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Evolução do mercado: Couro de ovinos (CN 4112) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no segmento de couros preparados de ovinos (posição aduaneira CN 4112), abrangendo o período de 2015 a 2025. Trata-se de uma matéria-prima fundamental para a indústria de moda, calçado e artigos de couro, com fortes tradições produtivas no Sul da Europa. A análise baseia-se exclusivamente nos dados estatísticos disponíveis, revelando um período marcado por contração generalizada do comércio, reconfiguração das cadeias de abastecimento e crescentes pressões competitivas externas.


1. Contração estrutural do comércio: um setor em retração acentuada

O comércio externo da UE sofreu um declínio profundo e persistente ao longo da década

Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de couro de ovinos registaram uma queda de 61,1% em valor (de €140,6 milhões para €54,8 milhões) e de 46,1% em volume (de 2.285 toneladas para 1.232 toneladas). As importações também contraíram significativamente, embora de forma menos acentuada: -42,3% em valor (de €68,5 milhões para €39,5 milhões) e -12,2% em volume (de 1.408 toneladas para 1.235 toneladas).

Indicador 2015 2025 Variação (%)
Exportações — valor (€) 140.595.215 54.751.115 -61,1%
Exportações — volume (t) 2.285 1.232 -46,1%
Importações — valor (€) 68.484.890 39.533.449 -42,3%
Importações — volume (t) 1.408 1.235 -12,2%
Saldo comercial (€) 72.110.326 15.217.666 -78,9%

Fonte: Visão geral do comércio

A produção industrial europeia acompanhou a tendência de contração

Os dados de produção industrial (unidade suplementar: m²) revelam uma redução de 41,3% no volume (de 30,7 milhões de m² para 18,0 milhões de m²) e de 54,2% em valor (de €664 milhões para €304 milhões) ao longo do período analisado. Este declínio produtivo reflete a deslocalização da indústria transformadora de couro e a crescente concorrência de países terceiros com custos de mão de obra inferiores.

Indicador de produção 2015 2025 Variação (%)
Volume (milhões m²) 30,7 18,0 -41,3%
Valor (€ milhões) 664 304 -54,2%

Fonte: Volumes de produção

Os preços unitários sofreram erosão significativa em ambos os flancos do comércio

O preço médio de exportação desceu de €61.514/t para €44.452/t (-27,7%), enquanto o preço médio de importação caiu de €48.651/t para €32.001/t (-34,2%). Esta compressão de margens sugere um enfraquecimento da procura global e a pressão exercida por fornecedores de baixo custo, sobretudo do Sul da Ásia e África Subsariana.


2. Reconfiguração das parcerias comerciais: novos equilíbrios na origem e no destino

Os fornecedores tradicionais perderam terreno perante novos concorrentes

O panorama dos principais parceiros de importação da UE sofreu uma profunda transformação. A Turquia, maior fornecedor em 2015 (€24,0 milhões), registou uma queda de 45,7% até 2025 (€13,0 milhões). A Etiópia, que em 2015 representava €9,7 milhões em compras da UE, praticamente desapareceu do mapa comercial (-99,2%, para apenas €73 mil). O Marrocos seguiu uma trajetória semelhante (-74,2%).

Em contrapartida, verificou-se o surgimento de novos polos de abastecimento:

Fornecedor Valor importações 2015 (€) Valor importações 2025 (€) Variação (%)
Turquia 24.001.671 13.027.977 -45,7%
Índia 8.784.958 9.947.609 +13,2%
Etiópia 9.740.865 73.244 -99,2%
Paquistão 1.962.531 4.316.688 +120,0%
China 3.286.941 5.327.914 +62,1%
Nigéria 4.348.375 3.957.930 -9,0%
Marrocos 3.447.192 890.599 -74,2%

Fonte: Principais parceiros

O Paquistão (+120%) e a China (+62,1%) destacam-se como os fornecedores de maior crescimento relativo, compensando parcialmente a perda dos fornecedores africanos e turcos.

Os mercados de destino das exportações da UE sofreram uma retração particularmente severa na Ásia

As exportações da UE para a Coreia do Sul e Hong Kong — dois dos maiores mercados em 2015 — registaram quedas devastadoras: -77,1% (de €36,1 milhões para €8,3 milhões) e -95,7% (de €29,5 milhões para €1,3 milhões), respetivamente. A China manteve-se como destino relevante mas com redução de 28,9%, enquanto os Estados Unidos recuaram 72,0%.

Destino Valor exportações 2015 (€) Valor exportações 2025 (€) Variação (%)
Coreia do Sul 36.098.065 8.254.471 -77,1%
Hong Kong 29.540.105 1.276.924 -95,7%
China 14.110.804 10.038.082 -28,9%
EUA 10.427.559 2.923.620 -72,0%
Turquia 7.903.606 3.859.600 -51,2%
Bósnia e Herzegovina 5.559.194 2.034.609 -63,4%
Marrocos 3.338.281 2.228.575 -33,2%

Fonte: Principais parceiros

A concentração do comércio evoluiu em direções opostas para importações e exportações

O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 1.758 para 2.129 (+21,1% em valor), indicando uma crescente dependência de um número mais reduzido de fornecedores. Em contrapartida, o HHI das exportações desceu de 1.346 para 889 (-33,9%), sugerindo uma diversificação dos mercados de destino face à perda dos grandes compradores asiáticos. Esta divergência é relevante do ponto de vista estratégico: enquanto a UE procura novos fornecedores, a sua base de clientes tornou-se simultaneamente mais fragmentada e menos concentrada.

