Evolução do mercado: Outras gorduras e óleos animais (CN 1506) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no que respeita à posição pautal CN 1506 — "Outras gorduras e óleos animais e suas frações, mesmo refinados, mas não quimicamente modificados (excl. gordura de porco, gordura de aves, gorduras de animais bovinos, ovinos e caprinos, gorduras de peixes e outros animais marinhos, estearina de banha, óleo de banha, oleoestearina, oleomargarina, óleo de sebo, suarda e substâncias gordas dela derivadas)" — no período compreendido entre 2015 e 2025. Esta posição, classificada como residual dentro do capítulo 15, abrange uma variedade de gorduras e óleos de origem animal que não se enquadram nas categorias mais específicas do capítulo.
A análise baseia-se em dados de comércio extra-UE e incide sobre três eixos principais: a reconfiguração do perfil exportador da UE, a reorganização geográfica dos parceiros comerciais e os fatores de vulnerabilidade e volatilidade que marcaram o período. O período em análise é particularmente relevante por abranger múltiplos choques — desde a pandemia de COVID-19 até às alterações nas cadeias de abastecimento pós-Brexit — que deixaram marcas visíveis nos fluxos comerciais.
1. A transformação exportadora: de volume residual a pilar do balanço comercial
1.1. Exportações com crescimento exponencial em volume
O dado mais marcante do período é o crescimento extraordinário das exportações da UE em volume. Entre 2015 e 2025, as exportações passaram de 8 651 toneladas para 66 896 toneladas, representando um aumento de 673,3%. Em termos de valor, o crescimento foi de 115,8% (de €31,5 milhões para €68,0 milhões), o que evidencia uma dinâmica de preços oposta à do volume.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor das exportações (€) | 31 523 339 | 68 039 697 | +115,8% |
| Volume das exportações (t) | 8 651 | 66 896 | +673,3% |
| Preço unitário das exportações (€/t) | 3 644 | 1 017 | −72,1% |
1.2. A queda dos preços exportadores: sintoma de uma mudança estrutural
O preço médio de exportação desceu de 3 644 €/t em 2015 para 1 017 €/t em 2025 (−72,1%), tendo atingido um mínimo de 812 €/t durante o período. Esta queda acentuada sugere que a UE deixou de exportar predominantemente produtos de nicho de elevado valor acrescentado para assumir um papel de fornecedor de volume de gorduras animais a preços mais competitivos. Esta transição pode estar relacionada com o crescimento da procura de matérias-primas para alimentação animal e para a indústria de biocombustíveis, que tendem a operar a margens mais reduzidas.
1.3. Produção interna em ligeiro recuo
Paradoxalmente, a produção interna da UE em volume diminuiu 9,8% (de 864 milhões de kg para 780 milhões de kg), embora o valor da produção tenha aumentado 117,8% (de €289 milhões para €630 milhões). Esta combinação — produção em ligeiro declínio, exportações em forte crescimento e preços internos em subida — sugere um redirecionamento da produção europeia para mercados externos, possivelmente em resultado de uma procura interna mais estável mas de preços internacionais mais atrativos.
2. Reconfiguração geográfica: concentração exportadora e diversificação das importações
2.1. O domínio dos Estados Unidos como destino exportador
Os Estados Unidos tornaram-se o principal destino das exportações da UE, crescendo de €17,4 milhões em 2015 para €62,7 milhões em 2025 (+260,8%). Esta evolução é tanto mais notável quanto, em 2025, os EUA representavam já mais de 92% do valor total das exportações extra-UE. A concentração no mercado norte-americano é confirmada pelo índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das exportações, que subiu de 5 338 para 8 562 (+60,4%), atingindo níveis que indicam uma elevada concentração.
| Parceiro exportação | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 17 374 365 | 62 693 620 | +260,8% |
| Reino Unido | 2 897 669 | 250 723 | −91,3% |
| Sérvia | 59 303 | 2 730 317 | +4 504,0% |
| Suíça | 1 243 819 | 894 139 | −28,1% |
| Japão | 154 509 | 245 294 | +58,8% |
| Taiwan | 764 | 121 198 | +15 763,6% |
2.2. O caso do choque de preços nas exportações para os EUA em 2019
Os dados revelam a existência de um choque de preços significativo nas exportações para os Estados Unidos em 2019, com uma variação anómala de +282,2% e um grau de anormalidade de 2,0 desvios-padrão. Este evento, que representou 90,2% do valor total das exportações nesse ano, coincide provavelmente com a reconfiguração das cadeias de abastecimento alimentar norte-americanas e com a crescente procura de gorduras animais para o setor de biocombustíveis renováveis (renewable diesel) nos EUA, que registou um forte crescimento a partir de 2018-2019.
2.3. Diversificação das fontes de importação
Em contraste com a crescente concentração das exportações, as importações da UE tornaram-se significativamente mais diversificadas. O HHI das importações desceu de 3 470 para 1 582 (−54,4%), passando de um nível moderadamente concentrado para um nível de baixa concentração.
| Parceiro importação | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 5 155 870 | 4 386 264 | −14,9% |
| Sérvia | 487 760 | 4 446 935 | +811,7% |
| Estados Unidos | 270 | 5 243 859 | n/d |
| Suíça | 438 991 | 2 856 202 | +550,6% |
| Islândia | 32 617 | 351 655 | +978,1% |
| Noruega | 432 018 | 1 444 259 | +234,3% |
A Sérvia emergiu como parceiro comercial bidirecional de relevo, com crescimento simultâneo nas importações (+811,7%) e exportações (+4 504,0%) da UE, refletindo a integração crescente dos Balcãs Ocidentais nas cadeias de valor europeias do setor.
