Evolução do mercado: Óleo de amendoim (CN 1508) — 2015–2025
Introdução
O código CN 1508 abrange o óleo de amendoim e respetivas frações, mesmo refinados, mas não quimicamente modificados. Trata-se de um produto de nicho no panorama europeu das gorduras e óleos vegetais, com volumes de importação muito inferiores aos de óleo de palma, soja ou girassol. Contudo, o período 2015–2025 revelou dinâmicas estruturais significativas: a União Europeia reduziu fortemente os volumes importados e produzidos internamente, registou uma subida acentuada dos preços unitários, assistiu a uma reconfiguração radical dos parceiros de abastecimento e viu a sua posição líquida passar de excedentária para claramente deficitária. O presente relatório analisa estas tendências com base nos dados disponíveis, organizados em três eixos temáticos.
1. Contracção volumétrica e encarecimento: um mercado a encolher em quantidade mas a valorizar-se em preço
1.1. As importações perderam um terço do volume em década
O período em análise mostra uma redução persistente das importações da UE. O volume passou de 69 283 t em 2015 para 45 135 t em 2025, uma queda de −34,9 %. Em valor, a diminuição foi de 82 973 481 € para 65 972 203 € (−20,5 %). A diferença entre a queda volumétrica e a queda em valor reflecte a compensação pelo aumento dos preços unitários, que subiram de 1 198 €/t para 1 462 €/t (+22,0 %). O pico de importação em valor ocorreu em 2022 (108 156 473 €), coincidindo com a crise de preços energéticos e alimentares pós-pandemia e após a invasão da Ucrânia (ver dados de comércio).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações — valor (EUR) | 82 973 481 | 65 972 203 | −20,5 % |
| Importações — volume (t) | 69 283 | 45 135 | −34,9 % |
| Importações — preço (EUR/t) | 1 198 | 1 462 | +22,0 % |
1.2. As exportações ganharam valor apesar da perda de volume
As exportações da UE apresentaram um padrão inverso ao das importações no que diz respeito ao valor: apesar de uma queda de 28,4 % no volume (de 9 135 t para 6 545 t), o valor das exportações subiu 21,5 % (de 14 031 119 € para 17 043 627 €). Esta divergência é explicada por uma subida ainda mais pronunciada dos preços de exportação, que cresceram 69,5 % — de 1 536 €/t para 2 604 €/t. A UE parece ter reorientado as suas exportações para produtos de maior valor acrescentado e/ou ter beneficiado de contextos de mercado favoráveis em certos destinos.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor (EUR) | 14 031 119 | 17 043 627 | +21,5 % |
| Exportações — volume (t) | 9 135 | 6 545 | −28,4 % |
| Exportações — preço (EUR/t) | 1 536 | 2 604 | +69,5 % |
1.3. A produção interna da UE sofreu uma contracção acentuada
Os dados de produção revelam uma queda dramática do volume produzido: de 79 103 t para 42 039 t (−46,9 %). Em valor, a produção manteve-se perto dos 100 846 522 € (praticamente estável, −0,1 %), o que implica que o preço unitário da produção duplicou aproximadamente. A estabilidade do valor apesar da quebra do volume sugere que os produtores europeus se concentraram em segmentos mais rentáveis ou que a inflação dos custos das matérias-primas se reflectiu integralmente nos preços de saída.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Produção — volume (kg) | 79 102 996 | 42 038 612 | −46,9 % |
| Produção — valor (EUR) | 100 994 850 | 100 846 522 | −0,1 % |
2. Reconfiguração geográfica: novos fornecedores e consolidação da especialização europeia
2.1. O colapso dos fornecedores africanos e a ascensão da América Latina
A análise dos principais parceiros de importação revela uma transformação profunda da geografia do abastecimento. Em 2015, o Senegal era o maior fornecedor da UE (31,1 M€), seguido pelo Brasil (19,95 M€) e a Argentina (10,17 M€). Em 2025, o Senegal praticamente desapareceu das importações (275 180 €, −99,1 %), enquanto o Brasil subiu para 30,74 M€ (+54,1 %) e a Argentina para 13,43 M€ (+32,0 %). A Nicarágua emergiu como um fornecedor crescente (de 8,19 M€ para 18,67 M€, +127,9 %).
