Evolução do mercado: Artigos para cabelo (CN 9615) — 2015–2025
Introdução
A posição CN 9615 abrange uma vasta gama de artigos para cabelo — pentes, travessas, ganchos (grampos), alfinetes, pinças, onduladores, bigodilhas e artigos semelhantes para penteados, bem como as suas partes, excluindo os aparelhos eletrotérmicos da posição 8516. Este setor, que inclui três subsegmentos principais — artigos de borracha endurecida ou plástico (961511), pente e travessas de outras matérias (961519), e grampos/alfinetes/onduladores e afins (961590) —, constitui um mercado relevante tanto no consumo interno da UE como no comércio internacional.
No período compreendido entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE neste setor registou uma trajetória marcada por três dinâmicas centrais: um crescimento acentuado das importações, uma reconfiguração geográfica profunda — agravada pelo Brexit —, e um aprofundamento significativo do défice comercial. As importações cresceram 82,2% em valor, enquanto as exportações cresceram 64,2%, resultando num défice que passou de -104,7 mil milhões de euros para -199,8 mil milhões. O presente relatório analisa estas dinâmicas em detalhe, com base nos dados disponíveis para o período 2015–2025.
1. O aprofundamento do défice comercial e a crescente dependência das importações
O crescimento sustentado das importações face à estagnação das exportações em volume
Entre 2015 e 2025, as importações da UE em artigos para cabelo cresceram de 154,9 M€ para 282,3 M€ (+82,2%), impulsionadas quer pelo aumento de volume (de 12.768 t para 21.767 t, +70,5%) quer por uma ligeira subida do preço médio (de 12.132 €/t para 12.964 €/t, +6,9%). As exportações, por seu lado, apresentaram uma evolução assimétrica: o valor subiu de 50,2 M€ para 82,5 M€ (+64,2%), mas o volume manteve-se praticamente inalterado em torno de 1.821 t, tendo sido o aumento do preço médio (de 27.541 €/t para 45.145 €/t, +63,9%) o principal motor do crescimento nominal.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações — valor (M€) | 154,9 | 282,3 | +82,2% |
| Importações — volume (t) | 12.768 | 21.767 | +70,5% |
| Importações — preço médio (€/t) | 12.132 | 12.964 | +6,9% |
| Exportações — valor (M€) | 50,2 | 82,5 | +64,2% |
| Exportações — volume (t) | 1.821 | 1.821 | 0,0% |
| Exportações — preço médio (€/t) | 27.541 | 45.145 | +63,9% |
| Saldo comercial (M€) | -104,7 | -199,8 | -90,9% |
Esta divergência entre volume e preço nas exportações sugere que a UE se tem progressivamente posicionado em segmentos de maior valor acrescentado, mantendo volumes exportados estáveis enquanto aumenta significativamente o preço unitário dos seus produtos.
O alargamento do défice comercial e o aumento da dependência líquida de importações
O saldo comercial da UE em CN 9615 deteriorou-se de forma consistente ao longo do período, passando de -104,7 M€ em 2015 para -199,8 M€ em 2025, uma agravamento de 90,9%. Em termos de dependência líquida de importações, a evolução foi de 59,8% para 76,3%, com um pico de 83,2% registado num ano intermédio, sinalizando uma exposição crescente a fornecedores externos.
Paralelamente, a intensidade comercial manteve-se estável em torno de 111–114%, indicando que o comércio externo cresceu em linha com a produção total. Contudo, a propensão para exportar subiu de 143% para 183%, sugerindo que a indústria europeia, apesar do volume exportado estável, tem vindo a aumentar a sua orientação para mercados externos em termos de valor, focando-se em produtos de gama mais elevada.
2. A hegemonia chinesa e a reconfiguração geográfica do comércio europeu
A consolidação da China como fornecedor quase exclusivo
A evolução dos parceiros de importação revela uma concentração extrema na China. Em 2015, as importações chinesas ascendiam a 113,2 M€, representando 73,1% do total importado. Em 2025, esse valor atingiu 256,0 M€, correspondendo a 90,7% das importações totais da UE em CN 9615 — um crescimento de 126,2% em termos absolutos. Em simultâneo, as importações de todos os restantes parceiros combinados diminuíram de 41,7 M€ para 26,3 M€, o que evidencia uma deslocação quase total das fontes de abastecimento para a China.
| Parceiro | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) | Quota 2025 |
|---|---|---|---|---|
| China | 113,2 | 256,0 | +126,2% | 90,7% |
| Reino Unido | 24,1 | 2,1 | -91,2% | 0,8% |
| Não especificados | 0,003 | 6,2 | — | 2,2% |
| Taiwan | 3,8 | 2,1 | -43,8% | 0,7% |
| Hong Kong | 3,0 | 1,9 | -35,7% | 0,7% |
| Índia | 1,1 | 1,4 | +32,8% | 0,5% |
| EUA | 1,8 | 1,9 | +4,9% | 0,7% |
O crescimento acentuado da categoria «países e territórios não especificados» (de 3.231 € para 6,2 M€) poderá refletir reclassificações estatísticas ou comércio indireto via entrepostos, mas não altera o quadro dominante da dependência chinesa.
