Evolução do mercado: Óleo de soja (CN 1507) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no que respeita ao código pautal 1507 — óleo de soja e respetivas frações, mesmo refinados, mas não quimicamente modificados — no período compreendido entre 2015 e 2025. O produto abrange tanto o óleo em bruto (150710) como o óleo refinado (150790), e insere-se no capítulo 15 da Nomenclatura Combinada relativo a gorduras e óleos animais, vegetais ou de origem microbiana.
O período em análise foi marcado por transformações estruturais profundas: a UE passou de uma posição de superávit comercial líquido para uma condição de dependência importadora, num contexto de alterações geopolíticas significativas e de subida acentuada dos preços internacionais.
1. A inversão da balança comercial: de exportador líquido a importador líquido
1.1. O declínio das exportações europeias em volume e valor
Ao longo da década analisada, as exportações da UE de óleo de soja registaram uma quebra acentuada, tanto em volume como em valor:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (M EUR) | 817,9 | 669,3 | -18,2% |
| Quantidade (mil t) | 1 173,3 | 648,9 | -44,7% |
| Preço médio (EUR/t) | 697,1 | 1 031,5 | +48,0% |
A queda nas exportações — ver evolução no painel geral — foi particularmente pronunciada no volume (-44,7%), o que sugere uma redução estrutural da capacidade ou da competitividade exportadora europeia. A subida dos preços (+48%) apenas parcialmente compensou esta perda, resultando num declínio global do valor exportado.
1.2. O crescimento acelerado das importações
Em contraste, as importações cresceram de forma espetacular:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (M EUR) | 217,4 | 753,1 | +246,4% |
| Quantidade (mil t) | 317,3 | 753,8 | +137,6% |
| Preço médio (EUR/t) | 685,2 | 999,0 | +45,8% |
O valor das importações mais do que triplicou em termos reais, enquanto o volume mais do que duplicou. A intensificação das importações de óleo bruto (150710) foi o motor principal deste crescimento, com as quantidades a passarem de 292,9 mil toneladas em 2015 para 692,4 mil toneladas em 2025.
1.3. A reversão do saldo comercial
A conjugação destas tendências conduziu a uma transformação radical da posição comercial da UE:
| Ano | Saldo comercial (M EUR) |
|---|---|
| 2015 | +600,5 |
| 2019 | +559,8 |
| 2021 | +518,2 |
| 2023 | +272,6 |
| 2025 | -83,8 |
O saldo comercial passou de um superávit de 600,5 M EUR em 2015 para um défice de 83,8 M EUR em 2025, uma variação de -113,9%. Em termos de dependência líquida de importações, o indicador passou de -25,9% (autossuficiência exportadora) para +39,4% (dependência importadora), uma variação de +251,8%.
2. Reestruturação geográfica: a ascensão da Ucrânia e a concentração das importações
2.1. A Ucrânia como parceiro dominante nas importações
A transformação mais marcante do período foi a ascensão da Ucrânia como principal fornecedor de óleo de soja à UE:
| Parceiro | Importações 2015 (M EUR) | Importações 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Ucrânia | 38,1 | 500,1 | +1 210,9% |
| Noruega | 48,4 | 65,5 | +35,5% |
| Sérvia | 43,6 | 56,4 | +29,3% |
| Argentina | 0,7 | 39,6 | n/d* |
| Reino Unido | 22,3 | 30,6 | +37,6% |
| Rússia | 33,4 | 0,4 | -100,0% |
| Paraguai | 23,8 | 6,5 | -72,6% |
A Ucrânia passou de 38,1 M EUR em 2015 para 500,1 M EUR em 2025, representando 66,4% do valor total das importações em 2025. Este crescimento espetacular reflete provavelmente os efeitos do Acordo de Associação UE-Ucrânia e, posteriormente, a liberalização comercial temporária introduzida após a invasão russa de 2022, que incluiu a suspensão de direitos aduaneiros sobre produtos agrícolas ucranianos.
2.2. A eliminação da Rússia e a volatilidade dos fornecedores sul-americanos
A Rússia, que em 2015 representava 33,4 M EUR em exportações para a UE, praticamente desapareceu do mapa comercial em 2025 (424 EUR). Esta evolução reflete as sanções comerciais impostas no contexto do conflito russo-ucraniano.
Por sua vez, os fornecedores tradicionais sul-americanos apresentaram um comportamento altamente volátil:
- Argentina: coeficiente de variação (CV) de 1,25, com importações a oscilarem entre 0,7 M EUR e 218,8 M EUR
- Paraguai: CV de 0,79, com flutuações entre 0,2 M EUR e 51,2 M EUR
- Estados Unidos: CV de 1,63, indicando uma elevada instabilidade
2.3. Aumento da concentração das importações
O Índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor cresceu de forma acentuada:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| HHI importações (valor) | 1 668,8 | 4 604,5 | +175,9% |
| HHI exportações (valor) | 1 582,4 | 2 436,9 | +54,0% |
O HHI das importações ultrapassou os 4 500 pontos, o que, segundo a classificação convencional, indica um mercado altamente concentrado. A dominância da Ucrânia como fornecedor único implica uma elevada vulnerabilidade da UE a choques de oferta provenientes desse país, nomeadamente num contexto de conflito armado em curso.