| Parceiro | 2015 (EUR) | 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Brasil | 19 950 092 | 30 743 365 | +54,1 % |
| Argentina | 10 174 214 | 13 430 174 | +32,0 % |
| Senegal | 31 099 965 | 275 180 | −99,1 % |
| Nicarágua | 8 192 350 | 18 674 394 | +127,9 % |
| Gâmbia | 5 721 664 | 1 266 148 | −77,9 % |
| Estados Unidos | 5 883 579 | 1 700 795 | −71,1 % |
2.2. Itália e Países Baixos consolidam-se como os principais importadores europeus
Do lado dos Estados-Membros importadores, a Itália manteve-se como o maior importador (41,6 M€ em 2025, −4,4 % vs. 2015), reflectindo a tradição italiana de utilização de óleo de amendoim na indústria alimentar. Os Países Baixos cresceram de forma expressiva (de 6,28 M€ para 14,30 M€, +127,6 %), consolidando o seu papel de hub logístico europeu. Em contraste, a França (−73,6 %) e a Bélgica (−77,5 %) sofreram quedas acentuadas como importadores.
| Estado-Membro | 2015 (EUR) | 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Itália | 43 513 326 | 41 605 606 | −4,4 % |
| Países Baixos | 6 281 301 | 14 295 214 | +127,6 % |
| França | 21 471 143 | 5 659 767 | −73,6 % |
| Bélgica | 10 589 115 | 2 385 156 | −77,5 % |
| Alemanha | 704 551 | 1 568 740 | +122,7 % |
2.3. A especialização produtiva concentra-se no Benelux e em Itália
Os dados de especialização para 2025 mostram que os Países Baixos (RSCA de 0,51), a Itália (RSCA de 0,48) e a Bélgica (RSCA de 0,31) apresentam vantagens comparativas reveladas significativas na produção e comércio de óleo de amendoim. A quota dos Países Baixos na produção Prodcom europeia atinge 44,9 % e a da Itália 22,9 %. Em contraste, países como a Hungria, a República Checa, a Dinamarca, a Eslovénia e a Lituânia apresentam RSCA negativos próximos de −1, indicando ausência quase total de especialização neste produto.
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota prod. Prodcom |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 0,5112 | 3,0913 | 44,9 % |
| Itália | 0,4818 | 2,8598 | 22,9 % |
| Bélgica | 0,3134 | 1,9127 | 16,2 % |
| França | −0,0525 | 0,9002 | 7,0 % |
2.4. A Bélgica torna-se o principal exportador da UE
Nos destinos de exportação, a Bélgica tornou-se o principal exportador europeu (de 5,26 M€ para 10,49 M€, +99,6 %), ultrapassando a França (de 3,93 M€ para 519 000 €, −86,8 %). Os destinos principais são o Reino Unido (8,30 M€, +35,4 %) e a Noruega (3,26 M€, +39,4 %), dois mercados europeus não-UE com proximidade geográfica e afinidades regulamentares. Destaca-se ainda o crescimento exponencial das exportações para os Emirados Árabes Unidos (+6 338,7 %) e a Coreia do Sul (+871,0 %), ainda que em valores absolutos modestos.
3. Crescente vulnerabilidade externa e volatilidade nos canais de abastecimento
3.1. A UE passou de excedentária líquida a fortemente dependente das importações
O indicador de dependência líquida de importações documenta uma das transformações mais marcantes do período: em 2015, a UE apresentava um rácio de −11,3 % (ou seja, era ligeiramente excedentária em termos líquidos), enquanto em 2025 esse valor subiu para 37,3 % — uma variação de +429,3 %. A intensidade comercial cresceu de 13,0 % para 54,6 % (+321,6 %), confirmando que o comércio externo se tornou muito mais relevante para este mercado. A propensão para exportar também subiu (de 11,7 % para 19,0 %, +63,1 %), mas de forma insuficiente para compensar a dependência importadora.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações | −11,3 % | 37,3 % | +429,3 % |
| Intensidade comercial | 13,0 % | 54,6 % | +321,6 % |
| Propensão para exportar | 11,7 % | 19,0 % | +63,1 % |
| Saldo comercial (EUR) | −68 942 363 | −48 928 576 | +29,0 % |
3.2. A concentração das importações agravou-se, elevando o risco de abastecimento
O índice de concentração HHI das importações em valor subiu de 2 331 para 3 395 (+45,7 %). Em volume, a subida foi ainda mais acentuada (de 2 336 para 3 517, +50,6 %). Estes valores situam-se num patamar de concentração moderada-alta, sinalizando que a UE depende de poucos fornecedores para o seu abastecimento de óleo de amendoim. A concentração das exportações manteve-se mais estável (HHI em valor de 2 823 para 3 006, +6,5 %).