O impacto do Brexit nas importações do Reino Unido
O Reino Unido, que em 2015 constituía o segundo maior fornecedor da UE com 24,1 M€ (15,6% das importações), viu o seu valor cair para 2,1 M€ em 2025 (-91,2%), ficando com uma quota inferior a 1%. Esta queda acentuada coincide com a saída formal do Reino Unido do mercado único e da união aduaneira da UE, concluída em janeiro de 2021. A volatilidade das importações britânicas, com um coeficiente de variação de 0,89, é significativamente superior à da China (0,31) e reflete esta transição abrupta. A perda do fornecedor britânico contribuiu para a consolidação da quota chinesa e para o aumento da concentração das importações, medida pelo índice HHI, de 5.599 para 8.611 (+53,8%).
A consolidação dos mercados de exportação: o Reino Unido como principal destino pós-Brexit
No que diz respeito às exportações da UE, a reconfiguração foi inversa: o Reino Unido tornou-se o principal destino, com um crescimento de 6,3 M€ para 18,7 M€ (+195,5%). Este aumento sugere que, após o Brexit, parte da cadeia de valor se reorganizou, passando as empresas britânicas a importar diretamente da UE o que antes circulava intra-UE.
| Parceiro | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 6,3 | 18,7 | +195,5% |
| EUA | 4,8 | 8,0 | +68,4% |
| Suíça | 4,4 | 5,3 | +20,9% |
| Noruega | 1,8 | 3,9 | +122,2% |
| Rússia | 4,4 | 2,7 | -38,5% |
| Emirados Árabes | 1,0 | 2,2 | +112,6% |
| Sérvia | 0,3 | 0,9 | +213,6% |
Outros destinos com crescimento expressivo incluem os EUA (+68,4%), a Noruega (+122,2%) e os Emirados Árabes Unidos (+112,6%), sugerindo uma diversificação geográfica das exportações europeias para mercados extra-europeus. Por outro lado, as exportações para a Rússia diminuíram 38,5%, possivelmente refletindo sanções e restrições comerciais.
Contraste entre concentração das importações e diversificação das exportações
A concentração das exportações, medida pelo HHI, situou-se em 936 em 2025 — um nível moderado que indica uma base de clientes diversificada. Em contraste, o HHI das importações de 8.611 reflete uma concentração elevada, dominada pela China. Esta assimetria estrutural representa um risco significativo para a UE: qualquer perturbação na cadeia de abastecimento chinesa — por motivos geopolíticos, logísticos ou regulamentares — teria impacto direto e generalizado no setor europeu dos artigos para cabelo.
Dentro da própria UE, os maiores Estados-Membros importadores em 2025 foram a Alemanha (63,3 M€, +71,5%), os Países Baixos (51,5 M€, +159,5%), Espanha (29,3 M€, +108,6%) e França (26,1 M€, +12,5%). O crescimento excecional dos Países Baixos poderá refletir o papel de hub logístico do porto de Roterdão. Em termos de exportações, Itália lidera com 22,5 M€ (+191,9%), seguindo-se a França (19,3 M€), os Países Baixos (12,6 M€, +806,1%) e a Alemanha (9,8 M€). A Itália, com a sua tradição em acessórios de moda, e os Países Baixos, enquanto plataforma de redistribuição, destacam-se como os motores das exportações europeias.
3. Assimetrias de preço, segmentação de produto e riscos de abastecimento
Diferenciação entre segmentos: o peso dominante do plástico nas importações
A análise por subsegmento revela padrões distintos entre importações e exportações. Nas importações, o subsegmento 961511 (artigos de borracha endurecida ou plástico) domina tanto em volume como em valor:
| Subsegmento | Importações 2015 (t) | Importações 2025 (t) | Variação | Valor 2025 (M€) | Preço médio 2025 (€/t) |
|---|---|---|---|---|---|
| 961511 — Plástico/borracha | 5.294 | 10.848 | +104,9% | 132,8 | 12.239 |
| 961519 — Pentes (outras matérias) | 3.943 | 5.519 | +40,0% | 82,4 | 14.917 |
| 961590 — Grampos/onduladores/afins | 3.531 | 5.400 | +53,0% | 67,1 | 12.409 |
O subsegmento 961511 duplicou o seu volume importado em apenas uma década, passando de 5.294 t para 10.848 t, e representa 47,4% do valor total das importações. Este crescimento é consistente com a expansão global da produção de artigos de plástico de baixo custo, dominada por fabricantes asiáticos.
Nas exportações, a estrutura é radicalmente diferente:
| Subsegmento | Exportações 2015 (t) | Exportações 2025 (t) | Variação | Valor 2025 (M€) | Preço médio 2025 (€/t) |
|---|---|---|---|---|---|
| 961519 — Pentes (outras matérias) | 508 | 737 | +45,2% | 43,0 | 57.972 |
| 961590 — Grampos/onduladores/afins | 744 | 518 | -30,4% | 20,6 | 39.500 |
| 961511 — Plástico/borracha | 569 | 566 | -0,6% | 18,8 | 33.067 |
O subsegmento 961519 (pentes e travessas de matérias não plásticas) é claramente o motor das exportações europeias, representando 52,2% do valor exportado em 2025, com um preço médio de 57.972 €/t — quase quatro vezes superior ao preço médio das importações do mesmo segmento (14.917 €/t). Este diferencial evidencia o posicionamento da UE na gama premium do mercado, com produtos de materiais nobres (madeira, metal, materiais compósitos) destinados a segmentos de maior valor acrescentado.
