Evolução do mercado: Gases raros (CN 2804) — 2015–2025
Introdução
O código CN 2804 — Hidrogénio, gases raros e outros elementos não metálicos abrange um amplo leque de produtos industriais estratégicos, incluindo hidrogénio, árgon, néon, crípton, xénon, azoto, oxigénio, silício, fósforo, boro, telúrio e arsénio. Entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE neste setor passou por transformações profundas: a balança comercial deteriorou-se significativamente, com as importações a crescerem 19,1% em valor enquanto as exportações recuavam 9,8%. Este relatório analisa as principais dinâmicas observáveis, organizadas em torno de três eixos estruturais: a crescente dependência importadora, a reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais e a emergência do hidrogénio como produto de fronteira.
1. Deterioração da balança comercial e crescente dependência das importações
1.1. O défice comercial alargou-se de forma acentuada
Ao longo da década analisada, a balança comercial da UE em CN 2804 transitou de um equilíbrio quase simétrico para um défice significativo. Em 2015, o saldo era de −54,96 milhões de euros; em 2025, atingiu −430,97 milhões de euros, uma deterioração de 684,1%.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações (mil milhões EUR) | 1,262 | 1,137 | −9,8% |
| Importações (mil milhões EUR) | 1,316 | 1,568 | +19,1% |
| Saldo comercial (milhões EUR) | −55,0 | −431,0 | −684,1% |
1.2. As importações cresceram em volume e em valor
As importações passaram de 590 195 toneladas em 2015 para 647 200 toneladas em 2025 (+9,7% em quantidade), enquanto o preço médio subiu de 2 231 EUR/t para 2 423 EUR/t (+8,6%). O aumento do valor total das importações (+19,1%) reflete portanto tanto um crescimento físico das quantidades adquiridas como uma pressão inflacionária nos preços. A subida mais acentuada ocorreu em 2022, quando os preços de importação atingiram o máximo do período (3 629 EUR/t), impulsionados pela crise energética europeia.
1.3. A confiança líquida em importações inverteu-se
O índice de dependência líquida em importações revela uma inversão estrutural. Em 2015, a UE apresentava uma dependência ligeiramente negativa (−0,22%), ou seja, era marginalmente exportadora líquida. Em 2025, esse valor transformou-se em +1,61%, consolidando a posição de importador líquido. O máximo histórico foi registado em 2022 (4,26%), coincidindo com a crise energética europeia que provocou picos de preços e desvios de fornecimento.
1.4. A intensidade comercial e a propensão exportadora dispararam
Indicadores de intensidade comercial e de propensão exportadora registaram crescimentos exponenciais: a intensidade comercial subiu de 1,16% para 29,35% (+2 441%) e a propensão exportadora de 0,69% para 16,53% (+2 300%). Estes valores sugerem que o setor se tornou muito mais integrado no comércio internacional, com uma quota crescente da produção europeia a escoar-se para mercados externos e vice-versa — um sinal de maior abertura, mas também de maior exposição a riscos externos.
2. Choques de preços, volatilidade e reconfiguração geográfica dos parceiros
2.1. Três choques de preços de grande magnitude marcaram o período
A análise de choques identificou três eventos anómalos com impacto significativo:
| Parceiro | Tipo | Fluxo | Anomalia | Variação (%) | Ano | Peso no valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| China | Preço | Exportações | 118,6 | +128,5% | 2021 | 79,3% |
| Noruega | Preço | Importações | 25,0 | +102,7% | 2022 | 45,0% |
| Cazaquistão | Preço | Importações | 37,6 | +53,6% | 2022 | 15,1% |
O choque mais extraordinário ocorreu nas exportações para a China em 2021, quando o preço médio de exportação para esse parceiro praticamente duplicou, num momento em que a China representava 79,3% do valor total das exportações extra-UE. Em 2022, os fornecimentos da Noruega e do Cazaquistão — dois dos maiores parceiros de importação — sofreram aumentos de preço superiores a 50%, refletindo a pressão da crise energética europeia sobre as cadeias de abastecimento de gases industriais e silício.
