motor da evolução
O subproduto mais relevante em volume é o código 410150 — couros e peles em bruto, inteiros, de peso unitário superior a 16 kg — que representa a esmagadora maioria das exportações. Em 2015, este segmento totalizava 158 573 t com um valor de €334,3 milhões e um preço médio de €2 108/t. Em 2025, as quantidades atingiram 197 739 t, mas o valor caiu para €158,3 milhões, a um preço médio de apenas €801/t. Trata-se, portanto, de uma redução de 62% no preço unitário, indicando uma erosão estrutural do valor acrescentado das exportações europeias.
1.3. Queda simétrica mas mais moderada nos preços de importação
Do lado das importações, a dinâmica de preços é semelhante, embora com intensidade ligeiramente inferior. O preço médio de importação desceu de €2 445/t para €1 412/t (−42,2%), mantendo-se historicamente superior ao preço de exportação. Este diferencial de preços sugere que a UE importa couros de maior valor unitário (possivelmente de origens com classificações de qualidade mais diferenciadas) e exporta sobretudo couros de valor mais acessível.
2. Da dependência líquida à posição exportadora: a transformação estrutural da balança comercial
A segunda grande dinâmica identificada nos dados é a inversão da posição comercial da UE, que passou de importadora líquida a exportadora líquida de couros em bruto ao longo do período analisado.
2.1. Inversão da dependência líquida de importações
O indicador de dependência líquida de importações ilustra de forma clara esta transformação. Em 2015, a UE apresentava uma dependência de 22,4%, significando que importava significativamente mais do que exportava. Em 2025, este indicador situou-se em −16,2%, indicando que a UE é agora uma exportadora líquida. A inversão ocorreu de forma gradual, com a dependência a atingir o seu valor mínimo em 2020 (−24,0%), coincidindo com o choque da pandemia de COVID-19.
| Período | Dependência líquida (%) | Saldo comercial (€) |
|---|---|---|
| 2015 | +22,4% | +66 286 918 |
| 2020 | −24,0% | −87 550 545 |
| 2025 | −16,2% | +59 544 403 |
2.2. Crescimento da propensão exportadora
Paralelamente, a propensão exportadora da UE neste produto cresceu de forma significativa, passando de 24,3% em 2015 para 37,5% em 2025, um aumento de 54,6%. Este indicador mede a razão entre as exportações e a produção, sugerindo que uma fatia crescente da produção europeia de couros em bruto é destinada a mercados externos. A intensidade comercial global manteve-se relativamente estável em torno de 50%, o que indica que a abertura comercial do setor não se alterou drasticamente — o que mudou foi a direção do fluxo comercial predominante.
2.3. Produção europeia: crescimento em unidades, contração em valor
Os dados de produção europeia revelam uma evolução igualmente reveladora: em termos de unidades produzidas, a produção cresceu 62,6% (de 105,5 milhões de peças para 171,6 milhões), mas o valor da produção caiu 20,7% (de €856,3 milhões para €679,2 milhões). Esta combinação de mais unidades a um valor total inferior confirma a desvalorização generalizada do produto, tanto nos mercados domésticos como externos.
3. Reconfiguração das parcerias comerciais e concentração crescente dos mercados
A terceira dinâmica central prende-se com a reconfiguração geográfica das relações comerciais da UE e o aumento da concentração dos mercados de exportação.
3.1. A China como destino dominante das exportações
A China manteve-se ao longo de todo o período como o principal destino das exportações europeias de couros em bruto. Em 2015, as exportações para a China representavam €287,9 milhões (63,5% do total das exportações para países terceiros). Em 2025, apesar de uma redução para €155,0 milhões (−46,2%), a China continua a ser de longe o parceiro dominante. Esta concentração é refletida no índice HHI de concentração das exportações, que subiu de 4 202 para 5 318 (+26,5%), confirmando um aumento da dependência de um número reduzido de mercados de destino.
3.2. Reconfiguração dos fornecedores: colapso das importações do Reino Unido e dos Balcãs
Do lado das importações, assistiu-se a uma profunda reconfiguração das fontes de abastecimento. O Reino Unido, o maior fornecedor em 2015 (€87,9 milhões), reduziu as suas exportações para a UE em 68,0%, atingindo apenas €28,1 milhões em 2025. A Bósnia e Herzegovina registou uma queda ainda mais pronunciada (−84,9%), passando de €46,3 milhões para €7,0 milhões. Os Estados Unidos, Sérvia e Canadá seguiram trajetórias semelhantes de contração.
| Fornecedor | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 87 928 882 | 28 133 059 | −68,0% |
| Bósnia e Herzegovina | 46 295 532 | 7 004 082 | −84,9% |
| EUA | 39 322 403 | 9 826 450 | −75,0% |
| Sérvia | 23 767 026 | 6 410 586 | −73,0% |
| Suíça | 58 858 812 | 37 153 526 | −36,9% |
| Noruega | 26 404 833 | 19 715 502 | −25,3% |
| Canadá | 15 531 423 | 9 213 639 | −40,7% |
O índice HHI das importações cresceu ligeiramente (de 1 162 para 1 331 em valor), indicando uma maior concentração das fontes de abastecimento, embora em grau muito inferior ao observado nas exportações.
3.3. Itália como epicentro do consumo europeu e papel crescente de Croácia e França na especialização
Os dados por Estado-Membro revelam que a Itália é o principal importador e o terceiro maior exportador da UE em couros em bruto, refletindo o papel central da indústria curtumeira italiana no processamento de couros. No entanto, em termos de especialização comparativa revelada, é a Croácia (RSCA de 0,70) e a França (RSCA de 0,40) que apresentam os maiores índices de especialização, sugerindo uma concentração produtiva em países com tradições pecuárias e curtumeiras específicas. Pelo contrário, países como a Estónia, a Chéquia e a Grécia apresentam índices negativos, confirmando a sua posição periférica neste segmento.
3.4. Volatilidade dos parceiros: Argentina e África do Sul como fontes instáveis
A análise da volatilidade das trocas revela que, no lado das importações, os fornecedores mais instáveis são a Argentina (coeficiente de variação de 0,94) e a África do Sul (0,95), o que reflete a natureza cíclica e volátil destas economias de gado extensivo. Do lado das exportações, destaca-se a elevada volatilidade nas relações com o Reino Unido (CV de 0,77) e a Turquia (CV de 0,73), possivelmente associada ao Brexit no primeiro caso e a flutuações cambiais no segundo. Em 2022, detetaram-se choques de preços significativos nas importações do Canadá (aumento de preço de 58,2%) e nas exportações para a Sérvia (aumento de 49,9%), possivelmente relacionados com os desequilíbrios comerciais pós-pandemia e o conflito na Ucrânia.
Conclusão
O mercado europeu de couros em bruto (CN 4101) entre 2015 e 2025 caracterizou-se por três dinâmicas interligadas: (i) uma erosão acentuada dos preços, que reduziu pela metade o valor das exportações apesar da manutenção dos volumes; (ii) uma inversão estrutural da posição comercial da UE, que passou de importadora líquida a exportadora líquida, impulsionada pelo crescimento da propensão exportadora; e (iii) uma concentração crescente dos mercados, com a China a consolidar a sua posição como destino dominante das exportações europeias, e uma redução significativa das fontes tradicionais de importação. Estas tendências refletem, em larga medida, transformações mais profundas na indústria global de curtumes — nomeadamente a deslocalização do processamento para a Ásia e a compressão dos margens num contexto de excesso de oferta global — que afetam de forma particularmente pronunciada os produtores europeus de matérias-primas em bruto.