Evolução do mercado: Ácido nítrico (CN 2808) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código aduaneiro 2808 — Ácido nítrico; ácidos sulfonítricos — no período compreendido entre 2015 e 2025. Este produto, classificado na posição 28 do Sistema Harmonizado (produtos químicos inorgânicos), encontra aplicações industriais relevantes, nomeadamente na produção de fertilizantes (através do ácido nítrico) e em processos de síntese química. O período em análise abrangeu eventos macroeconómicos significativos, incluindo a pandemia de COVID-19, a crise energética europeia de 2022 e as alterações nas cadeias de abastecimento globais.
A análise baseia-se exclusivamente nos dados estatísticos disponíveis, cobrindo as trocas comerciais totais da UE com países terceiros, e estrutura-se em três eixos principais: a dinâmica dos volumes e preços, a reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais, e a autonomia estratégica do bloco europeu.
1. A transformação dos fluxos: menos volume, mais valor
1.1. As exportações crescem em valor apesar da contração dos volumes
Ao longo da década analisada, as exportações da UE de ácido nítrico registaram uma evolução paradoxal: enquanto o volume diminuiu 22,3% (de 184 752 toneladas em 2015 para 143 592 toneladas em 2025), o valor total das exportações cresceu 24,0%, atingindo 48,2 milhões de euros em 2025. Esta aparente contradição explica-se pela forte valorização dos preços médios de exportação, que subiram de 210,47 EUR/t para 335,74 EUR/t (+59,5%). O pico de preço foi registado em 2022, quando o preço médio atingiu 656,52 EUR/t, refletindo a escalada de preços energéticos que afetou toda a indústria química europeia.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor (milhões EUR) | 38,9 | 48,2 | +24,0% |
| Exportações — quantidade (milhares t) | 184,8 | 143,6 | −22,3% |
| Exportações — preço médio (EUR/t) | 210,47 | 335,74 | +59,5% |
1.2. As importações triplicam em volume, sinalizando uma procura crescente
Em contraste com a trajetória das exportações, as importações da UE registaram um crescimento muito significativo tanto em volume como em valor. A quantidade importada quase triplicou, passando de 22 341 toneladas para 61 543 toneladas (+175,5%), enquanto o valor ascendeu de 6,1 milhões para 14,9 milhões de euros (+141,9%). Curiosamente, o preço médio de importação diminuiu 12,2%, de 275,16 EUR/t para 241,66 EUR/t, sugerindo que a UE beneficiou de fontes de abastecimento com preços competitivos.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações — valor (milhões EUR) | 6,1 | 14,9 | +141,9% |
| Importações — quantidade (milhares t) | 22,3 | 61,5 | +175,5% |
| Importações — preço médio (EUR/t) | 275,16 | 241,66 | −12,2% |
1.3. A balança comercial permanece estruturalmente positiva
Apesar do crescimento acentuado das importações, a UE manteve uma balança comercial positiva ao longo de todo o período. O excedente situou-se nos 33,3 milhões de euros em 2025, ligeiramente acima dos 32,7 milhões de 2015 (+1,8%). Contudo, o ponto mínimo registou-se em 2020-2021, com apenas 9,1 milhões de euros, evidenciando o impacto da pandemia e da subsequente crise energética. A recuperação até 2025 reflete a reestruturação da indústria química europeia em resposta a estes choques, conforme detalhado nos dados gerais de comércio.
2. Reconfiguração geográfica: a ascensão da Noruega e a concentração das importações
2.1. A Noruega torna-se o principal fornecedor da UE
A transformação mais marcante no mapa dos parceiros comerciais da UE ocorreu no lado das importações, onde a Noruega emergiu como o parceiro dominante. O valor das importações da UE provenientes da Noruega cresceu de 1,5 milhões para 9,8 milhões de euros entre 2015 e 2025, representando uma variação de +555,0%. Este crescimento reflete provavelmente a proximidade geográfica, os baixos custos energéticos noruegueses (essenciais para a produção de ácido nítrico) e a integração da Noruega no mercado único europeu através do Acordo EEE. O pico de importações norueguesas foi registado em 2022, com 20,4 milhões de euros, em plena crise energética europeia.
2.2. O desaparecimento da Rússia como fornecedor
Em contraste direto com o crescimento norueguês, as importações da UE provenientes da Rússia colapsaram de 334 748 euros para apenas 32 967 euros (−90,2%). Esta redução acentuada coincide com as sanções comerciais impostas após 2022 e reflete a desconexão estratégica da UE em relação aos fornecedores russos de produtos químicos. A Suíça também registou uma redução significativa (−81,4%), passando de 1,7 milhões para 316 494 euros.
| Parceiro (importações) | 2015 (EUR) | 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Noruega | 1 491 708 | 9 769 986 | +555,0% |
| Reino Unido | 1 620 079 | 2 847 387 | +75,8% |
| Estados Unidos | 525 181 | 858 504 | +63,5% |
| Canadá | 26 605 | 868 981 | +3 166,2% |
| Suíça | 1 699 573 | 316 494 | −81,4% |
| Rússia | 334 748 | 32 967 | −90,2% |
Fonte: principais parceiros por valor
2.3. A concentração das importações duplica, enquanto as exportações se diversificam
O Índice Herfindahl-Hirschman (HHI) para as importações da UE praticamente duplicou, passando de 2 474 para 4 867 (+96,7%), indicando uma concentração crescente em poucos fornecedores — sobretudo a Noruega. Em contraste, o HHI das exportações diminuiu de 1 179 para 994 (−15,7%), sugerindo uma maior diversificação dos mercados de destino. Esta assimetria é relevante do ponto de vista estratégico: enquanto a UE depende cada vez mais de um número reduzido de fornecedores para as suas importações, consegue distribuir as suas exportações por um leque mais alargado de parceiros. A análise de concentração confirma esta dualidade.