2.2. A concentração das exportações diminuiu substancialmente
O índice HHI de concentração das exportações caiu de 2 156 para 1 186 (−45,0%), saindo de uma zona de concentração moderada-elevada para um nível considerado competitivo. Esta diversificação resultou sobretudo da redução do peso da China como destino de exportações:
| Parceiro | Exportações 2015 (milhões EUR) | Exportações 2025 (milhões EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 531,1 | 256,1 | −51,8% |
| Reino Unido | 115,3 | 86,5 | −25,0% |
| Noruega | 40,5 | 13,5 | −66,7% |
| Suíça | 12,7 | 24,3 | +91,8% |
| Ucrânia | 2,0 | 12,7 | +541,8% |
2.3. As importações mantiveram-se moderadamente concentradas, com alterações nos fornecedores
O HHI das importações subiu ligeiramente de 1 361 para 1 424 (+4,6%), mantendo-se num patamar de concentração moderada. A Noruega manteve-se como principal fornecedor (370 milhões EUR em 2025), mas o padrão dos restantes parceiros alterou-se significativamente:
| Parceiro | Importações 2015 (milhões EUR) | Importações 2025 (milhões EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Noruega | 331,3 | 370,4 | +11,8% |
| China | 228,1 | 160,4 | −29,7% |
| Cazaquistão | 128,1 | 125,8 | −1,8% |
| Brasil | 22,6 | 75,2 | +233,1% |
| Sérvia | 4,8 | 11,9 | +150,5% |
| Reino Unido | 40,7 | 19,3 | −52,7% |
O crescimento exponencial das importações do Brasil (+233%) e da Sérvia (+151%) sugere o surgimento de novas cadeias de abastecimento, possivelmente ligadas ao silício e a matérias-primas para a transição energética.
2.4. A volatilidade varia significativamente entre parceiros
O coeficiente de variação revela padrões de volatilidade muito díspares. Nos parceiros de importação, os Estados Unidos (CV 1,32), a Rússia (CV 0,43) e a China (CV 0,42) apresentam a maior instabilidade. Nos parceiros de exportação, a Sérvia (CV 0,76), a Ucrânia (CV 0,67) e o Marrocos (CV 0,58) lideram a volatilidade. Por contraste, o comércio com a Noruega e a Suíça apresenta CVs baixos (0,13 e 0,12 respetivamente nas importações), sugerindo relações comerciais mais estáveis e estruturadas.
3. Transformação do panorama produtivo: a emergência do hidrogénio e o declínio do silício de alta pureza
3.1. O hidrogénio tornou-se o produto com maior crescimento em importações
O segmento mais surpreendente da evolução do CN 2804 é a explosão das importações de hidrogénio (CN 280410). Em 2015, a UE importou apenas 174 toneladas de hidrogénio por ano; em 2025, esse valor atingiu 57 475 toneladas — um crescimento de mais de 32 900%. Em valor, as importações passaram de 703 mil euros para 6,79 milhões de euros.
| Ano | Importações H₂ (t) | Importações H₂ (milhões EUR) | Preço (EUR/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 174 | 0,70 | 4 028 |
| 2020 | 87 | 0,73 | 8 403 |
| 2022 | 492 | 3,91 | 7 926 |
| 2025 | 57 475 | 6,79 | 118 |
O preço médio do hidrogénio importado desceu de forma espetacular, de 8 403 EUR/t em 2020 para 118 EUR/t em 2025, sugerindo uma mudança radical no tipo de produto importado (de hidrogénio de alta pureza para hidrogénio industrial em volumes muito maiores). Este desenvolvimento reflete a estratégia da UE de preparar a infraestrutura para a economia do hidrogénio, conforme previsto no plano REPowerEU.
3.2. As terras raras (excluindo árgon) tornaram-se o principal segmento de importação por valor
O segmento CN 280429 — Gases raros (excl. árgon), que inclui néon, crípton e xénon, tornou-se a principal categoria de importação em valor. As importações cresceram de 193,9 milhões EUR em 2015 para 481,2 milhões EUR em 2025 (+148%), com as quantidades a triplicar de 4 934 para 14 145 toneladas. O preço médio manteve-se entre 32 820 e 47 649 EUR/t na maior parte do período, atingindo o pico em 2022 (52 767 EUR/t). Este crescimento reflete a importância estratégica destes gases na indústria de semicondutores e na iluminação especializada.
