Evolução do mercado: Manequins e artigos de vitrina (CN 9618) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativamente à posição pautal CN 9618 — Manequins e artigos semelhantes; autómatos e cenas animadas, para vitrinas e mostruários — no período compreendido entre 2015 e 2025. Este setor, embora de dimensão modesta no contexto do comércio global de bens manufaturados, desempenha um papel relevante para as indústrias do retalho, da moda e da comunicação visual. Os dados abrangem o comércio da UE com países terceiros (extra-UE), excluindo períodos incompletos.
Ao longo da década em análise, o setor assistiu a uma contração generalizada de volumes, um aumento progressivo dos preços unitários e uma significativa reconfiguração das dependências geográficas. A análise que se segue organiza-se em três eixos centrais: o declínio estrutural de volumes e a respetiva compensação através de valor acrescentado; a concentração das cadeias de abastecimento e a crescente vulnerabilidade à China; e, por fim, a volatilidade e os choques de preço registados nos principais parceiros comerciais.
1. Contração de volumes e subida de preços: um mercado em transformação estrutural
As importações e exportações perderam entre um terço e quase metade do volume físico
O período 2015–2025 foi marcado por uma redução acentuada das quantidades transacionadas em ambos os fluxos comerciais. As importações da UE caíram de 9 624 toneladas em 2015 para 6 240 toneladas em 2025 (–35,2%), com mínimo de 5 183 toneladas num ponto intermédio. Do lado das exportações, a queda foi ainda mais pronunciada: de 3 143 toneladas para 1 718 toneladas (–45,3%), com mínimo de 1 153 toneladas. Trata-se de um sinal inequívoco de ajustamento estrutural da procura física, provavelmente associado à digitalização do retalho e à crescente sofisticação das vitrinas (menos manequins, mais soluções digitais e ecrãs).
Os preços unitários compensaram parcialmente a queda das quantidades
Paradoxalmente, a descida de volumes foi acompanhada por uma subida consistente dos preços unitários. O preço médio de importação subiu de 9 511 €/t para 11 638 €/t (+22,4%), enquanto o preço médio de exportação subiu de 25 294 €/t para 35 300 €/t (+39,6%). Isto sugere que o mercado se está a deslocar para produtos de maior valor acrescentado — manequins de design especializado, cenários animados e soluções de visual merchandising premium — em detrimento de artigos de gama baixa.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor das importações (M€) | 91,5 | 72,6 | –20,7% |
| Quantidade importada (t) | 9 624 | 6 240 | –35,2% |
| Preço médio importação (€/t) | 9 511 | 11 638 | +22,4% |
| Valor das exportações (M€) | 79,5 | 60,6 | –23,7% |
| Quantidade exportada (t) | 3 143 | 1 718 | –45,3% |
| Preço médio exportação (€/t) | 25 294 | 35 300 | +39,6% |
A produção intra-UE acompanhou a tendência de contração
Os dados de produção confirmam a mesma dinâmica: o volume produzido no interior da UE desceu de 4 670 toneladas para 2 410 toneladas (–48,4%), e o valor de produção caiu de 78,6 M€ para 66,8 M€ (–15,1%). A queda acentuada do volume face à queda mais moderada do valor reforça a hipótese de uma subida de valor acrescentado na produção que permanece.
A balança comercial manteve-se estruturalmente deficitária
O défice comercial da UE neste setor manteve-se ao longo de todo o período, oscilando entre um mínimo de –9,5 M€ e um máximo de –28,0 M€. Em 2015, o défice situava-se em –12,0 M€ e, em 2025, em –12,0 M€, apresentando uma estabilidade relativa em termos de valor nominal, apesar da volatilidade intercalar. A dependência líquida de importações (net import reliance) passou de –4,4% em 2015 para 12,8% em 2025, sinalizando uma acentuação da dependência externa.