Preços de exportação significativamente superiores aos de importação
A comparação dos preços médios entre importações e exportações revela um padrão consistente em todos os subsegmentos:
| Subsegmento | Preço importação (€/t) | Preço exportação (€/t) | Fator |
|---|---|---|---|
| 961511 — Plástico/borracha | 12.239 | 33.067 | 2,7x |
| 961519 — Pentes (outras matérias) | 14.917 | 57.972 | 3,9x |
| 961590 — Grampos/onduladores/afins | 12.409 | 39.500 | 3,2x |
Os preços de exportação da UE são, em média, 3 a 4 vezes superiores aos preços de importação. Este hiato reflecte a especialização europeia em produtos de design, marcas registadas e materiais de qualidade superior, em contraste com a produção em massa de baixo custo que alimenta as importações. Contudo, este diferencial de preço não é suficiente para compensar o desequilíbrio de volumes: a UE importa 12 vezes mais peso do que exporta (21.767 t vs. 1.821 t), o que explica o défice comercial persistente.
Dinâmicas de produção interna, volatilidade e riscos de abastecimento
A produção interna da UE registou um crescimento de 49,0% em quantidade (de 944.485 kg para 1.407.341 kg) e de 205,7% em valor (de 13,0 M€ para 39,8 M€) ao longo do período. O facto de o valor ter crescido muito mais do que a quantidade sugere uma subida significativa do valor unitário da produção europeia (de ~13,8 €/kg para ~28,3 €/kg), reforçando o posicionamento da UE em segmentos de gama superior. Contudo, a produção interna representa apenas uma fração do consumo aparente, reforçando a dependência externa.
Em termos de especialização entre Estados-Membros, a Dinamarca apresenta o maior índice de vantagem comparativa revelada (RCA de 3,30, RSCA de 0,54), seguida da Grécia (RCA 1,66) e da Polónia (RCA 1,62). Estes dados sugerem a existência de nichos de produção especializada em países periféricos da UE, embora em volume reduzido.
A volatilidade das rotas comerciais apresenta padrões preocupantes em algumas rotas. Entre os parceiros de importação, a Malásia (CV 0,99), a Tunísia (0,94) e o Reino Unido (0,89) exibem elevada instabilidade. Nas exportações, rotas como Panamá (CV 3,20), Sérvia (2,32) e Turquia (1,15) apresentam flutuações extremas. Os choques de preço mais significativos detetados incluem uma anomalia extrema nas exportações para o Japão em 2021 (abnormalidade de 272,9, com um aumento de preço de 267,2%), sugerindo um evento pontual de exportação de alto valor, e choques de preço para a Austrália em 2020 (+109,1%) e para a Tunísia em 2020 (+51,5%).
A conjugação da elevada concentração das importações (HHI de 8.611), da crescente dependência líquida (76,3%) e da volatilidade em rotas-chave configura um cenário de vulnerabilidade estrutural para o setor europeu dos artigos para cabelo. Qualquer disrupção na cadeia de abastecimento chinesa — seja por fatores geopolíticos, restrições ambientais ou disrupções logísticas — teria impacto imediato e significativo na disponibilidade e no preço destes produtos no mercado europeu.
Conclusão
O mercado europeu de artigos para cabelo (CN 9615) evoluiu significativamente entre 2015 e 2025, caracterizando-se por um crescimento sustentado do comércio externo, mas com desequilíbrios estruturais crescentes. O défice comercial quase duplicou, atingindo -199,8 M€ em 2025, impulsionado por um aumento de 82,2% nas importações — das quais a China passou a representar mais de 90%. Em paralelo, as exportações europeias cresceram 64,2% em valor, sustentadas essencialmente por aumentos de preço e por uma especialização crescente em produtos de gama superior (preços de exportação 3 a 4 vezes superiores aos de importação).
O Brexit reconfigurou profundamente o mapa comercial: o Reino Unido passou de segundo maior fornecedor da UE a parceiro marginal nas importações, mas tornou-se o principal destino das exportações europeias (+195,5%). A concentração das importações agravou-se substancialmente (HHI de 5.599 para 8.611), enquanto as exportações se mantiveram diversificadas.
No entanto, a dependência de uma única origem de abastecimento — a China — constitui o principal risco estrutural do setor. A produção interna da UE, embora em crescimento (49% em volume, 205,7% em valor), continua a ser insuficiente para mitigar esta dependência. A crescente propensão para exportar (183% em 2025) e a aposta em produtos de valor acrescentado superior representam oportunidades para a indústria europeia, mas a segurança da cadeia de abastecimento continua a depender fundamentalmente de decisões tomadas fora do território da União.