Evolução do mercado: Artigos higiénicos (CN 9619) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no setor dos artigos higiénicos — pensos absorventes, tampões higiénicos, cueiros, fraldas e artigos semelhantes de qualquer matéria (posição aduaneira CN 9619) — no período compreendido entre 2015 e 2025.
Trata-se de um setor de bens de consumo essenciais, com procura estável mas sensível a dinâmicas demográficas, tendências de sustentabilidade e alterações geopolíticas. A análise baseia-se nos dados de comércio extra-UE e abrange três eixos fundamentais: a evolução agregada dos fluxos comerciais, a reconfiguração geográfica dos parceiros e a resiliência estrutural do bloco face a choques de fornecimento.
O período em análise é particularmente relevante por incluir o choque pandémico de 2020, a escalada de tensões geopolíticas a partir de 2022 e a subsequente reconfiguração das cadeias de abastecimento globais.
1. Crescimento em valor travado pela erosão dos volumes: um setor em transição de preços
1.1. As exportações crescem em valor, mas os volumes recuam
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE de artigos higiénicos para países terceiros cresceu de €2 190 milhões para €2 447 milhões, uma variação positiva de +11,7%. No entanto, as quantidades exportadas seguiram a trajetória inversa, descendo de 567 389 toneladas para 531 742 toneladas (-6,3%). O máximo de volume exportado situou-se em 582 962 toneladas, enquanto o mínimo atingido foi de 522 037 toneladas.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor exportações (€) | 2 190 410 313 | 2 446 500 098 | +11,7% |
| Quantidade exportações (t) | 567 389 | 531 742 | -6,3% |
| Preço médio exportação (€/t) | 3 861 | 4 601 | +19,2% |
Esta divergência entre valor e volume explica-se pela subida significativa dos preços médios de exportação, que aumentaram 19,2% — de €3 861/t para €4 601/t — atingindo o máximo do período em €4 928/t. A visão geral do comércio confirma que a subida de preços compensou plenamente a quebra volumétrica.
1.2. As importações seguem padrão semelhante: valor estável, volume em queda
O padrão repete-se do lado das importações. O valor das importações cresceu ligeiramente, de €382 milhões para €402 milhões (+5,3%), mas as quantidades recuaram de 102 608 toneladas para 93 084 toneladas (-9,3%). O pico importador em volume atingiu 166 328 toneladas, sugerindo flutuações significativas em alguns anos intermédios.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor importações (€) | 381 757 726 | 402 174 164 | +5,3% |
| Quantidade importações (t) | 102 608 | 93 084 | -9,3% |
| Preço médio importação (€/t) | 3 720 | 4 320 | +16,1% |
Os preços médios de importação subiram 16,1%, de €3 720/t para €4 320/t, com um máximo de €4 956/t. Esta pressão inflacionária sobre os preços — tanto nas exportações como nas importações — é consistente com os aumentos generalizados dos custos de matérias-primas, energia e transporte verificados entre 2021 e 2023.
1.3. A balança comercial reforça-se, com a UE como exportador líquido consolidado
A UE manteve-se ao longo de todo o período como exportador líquido de artigos higiénicos, com um saldo comercial que passou de €1 809 milhões para €2 044 milhões (+13,0%). A dependência líquida de importações agravou-se de -13,6% para -34,5%, o que, para um indicador negativo, significa que a UE se tornou ainda mais autossuficiente e exportador líquido, afastando-se significativamente da neutralidade.