2.4. A consolidação das exportações em poucos destinos
Do lado das exportações, a concentração também aumentou, embora de forma menos acentuada. Os principais destinos registaram evoluções divergentes:
| Destino | Exportações 2015 (M EUR) | Exportações 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Marrocos | 227,5 | 271,5 | +19,4% |
| Reino Unido | 92,0 | 166,0 | +80,5% |
| Argélia | 166,5 | 76,0 | -54,4% |
| Egipto | 101,5 | 13,5 | -86,7% |
| África do Sul | 57,9 | 10,0 | -82,8% |
| Tunísia | 19,2 | 4,9 | -74,6% |
Enquanto Marrocos e o Reino Unido reforçaram a sua posição, os mercados norte-africanos e sul-africanos registaram quebras acentuadas, o que sugere uma reorientação geográfica das exportações europeias.
3. Dinâmicas internas: produção, segmentação de produto e especialização dos Estados-Membros
3.1. O crescimento da produção europeia apesar da perda de competitividade externa
A produção interna da UE de óleo de soja cresceu significativamente ao longo do período:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Quantidade (M kg) | 1 705,4 | 3 399,6 | +99,3% |
| Valor (M EUR) | 946,7 | 1 778,4 | +87,9% |
A produção mais do que duplicou em volume, o que, em teoria, deveria ter sustentado as exportações. No entanto, o crescimento da procura interna — evidenciado pelo aumento da intensidade comercial de 22,2% para 73,8% — sugere que a produção adicional foi absorvida pelo mercado interno, não se traduzindo em maiores exportações.
3.2. A segmentação do produto: domínio do óleo bruto nas importações
A decomposição por subproduto revela padrões distintos entre importações e exportações:
Importações (quantidades em mil toneladas):
| Subproduto | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Óleo bruto (150710) | 292,9 | 692,4 | +136,4% |
| Óleo refinado (150790) | 24,5 | 61,4 | +150,9% |
Exportações (quantidades em mil toneladas):
| Subproduto | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Óleo bruto (150710) | 958,9 | 455,2 | -52,5% |
| Óleo refinado (150790) | 214,4 | 193,6 | -9,7% |
O óleo bruto (150710) domina claramente tanto as importações como as exportações. Nas importações, o crescimento do óleo bruto (+136,4%) reflete a crescente dependência externa para alimentação da indústria de refinação europeia. Nas exportações, a quebra do óleo bruto (-52,5%) foi mais acentuada do que a do óleo refinado (-9,7%), sugerindo que a UE manteve alguma capacidade de refinação mas perdeu competitividade na exportação de matéria-prima.
3.3. Especialização dos Estados-Membros e redistribuição das rotas comerciais internas
Os Estados-Membros mais especializados na exportação de óleo de soja em 2025 foram:
| Estado-Membro | RCA normalizado (RSCA) | Índice RCA | Quota na produção UE |
|---|---|---|---|
| Portugal | 0,563 | 3,581 | 4,9% |
| Países Baixos | 0,470 | 2,776 | 40,3% |
| Polónia | 0,436 | 2,545 | 16,9% |
| Espanha | 0,365 | 2,152 | 12,5% |
| Eslovénia | 0,228 | 1,591 | 1,6% |
Os Países Baixos e a Espanha, tradicionais centros de escoamento de óleos vegetais na Europa, mantiveram a sua posição de destaque. Contudo, é de notar a ascensão da Polónia como ator relevante: as suas importações passaram de 31,8 M EUR em 2015 para 398,6 M EUR em 2025 (+1 151,8%), consolidando-a como o principal Estado-Membro importador. A Itália seguiu uma trajetória semelhante no lado das exportações, com um crescimento de 13,7 M EUR para 141,3 M EUR (+932,8%).
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação estrutural no mercado europeu de óleo de soja (CN 1507). A UE transitou de uma posição de exportador líquido com um superávit de 600,5 M EUR em 2015 para uma condição de importador líquido com um défice de 83,8 M EUR em 2025. Esta reversão resultou da combinação de dois movimentos: (i) uma quebra acentuada das exportações, sobretudo para mercados africanos tradicionais; e (ii) um crescimento exponencial das importações, impulsionado pela Ucrânia, que em 2025 representava cerca de dois terços do valor total importado.
A crescente concentração das importações — com o HHI a quase triplicar — constitui um risco de segurança alimentar e de abastecimento, agravado pela dependência de um único fornecedor num contexto geopolítico instável. Paradoxalmente, a produção interna da UE mais do que duplicou no mesmo período, mas não foi suficiente para compensar o crescimento da procura interna e a erosão das capacidades exportadoras.
Os choques de preço detetados em 2021, com abnormalidades significativas nas importações da Argentina (+89,1%) e da Ucrânia (+68,5%), antecederam a escalada de preços de 2022 e evidenciam a sensibilidade do mercado europeu a perturbações na cadeia de abastecimento global de óleos vegetais. Os decisores políticos europeus deverão ponderar o reforço da diversificação das fontes de abastecimento e o estímulo à produção interna como medidas de mitigação destes riscos estruturais.