Evolução do mercado: Negro de fumo (CN 2803) — 2015–2025
Introdução
O negro de fumo (carbon black) é uma matéria-prima fundamental para indústrias como a dos pneus, borrachas, tintas e plásticos. Classificado na posição aduaneira CN 2803, este produto insere-se no capítulo 28 da Nomenclatura Combinada, relativo a produtos químicos inorgânicos, e mapeia-se ao código PRODCOM 20.13.21.30 ("Carbono (negros de carbono e outras formas de carbono, n.e.)").
O período 2015–2025 foi marcado por transformações estruturais profundas no comércio da União Europeia com países terceiros. A análise que se segue examina três dinâmicas centrais: a redução drástica da dependência importadora, a reconfiguração geográfica das rotas de fornecimento e escoamento, e o forte aumento dos preços acompanhado de episódios de volatilidade elevada. Os dados utilizados abrangem as trocas comerciais entre a UE e países terceiros em frequência anual, excluindo-se automaticamente os períodos incompletos.
1. Da dependência importadora à autonomia comercial
A primeira e mais marcante tendência do período é a melhoria radical da posição comercial da UE no mercado de negro de fumo. Em 2015, a União Europeia apresentava um défice comercial substancial com países terceiros, que se veio a reduzir de forma consistente até se aproximar do equilíbrio em 2025.
O saldo comercial convergiu para o equilíbrio
O saldo comercial da UE em CN 2803 evoluiu de -132,2 milhões de euros em 2015 para -13,6 milhões de euros em 2025, uma melhoria de 89,7%. O ponto mais crítico atingiu-se em termos negativos com um mínimo de -666,9 milhões de euros (não especificado o ano exato no intervalo), sinal de que a recuperação foi gradual mas inequívoca.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Saldo comercial (€) | -132,2 M€ | -13,6 M€ | +89,7% |
| Dependência líquida de importações | 11,2% | 4,3% | -61,8% |
A dependência líquida de importações caiu de 11,2% para 4,3%, atingindo o mínimo da série em 2025. Este indicador chegou a atingir um pico de 28,2% durante o período, evidenciando uma fase de vulnerabilidade importadora significativa que foi entretanto ultrapassada.
As importações caíram em volume enquanto as exportações se mantiveram
O motor desta melhoria foi sobretudo a redução acentuada do volume importado:
| Fluxo | Volume 2015 | Volume 2025 | Variação (%) | Valor 2015 | Valor 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Importações | 606,6 kt | 385,1 kt | -36,5% | 462,4 M€ | 592,2 M€ | +28,1% |
| Exportações | 208,7 kt | 203,5 kt | -2,5% | 330,2 M€ | 578,6 M€ | +75,2% |
As importações perderam mais de um terço do seu volume (de 606,6 mil toneladas para 385,1 mil toneladas), enquanto as exportações se mantiveram praticamente estáveis em termos de volume (~204 kt). Em valor, ambas as linhas cresceram significativamente, reflectindo o aumento generalizado dos preços. A convergência entre o valor das exportações (578,6 M€) e o valor das importações (592,2 M€) explica a quase neutralização do défice.
A propensão exportadora da UE quadruplicou
Um indicador revelador é a propensão exportadora — a razão entre exportações e produção interna — que subiu de 14,7% para 35,5% (+142,4%). Paralelamente, a intensidade comercial (exportações + importações relativas à produção) aumentou de 32,9% para 54,0% (+63,8%). Estes números sugerem que a indústria europeia de negro de fumo se reorientou de forma marcante para os mercados externos, transformando-se num exportador cada vez mais relevante.
A produção interna da UE, disponível em dados PRODCOM (volumes de produção), apresentou uma ligeira queda em quantidade (-9,1%, de 1,55 mil milhões de kg para 1,41 mil milhões de kg), mas um crescimento de 49,0% em valor (de 1,18 mil milhões de euros para 1,75 mil milhões de euros), reflectindo a valorização do produto. A maturação desta base produtiva, combinada com a queda das importações, foi decisiva para a melhoria da autonomia comercial.