2. Reconfiguração geográfica: a ascensão da China e o reequilíbrio dos mercados de destino
2.1. A China torna-se a principal origem de importações, com crescimento exponencial
A transformação mais marcante do lado das importações é a ascensão da China, cujas vendas para a UE cresceram de €32 milhões para €140 milhões — um aumento de +341,7%. A China passou assim de fornecedor marginal a maior parceiro importador extra-UE, ultrapassando o Reino Unido e a Suíça, que registaram quedas acentuadas.
| Parceiro importador | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 31 653 798 | 139 818 156 | +341,7% |
| Suíça | 78 001 042 | 28 626 005 | -63,3% |
| Reino Unido | 88 059 225 | 48 807 074 | -44,6% |
| Turquia | 21 917 148 | 53 237 604 | +142,9% |
| Ucrânia | 24 705 705 | 37 173 600 | +50,5% |
| Estados Unidos | 26 097 923 | 18 109 079 | -30,6% |
As importações oriundas da Turquia também cresceram significativamente (+142,9%), refletindo provavelmente a proximidade geográfica e a competitividade de custos do país. A contração das importações da Suíça (-63,3%) e do Reino Unido (-44,6%) sugere, em parte, o impacto do Brexit nas cadeias de distribuição e uma reorientação das compras para fornecedores extra-europeus mais competitivos.
2.2. O Reino Unido consolida-se como principal mercado de exportação
Do lado das exportações, o Reino Unido permaneceu como o principal destino, com vendas a crescer de €611 milhões para €855 milhões (+39,8%). Apesar do Brexit, a proximidade geográfica e as necessidades de consumo do mercado britânico mantiveram-no como parceiro comercial estratégico para a UE.
| Parceiro exportador | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 611 390 115 | 854 815 662 | +39,8% |
| Federação Russa | 355 321 562 | 194 118 411 | -45,4% |
| Ucrânia | 83 345 138 | 90 009 783 | +8,0% |
| Austrália | 75 476 798 | 115 064 738 | +52,5% |
| Suíça | 138 641 124 | 136 011 586 | -1,9% |
| Noruega | 103 643 483 | 97 426 173 | -6,0% |
| Estados Unidos | 44 459 890 | 142 655 863 | +220,9% |
A queda das exportações para a Rússia (-45,4%, de €355 milhões para €194 milhões) constitui o desenvolvimento mais relevante deste período. Esta redução reflete manifestamente as sanções e restrições comerciais impostas após 2022, bem como a deterioração das relações comerciais bilateral. Em contrapartida, os Estados Unidos tornaram-se um destino em forte crescimento (+220,9%), passando de €44 milhões para €143 milhões, o que sugere uma diversificação das exportações da UE para mercados extra-europeus mais distantes.
2.3. A concentração das trocas intensifica-se em ambos os lados
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 1 393 para 1 758 (+26,2% em valor e +49,4% em volume), indicando uma concentração crescente das fontes de abastecimento. Do lado das exportações, o HHI subiu de 1 208 para 1 486 (+23,0% em valor e +30,4% em volume).
Embora os valores absolutos permaneçam em território de baixa a moderada concentração (abaixo de 2 500), a tendência ascendente do HHI sugere um aumento de dependência de um número reduzido de parceiros — particularmente relevante do lado das importações, onde a China ganhou peso dominante.
3. Resiliência produtiva da UE face a choques externos e volatilidade crescente
3.1. A produção europeia de artigos higiénicos cresce significativamente
A produção interna da UE registou um crescimento robusto: em quantidade, passou de 1 945 milhões de kg para 2 803 milhões de kg (+44,2%), com um máximo de 4 119 milhões de kg. Em valor, a produção cresceu de €5 847 milhões para €7 970 milhões (+36,3%), atingindo o máximo do período em 2025.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Produção (kg) | 1 944 555 391 | 2 803 114 064 | +44,2% |
| Produção (€) | 5 846 995 105 | 7 970 404 868 | +36,3% |
Este crescimento produtivo, superior ao das exportações em volume, sugere que a expansão da produção europeia foi parcialmente absorvida pelo mercado interno, em linha com o crescimento da procura de fraldas para adultos associado ao envelhecimento demográfico e a uma maior sensibilização para a higiene.