2.4. Marrocos e a Suíça ganham relevância como mercados de destino
Do lado das exportações, os parceiros com maior crescimento foram a Suíça (+375,4%, de 1,2 para 5,7 milhões de euros), Marrocos (+114,7%, de 3,7 para 8,0 milhões) e a Ucrânia (+108,7%). A Bélgica manteve-se como o principal exportador intra-UE, com crescimento de 49,3%, enquanto a Polónia registou um colapso quase total das exportações (−99,5%), sinalizando uma reestruturação profunda da sua indústria química.
3. Autonomia estratégica e vulnerabilidades emergentes
3.1. A UE permanece exportador líquido, mas a dependência relativa das importações cresce
O indicador de dependência líquida de importações (net import reliance) manteve-se negativo ao longo de todo o período, confirmando que a UE é estruturalmente um exportador líquido de ácido nítrico. O valor situou-se em −6,9% em 2025, tendo atingido o mínimo de −11,1% em 2021. Apesar de a posição global permanecer favorável, a intensidade comercial (trade intensity) cresceu de 8,4% para 14,1% (+67,4%), refletindo uma maior abertura ao comércio internacional. A propensão exportadora cresceu de forma semelhante, de 6,3% para 10,6% (+67,1%). Estes dados sugerem que, embora a UE mantenha o seu estatuto de exportador líquido, o peso do comércio internacional na balança do produto aumentou significativamente, conforme detalhado nos indicadores de vulnerabilidade.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações (%) | −4,2 | −6,9 | −64,5% |
| Intensidade comercial (%) | 8,4 | 14,1 | +67,4% |
| Propensão exportadora (%) | 6,3 | 10,6 | +67,1% |
3.2. A Bélgica consolida-se como potência exportadora europeia
A análise da especialização revela que a Bélgica é o Estado-Membro mais especializado na exportação de ácido nítrico em 2025, com um RSCA de 0,62 e um RCA de 4,23, detendo 35,8% da produção da UE e 8,5% das exportações totais. Portugal surge em segundo lugar (RSCA 0,51, RCA 3,08), seguido da Alemanha (RSCA 0,31, RCA 1,92). Em contraste, países como a Irlanda, a Polónia, a Roménia e a Itália apresentam RSCA fortemente negativos, indicando especialização inversa (importação líquida). A análise de especialização detalha estes padrões.
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota produção UE |
|---|---|---|---|
| Bélgica | 0,6179 | 4,2341 | 35,8% |
| Portugal | 0,5100 | 3,0819 | 4,3% |
| Alemanha | 0,3143 | 1,9165 | 40,6% |
| Irlanda | −0,9931 | 0,0035 | 0,01% |
| Polónia | −0,9667 | 0,0169 | 0,1% |
3.3. Choques de preço em 2022 revelam fragilidades nas cadeias de exportação
O ano de 2022 marcou um ponto de rutura no mercado, com a deteção de choques de preços significativos nas exportações da UE para a Etiópia (abnormalidade 13,6, variação +104,7%), Sérvia (abnormalidade 13,3, variação +112,3%) e Equador (abnormalidade 11,7, variação +97,2%). Estes eventos, registados nos choques de abastecimento, coincidem com a crise energética europeia que disparou os custos de produção, transmitindo-se para os preços de exportação. A volatilidade mais elevada registou-se nas exportações para a Noruega (CV 1,27) e Peru (CV 1,15), enquanto as importações da Coreia do Sul (CV 1,72) e da Suíça (CV 1,68) apresentaram a maior instabilidade, conforme a análise de volatilidade.
Conclusão
O mercado europeu do ácido nítrico (CN 2808) experimentou uma profunda transformação entre 2015 e 2025. Três dinâmicas principais definem esta evolução:
-
Uma desacoplagem entre volume e valor, em que a redução dos volumes de exportação foi mais do que compensada pela valorização dos preços, refletindo a transição europeia para produtos de maior valor acrescentado e o impacto da inflação energética de 2022.
-
Uma reconfiguração radical dos parceiros de abastecimento, com a Noruega a consolidar a sua posição como fornecedor dominante (mais de metade do valor das importações em 2025), enquanto a Rússia desapareceu quase por completo do mapa. Esta concentração crescente das importações constitui uma vulnerabilidade potencial que merece acompanhamento.
-
Uma manutenção da posição de exportador líquido, mas num contexto de crescente abertura comercial e intensificação dos fluxos. A Bélgica, a Alemanha e Portugal lideram a especialização europeia, enquanto a Polónia e outros Estados-Membros perderam relevância.
Em suma, o seteur do ácido nítrico na UE revelou resiliência face a múltiplos choques externos, adaptando-se através da valorização dos preços e da reconfiguração das cadeias de abastecimento. Contudo, a crescente concentração das importações na Noruega e a sensibilidade demonstrada aos choques energéticos de 2022 sugerem que a vigilância estratégica deve ser mantida.