2. Reconfiguração geográfica: perda de peso da Rússia e ascensão de novos parceiros
A segunda grande dinâmica do período é a profunda transformação das rotas comerciais. Os parceiros tradicionais perderam relevância, enquanto novos fornecedores e novos mercados de destino emergiram com força.
A Rússia perdeu a posição de principal fornecedor
A Federação Russa era, em 2015, de longe o maior fornecedor externo de negro de fumo para a UE, com importações no valor de 249,5 milhões de euros. Em 2025, esse valor desceu para 120,7 milhões de euros (-51,6%), tendo atingido um máximo de 534,6 milhões de euros nalgum ponto intermédio. A queda acentua-se a partir de 2022, em resultado das sanções e restrições comerciais aplicadas no contexto do conflito Rússia-Ucrânia.
Índia, Egito e Ucrânia preencheram o vazio
Os parceiros que mais cresceram em fornecimento à UE foram:
| País fornecedor | Valor 2015 | Valor 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Índia | 6,4 M€ | 141,8 M€ | +2.131,9% |
| China | 28,0 M€ | 103,8 M€ | +270,5% |
| Ucrânia | 17,7 M€ | 62,9 M€ | +254,5% |
| Egito | 29,0 M€ | 91,1 M€ | +214,0% |
| Canadá | 13,8 M€ | 21,9 M€ | +58,3% |
| Estados Unidos | 51,3 M€ | 58,4 M€ | +13,9% |
A Índia destaca-se de forma esmagadora: de um fornecimento marginal de 6,4 milhões de euros em 2015 para 141,8 milhões de euros em 2025, ultrapassando a própria Rússia como principal parceiro importador. A China, por sua vez, apresentou um percurso muito volátil (com um mínimo de 5,3 M€ e um máximo de 318,0 M€ no intervalo), mas terminou em 103,8 M€, consolidando-se como segundo maior fornecedor. O Egito e a Ucrânia reforçaram significativamente a sua posição, em linha com a procura europeia de alternativas ao fornecimento russo.
A concentração das importações caiu drasticamente
O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor desceu de 3.443 para 1.392 (-59,6%), o que indica uma diversificação muito significativa das fontes de abastecimento. Em 2015, a concentração era elevada (reflectindo o domínio russo); em 2025, o mercado encontra-se muito mais disperso, com múltiplos fornecedores a partilhar quotas relevantes. Em volume, a queda foi ainda mais acentuada (-65,4%), passando de 5.124 para 1.771.
As exportações europeias reorientaram-se para a China e a Turquia
Do lado das exportações, a China tornou-se de longe o principal destino, com vendas a saltar de 40,6 milhões de euros para 169,8 milhões de euros (+317,9%). A Turquia e a Sérvia também cresceram fortemente (+95,8% e +420,6%, respetivamente), enquanto o Reino Unido perdeu peso (-19,1%). Este padrão sugere que os produtores europeus de negro de fumo encontraram na Ásia e na região dos Balcãs/Oriente Próximo mercados de escoamento crescentes.
No interior da UE, os maiores exportadores em 2025 foram a Alemanha (172,1 M€), a Bélgica (191,5 M€, com crescimento de 307,4%) e a Itália (84,4 M€). A Bélgica emergiu como o maior exportador da UE, ultrapassando a Alemanha em valor, o que reflecte provavelmente o papel do porto de Antuérpia como hub logístico. Em termos de especialização, os Estados-Membros mais especializados em 2025 foram a Hungria (RSCA de 0,567), a Chéquia (0,375) e a Itália (0,280).
3. Preços em forte subida e episódios de choque
A terceira dinâmica central do período é a escalada generalizada dos preços unitários, tanto nas importações como nas exportações, acompanhada de episódios pontuais de volatilidade extrema que podem estar associados a perturbações na cadeia de abastecimento global.