A especialização produtiva dentro da UE apresenta assimetrias notáveis. Em 2025, a Chequia liderava em termos de vantagem comparativa revelada (RSCA de 0,585), seguida da Grécia (0,534) e da Polónia (0,393). Estes três países combinam uma quota de produção especializada significativa com uma presença relevante nas exportações totais da UE, conferindo-lhes um papel central na estrutura exportadora do bloco.
3.2. A volatilidade das importações é mais acentuada do que a das exportações
A análise dos coeficientes de variação (CV) revela uma assimetria clara entre a estabilidade das exportações e a volatilidade das importações. Os fluxos de exportação para parceiros estratégicos como o Reino Unido (CV = 0,043) e a Suíça (CV = 0,024) demonstram uma notável estabilidade ao longo do período. Em contraste, as importações de origens como os Estados Unidos (CV = 0,913), a China (CV = 0,498) e a Rússia (CV = 0,620) apresentam flutuações muito mais pronunciadas.
| Fluxo | Parceiro | CV |
|---|---|---|
| Exportação | Suíça | 0,024 |
| Exportação | Reino Unido | 0,043 |
| Exportação | Noruega | 0,060 |
| Importação | China | 0,498 |
| Importação | Rússia | 0,620 |
| Importação | EUA | 0,913 |
A volatilidade elevada das importações dos EUA (CV = 0,913) e do México (CV = 1,016) reflete possivelmente flutuações cambiais, decisões de sourcing pontuais e a natureza esporádica destas trocas transatlânticas num setor dominado por fornecedores regionais.
3.3. Choques de preço pontuais em 2022–2023 marcam o período
A análise de choques identificou três eventos significativos de preço no período:
-
Turquia (exportações, 2022): anomalia de preço de 65,3, com um aumento de 38,8% — consistente com a desvalorização da lira turca e o aumento de custos locais de produção.
-
Suíça (importações, 2023): anomalia de 8,5, com subida de 17,5% — possivelmente relacionada com apreciação do franco suíço e reajustamentos de preços no mercado helvético.
-
África do Sul (exportações, 2022): anomalia de 5,0, com subida de 36,9% — refletindo provavelmente o impacto de custos logísticos e desafios de fornecimento.
Estes choques de preço pontuais, embora localizados, ilustram a crescente exposição do setor a fatores macroeconómicos e cambiais.
3.4. A UE intensifica a sua inserção comercial e a propensão exportadora
Dois indicadores estruturais confirmam a crescente internacionalização do setor europeu:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Intensidade comercial (%) | 21,3 | 33,8 | +59,0% |
| Propensão exportadora (%) | 17,2 | 30,6 | +78,0% |
| Dependência líquida de importações (%) | -13,6 | -34,5 | -153,9% |
A propensão exportadora, que mede a quota da produção nacional que é exportada, cresceu de 17,2% para 30,6%, registando uma saliente pontuação de 97,4 num índice de 0 a 100. Este crescimento reflecte uma crescente orientação da produção europeia para mercados externos, numa lógica de aproveitamento de economias de escala e da reputação de qualidade dos fabricantes europeus.
Conclusão
O setor dos artigos higiénicos (CN 9619) na UE apresentou, entre 2015 e 2025, uma evolução marcada por três dinâmicas principais: (1) uma subida consistente dos preços que sustentou o crescimento em valor apesar da contração dos volumes transacionados; (2) uma reconfiguração geográfica significativa, com a consolidação da China como principal fornecedor extra-UE, a queda das exportações para a Rússia e a diversificação para mercados como os EUA e a Austrália; e (3) um reforço da base produtiva europeia que garantiu ao bloco uma posição de exportador líquido robusto, com uma propensão exportadora crescente.
A concentração crescente das trocas, tanto em importações como em exportações, constitui um risco potencial de dependência. A rápida ascensão da China como fornecedor, em particular, merece acompanhamento atento num contexto de crescentes tensões comerciais. No entanto, a robustez da produção interna da UE e a estabilidade dos fluxos com parceiros estratégicos como o Reino Unido e a Suíça conferem ao setor uma base de resiliência sólida para enfrentar futuros desafios.