Evolução do mercado: Vaporizadores e borlas (CN 9616) — 2015–2025
Introdução
O código NC 9616 abrange duas categorias de produtos de toucador: os vaporizadores de toucador, suas armações e cabeças de armações (961610) e as borlas ou esponjas para pós ou para aplicação de cosméticos (961620). Trata-se de um setor intimamente ligado à indústria cosmética e de cuidados pessoais, no qual a União Europeia tem uma tradição industrial consolidada, particularmente em França, Itália e Espanha.
O período 2015–2025 foi marcado por transformações estruturais profundas no comércio externo da UE nestes produtos. As tendências gerais do comércio revelam uma inversão significativa na posição comercial europeia, uma crescente concentração das importações na China e uma diferenciação cada vez mais acentuada entre segmentos de produto. Este relatório analisa as principais dinâmicas observadas ao longo da década, organizadas em três eixos fundamentais.
1. A inversão da balança comercial: a UE passa de exportador líquido a importador líquido
As exportações europeias registaram uma quebra estrutural de mais de 31%
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de produtos CN 9616 diminuíram de 261,9 milhões de euros para 179,8 milhões de euros, uma queda de 31,3%. Em termos de volume, a redução foi ainda mais acentuada: de 11 765 toneladas para 6 658 toneladas (-43,4%). O valor mínimo do período foi atingido precisamente em 2025, sugerindo que a contração exportadora não foi conjuntural, mas sim estrutural.
| Indicador de exportação | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (milhões EUR) | 261,9 | 179,8 | -31,3% |
| Volume (toneladas) | 11 765 | 6 658 | -43,4% |
| Preço unitário (EUR/t) | 22 253 | 27 001 | +21,3% |
A subida do preço unitário de exportação (de 22 253 para 27 001 EUR/t) indica que, apesar da queda em volume e valor, a UE se reposicionou para produtos de valor acrescentado mais elevado. As exportações europeias passaram assim a ser, em média, duas vezes mais caras do que as importações, refletindo uma aposta na diferenciação e na qualidade.
As importações mais do que duplicaram em volume, sustentadas por preços decrescentes
No lado das importações, a evolução foi diametralmente oposta. O valor passou de 105,3 milhões de euros para 194,6 milhões de euros (+84,8%), enquanto o volume cresceu de 5 884 para 14 487 toneladas (+146,2%). O preço unitário de importação desceu de 17 902 para 13 434 EUR/t (-25,0%), o que sugere que as importações se concentram cada vez mais em produtos de menor valor unitário — consistentes com a produção em massa de origem asiática.
| Indicador de importação | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (milhões EUR) | 105,3 | 194,6 | +84,8% |
| Volume (toneladas) | 5 884 | 14 487 | +146,2% |
| Preço unitário (EUR/t) | 17 902 | 13 434 | -25,0% |
A balança comercial inverteu-se de um superavit de 156,5 milhões para um déficit de 14,8 milhões
A combinação da queda das exportações com o crescimento das importações conduziu a uma alteração radical da dependência líquida de importações. Em 2015, a UE era um exportador líquido significativo, com um saldo positivo de 156,5 milhões de euros. Em 2025, a posição inverteu-se para um déficit de 14,8 milhões de euros. O indicador de dependência líquida de importações passou de -332% para -1,3%, uma mudança de 99,6%, confirmando que a UE deixou de ser um exportador líquido relevante para atingir uma posição praticamente equilibrada — com uma ligeira inclinação para a dependência externa.
Esta transição é consistente com a deslocalização da produção de componentes de cosméticos para a Ásia, um fenómeno amplamente documentado na indústria cosmética europeia.
2. A hegemonia chinesa e a erosão das exportações europeias para mercados tradicionais
A China passou de 46% para 84% das importações da UE, concentrando drasticamente o abastecimento
A análise dos principais parceiros comerciais revela uma concentração sem precedentes nas importações europeias na China. Em 2015, as importações chinesas ascendiam a 48,5 milhões de euros, representando 46,1% do total. Em 2025, atingiram 163,2 milhões de euros, correspondendo a 83,8% do total das importações — um crescimento de 236,3%.
| Principais fornecedores (importações) | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 48,5 | 163,2 | +236,3% |
| Reino Unido | 14,8 | 4,2 | -71,8% |
| Coreia do Sul | 13,7 | 8,1 | -40,7% |
| Estados Unidos | 15,2 | 7,7 | -49,2% |
| Vietname | 0,03 | 1,3 | +3 899% |
| Índia | 0,4 | 1,1 | +226,1% |
| Turquia | 0,7 | 0,8 | +10,2% |
O índice de concentração HHI das importações confirma este movimento: passou de 2 718 para 7 153 (+163,1%), saindo de um nível de concentração moderada para uma concentração elevada. Em simultâneo, os fornecedores tradicionais como o Reino Unido, a Coreia do Sul e os Estados Unidos perderam relevância. O Vietname, apesar do crescimento percentual impressionante, continua a representar apenas uma fração marginal.