Os preços unitários duplicaram em ambos os fluxos
| Fluxo | Preço 2015 (€/t) | Preço 2025 (€/t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações | 762 | 1.538 | +101,7% |
| Exportações | 1.582 | 2.843 | +79,7% |
O preço médio das importações duplicou, passando de 762 €/t para 1.538 €/t, com um mínimo de 599 €/t e um máximo de 1.681 €/t no intervalo. O preço médio das exportações cresceu 79,7%, de 1.582 €/t para 2.843 €/t. Note-se que o preço unitário de exportação é sistematicamente muito superior ao das importações (quase o dobro em 2025), o que pode reflectir diferenças na qualidade/qualificação do produto, ou a exportação de formas mais especializadas de negro de fumo com maior valor acrescentado.
A subida de preços explica em grande medida o paradoxo aparente de um crescimento significativo do valor comercial apesar da estagnação ou queda dos volumes. Factores como o aumento dos custos de energia (o negro de fumo é um produto energeticamente intensivo), as disrupções nas cadeias de abastecimento pós-COVID, e o efeito das sanções à Rússia contribuíram para a pressão inflacionária.
Choques de preço identificados em 2021–2022
A análise de volatilidade e choques revelou três eventos de choque significativos:
| Parceiro | Fluxo | Tipo | Ano central | Desvio anómalo | Variação (%) | Quota de valor |
|---|---|---|---|---|---|---|
| China | Importações | Preço | 2021 | 21,5 | +87,6% | 14,6% |
| EAU | Exportações | Preço | 2022 | 11,5 | +81,8% | 6,9% |
| China | Exportações | Preço | 2022 | 10,1 | +67,2% | 24,2% |
O choque mais severo nas importações ocorreu em 2021 com a China, com um desvio anómalo de 21,5 e uma subida de preço de 87,6%. Do lado das exportações, os EAU (2022) e a China (2022) registaram choços de preço igualmente relevantes. Estes eventos coincidem com a crise energética europeia e as disrupções logísticas do período pós-pandémico, que afetaram particularmente os custos de produção e transporte do negro de fumo.
A volatilidade varia consoante o parceiro
O coeficiente de variação das importações é mais elevado para a Índia (1,34) e a China (1,10), parceiros cujas relações comerciais com a UE são mais recentes e instáveis. Em contraste, o Canadá (0,17) e os Estados Unidos (0,26) apresentam perfis mais estáveis. Do lado das exportações, a Turquia (0,15) e a Suíça (0,08) são os mercados mais previsíveis, enquanto a Tailândia (0,59) e o Brasil (0,51) exibem maior volatilidade. Estes padrões reforçam a ideia de que a diversificação geográfica das exportações europeias trouxe tanto oportunidades como riscos.
Conclusão
O período 2015–2025 assistiu a uma transformação profunda do comércio externo da UE em negro de fumo (CN 2803). A dependência líquida de importações caiu de 11,2% para 4,3%, o saldo comercial aproximou-se do equilíbrio (-13,6 M€ face a -132,2 M€), e a propensão exportadora mais do que duplicou. Estes resultados reflectem uma combinação de fatores: a redução do volume importado (-36,5%), o crescimento das exportações em valor (+75,2%), e a revalorização da produção interna europeia (+49,0% em valor).
A geografia comercial reconfigurou-se de forma decisiva. A Rússia, outrora fornecedor dominante, perdeu metade do seu valor de exportação para a UE, num processo acelerado pelas sanções de 2022. A emergência da Índia como principal fornecedor (+2.132%) e a consolidação do Egito, Ucrânia e China como fontes alternativas ilustram a capacidade de adaptação do mercado europeu. Do lado exportador, a China tornou-se o principal destino das vendas europeias de negro de fumo, com a Turquia e a Sérvia a registarem também crescimentos expressivos.
Os preços duplicaram em ambos os fluxos, impulsionados por custos energéticos, disrupções pós-COVID e efeitos geopolíticos, com episódios de choque particularmente intensos nas relações com a China em 2021–2022. Apesar da maior exposição à volatilidade de alguns parceiros, a diversificação das fontes de abastecimento (refletida na queda de 59,6% do HHI de importações) confere à UE uma posição mais resiliente do que no início do período. Os riscos residuais concentram-se na dependência de parceiros com elevada instabilidade comercial, nomeadamente a China e a Índia, cujos coeficientes de variação são os mais elevados.