3.3. O silício de alta pureza perdeu peso como motor das exportações
O silício ≥99,99% (CN 280461), que em 2015 representava o produto dominante nas exportações da UE (1 063 milhões EUR, ~84% do total), sofreu uma contração significativa. Em 2025, o valor das exportações desceu para 766 milhões EUR (−28%), e a quantidade caiu de 52 092 para 26 075 toneladas (−50%). Este declínio parcial reflete a concorrência crescente de produtores asiáticos e a reconfiguração das cadeias de valor do silício fotovoltaico. O preço médio de exportação subiu de 20 414 EUR/t para 29 373 EUR/t (+44%), sugerindo que a UE se reorientou para segmentos de maior valor acrescentado.
3.4. A produção europeia cresceu em valor, mas as especializações variam entre Estados-Membros
Os dados de produção indicam um crescimento da produção europeia de 14,7% em quantidade (de 48 442 para 55 571 milhões de kg) e de 117,2% em valor (de 4 338 para 9 424 milhões EUR), refletindo a valorização dos produtos e o investimento em capacidade industrial.
A análise de especialização revela que a Croácia (RSCA 0,42), os Países Baixos (RSCA 0,35), a França (RSCA 0,31) e a Bélgica (RSCA 0,24) são os Estados-Membros mais especializados na produção de CN 2804. Os Países Baixos, em particular, combinam elevada especialização com uma quota significativa da produção europeia (30,0%). No extremo oposto, Luxemburgo (RSCA −1,00) e a Irlanda (RSCA −0,91) apresentam quase nenhuma especialização neste setor.
| Estado-Membro | RSCA | Quota na produção UE (%) | Quota no comércio UE (%) |
|---|---|---|---|
| Croácia | 0,4248 | 1,0% | 0,4% |
| Países Baixos | 0,3477 | 30,0% | 14,5% |
| França | 0,3067 | 14,7% | 7,8% |
| Bélgica | 0,2403 | 13,8% | 8,5% |
| Alemanha | — | — | 69,0% (exportações) |
3.5. A Alemanha domina o comércio, mas os Países Baixos e a França ganham protagonismo
A distribuição do comércio por Estado-Membro mostra que a Alemanha continua a ser o principal ator, com 788 milhões EUR em exportações (69% do total da UE) e 517 milhões EUR em importações (33%). No entanto, a quota alemã nas exportações está em declínio (−26,1% desde 2015), enquanto a França (+99,7%), os Países Baixos (+38,8%) e a Dinamarca (+1 399%) registam crescimentos expressivos. A Dinamarca, em particular, saltou de 5,4 milhões EUR para 80,9 milhões EUR em exportações, refletindo provavelmente investimentos em produção de gases industriais e/ou silício no contexto da transição energética.
Conclusão
O mercado europeu do CN 2804 sofreu uma transformação profunda entre 2015 e 2025, marcada por três tendências convergentes: a deterioração da balança comercial, a reconfiguração das cadeias de abastecimento geográficas e a emergência do hidrogénio como produto estratégico.
A passagem de uma posição de equilíbrio comercial para um défice de 431 milhões EUR reflete não apenas o crescimento da procura interna, mas também o aumento dos preços de importação — amplificado pela crise energética de 2022. A diversificação dos parceiros de exportação (HHI de 2 156 para 1 186) representa um ganho de resiliência, mas a concentração moderada das importações (HHI ~1 424) mantém a UE exposta a riscos de fornecimento, sobretudo em terras raras e silício.
O crescimento exponencial das importações de hidrogénio (de 174 para 57 475 toneladas) antecipa a futura economia do hidrogénio europeia, mas revela simultaneamente uma dependência nascente que importará gerir. O declínio parcial do silício de alta pureza como produto de exportação dominante, substituído por um mix mais diversificado, sugere uma adaptação da base industrial europeia a novas realidades competitivas globais.