2. Dominância chinesa e reconfiguração das cadeias de abastecimento
A China é de longe o principal fornecedor, concentrando três quartos das importações em valor
A China domina de forma avassaladora as importações da UE em manequins e artigos de vitrina, com um valor de 75,0 M€ em 2015 e 56,3 M€ em 2025 (–24,9%), representando cerca de 78% do valor total de importações em 2025. A Tabela 1 mostra que nenhum outro parceiro se aproxima sequer desta dimensão.
| Parceiro (importações) | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) | CV |
|---|---|---|---|---|
| China | 74 973 773 | 56 322 202 | –24,9% | 0,23 |
| Reino Unido | 4 338 587 | 4 292 630 | –1,1% | 0,17 |
| Estados Unidos | 1 909 797 | 2 419 736 | +26,7% | 0,31 |
| Turquia | 2 058 752 | 2 599 233 | +26,3% | 0,24 |
| Filipinas | 805 608 | 791 451 | –1,8% | 0,22 |
| Taiwan | 838 461 | 556 856 | –33,6% | 0,45 |
| Vietname | 1 404 244 | 14 219 | –99,0%** | 1,03 |
O colapso das importações do Vietname é particularmente notório: de 1,4 M€ para pouco mais de 14 000 €, com um coeficiente de variação (CV) de 1,03 — o mais elevado de todos os parceiros de importação (volatilidade). Este desaparecimento quase total sugere uma relocalização da produção ou a perda de encomendas face a concorrentes chineses.
Os exportadores da UE enfrentam mercados de destino cada vez mais fragmentados
Do lado das exportações, os principais destinos mantiveram-se relativamente estáveis, com o Reino Unido, os Estados Unidos e a Suíça a liderar. Contudo, todos registaram quebras significativas, com destaque para a Rússia (de 4,1 M€ para 698 000 €, –83,0%), um colapso que reflete claramente as sanções e restrições comerciais pós-2022. A Suíça também registou uma queda acentuada de –30,8%, enquanto os EUA se mantiveram estáveis (–1,2%).
| Parceiro (exportações) | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) | CV |
|---|---|---|---|---|
| Reino Unido | 11 587 853 | 10 459 168 | –9,7% | 0,25 |
| Estados Unidos | 10 900 528 | 10 767 260 | –1,2% | 0,33 |
| Suíça | 9 415 375 | 6 516 694 | –30,8% | 0,46 |
| Rússia | 4 100 129 | 697 816 | –83,0% | 0,59 |
| Noruega | 2 211 777 | 1 259 971 | –43,0% | 0,29 |
| China | 4 602 897 | 3 727 057 | –19,0% | 0,31 |
| México | 3 795 068 | 3 303 292 | –13,0% | 0,37 |
A concentração das importações elevou-se significativamente
O índice HHI das importações em valor apresentou uma descida ligeira (de 6 752 para 6 140, –9,1%), mas permanece em patamares elevados, refletindo a dominância chinesa. Do lado das exportações, o HHI subiu 20,3% (de 737 para 887), sinalizando uma ligeira concentração dos mercados de destino. As exportações continuam, no entanto, muito mais diversificadas do que as importações, o que confere à UE maior resiliência no lado da procura externa.
A especialização geográfica produtiva na Europa aponta para Itália, Espanha e Lituânia
Os dados de especialização revelam que a Lituânia é, de longe, o Estado-membro mais especializado neste setor (RSCA de 0,90, RCA de 19,8), tendo triplicado as suas exportações ao longo da década (de 4,7 M€ para 9,4 M€, +101,7%). Seguem-se Espanha (RSCA 0,38) e Itália (RSCA 0,30), dois países com tradição na indústria da moda e do visual merchandising. Em contraste, os países menos especializados — como a Irlanda e a Finlândia — possuem coeficientes de RCA praticamente nulos.