2.4. A reversão do papel dos Países Baixos
Uma das transformações mais marcantes ocorreu nos Países Baixos. Em 2015, as exportações holandesas de CN 1506 para mercados extra-UE eram de apenas €452 175; em 205, atingiram €62,4 milhões, representando um aumento de 13 699%. Paralelamente, a Espanha — que em 2015 liderava as exportações com €25,8 milhões — praticamente desapareceu como exportador em 2025 (€15 355, −99,9%). Esta transferência de liderança sugere uma reorganização logística das exportações europeias, com o porto de Roterdão a assumir um papel central como hub de distribuição.
3. Autonomia, vulnerabilidade e o perfil de risco do setor
3.1. A UE consolida-se como exportador líquido
Ao longo do período, a UE reforçou significativamente a sua posição como exportador líquido de CN 1506. A dependência líquida de importações passou de −0,26% em 2015 para −6,70% em 2025, tendo atingido um mínimo de −13,09% em 2024. Valores negativos indicam que as exportações excedem as importações, o que confirma uma posição de autossuficiência e de contribuição positiva para a balança comercial.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações (%) | −0,26 | −6,70 | n/d |
| Intensidade comercial (%) | 1,04 | 11,44 | +1 002% |
| Propensão exportadora (%) | 0,65 | 9,02 | +1 286% |
| Saldo comercial (€) | 22 224 162 | 44 056 004 | +98,2% |
3.2. A internacionalização acelerada do setor
A propensão exportadora — que mede a razão entre as exportações e a produção interna — passou de 0,65% para 9,02%, um aumento de 1 286%. Este indicador, identificado como o de maior saliência analítica no período, confirma que o setor se reorientou fortemente para os mercados externos. A intensidade comercial seguiu uma trajetória semelhante, subindo de 1,04% para 11,44%, o que reflete um setor crescentemente exposto aos mercados internacionais.
3.3. Concentração geográfica como fonte de risco
Apesar da posição confortável como exportador líquido, a crescente concentração das exportações num único parceiro — os Estados Unidos — constitui um risco significativo. O HHI das exportações a atingir 8 562 em 2025 indica uma dependência acentuada. A elevada volatilidade registada nos fluxos para os EUA (coeficiente de variação de 1,71) e o choque de 2019 ilustram a fragilidade inerente a esta concentração. Qualquer alteração na política comercial norte-americana, na regulação de biocombustíveis ou na concorrência de fornecedores asiáticos ou latino-americanos poderia ter impactos significativos no setor europeu.
3.4. Especialização desigual entre Estados-Membros
A análise da vantagem comparativa revelada normalizada (RSCA) em 2025 mostra uma distribuição assimétrica da especialização no setor:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota na produção (%) |
|---|---|---|---|
| Eslováquia | 0,709 | 5,870 | 12,4% |
| Croácia | 0,664 | 4,948 | 2,0% |
| França | 0,546 | 3,408 | 26,6% |
| Bélgica | 0,348 | 2,069 | 17,5% |
| Países Baixos | −0,080 | 0,851 | 12,4% |
A Eslováquia, a Croácia e a França apresentam os valores mais elevados de especialização, enquanto países como a Finlândia (RSCA de −0,9996) e a República Checa (RSCA de −0,9995) são praticamente inexistentes no setor. A França, com 26,6% da produção da UE, permanece como o maior produtor, embora com uma quota de exportações extra-UE relativamente modesta (7,8%), o que sugere que parte significativa da sua produção é absorvida pelo mercado interno ou por comércio intra-UE.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma profunda transformação do mercado europeu de outras gorduras e óleos animais (CN 1506). A UE consolidou a sua posição como exportador líquido, com um saldo comercial que praticamente duplicou (de €22,2 milhões para €44,1 milhões). No entanto, esta evolução positiva esconde tensões estruturais significativas.
Por um lado, a reorientação do setor para a exportação — evidenciada pela propensão exportadora que passou de 0,65% para 9,02% — representa uma internacionalização bem-sucedida. Por outro, a crescente concentração das exportações nos Estados Unidos (mais de 92% do valor em 2025) e a queda acentuada dos preços exportadores (−72,1%) sugerem que a UE está a converter-se num fornecedor de volume para um mercado específico, com margens reduzidas e elevada exposição ao risco.
A diversificação das fontes de importação (HHI de importações em queda de 54,4%) é um desenvolvimento positivo do lado da segurança de abastecimento. Contudo, a especialização geográfica do setor permanece desigual entre os Estados-Membros, com a Eslováquia, a Croácia e a França a liderarem em termos de vantagem comparativa, e os Países Baixos a emergirem como o principal hub logístico de exportação.
Os decisores políticos deverão monitorizar atentamente a dependência do mercado norte-americano e avaliar a sustentabilidade de um modelo exportador assente em preços unitários em queda. A crescente procura global de gorduras animais para biocombustíveis pode sustentar esta trajetória a médio prazo, mas a volatilidade inerente (com coeficientes de variação que atingem 2,82 nos fluxos para o Chile e 2,35 para a China) exige cautela na projeção de cenários futuros.