Esta dependência de um único fornecedor representa uma vulnerabilidade significativa para o abastecimento europeu, como evidenciado pelos eventos de choque na cadeia de abastecimento detetados em 2022.
Os destinos tradicionais de exportação europeus sofreram quedas acentuadas
Do lado das exportações, os mercados que historicamente absorviam a maior parte das exportações europeias registaram contrações significativas. Os Estados Unidos, o Reino Unido e a Rússia, que em 2015 representavam em conjunto cerca de 57,8% das exportações, registaram quedas de 63,2%, 65,3% e 78,4%, respetivamente.
| Principais destinos (exportações) | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 75,8 | 26,3 | -65,3% |
| Estados Unidos | 61,7 | 22,7 | -63,2% |
| Emirados Árabes Unidos | 8,4 | 41,7 | +396,1% |
| Brasil | 13,5 | 10,6 | -22,0% |
| China | 12,7 | 4,8 | -62,1% |
| México | 4,6 | 7,5 | +65,3% |
| Rússia | 13,4 | 2,9 | -78,4% |
Os Emirados Árabes Unidos tornaram-se o principal destino de exportação da UE
O caso mais notável é o dos Emirados Árabes Unidos (EAU), que passaram de 8,4 milhões de euros em 2015 para 41,7 milhões em 2025 (+396,1%). Em termos de quota, os EAU passaram de 3,2% para 23,2% das exportações europeias, tornando-se de longe o maior destino. Este crescimento é consistente com o papel dos EAU como hub de redistribuição de produtos cosméticos para o Médio Oriente e África, e reflete a reconfiguração geográfica das exportações europeias. O HHI das exportações desceu de 1 543 para 1 078 (-30,2%), indicando uma diversificação dos mercados de destino.
O peso dos Estados-membros na balança comercial interna reconfigurou-se profundamente
No seio da UE, a distribuição do comércio externo alterou-se de forma substancial. Nos principais Estados-membros importadores, a Itália e a Polónia registaram os crescimentos mais acentuados (+199,7% e +312,2%, respetivamente), enquanto a Alemanha manteve um nível estável.
| Estado-membro (importações) | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| França | 32,3 | 49,5 | +53,3% |
| Itália | 10,5 | 31,4 | +199,7% |
| Espanha | 15,7 | 22,2 | +41,2% |
| Alemanha | 17,3 | 17,3 | -0,1% |
| Polónia | 4,8 | 20,0 | +312,2% |
| Países Baixos | 5,1 | 14,3 | +180,9% |
| Áustria | 4,4 | 4,3 | -2,1% |
No que respeita às exportações dos Estados-membros, a reconfiguração é ainda mais marcante. França, que em 2015 dominava as exportações europeias com 154,9 milhões de euros (59,2% do total), viu o seu peso reduzido para 55,7 milhões (31,0%), uma queda de 64,0%. A Alemanha caiu 74,0%. Em contrapartida, a Espanha cresceu 507,1%, passando de 6,6 para 40,2 milhões de euros, e a Itália manteve-se estável em torno dos 55–59 milhões de euros.
| Estado-membro (exportações) | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação | Quota 2025 |
|---|---|---|---|---|
| Itália | 55,6 | 58,7 | +5,6% | 32,7% |
| França | 154,9 | 55,7 | -64,0% | 31,0% |
| Espanha | 6,6 | 40,2 | +507,1% | 22,4% |
| Alemanha | 27,9 | 7,3 | -74,0% | 4,0% |
| Países Baixos | 4,1 | 4,8 | +15,7% | 2,6% |
| Polónia | 4,7 | 3,8 | -19,2% | 2,1% |
3. Segmentação do produto, diferenciação de preços e especialização produtiva
Os dois segmentos do CN 9616 apresentam trajetórias comerciais distintas
A análise por segmento de produto revela dinâmicas diferenciadas entre os vaporizadores (961610) e as borlas/esponjas (961620).
Nas importações, ambos os segmentos cresceram significativamente, mas as borlas/esponjas cresceram mais rapidamente:
| Segmento | Valor 2015 (milhões EUR) | Valor 2025 (milhões EUR) | Variação | Quota 2025 |
|---|---|---|---|---|
| 961610 — Vaporizadores | 68,4 | 111,9 | +63,7% | 57,5% |
| 961620 — Borlas e esponjas | 37,0 | 82,7 | +123,7% | 42,5% |
Em volume, as importações de borlas/esponjas cresceram 203,6% (de 1 190 para 3 613 toneladas), contra 131,7% dos vaporizadores (de 4 694 para 10 874 toneladas).