| Fluxo | HHI 2015 | HHI 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 2 331 | 3 395 | +45,7 % |
| Importações (volume) | 2 336 | 3 517 | +50,6 % |
| Exportações (valor) | 2 823 | 3 006 | +6,5 % |
| Exportações (volume) | 3 122 | 3 651 | +17,0 % |
3.3. A volatilidade é elevada em parceiros-chave, com choques de preço pontuais
A análise de volatilidade revela coeficientes de variação (CV) extremamente elevados em vários parceiros de importação, o que indica flutuações acentuadas de ano para ano. Os fornecedores africanos como o Sudão (CV = 1,67) e a Índia (CV = 2,57) — embora não figurem entre os maiores — apresentam instabilidade extrema. Mesmo parceiros maiores como os Estados Unidos (CV = 1,38) e o Senegal (CV = 0,95) exibem volatilidade elevada, reforçando o risco de abastecimento. Do lado das exportações, a Suíça registou um choque de preço em 2019 (anormalidade de 848,9, desvio de +83,3 %), com 10,2 % do valor total das exportações desse ano. Este episódio pode ter resultado de uma alteração na composição das exportações (óleo refinado vs. bruto) ou de um evento específico de mercado.
| Parceiro (importação) | CV | Parceiro (exportação) | CV |
|---|---|---|---|
| Índia | 2,57 | Hong Kong | 1,30 |
| Sudão | 1,67 | Suíça | 1,21 |
| Estados Unidos | 1,38 | Coreia do Sul | 1,16 |
| África do Sul | 1,17 | Emirados Árabes | 0,99 |
| Suíça | 1,35 | Arábia Saudita | 0,88 |
3.4. A segmentação por subproduto revela dois mercados distintos
Os dados de segmentação por produto mostram que a subposição 150810 (óleo de amendoim em bruto) domina absolutamente as importações em volume (44 875 t em 2025 vs. 260 t da subposição 150890), mas os seus preços são sistematicamente mais baixos (1 446 €/t em 2025). A subposição 150890 — que inclui o óleo refinado e outras frações — apresenta volumes residuais mas preços muito mais elevados nas importações (4 153 €/t) e sobretudo nas exportações. Com efeito, o preço de exportação do óleo em bruto (150810) atingiu valores extraordinários em 2024–2025 (11 959 €/t e 14 921 €/t, respetivamente), muito acima dos preços históricos, o que pode reflectir vendas muito pontuais ou de nicho de elevada qualidade. Em termos de exportações, a subposição 150890 é a dominante em valor (16,24 M€ em 2025), confirmando que a UE exporta sobretudo produto refinado ou transformado, enquanto importa maioritariamente óleo bruto para refinação interna.
| Subposição | Descrição | Import. vol. 2025 (t) | Import. preço 2025 (€/t) | Export. vol. 2025 (t) | Export. preço 2025 (€/t) |
|---|---|---|---|---|---|
| 150810 | Óleo em bruto | 44 875 | 1 446 | 54 | 14 921 |
| 150890 | Refinado e outras frações | 260 | 4 153 | 6 491 | 2 502 |
Conclusão
O mercado europeu do óleo de amendoim (CN 1508) sofreu uma transformação estrutural profunda entre 2015 e 2025. A contracção acentuada dos volumes — tanto importados (−35 %) como produzidos internamente (−47 %) — contrasta com a estabilização ou crescimento dos valores em euros, reflectindo um encarecimento generalizado da matéria-prima. A geografia do abastecimento reconfigurou-se radicalmente: os fornecedores africanos, em especial o Senegal, cederam terreno perante os produtores latino-americanos (Brasil, Argentina, Nicarágua), elevando a concentração das importações (HHI +46 %) e, potencialmente, a exposição a riscos geopolíticos ou climáticos numa região mais restrita. A Itália consolidou-se como o principal mercado europeu, enquanto os Países Baixos e a Bélgica ganharam protagonismo como hub logístico e exportador, respetivamente. A passagem de uma posição líquida excedentária (−11,3 %) para uma dependência importadora de 37,3 % constitui o dado mais relevante do período em termos de autonomia estratégica. A elevada volatilidade em múltiplos canais de abastecimento e a ocorrência de choques de preço pontuais reforçam a necessidade de uma monitorização atenta deste mercado de nicho, que, embora de dimensão modesta em comparação com outros óleos vegetais, apresenta fragilidades de abastecimento cada vez mais evidentes.