Indicador HHI 2015 2025 Variação (%)
Importações (valor) 1.758 2.129 +21,1%
Importações (volume) 1.347 1.937 +43,8%
Exportações (valor) 1.346 889 -33,9%
Exportações (volume) 1.167 1.570 +34,6%

Fonte: Concentração HHI


3. Dinâmica interna da UE: especialização geográfica, choques e vulnerabilidade

A produção e o comércio de couro de ovinos estão concentrados no Sul da Europa

Os dados de especialização revelam uma acentuada concentração geográfica. Em 2025, Portugal apresenta o RSCA mais elevado (0,838), com uma vantagem comparativa revelada (RCA) de 11,36 — a mais forte de todos os Estados-Membros. Espanha (RCA 5,22) e Itália (RCA 3,75) seguem-se como potências especializadas, enquanto países como Polónia, Chéquia e Bélgica são praticamente inexistentes neste setor.

Estado-Membro RCA RSCA Quota produção (%)
Portugal 11,36 0,838 15,7%
Espanha 5,22 0,679 30,3%
Itália 3,75 0,579 30,0%
França 2,73 0,465 21,4%
Grécia 0,92 -0,041 0,6%

Fonte: Especialização

A Itália permanece o epicentro do setor, mas com perdas significativas

A Itália é, de longe, o maior importador e exportador da UE em couro de ovinos. No entanto, as suas importações caíram 48,1% (de €41,2 milhões para €21,4 milhões) e as exportações 65,0% (de €102,2 milhões para €35,7 milhões). A Espanha é a única exceção à tendência decrescente nas importações, tendo registado um crescimento de 76,0% (de €6,0 milhões para €10,5 milhões), sinal de um reforço da sua indústria transformadora.

Estado-Membro Import. 2015 (€) Import. 2025 (€) Var. (%) Export. 2015 (€) Export. 2025 (€) Var. (%)
Itália 41.202.990 21.401.684 -48,1% 102.227.968 35.745.825 -65,0%
Espanha 5.962.914 10.496.316 +76,0% 11.440.420 7.144.906 -37,5%
França 6.481.698 1.828.396 -71,8% 20.331.434 9.497.232 -53,3%
Portugal 5.285.475 1.864.966 -64,7% 682.840 218.752 -68,0%
Hungria 3.945.945 763.503 -80,7% 2.042.173 729.351 -64,3%

Fonte: Principais Estados-Membros

Osetor foi afetado por choques de oferta significativos, com destaque para a Etiópia

A análise de volatilidade e choques identifica três eventos de maior relevância:

  1. Etiópia (importações, 2021): choque de preço com abnormalidade de 31,7, variação de +234% e quota de valor de 5,9%. Este episódio, com um coeficiente de variação de 1,19, reflete a instabilidade extrema deste fornecedor — que passou de €9,7 milhões para praticamente zero.
  2. Coreia do Sul (exportações, 2022): choque de preço com abnormalidade de 10,0, variação de +19,6% e quota de valor de 29,8% — o maior mercado de destino das exportações da UE em volume.
  3. Tunísia (exportações, 2019): choque de preço com abnormalidade de 12,1, variação de +11,4% e quota de 4,5%.
Evento de choque Tipo Fluxo Ano Abnormalidade Variação (%)
Etiópia Preço Importações 2021 31,7 +234,0%
Tunísia Preço Exportações 2019 12,1 +11,4%
Coreia do Sul Preço Exportações 2022 10,0 +19,6%

Fonte: Choques de oferta

A dependência líquida de importações diminuiu, refletindo o colapso mais rápido das exportações

O indicador de dependência líquida de importações evoluiu de -19,9% em 2015 para -6,4% em 2025 (variação de +67,9%). Valores negativos indicam que a UE é exportadora líquida — mas a convergência para zero revela que as exportações estão a cair mais rapidamente do que as importações. A propensão exportadora desceu de 28,0% para 19,9% (-28,8%), enquanto a intensidade comercial baixou de 35,3% para 29,7% (-15,9%).

Indicador de autonomia 2015 2025 Variação (%)
Dependência líquida de importações (%) -19,9% -6,4% +67,9%
Intensidade comercial (%) 35,3% 29,7% -15,9%
Propensão exportadora (%) 28,0% 19,9% -28,8%

Fonte: Dependência de importações, Intensidade comercial, Propensão exportadora


Conclusão

O período 2015–2025 foi marcado por uma profunda reestruturação do mercado europeu de couro de ovinos (CN 4112). Os dados revelam três tendências dominantes: (1) uma contração estrutural generalizada, com perdas de mais de 60% nas exportações e 40% nas importações em valor; (2) uma reconfiguração das cadeias de abastecimento, com o declínio dos fornecedores africanos e turcos e a ascensão do Paquistão, China e Índia; e (3) uma crescente fragmentação dos mercados de destino face ao colapso das vendas para a Ásia Oriental.

O saldo comercial da UE permaneceu positivo ao longo de todo o período, mas o seu valor diminuiu em 78,9%, sinal de que a vantagem competitiva europeia — historicamente ancorada na qualidade e tradição dos curtumes do Sul da Europa — está a ser progressivamente erodida. A concentração geográfica da produção em Itália, Espanha, França e Portugal constitui simultaneamente uma fortaleza (especialização) e uma vulnerabilidade (dependência de poucos polos). A desaceleração da propensão exportadora e da intensidade comercial sugere que o setor está a tornar-se progressivamente mais orientado para o mercado interno, num contexto de concorrência global crescente e pressão permanente sobre os preços.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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