Nas exportações, a divergência é acentuada: o segmento dos vaporizadores, que representa mais de 94% do valor exportado, registou uma quebra de 33,4%, enquanto as borlas/esponjas cresceram 38,0%.
| Segmento (exportações) | Valor 2015 (milhões EUR) | Valor 2025 (milhões EUR) | Variação | Quota 2025 |
|---|---|---|---|---|
| 961610 — Vaporizadores | 254,2 | 169,2 | -33,4% | 94,1% |
| 961620 — Borlas e esponjas | 7,7 | 10,6 | +38,0% | 5,9% |
O diferencial de preços entre exportações e importações duplicou ao longo da década
Um dos dados mais reveladores do período é a evolução do diferencial de preços unitários. Em 2015, os preços de exportação da UE eram, em média, 24% superiores aos preços de importação (22 253 vs 17 902 EUR/t). Em 2025, esse diferencial ampliou-se para 101% (27 001 vs 13 434 EUR/t).
Ao nível dos segmentos, esta tendência é particularmente visível nas borlas/esponjas, onde o preço de exportação (38 537 EUR/t) é quase três vezes superior ao preço de importação (22 893 EUR/t). Nos vaporizadores, o preço de exportação (26 501 EUR/t) é 2,6 vezes o preço de importação (10 290 EUR/t). Estes dados sugerem que a UE se especializou progressivamente em produtos de valor acrescentado mais elevado, enquanto as importações — sobretudo as de origem chinesa — se concentram em gamas mais acessíveis.
A produção europeia cresceu significativamente, impulsionada pela especialização dos Estados-membros do sul
Os dados de produção europeia (PRODCOM) mostram um crescimento expressivo: o valor de produção passou de 24,7 milhões de euros para 108,0 milhões de euros (+337,6%), enquanto a quantidade cresceu de 24,5 milhões para 49,0 milhões de unidades (+100,4%). O valor unitário de produção mais do que duplicou, passando de 1,01 para 2,20 euros por unidade, sugerindo uma aposta na produção de maior valor acrescentado.
A análise de especialização dos Estados-membros confirma este padrão. Em 2025, os Estados-membros mais especializados na produção e exportação destes produtos são:
| Estado-membro | RCA | RSCA | Quota na produção UE |
|---|---|---|---|
| Itália | 4,14 | 0,61 | 33,1% |
| França | 3,06 | 0,51 | 23,9% |
| Espanha | 2,54 | 0,44 | 14,7% |
| Chéquia | 0,74 | -0,15 | 3,6% |
| Países Baixos | 0,61 | -0,24 | 8,9% |
A Itália, a França e a Espanha apresentam valores de RCA (Revealed Comparative Advantage) superiores a 1 e RSCA positivos, confirmando uma vantagem comparativa revelada na produção e exportação destes produtos. Estes três países concentram mais de 71% da produção europeia, o que explica a sua dominância nas exportações intra-UE e a capacidade de manter exportações de valor elevado apesar da crescente concorrência chinesa.
Conclusão
O mercado europeu de vaporizadores e borlas de toucador (CN 9616) sofreu uma transformação estrutural entre 2015 e 2025. Três dinâmicas principais definem este período:
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A inversão da balança comercial: a UE passou de uma posição de exportador líquido significativo (superavit de 156,5 milhões de euros) para uma posição praticamente equilibrada ligeiramente deficitária, resultado de uma queda de 31% nas exportações e um crescimento de 85% nas importações.
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A concentração das importações na China: com uma quota que passou de 46% para 84%, a China tornou-se o fornecedor dominante da UE, elevando significativamente o risco de dependência de abastecimento. Em simultâneo, as exportações europeias reorientaram-se dos mercados tradicionais (EUA, Reino Unido, Rússia) para os Emirados Árabes Unidos, que se tornaram o principal destino.
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A diferenciação e segmentação do mercado: a UE manteve-se competitiva na gama de valor elevado, com preços de exportação a duplicar o seu diferencial face às importações. A produção europeia cresceu significativamente em valor, sustentada pela especialização de Itália, França e Espanha.
Olhando para o futuro, a elevada concentração das importações na China representa a principal vulnerabilidade estratégica do setor europeu. O crescimento de fornecedores alternativos como o Vietname e a Índia permanece marginal, sugerindo que a diversificação da cadeia de abastecimento continua a ser um desafio pendente para a indústria cosmética europeia.