3. Choques de preço, volatilidade e riscos de autonomia
Os choques de preço mais significativos ocorreram em exportações para mercados periféricos
A análise de choques identificou três eventos de preço anómalos em exportações da UE:
| Destino | Ano | Anomalia | Variação de preço | Peso no valor |
|---|---|---|---|---|
| Hong Kong | 2019 | 67,7 | +59,8% | 3,7% |
| Israel | 2022 | 8,2 | +22,1% | 1,3% |
| Noruega | 2021 | 8,0 | +35,8% | 3,5% |
O choque de Hong Kong em 2019, com uma anomalia de 67,7 (muito acima do padrão normal), sugere um episódio pontual de exportações de produtos muito especializados ou uma distorção estatística associada a poucas transações de elevado valor. Os choques em Israel e Noruega, de menor magnitude, podem refletir a combinação da pandemia com a quebra de cadeias de abastecimento locais.
A volatilidade é mais pronunciada nos parceiros menores
Os coeficientes de variação confirmam que os parceiros de pequena dimensão apresentam flutuações muito mais acentuadas. Nos fluxos de exportação, a Rússia (CV = 0,59), a Sérvia (0,49), a Turquia (0,54) e a Suíça (0,46) exibem elevada instabilidade. Do lado das importações, o Vietname (CV = 1,03) e o Hong Kong (0,73) são os mais voláteis, refletindo a intermitência das relações comerciais.
A dependência líquida de importações agravou-se significativamente
O indicador de dependência líquida de importações registou a evolução mais preocupante do conjunto da análise: partiu de –4,4% em 2015 (a UE era levemente exportadora líquida) e atingiu 12,8% em 2025, com um máximo de 31,0% num ponto intermédio. A variação acumulada de 391,5% é a mais pronunciada de todo o conjunto de indicadores de vulnerabilidade estrutural.
Em paralelo, a intensidade comercial subiu de 71,0% para 96,4% (+35,8%), e a propensão para exportar saltou de 55,9% para 92,5% (+65,3%). Esta última apresenta a pontuação de saliência mais elevada (107,8), indicando que a UE se tornou progressivamente mais dependente das exportações para escoar a sua produção residual, ao mesmo tempo que a procura interna passou a ser maioritariamente satisfeita por importações — em particular da China.
Os Estados-membros mais importadores concentram-se no núcleo industrial
A distribuição geográfica das importações no interior da UE é dominada por França (15,7 M€, +1,5%), Alemanha (10,6 M€, –47,4%), Países Baixos (10,7 M€, –16,2%) e Espanha (9,2 M€, +4,0%). A queda acentuada das importações da Alemanha (–47,4%) e da Itália (–45,9%) contrasta com a estabilidade relativa de França e Espanha, sugerindo um deslocamento do epicentro da procura europeia de economias industriais exportadoras para mercados de consumo doméstico e turismo de retalho.
Conclusão
O mercado europeu de manequins e artigos de vitrina (CN 9618) atravessou uma profunda transformação entre 2015 e 2025. A contração de volumes — entre 35% e 48% conforme o indicador — é acompanhada por uma subida sustentada dos preços, apontando para uma migração do mercado para segmentos de maior valor acrescentado. A produção intra-UE encolheu significativamente, enquanto a dependência de importações da China se consolidou como o traço dominante da estrutura comercial.
A dependência líquida de importações, que passou de praticamente nula para 12,8%, constitui o risco estrutural mais relevante identificado. Com a China a representar cerca de 78% das importações em valor e os baixos preços médios de importação (11 638 €/t face a 35 300 €/t nas exportações), a UE encontra-se numa posição de vulnerabilidade geográfica crescente, mitigada apenas pela capacidade residual de exportação para o Reino Unido e os Estados Unidos. A emergência da Lituânia como centro de especialização produtiva europeia, com crescimento de +101,7% nas exportações, sinaliza possíveis ajustamentos na reconfiguração das cadeias de valor intra-UE no horizonte futuro.